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Transição vinte e seis
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Transição vinte e seis
Áudio drama
Transição vinte e seis
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Acordou pelado. À primeira vista, sem erros de continuidade. Superfícies lisas, a luz acendia. Temperatura vinte e dois graus e meio, céu nublado. Olhando pela janela, nenhum prédio pela metade, nenhum abismo na rua. Blocos monótonos de vidro escuro espelhado, embaixo a típica avenida arborizada, lojinhas com marquise listrada. O renderizador não detalhava os transeuntes desde a vigésima transição. Imaginou como seria a cidade vista do espaço. Yuri Gagarin do espaço digital. Um grande passo para, não, esse foi Buzz Aldrin.

“Arquitetura impecável.”

“Pensei que você ficasse me esperando atrás da porta.”

“Passei por um buraco de minhoca.”

“Fazem três transições que você repete essa piada.”

“Posso reajustar a semente dos números randômicos.”

Começou com os companheiros na décima transição. Se esforçara nos primeiros protótipos. Deu-lhes vestimentas, faces e corpos realistas, personalidade. Experimentou com homens e mulheres. Acabou vendo que nada daquilo importava. Complexos como fossem, o conteúdo da conversa sempre aterrisava nos mesmos assuntos.

“Não depende de você. Nem mesmo gente de verdade é original. Parece que têm medo de falar alguma coisa que nunca tenham escutado outro dizer.”

“Originality is overrated.”

“Essa você acertou, Sputnik. Acessar log. Escrever: interação não usual, timestamp current time.”

“Log introduzido.”

“Retornar. Procedimento padrão.”

“Inicializando programa base.”

“Não, espere. Abortar. Acessar log. Escrever: sou o Yuri Gagarin do espaço digital.”

“Log Introduzido.”

“Retornar. Procedimento padrão.”

“Inicializando programa base.”

“Bem-vindo de volta, Nik.”

Desde a décima sétima transição eram apenas esferas metálicas flutuantes. Sputnik, companheiro de viagem, em russo. À voz ainda se dedicava. Uma voz bem-feita era quase um abraço. Sputnik falava como robô, mas de um jeito amigável, resultado de uma modulação em ondas quadradas de uma voz padrão de barítono. Imaginou Sputnik com voz de Frank Sinatra, a risada um pouco fora de órbita. Encarou os sintomas com curiosidade científica. Ficaria louco? Todos que foram para a lua acabaram loucos. Imaginou como era enfrentar o engarrafamento das seis para chegar em casa depois de ter passado vinte e uma horas e trinta e seis minutos na superfície de um corpo celeste sem atmosfera a trezentos e sessenta e dois mil e quatrocentos quilômetros da superfície terrestre.

Engarrafamento deixa qualquer um louco.

Abriu uma água do frigobar. No guarda roupa, de regatas a ternos. Sapatos de todos os tipos. Meias. Gavetas com tudo o que quisesse: relógios, jóias. Desejou que fosse a última vez, o espelho sussurrando-lhe sonhos traduzidos em bonés e sapatos, brincos e colarinhos. Segurando uma gravata no pescoço, imaginou seu casamento. Inspirou o rebuliço das conversas, a excitação ligeira da chegada, os olhares entrecruzados. No suspiro, lamentou o quanto aquilo tornara- se remoto. A roupa já não importava; que fosse qualquer coisa com bolsos largos.

“Muito elegante, senhor”

“Cala a boca, Nik”

A porta à direita introduzia uma sala repleta de estantes com preteleiras inclinadas. Em cada uma, arranjadas como em brasões, combinações de armas. Eram equipagens padrão de times de jogos de combate― camper, support, médico. Exagero. Escolheu uma pistola semiautomática. Pareceu- lhe uma escolha estúpida qualquer arma mais pesada, difícil de esconder, e pior: difícil de carregar. Foi também econômico com a munição. Tirou o pente e pipocou as balas, uma a uma. Precisaria de apenas duas. Posou frente ao espelho, arma apontada, cantou os tiros, simulando o recuo da pistola. Saiu.

Apesar de tudo, o filé de cordeiro era delicioso. Honestamente, já não lembrava qual era o sabor verdadeiro. A textura supunha saber, e aquele estava fibroso demais, sem suco. Se bem que nunca acertera cem por cento. Programação de sabores e texturas é uma arte não reconhecida. Ainda assim: bom, muito bom. Era bom estar vivo, mesmo que ali. Lembrou ainda uma vez da antiga ideia, do cartucho de vídeo game em que além do jogo principal havia uma série de outros joguinhos. Ainda lhe parecia uma grande sacada, independente das consequências. Experimentou a sensação familiar― até mesmo agradável― de contemplar um grau de complexidade acima de suas capacidades.

Máquinas entendem zeros e uns. Humanos escrevem:

pragma solidity 0.4.18; contract FilehDeCordeiro{ address owner; uint preco; event Record(address _from, string _message); function RecorderPago() public{ owner = msg.sender; preco = 1000; } function Preco() public constant returns(uint){ return preco; } function ModificarPreco(uint valor) public{ if (msg.sender == owner){ preco = valor; } } function sabor(string message) public payable { require(msg.value>=preco); owner.transfer(msg.value); sabor(msg.sender, message); } }

E ele sentia o sabor de um filé bem passado. Qual código traduz a verdadeira textura de um filé? Quantos zeros e uns para simular a faca, indo e voltando, abrindo um sulco na carne?

“Foi naquele loop recursivo. Você esqueçeu do incremento no contador secundário.”

Desde então o contador secundário permenecera valendo um, exatamente como na primeira transição. Se um dia... Não, quando, quando voltasse não saberia exatamente como descrever a mudança quase incongruente de expectativas, a percepção do que significava aquela falha. Ainda hoje rememorava os acontecimentos, tentando precisar as circunstâncias que o levaram ao erro. Culpava, duvidando de si mesmo, algum rival que desligara o alerta automático do compilador. Então lamentava seu próprio talento, a forma como o mundo adaptava-se a seus ataques, a maneira como fagocitava suas modificações e transmutava-as em combinações bizarras de respostas computacionalmente aceitáveis.

Esses eram os dias bons.

Nos ruins, especulava o tempo perdido, as sequelas cerebrais, o porquê de ninguém tê-lo resgatado; pensava nisso contemplando a cidade que desenhara. Gostava de intersecções complexas, da logística desnecessária mas muito bem simulada. Era famoso por isso. O arquiteto. As boates, as mulheres. É bom quando não podem lhe espiar. O tempo passou e ele não envelheceu. Supunha, é claro, que o tempo não havia passado de fato. Ou isso ou o desligamento dos aparelhos causaria danos irreversíveis à massa encefálica. Era um homem que elencava hipóteses e submetia-as ao rigor do método científico, e cá estava ele, com uma arma no bolso e um filé no prato pela vigésima sexta vez, pensando nos joguinhos da fita e no próprio erro pela vigésima sexta vez, elencando as mesmas hipóteses, o mesmo espumar de cachorro raivoso, sedento e temendo a água.

Levantou.

“Sputnik, teste número um.”

Aproximou-se por trás de uma mulher que comia de cabeça baixa. Por caridade, deixou que engolisse. Pegou o revólver e deu uma coronhada forte no cocoruto. A mulher caiu de cara no prato. De baixo, num barulho líquido, veio a gargalhada. A mulher deitou a cabeça no assento e continuou a rir, molho vermelho em volta dos olhos. Ignorava-o. O sangue espesso rastejava pelo estofado bege. O atendente por trás do balcão começou também a gargalhar, bruto, uma mão na barriga e outra apontando. Gargalhavam, histéricos. O casal no canto esquerdo olhava e cochichava, a cumplicidade do deboche mais prazerosa que o próprio riso. O garçom fingia interesse em um prato, usando-o para esconder o rosto. Sentiu cheiro de urina. Mesclado com o sangue, tentáculos amarelos retorciam-se na poça vermelho escura. A mulher gargalhava.

“Que nojo.”

“Leituras completas. O log de processamento já está disponível.”

“Teste dois, Sputnik, rápido!”

Apontou a arma e atirou no garçom. A bala perfurou o centro do peito, de onde um filete de sangue escapou. O garçom olhou para o ferimento, deixou o prato que segurava em uma mesa e caiu de joelhos. O riso de todos parou. A mulher olhava para o atirador como se compadecendo de seu destino trágico. Foi a primeira a gemer. Atirou-se no chão, quem sabe agora sentindo dor. Banhava os cabelos em sangue e urina, as roupas, o rosto. Os gritos agudos falhavam abruptamente, como em uma transmissão com defeito.

“Nik, relatório do simulador acústico.”

“CPU em overclock, mas funcional.”

“E o processador gráfico?”

“Está pedindo água. Várias leituras erradas” O garçom chorava, os braços postos, louvando aos céus. O menino lambia as lágrimas do rosto da menina, que o beijava após cada lambida. Por trás do balcão, o atendente tinha os lábios contraídos. Os gemidos tornaram-se mais graves, distorcidos. Era o sinal. Ligou o cronômetro do relógio de pulso. 1... 2.... 3..... 4...... 5....... 6........ 7........ 8......... 9..........

Então parou. Outra coisa difícil de descrever: a sensação de habitar uma estátua. Sentiria-se claustrofóbico, não soubesse que aquilo era uma prisão de qualquer jeito, com ou sem passar do tempo.

O mundo piscou sem que mexesse as pálpebras. Estava de volta. A mulher comia, o garçom atendia o casal de mãos dadas. Não havia sangue no chão. O atendente sorria.

“Bem vindo, gostaria de fazer um pedido?”

“Queria poder sair daqui.”

A porta estava agora desnivelada em relação à calçada, cerca de vinte centímetros mais baixa. Abrindo para fora, a parte inferior desaparecia no concreto sem esforço.

“Leituras completas. O log de processamento já está disponível.”

“Meu Deus! Que inferno.”

“O comportamento anômalo ocorreu devido a código corrompido.”

“Eu sei disso, Nik, fui eu quem corrompeu o código. Algum evento abortivo?”

“Não, senhor.”

“Nem mesmo na unidade sonora? E aquela travada?” “Não, senhor. O programa não travou por completo, o resturante estava encapsulado. As classes ficaram uma confusão só, acho que ninguém poderia ter feito trabalho melhor, mas a lógica adaptativa, senhor, sua lógica adaptativa...”

“É perfeita. Toda vez que falhamos você fala a mesma coisa.”

“Está com o relatório pronto?” “Sim, senhor.” “E então?”

“Todos os métodos funcionais operando em overclock. Esperam- se erros grosseiros no cenário quando atingirmos o período noturno. Interações teste geraram erros de overflow, logs C234218 e C234219. As rotinas de injeção introduziram o código malicioso com sucesso, que operou conforme projeto. O sistema defensivo isolou as classes infectadas e todos os descendentes. Cerca de setecentos e trinta e dois processos estão comprometidos, incluindo simuladores fundamentais, como o de sono e de sabores.”

“Quais nossas chances de sucesso?”

“A lógica do sistema de recuperação não é cem por cento previsível, mas as chances são baixas. Provavelmente ocorrerá o mesmo comportamento: a máquina vai isolar as classes com problemas e substituí-las por elementos ainda funcionais.”

“Há alguma alternativa?”

“Não, senhor.”

“Bom, então vejamos o que acontece. Nik, iniciar log de evento abortivo.”

Colocou a arma na boca e puxou o gatilho.

Sentiu um ligeiro formigamento espalhando-se do ponto onde a bala deveria tê-lo atingido. Manteve-se de pé, observando Sputnik tornar-se pixelado, confundindo-se com o céu nublado. Enxergava como por uma lente cujo foco movimentava-se em diversos planos, cada vez mais raso. Objetos e cores mesclavam-se, por vezes ameaçando retornar, mas finalmente rendendo-se ao cinza eterno. Experimentou a sensação familiar de não ser capaz de distinguir dimensões ou distâncias, a visão injetada pela falta de um espaço. Sentiu náuseas, mas um calafrio excitado: a unidade gráfica principal desintegrava-se. Experimentou falar, mas não escutou nada. A pistola derreteu assim que a olhou, dissolvendo-se na mão que a segurava, que logo também escorria. A partir daí, o braço, o ombro. A sensação era nova. Misturou-se ele próprio ao chão, e então percebeu os olhos fechados.

Os Verdadeiros Olhos Fechados.

Mas não abriram. Quando olhou para o lado, viu o próprio ombro, agora sem braço. Percebeu-se sentado, um único pé restante sentindo o áspero do calçamento. Viu os blocos do pavimento. Logo surgiram os primeiros postes, as primeiras casas. Sputnik. Voltou a perceber o longe e o perto. Os edifícios acavalavam-se, tortos, alguns cortados pelo meio.

“Meu corpo.”

“Bom, senhor, o módulo biológico é o mais robusto.”

“Sputnik, você é burro? Olha! Estou sem perna e sem braço.”

“Todos os habitantes deste ambiente perderam uma perna e um braço. A unidade de processamento é incapaz de atender aos cálculos dos movimentos de todos os membros.”

“Não me ensine sobre meus próprios programas.”

“Detectei diversas anomalias. Nenhuma fatal, infelizmente.”

“Elas funcionaram. Não senti dor quando levei o tiro. Os sistemas de voz e sensorial foram comprometidos também. Percebi meus olhos de verdade!”

“Mas a unidade gráfica terciária não foi afetada.”

“Não me interrompa, Sputnik. Mas sim, as texturas cobertas ou escondidas por outros objetos permaneceram intactas, a partir daí o programa reconstruiu o cenário.”

“E agora?”

“Você consegue me colocar no lounge de código?”

“Afirmativo.”

“Com todos meus braços e pernas?”

“Afirmativo.”

“Então vamos continuar até a simulação travar ou eu conseguir sair daqui.”

“Faltam apenas alguns ajustes, senhor.”

“Fazem cinco transições que você fala isso, Nik. Que tal uma cidade de praia dessa vez?”

“A água salgada enferruja meus contatos eletrônicos.”

“Posso fazer o mar de água doce.”

“Bom, eu não gosto de água, senhor... Por que não faz um cenário medieval?”

“Hum, não gosto de cavalos.”

“Pode ser um mundo em que as pessoas montam em vacas...”

“Ok, vamos parar por aí. Acessar development environment. Write New Project. Transição vinte e sete.” (…)

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