O Jantar

Havia um boato entre as crianças que Dona Lígia era uma bruxa. De que a noite, ela arrumava uma mesa com sete assentos vazios e ficava sentada lá, conversando com almas penadas. Meus pais balançavam a cabeça e diziam que não, que ela era apenas uma pobre mulher que havia perdido os filhos e a razão.

Certa noite, um pouco antes da Missa do Galo, tive que levar um prato de janta para a senhora. Atravessei a rua mal iluminada e desci pela estrada de terra até a última casa do bairro, perdida em meio às plantas.

Dona Lígia sorriu e pediu para que eu entrasse. Atrás de mim, um barulho distante de comoção chegou aos meus ouvidos, alguém gritando que havia acontecido um acidente.

-Vamos, querida, entre. Todo mundo está esperando, só faltava você. E dessa vez, quando sento à mesa, noto que todos os assentos estão ocupados.