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Um mergulho no abismo

Um mergulho no abismo

Lembro-me de que era noite. Eu encontrava-me em uma praia, à beira do mar, sob a luz do luar, com um céu limpo, cheio de estrelas. Uma calmaria permeava o lugar, com uma brisa bastante amena agitando suavemente as águas. A areia onde pisava tinha um aspecto cinza e barrento, indo, à minha volta, até onde a vista alcançava, sendo delimitada pelas águas, escuras como nanquim. Próximo dali existia um grande rochedo negro avançando desafiadoramente contra a maré. Fora isso, o ambiente era deserto e bastante silencioso, não havendo mais ninguém ali. Eu me sentia estranho. Estava muito assustado, sem saber o porquê. Algo naquele lugar. Como se aquilo tudo estivesse, de alguma forma, simplesmente “errado”. Havia um cheiro também. Era esquisito, não consigo me lembrar ao certo, mas me incomodava, me dando uma sensação de medo. Era como se aquele lugar se encontrasse “morto”. Caminhei pela praia, descalço. A areia cinzenta era áspera, e sentia-me como se estivesse pisando em cacos de vidro. Sem uma direção a seguir, fui ao rochedo, o meu único ponto de referência. A caminhada, naquela vastidão monótona, apesar de curta, pareceu demorar uma eternidade. Embora poucos metros me separassem dele, era como se muito tempo tivesse passado. Enquanto me aproximava, pude observá-lo com mais atenção: as rochas eram de um preto fosco, praticamente não refletindo a luz do luar. Conforme andava, a sensação de estranhamento aumentava. Era como se estivesse indo de encontro à fonte dela. Olhei para cima, em direção das estrelas e da Lua. Havia algo de insólito naquele céu. As estrelas brilhavam em uma cor amarelada, mas sua luz era macabra. Sentia como se uma infinidade de pequenos olhos demoníacos me observassem com intenções perversas. A Lua era ainda pior: enorme, muitas vezes maior do que qualquer Lua que eu já tivesse visto na minha vida. Cinzenta ou branca, não lembro ao certo, ela nem parecia estar longe no céu, parecendo como se flutuando pouco acima das águas, me vigiando com um olhar opressivo. Ao chegar, quis escalar as rochas. Coloquei minhas mãos sobre sua superfície. Era um pouco escorregadia, porém não parecia ser difícil. Com algum esforço, fiz um impulso e comecei a subir e, poucos movimentos depois, já achava-me em cima das pedras. A vista era irreal: apesar de rápida a escalada, ao olhar para baixo, enxerguei o chão da praia muito distante, como se eu estivesse no topo de uma grande elevação; ao redor, pude contemplar o absurdo de um uma imensidão, plana e contínua de terra e água. Nenhuma mudança de relevo, construção, ou mesmo algum sinal da passagem de algo ou alguém. Nada. Apenas areia e água, em agitações pequenas, causadas pela brisa leve. Andei pelas rochas na direção do oceano. Apesar de lisa, o rochedo não oferecia dificuldades ao meu equilíbrio, e o andar foi seguro. Ou, pelo menos, foi assim a princípio. Porém, conforme dava os passos, me aproximava do limiar entre a areia e a água, uma sensação terrível começou a me acometer. Era medo, com certeza. Mas um medo muito mais intenso, irracional até. Eu estava com medo daquele lugar, situação e, principalmente, do desconhecido. Ao chegar perto da ponta do rochedo, pude vislumbrar aquele oceano sem fim sob aquele céu opressivo, me fazendo sentir, mesmo que por um instante, um ser de absoluta insignificância diante da magnitude angustiante daquele lugar. As estrelas me fitavam maliciosamente, e o luar lançava sobre mim um olhar de desprezo. As águas, por sua vez, mudaram. Olhando-as, vi um espelho sinistro daquele céu maligno. Onde antes havia uma leve brisa agitando-as suavemente, agora encontrava-se no mais profundo silêncio. Contudo, não um silêncio pacífico, convidativo à serena contemplação. Era o silêncio lúgubre de uma cova rasa. Aquele lugar todo estava morto. Não tenho certeza de como, mas eu sabia disso. Naquela vastidão cinzenta, nada vivia. E, na ponta do rochedo, pude sentir que era a única coisa que vivia. O único ser ousando a existir debaixo daquele céu maligno, quase como um ato de rebeldia contra aqueles astros blasfemos. E aquilo me angustiava. Fiquei imóvel por algum tempo, acho que agachado ou sentado, hipnotizado pela apatia daquela visão. Por quanto tempo estive inerte, não sei. Mas, subitamente, uma sensação de desespero me despertou da catatonia. Era imenso. Vi o horror crescer dentro de mim quando percebi: algo naquele oceano me chamava. Não tenho palavras para descrever com precisão aquele chamado. Sem usar sons ou imagens, sentia-me atraído por algo que soava um sussurro em minha mente. Pedia-me para que eu me lançasse ao mar. Era uma voz discreta e familiar. Como a voz da consciência, aquela que usamos para falar com nós mesmos. Acho que você entende o que quero dizer. Era como a minha cabeça falando comigo. Exceto pelo fato de claramente não sê-la. Não era a minha consciência, mas usava sua voz para falar comigo. Aquilo foi perturbador. Alguém falando dentro da minha cabeça. Eu não estava preparado para isso. Fiquei sem reação. Então, o inexplicável: horrorizado pela voz, com o coração palpitante, desesperado para sair daquele lugar maldito, levantei-me, dei um passo em direção ao limite do que agora parecia um precipício e, contrariando a minha razão, lancei-me temerariamente ao mar, e minha visão turvou. ***** Quando recobrei a minha consciência, senti-me diferente, flutuando. Olhei em volta: estava submerso, afundando nas águas frias do oceano. Porém, não pareciam ser as mesmas águas que eu mergulhara, saltando de um despenhadeiro. Não. Era um mar azul. Acho que era noite (talvez ainda, não sei), pois a água estava escura. Havia alguma iluminação, porém ela não vinha “de cima”, mas sim “de baixo”: Ao reparar com atenção, percebi que cintilavam luzes distantes, variando de pequenos pontos de luz a muitos quilômetros de distância até esferas maiores, a uma distância mais próxima. Essas luzes eram amareladas e esverdeadas, cujo brilho bruxuleava como uma perturbação psíquica, fazendo tudo parecer uma versão imersa de um grotesco céu estrelado. E eu não estava sozinho. Podia ver, ao longe, seres nadando. Pareciam como um cardume de peixes, embora suas formas fossem um pouco irreais. Com grandes nadadeiras, eram esguios e bastante graciosos, cruzando as águas como se fossem aves voando pelos céus. Mas, ao mesmo tempo, uma sensação de incômodo percorria o meu corpo, como se eu não devesse estar ali. “Onde estou?” pensava. “Que lugar é esse?”. Eu me sentia como se delirando, com minha sanidade se esvaindo naquelas águas noturnas.Não respirava, e meu corpo esfriava, mal conseguindo se mover enquanto emergia. Era uma sensação perturbadora. Como haveria chegado naquelas águas? Conforme descia no pélago, fortes e repentinos clarões cortavam o ambiente. Pareciam raios em uma neblina, me deixando muito amedrontado. Não apenas por sua natureza, mas pelo que me mostravam daquele lugar bizarro. Ao iluminarem grandes porções do “céu”, eu podia ver formas colossais distorcidas se movendo ao longe. Não as conseguia observar com clareza, parecendo com deturpações aberrantes de meus piores pesadelos. Com certeza as coisas mais horrendas que e jamais poderia colocar meus olhos. Contudo, nada nesse mundo poderia ter me preparado para o que viria a seguir. Certo momento, parei de afundar. Ainda não conseguia respirar, e nem me mover direito. As proximidades começaram a clarear. Foi então que ELE apareceu. Vindo das profundezas, ele era uma abominação repulsiva. Cinzento, parecia uma enguia, porém grande como uma orca. Tinha os tentáculos de um polvo saindo de sua cabeça, e uma grotesca boca circular, sem mandíbulas, cheia de dentes afiados, como uma mistura doentia de monstros e pesadelos. E ainda havia aqueles olhos... No centro de sua fronte, três olhos de um vermelho vivo posicionados verticalmente. Eram alienígenas a qualquer coisa que eu já tivesse visto, parecendo interessados em mim, se aproximando com seus tentáculos, me analisando friamente. Então Ele, ou Ela, já não sei mais, começou a falar comigo. E fez em pedaços minha estabilidade. Não falou usando sons nem imagens, ou mesmo palavras ou expressões. Nem ao menos através daquela voz de outrora na minha cabeça. Era muito pior. Seu olhar trouxe o horror à minha alma à minha mente. Nele, pude contemplar uma existência imortal, para além do tempo e do espaço. Era como se, naquele ser abissal, repousassem memórias de um futuro-passado que transcendessem eras, e um profundo desprezo por tudo o que eu representava e, de alguma forma, fora-lhe tomado. Então me disse… E minha memória se apagou. Nesse momento, acordei. Estava em meu quarto, de madrugada, quase amanhecendo. Cama, escrivaninha, armário,... Tudo lá, nos lugares corretos, arrumado. “Foi um sonho, suspirei para mim mesmo” Fora tão real… tão perturbador… Não consegui mais dormir aquela noite, nem nas seguintes direito. Tinha tremores noturnos relembrando daquelas cenas, e o escuro me causava pavor. Já um mês me separa daquele pesadelo doentio. Mas ainda lembro d’Ele nitidamente, bem como da sensação abominável que tive ao olhar no fundo de seus olhos. Desde então, não consigo parar de pensar, de reviver aquele horror, e o que ele me disse. Temo que minha sanidade esteja se deteriorando. Não sei se voltará a ser o que era. A cada dia que passa sinto que, de alguma forma, me aproximo de lembrar ou entender o que aquele ser abissal queria de mim. Ele desejava que eu fizesse algo para ele… mas, o que seria?

Lucas Suzigan
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