A Dívida

Não existe espera pior do que a da morte. 

Abílio, ora dorme, ora delira, chamando por um nome. As beatas, desconhecendo tal nome, prosseguem com a reza noite a dentro, mesmo exaustas.

Da única janela, vem um clarão. Não é um poste, nem uma fogueira. Escuta-se um cavalo, que ronda a casa. Seria a Morte?

"Cássia?", chama o homem num sussurro.

"Padre, quem é Cássia?", pergunta uma fiel.

Cascos batem, impacientes. Abílio fecha os olhos. Finalmente parte. A porta da frente se abre com uma brisa, e todas as velas se apagam.

Os relinchos, e também o clarão, cessaram. Houvesse a voz de uma mulher. 

"Porque demorou tanto?"

 "Eu só queria ter certeza que não havia mais dívida.", responde uma voz masculina. 

Mas não há mais nada para se ver. Apenas um freio de mula, caído no chão e um enxame  de vagalumes, dançando no ar.