Midas

Meu velho sempre foi teimoso e difícil feito uma mula. Não quis vir morar comigo, recusou a quitinete que quis alugar pra ele, ficou até o fim em seu velho casebre de pau a pique, como uma sentinela solitária. Não precisava de ninguém.

Apesar de tudo, vou sentir sua falta.

Anteontem, ao morrer, me fez prometer que não ia vender o casebre e que ia derrubá-lo eu mesmo, com minhas próprias mãos e sozinho.

E ficava repetindo que ia ser tudo meu, como planejado. Delírios. Coisas de seu Midas, como dizia mamãe.

Mas, promessa é promessa, mesmo arrancada, mesmo sendo loucura e assim, escolho uma parede e dou a primeira marretada.

E lamento não poder falar com o velho novamente e crivá-lo de perguntas, quando descubro atônito que, por baixo do barro, as paredes são de ouro.