Vontade Regada

Drama
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Vontade Regada
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Num dia de chuva, uma vontade regada nasce no peito da menina. A cada gota, ela se enche de tamanho até transbordar pela porta de casa, vazando na rua, invadindo a calçada, infiltrando-se nas ranhuras do asfalto.  Sua vontade era que toda distância se encurtasse pelos caminhos novos que ia criando e ela mesma queria alcançar outros lugares, tocar com a ponta dos dedos aquilo que há muito não havia sido tocado por ninguém.

Uma flor na iminência de morte.

Os olhos secos do insensível.

Um corpo com vontade de mar.

Inundou o coração de um velho do outro lado do mundo. Ele escrevia uma carta de parcas linhas endereçada à filha. Não a via há anos. Enrolou o envelope com carinho, enfiou na garrafa e a correnteza tratou de levar a mensagem até uma casinha modesta que resistia ao dilúvio. Ao ler a voz escrita do pai, a chuva quente salgou o sorriso da filha. Foi até a sala anunciar a boa nova para a criança, a vista perdida na janela.

- Mariana, vovô vem nos visitar essa semana.

- Eba!

Saiu o sol quando o vovô deu leves pancadinhas na porta. Como alguém do outro lado do mundo atravessa tão depressa tamanha lonjura?

- Vim pelo céu-mar, num barco com asas.

Agora tudo fazia sentido, menos o surrado chapéu-esconde-nuvens na cabeça do velho. Não indagou. A mãe, quando se viu no reflexo da careca reluzente, outrora escondida, quase cascateou de novo pelos olhos. Abraçou o pai, que continuava sereno, sereno. Com ousadia de marinheira, a menina puxou o braço pesado do avô para atracá-lo em seu porto de brincadeiras. A mãe ameaçou reprimenda.

- Deixa ela, filha, deixa.

Sereno, sereno, o velho agia como se soubesse o tempo certo de cada coisa, mamãe deixou e também serenou. A menina não podia esperar, tinha urgência. O ouvido treinado sabia a hora exata em que a vizinha começava a lavar o quintal, a água jorrando no meio fio. Era o meio rio da menina, rio de brincadeira.

- Corre, vovô, corre antes que o rio pare de correr!

Apanhou esbaforida algumas folhas secas e galhinhos no caminho.

- Assim, ó - dizia espetando um no outro, formando um barquinho. O velho aprendia a lição com empenho de aluno.

- Vem logo, antes que seque!

Coisa mais triste quando seca, o barco não afunda nem chega ao destino, só empaca no meio fio, enroscado nas pedras. A menina e o avô colocam os barquinhos sob a correnteza caudalosa. O dela, pequeno e audaz, o dele, modesto e seguro.

- O seu está ficando para trás, vovô! Acho que vai afundar.

Os barcos tremelicavam na água tingida de sabão, dançando sob as cores refletidas do arco-íris. O curso do rio durava até o quarteirão de baixo, virando a esquina, numa boca de lobo. A menina disparou para ver o desfecho com os próprios olhos, enquanto o avô tentava vexatoriamente lhe alcançar. Ofegante, antes dele chegar à esquina, ela já voltava.

- Afundou na curva, vovô, mas eu recuperei esse galhinho. Toma.

- Afundou, mas foi uma bonita travessia, não? O seu?

-O meu foi parar na boca de lobo. No final, vai todo mundo para lá mesmo.

O velho guardou com carinho o galhinho em um dos bolsos do paletó. Do outro, sacou um desgastado colar com um pingente de timão.

- Para quando quiser mudar a rota antes de chegar à boca de lobo.

A menina agradeceu com um beijo e correu para casa, faminta. O rio principiava a secar. O avô viajou, sem timão nem rumo, sem postal nem carta, só o pingente e o tempo regando a memória da menina até as nuvens brotarem na cabeça.

O céu limpo e o Sol até hoje regam nela a vontade de lavar o quintal. Os netos correndo desenfreados atrás dos seus barquinhos, é bonito de ver.

Palma, palma... Logo os contos desta obra serão selecionados e aparecerão aqui.

Prólogo

Epílogo

Conto

Num dia de chuva, uma vontade regada nasce no peito da menina. A cada gota, ela se enche de tamanho até transbordar pela porta de casa, vazando na rua, invadindo a calçada, infiltrando-se nas ranhuras do asfalto.  Sua vontade era que toda distância se encurtasse pelos caminhos novos que ia criando e ela mesma queria alcançar outros lugares, tocar com a ponta dos dedos aquilo que há muito não havia sido tocado por ninguém.

Uma flor na iminência de morte.

Os olhos secos do insensível.

Um corpo com vontade de mar.

Inundou o coração de um velho do outro lado do mundo. Ele escrevia uma carta de parcas linhas endereçada à filha. Não a via há anos. Enrolou o envelope com carinho, enfiou na garrafa e a correnteza tratou de levar a mensagem até uma casinha modesta que resistia ao dilúvio. Ao ler a voz escrita do pai, a chuva quente salgou o sorriso da filha. Foi até a sala anunciar a boa nova para a criança, a vista perdida na janela.

- Mariana, vovô vem nos visitar essa semana.

- Eba!

Saiu o sol quando o vovô deu leves pancadinhas na porta. Como alguém do outro lado do mundo atravessa tão depressa tamanha lonjura?

- Vim pelo céu-mar, num barco com asas.

Agora tudo fazia sentido, menos o surrado chapéu-esconde-nuvens na cabeça do velho. Não indagou. A mãe, quando se viu no reflexo da careca reluzente, outrora escondida, quase cascateou de novo pelos olhos. Abraçou o pai, que continuava sereno, sereno. Com ousadia de marinheira, a menina puxou o braço pesado do avô para atracá-lo em seu porto de brincadeiras. A mãe ameaçou reprimenda.

- Deixa ela, filha, deixa.

Sereno, sereno, o velho agia como se soubesse o tempo certo de cada coisa, mamãe deixou e também serenou. A menina não podia esperar, tinha urgência. O ouvido treinado sabia a hora exata em que a vizinha começava a lavar o quintal, a água jorrando no meio fio. Era o meio rio da menina, rio de brincadeira.

- Corre, vovô, corre antes que o rio pare de correr!

Apanhou esbaforida algumas folhas secas e galhinhos no caminho.

- Assim, ó - dizia espetando um no outro, formando um barquinho. O velho aprendia a lição com empenho de aluno.

- Vem logo, antes que seque!

Coisa mais triste quando seca, o barco não afunda nem chega ao destino, só empaca no meio fio, enroscado nas pedras. A menina e o avô colocam os barquinhos sob a correnteza caudalosa. O dela, pequeno e audaz, o dele, modesto e seguro.

- O seu está ficando para trás, vovô! Acho que vai afundar.

Os barcos tremelicavam na água tingida de sabão, dançando sob as cores refletidas do arco-íris. O curso do rio durava até o quarteirão de baixo, virando a esquina, numa boca de lobo. A menina disparou para ver o desfecho com os próprios olhos, enquanto o avô tentava vexatoriamente lhe alcançar. Ofegante, antes dele chegar à esquina, ela já voltava.

- Afundou na curva, vovô, mas eu recuperei esse galhinho. Toma.

- Afundou, mas foi uma bonita travessia, não? O seu?

-O meu foi parar na boca de lobo. No final, vai todo mundo para lá mesmo.

O velho guardou com carinho o galhinho em um dos bolsos do paletó. Do outro, sacou um desgastado colar com um pingente de timão.

- Para quando quiser mudar a rota antes de chegar à boca de lobo.

A menina agradeceu com um beijo e correu para casa, faminta. O rio principiava a secar. O avô viajou, sem timão nem rumo, sem postal nem carta, só o pingente e o tempo regando a memória da menina até as nuvens brotarem na cabeça.

O céu limpo e o Sol até hoje regam nela a vontade de lavar o quintal. Os netos correndo desenfreados atrás dos seus barquinhos, é bonito de ver.

Palma, palma... Logo os contos desta obra serão selecionados e aparecerão aqui.
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