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Uma borboleta no escuro
Conto

Uma borboleta no escuro

Nosso cérebro nos prega peças. Quando um inofensivo ser se torna uma ameaça? Até onde viveremos em um casulo de culpa?

Ricardo Ventura
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Áudio drama
Uma borboleta no escuro
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Cultivei no meu jardim as mais belas flores que nasciam em mim. Apesar da fertilidade ansiosa do solo, sua vida dependia da minha interferência, o jardim parecia incapaz de encontrar um caminho natural para a expansão. Seu encanto era exclusivo aos meus olhos, pássaro ou inseto algum visitava o que representava para mim a esperança de felicidade, nem sequer o vento soprava o pólen. Era um local quieto que refletia a solidão do jardineiro, um local acolhedor que permanecia oculto. Tentei me convencer de que compartilhá-lo não era vital, de que as flores estariam ali de uma forma ou de outra, todavia, o pensamento de que meu trabalho poderia ser em vão se recusava a me deixar, assombravam-me as imagens da sua degradação após a minha partida inevitável. O abatimento também era previsível, e eu parei de tratá-lo. Agi até com crueldade, para minha vergonha, despedaçando as plantas que começavam a murchar a fim de antecipar a condenação. Fazia com elas o que temia fazer comigo.

“Eu sei que você sabe que estou aqui.”

Percebi um movimento sutil em uma manhã sem brisa, um pequeno arco-íris reluzia entre o verde monótono das folhas. Aproximei-me assustado e encontrei enfim uma moradora para o jardim, uma cujas cores intensificava as de todas as flores: a lagarta que devolveu o propósito aos meus esforços. Eu não precisava de outros habitantes, na verdade, não queria mais criaturas por lá. Nosso singelo ecossistema bastava, o equilíbrio da nossa simbiose parecia inviolável, éramos tudo o que o outro tinha e nada nos faltava. Entretanto, a ameaça surgiu da própria associação que nos agraciou com paz. Fascinados pela beleza, ignoramos o fato de que sempre seríamos reféns, de que não escaparíamos da nossa natureza. Ela estava feliz por seguir adiante, mas minha suspeita se acentuava a cada ínstar, sabia que a transformação cedo ou tarde nos prejudicaria. Sua fome cessou assim como os passeios pelo jardim, ela fixou-se em um ramo e direcionou seu brilho para o interior. Zelei então pela minha amante inerte e irreconhecível sob a casca dura do casulo. Escondia-se na crisálida a vida que deveria ocupar o espaço, e eu enxergava como egoísmo aquela interrupção além de qualquer planejamento.

“É inútil me ignorar e fingir que nada aconteceu.”

Estive ao seu lado durante o ciclo inteiro, mesmo sabendo que ela não corria perigo, uma vez que éramos os únicos e a chance de uma visita inesperada era ínfima. O susto me paralisou quando a casca finalmente se rompeu. Queria ajudá-la de algum modo, mas me limitei a observá-la, confiante de que seu corpo por si só completaria aquele processo angustiante. Uma borboleta magnífica apareceu, carregava as cores até então ímpares da lagarta que eu amava e que desaparecera. A recém-nascida chorava a tragédia que eu ainda rejeitava, sequer tinha força para voar. O resíduo ficou no lugar da minha razão, ainda suspenso no ramo. O preço da transformação foi muito mais alto do que previra. A borboleta nasceu à custa da lagarta, sua intromissão sepultou o meu amor, desmanchou sua vida enquanto eu apenas notava o véu do crime. Embora também bela, embora jurasse inocência, embora detentora de uma vitalidade promissora, a borboleta não era a lagarta.

“Por que insisto em perder tempo com alguém que não quer ajuda enquanto há tantos para atender?”

A luz se apagou de repente, contudo, não estava sozinho no purgatório em que meu jardim se tornou. Com toda forma de orientação comprometida, estava perdido entre os estados consciente e comatoso, em um limbo que negava a minha existência, que me afastava da realidade. Eu não podia vê-las no escuro, mas elas estavam lá. As milhões de borboletas ao meu redor eram a escuridão, a nuvem negra da sua profusão revestia as paredes da minha cela. Voavam em círculo grudadas umas às outras, ouvia o bater ininterrupto de suas asas. Imaginava a graça dos movimentos de cada uma, separada das demais, enquanto o sol marchava junto ao tempo além da massa de insetos que caminhava junto a mim.

“Foque seus olhos em mim e me escute: recusar-se a reagir aos estímulos não te absolve. Tudo se resume ao medo, certo? No entanto, desconheço se esse medo se refere aos atos no passado ou às suas consequências no futuro.”

Eu estava cego, pois as carcereiras impediam a passagem da luz. Vislumbrava com sorte o mundo exterior em lampejos que nada me diziam. Era como despertar durante segundos ao longo da noite, momentos fadados ao esquecimento. Procurei me manter imóvel a fim de evitar o pânico, seria fácil ceder e debandar, mas ignoro por quanto tempo estive na minha propriedade. Seguia feito um escravo: meus membros não mais me pertenciam, minhas escolhas eram irrelevantes. As borboletas eram as guias e o próprio destino, empurravam-me de um lado para o outro para lugares que jamais conheci. Inexistia mudança no avanço, aquele que caminha pelo vácuo deixa a percepção. Calor ou frio, chuva ou neve, frescor ou ventania, eu sequer sentia o ar quando elas se estreitavam. Por outro lado, os intervalos que os desmaios concediam eram bem-vindos.

“Liberte-se, admita a culpa! Há brechas na sua fantasia, eu não sou tolo. Você engana somente a si próprio.”

Contrariei meus instintos gregários por um período longo, mas a dignidade empalideceu e forjei afeto pelos algozes com o intuito de amenizar o tormento do qual falhei em resistir. Não entendia as razões do castigo, então tentei moldar uma que fosse suportável. Tentei enxergá-las como companheiras, talvez também estivessem em maus lençóis, talvez aguardassem provas de que podiam confiar em mim. Entretanto, os únicos seres vivos que me envolviam se afastavam do meu toque, zombavam das minhas tentativas humilhantes, esclareciam a mensagem de que eu nunca estaria próximo o bastante. Permiti enfim que o desespero aflorasse, disfarçado de ira. Perseguia-as ora em silêncio para surpreendê-las, ora correndo até que o encontro brusco com uma barreira sólida me aquietava. Declarei guerra contra um inimigo que me derrotava com desprezo. A euforia me arrebatou quando consegui prender uma borboleta entre os dedos, e a palma da minha mão em breve virou seu leito de morte e renascimento. Sentia o pó a que ela se reduziu dentro do punho fechado, porém perdi a guerra assim que venci a primeira batalha. Sentia um formigamento na palma, a praga em ebulição, logo relaxei a pressão e libertei novos insetos, novos que surgiam para cada um que matava. O volume da multiplicação me deixava de joelhos sempre que minha ousadia provocava uma revoada enfurecida. Restou-me uma rendição barulhenta.

“Você golpeia o ar, resmunga frases ininteligíveis, encena o tormento, mas é seu único adversário. Sua mente optou por um meio indigno para enfrentar a autoacusação, para ocultar o remorso. Ouça seus próprios gritos.”

Até meus dentes vibravam com o estrondo do voo, soava como uma correnteza ensandecida. Satisfaziam-se com a minha surdez, tudo o que escutava fragmentava meu corpo de vidro. Sou incapaz de afirmar se alguém alguma vez ouviu ou respondeu às minhas súplicas. Gritar a plenos pulmões era meu protesto, amaldiçoá-las o único meio de me opor. Acidente desafortunado ou raciocínio engenhoso, também não sei o que impeliu uma só borboleta a sair da nuvem e me calar de forma definitiva. Minha boca estava aberta, combatia com palavras inofensivas, quiçá importunas, e ela mergulhou goela abaixo. Uma boba ilusão de prisioneiro me animou por um instante: cogitei devorá-las para abrir um buraco na parede da cela. No entanto, dores lancinantes no estômago me jogaram ao chão, algo explorava os túneis dos meus órgãos sem a mínima delicadeza. Debati-me, feri a barriga com as unhas, vomitei sangue e dezenas de invasoras saíram pelo mesmo canal em que apenas uma entrara. O trauma me ensinou, o menino birrento obedeceu a advertência e manteve seus lábios selados. Se uma fez aquele estrago, várias me rasgariam ao meio com facilidade. Precisava me precaver, impedir que morressem dentro de mim.

“Você retrocedeu. Está fraco, veja quantos quilos perdeu. Fazemos o possível, entretanto, sua cooperação é fundamental. Precisa se alimentar direito ou o tímido progresso será à toa. Eu não darei a você o destino que deu ao seu filho, nunca viro as costas às minhas responsabilidades.”

Não podia enxergar e ouvir além do círculo estreito, não podia falar e comer com a decência que cabe a um homem. Aprendi a cobrir o rosto, deixava aberturas pequenas para respirar. Levava o alimento sob a roupa que puxava sobre a cabeça, mordidas rápidas me saciavam e faziam com que me sentisse seguro. Adaptei-me a partir de então, conformado com a pena, ainda que desconhecesse o delito. Vivi um período de paz relativa, um período de calmaria em que voaram ao meu redor sem sair do lugar, em que não me tocaram sequer para me obrigar a andar, um período que cessou em virtude de um pensamento repentino. Antecipei a jogada, uma decisão simples me preparou para uma eventual investida: não removi mais as calças para me aliviar, permaneci com a armadura, afinal qualquer orifício, qualquer atalho que elas tomassem conduziriam à minha execução. Era sem dúvida uma solução degradante, tornei-me um animal abjeto, mas não havia outras pessoas e aqueles inúmeros olhos minúsculos não me constrangiam.

“Eu entendo a sua dor, embora possa apenas imaginá-la. A morte de um ente querido no mesmo instante do nascimento de outro abalaria o homem mais estável, mas por que entregou o bebê à própria sorte? Isso é inadmissível!”

Se o objetivo de todo esse infortúnio era a expulsão da lagarta de minha memória, as borboletas fracassaram. A testemunha do calvário esteve ao meu lado, ela era a mão que me dava o alimento, a água que me restaurava. A saudade foi o pior flagelo. Posso sentir seu perfume, a textura do cabelo nas pontas dos meus dedos, ouço seu riso baixo no fundo da minha mente, a mera recordação do calor do seu corpo junto ao meu me esquenta. Por que gritava antes de desaparecer se a metamorfose a alegrava? Por que aquela primeira borboleta chorava a injustiça que cometeu? Talvez o egoísmo seja agora de minha parte, mas confesso o pensamento de que sofro a maior punição. Creio que estou velho, aceitaria de bom grado esse isolamento desmedido se concedessem, ainda que brevemente, meu desejo de tocá-la uma última vez. Caso fosse impossível, contentaria-me com qualquer toque, bastaria a certeza de que há alguém próximo a mim, o conforto em saber que não estou só. Nada atravessa as paredes do confinamento, apenas o silêncio existe no vazio apesar do turbilhão dos insetos. Jamais nos reuniremos, visto que estou perdido para ela e para o mundo.

“Por que somente observou? Durante dias ficou sozinho na casa, enquanto a criança definhava, enquanto o cadáver da sua mulher se decompunha na cama. Foi embora e vagou pela estrada, desnutrido e imundo. Trouxeram-me a sombra errante, não descansarei até encontrar o homem real que a projeta. Permita-me abrir a concha e resgatar a pérola.”

Mundo. Eu pensava com frequência nessa palavra. Um trem de associações seguia desgovernado através do ócio, e eu permitia que me atingisse e me distraísse. A escuridão ao redor suscitava uma associação lógica, um ponto de partida comum para as demais: imaginava que estava no espaço, navegando pela noite eterna, e que as borboletas formavam o tecido do universo, trabalhavam para se expandir. Interpretava de maneira mais específica um grupo que deixava a massa e se aproximava, enxergava diferentes corpos celestes em seu lugar. Foi então que concebi o Big Bang daquele microcosmo, o entendimento explosivo que iluminou as sombras da dúvida. Eu represento o sol na galáxia que compartilhamos, sempre estive ao centro de tudo, ao passo que os insetos são como planetas que orbitam em torno de mim. Talvez sejam dependentes do sol como a Terra, talvez o confinamento, a imobilidade do meu retiro, seja imprescindível para a sustentação de suas vidas. Talvez não sejam carrascas ou oponentes, não nutram sentimentos nocivos a meu respeito, ao contrário, provavelmente me veneram como a um deus. Não tiveram a intenção de me ferir ao invadir meu corpo, conforme acreditei a princípio, tampouco foi um ato irracional e selvagem. Entendo que consistiu em uma tentativa desesperada de transcendência, de chamar a atenção e se tornar um só com o divino. Mesmo a minha fúria pôde multiplicar seu número, operei milagres em contatos breves sem me dar conta do poder em minhas mãos. Desaparecemos juntos, a lagarta e eu, transformamo-nos juntos, nosso vínculo era forte a tal ponto, e essa transformação nos enviou para recônditos extremos, nossa separação foi o preço. De um homem banal nasceu um deus. Como estive errado por tanto tempo?

“Você resiste e não me deixa alternativa. Perdoe-me por agravar seu sofrimento, entenda que devo trazê-lo de volta. Prometo que será rápido.”

Eu era uma larva assim como ela. Os fragmentos da minha existência se encaixaram como em um quebra-cabeça e compreendi afinal a imagem que revelam. A escuridão me protegeu durante o período de pupa, enquanto sofria a lenta metamorfose, e as paredes da cela eram na realidade as paredes do casulo. Mudanças significativas são dolorosas, porém, se eu ao menos soubesse desde o início o que acontecia comigo, pouparia-me de lamúrias desnecessárias, lidaria com o ciclo de forma sensata. Éramos, segundo mencionei, reféns de nossa própria natureza. Seria o que nunca fui ao concluir essa fase, abraçaria meus fiéis ao invés de repeli-los. Estava pronto para me tornar um inseto adulto, aceitei e convidei minha divindade. Gritei feito louco, arranquei dos pulmões o ar que contive ao longo da negação, escancarei a boca para que minhas seguidoras buscassem a luz pelo portal do meu ser, ávidas pela vida como espermatozoides. As borboletas voavam dentro de mim e me elevavam, sua quantidade crescia em ritmo vertiginoso. Rompi o casulo, não estava mais cego, surdo e mudo. Meus sentidos se apuravam a cada instante, absorviam conceitos reservados aos deuses, minhas asas simbolizavam o encanto da liberdade.

“Sente que está vivo? Obedeça ao seu corpo, deixe que a corrente elétrica abra caminho para a consciência. Outros procedimentos falharam, porém o eletrochoque derrubará os muros da sua mentira. Convulsione, siga a eletricidade e volte para nós.”

Torço para que meu tempo coincida com o de minha mulher, oro para que ainda consiga alcançá-la. Não sou mais aquela larva voraz e estúpida, crente de que sabia tudo sobre si. Libertei-me das limitações da crisálida, não sou mais ignorante do meu desenvolvimento. Deixei para trás o vestígio do meu relato, a casca seca e inútil em que estive encasulado, e voo à procura da minha companheira, pairo sobre o mundo atento ao seu chamado. Ela deve estar perto, perdida neste jardim infinito à minha espera.

“Lamento que sua história terminou assim. Admito que esperava a punição após a cura. Sua covardia me deixa confuso entre a cólera e a piedade. Aonde quer que esteja, acredito que ainda está longe da sua família, apenas em outra forma de exílio. Tememos ficar sozinhos, a perda do convívio é um pesadelo. O mais humano dos medos te abandonou em qual ilha no final? Você é um náufrago em busca de solidão, uma borboleta no escuro. Se servir como último consolo, saiba que a equipe do manicômio estará presente no seu funeral.”

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