A Descida

O elevador descia vagarosamente, como se, por sarcasmo, quisesse que ele pensasse em seus pecados. O calor, que já estava insuportável antes, agora parecia queimar lentamente cada célula do seu corpo, fazendo o suor em seu rosto ziguezaguear desagradavelmente, até cada gota despencar contra o chão.

Um lento blues tocava no fundo do elevador. "Música do diabo" pensou ele, sentindo cada nota infernal arder em sua cabeça, forçando-o a fechar os olhos e ver, no escuro deles, o sorriso do seu anfitrião.

- Pelo amor de Deus, da pra descer mais rápido?!

- Gritou contra as grandes portas de aço. E riu, quando se deu conta do que disse.

O grito não ajudou, e a demora se estendeu por um bom tempo.

Quando enfim as portas se abriram,
mesmo estando no inferno, ele rezou para que elas se fechassem novamente.