Edgar

Oi. Meu nome é Edgar, e gosto dele, mas me chamam sempre de “seu coisinha”.

Será uma praga? Estou pensando em botar uma placa no peito, já que meu crachá não é suficiente.

Na última sexta fiz hora extra. Não fui beber com o pessoal. Estava muito chateado. Senti que me convidaram por pena. Sou bem mais velho, mas um cara legal.

Participo de rateios, lembrancinhas, aniversários, ajudo os novatos... Contudo, não parece o bastante.

Observo as fotos em seus celulares, mas nunca estou nelas.

Na segunda cheguei cedo, liguei o ar condicionado, a Xerox e até passei café. Achei que demonstrariam algum remorso, mas chegaram aos poucos sem sequer me dar um bom dia.

Reclamaram da sala fria, de um cheiro estranho no ar, e do café gelado. Povo ingrato! Irado, chutei umas cadeiras, mas acho que exagerei. Gritaram apavorados.

Frustrado, fui juntar minhas coisas e percebi alguém caído sobre minha mesa.

Era eu, morto, desde o fim de semana e, como sempre, ignorado.