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Tomoe Masako
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Tomoe Masako
Conto

Tomoe Masako

Uma samurai, ou melhor, uma onna-musha pode ser a única salvação do Vilarejo Sakura.

Jorge Lescano
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Áudio drama
Tomoe Masako
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Frente a samurai uma criatura perversa: cheiro de morte, olhos tão vermelhos e profundos quanto a brasa de uma fogueira, gritos a deles emanar. A samurai fecha seus olhos, escuridão, a torrente da chuva batendo em suas costas, moendo a terra sob seus pés. 

Um, dois, três suspiros, ela está pronta. A lâmina da katana sibila palavras diante ao esqueleto-vivo.

O ar uivava na tarde ensolarada, pássaros emudecidos batiam suas asas em meio ao céu azul e carroças despreocupadas caminhavam pela trilha de solo batido. Os fazendeiros nos arrozais ignoravam o desconhecido viajante que por ali passava, o rosto escondido por um largo chapéu de palha, um quimono azul cobrindo-lhe o corpo. Na cintura podiam ver a bainha de uma espada e clamavam para que ali ela permanecesse. 

Uma carroça carregada de vegetais, puxada por um boi, passou ao seu lado. Um garoto e sua irmã iam atrás vigiando os produtos. O pai, sozinho, dirigia. O viajante desconhecido ergueu a face, uma voz adocicada, feminina, mas com ares de general, escapou do vulto em vestes longas:

- Com licença, aonde o senhor vai?

- Para cidade. A quem interessa?

- Poderia me levar de carona?

Os irmãos ficaram quietos e apreensivos ao ver que a carroça perdia velocidade. A madame era alta e esguia, sua face talhada no mármore mais fino, entretanto, até mesmo elas podiam ver que os calos das mãos, os músculos do corpo e os olhos frios e distantes remetiam ao perfil de um assassino. Uma “samurai errante”, imaginaram. O garoto mexeu nos repolhos, arrastou uma faca de cozinha afiada, a menina pegou em suas costas uma velha e enferrujada kunai. Sem se virar, mantendo os olhos fixos na estrada, o pai lhes disse:

- Não vai ser necessário. Agora, você, me responda, porque quer vir junto da gente? Somos apenas uma família pobre, sem nada de especial.

- Você mente muito mal! Finge estar de costas e desatento enquanto todos seus sentidos estão virados para mim e sua filha leva uma kunai, a brandindo com tanta coragem quanto um soldado. Você é um guerreiro. Mas, de qualquer jeito, apenas não quero ter de caminhar até a cidade mais próxima.

- É uma vagabunda então? Sem mestre para defender ou missões a cumprir?

- Um “guerreiro-fazendeiro” também não é algo que se possa chamar de um exemplar de homem de armas, sabia? Vai me dar carona, afinal?

Os pés dos que colhiam nos campos encharcados afundavam na água rasa e na lama, um falcão cantou nas alturas. Ouviam atentos a discussão meio à tarde sem disfarçar o interesse. Jamais haviam visto uma mulher de armas e muito menos um samurai errante que não causasse problemas. Uma garoa fina desceu como um véu pelo ar, o sol diluindo-se meio as nuvens prateadas da tarde. Os pássaros esvoaçavam das copas de árvores mais altas, uma garça os seguiu, suas longas penas brancas um manto gélido. E, como que numa previsão horrível do futuro o qual lhes aguardava, um raio despencou no horizonte mais escurecido pelas nuvens negras, fazendo contraste ao brilho da tarde quente e úmida. 

- Vai ficar aí parada, samurai ou vai subir em minha humilde carroça?

- O nome certo é onna-musha, “guerreiro-fazendeiro".

- Eu sei qual o nome certo, mas não me interesso, “samurai-mulher”.

A carroça prosseguiu. 

O “guerreiro-fazendeiro” recluso na frente, perdido no balançar das folhas esmeraldas, no luzir melancólico da luz que atingia uma flor branca morta a qual rodopiava rumo ao chão, desconectada dos ramos ao qual pertencera. Os irmãos brigavam e brincavam entre o arroz e os repolhos, atentos ao olhar onisciente da onna-musha sem nome. Ela, por sua vez, meditava, primeiro centrando-se nos risos infantis, depois agarrando-se ao barulho dos cascos dos bois e as rodas que giravam sobre a lama, a brisa suave que lhe atingia o rosto e fazia ulular os cabelos e, por fim, silêncio completo. 

- Que falta de educação a minha! Qual o seu nome, “senhora-samurai”? - Perguntou a menina fascinada, ignorando a meditação.

- Não atrapalhe ela, filha. 

- Sem problemas... meu nome é Tomoe Masako. - Respondeu sem saber que respondia.

- Pronto? Agora deixa ela quieta, filha.

- Tá bom, tá bom. 

Um, dois, três suspiros, a natureza curva-se em direção a ela, rompendo, rasgando-se em tiras, pulverizando-se. O dia cedeu espaço à noite, a chuva foi e voltou, moscas surgiram, os campos de arroz foram substituídos por uma mata baixa e selvagem, escassa de árvores, rica em pedras. O solo, antes fértil, agora parecia arenoso e seco. No azulado céu noturno, estrelas faziam rima ao brilho das artes no quimono da onna-musha errante - um velho presente, feito em seda azulada, com desenhos prateados. 

Na mesma posição, ainda meditava na carroça quando pararam e montaram acampamento o pai e seus filhos. Uma tenda e uma fogueira, era apenas isso que precisavam. 

- Papai, Tomoe ainda parece dormir. Será que ela está bem?

- Ninguém está bem, querida.

- Mas ela pode ter, não sei... morrido! Vai que ninguém percebeu.

O pai riu alto, atirando a cabeça para trás. - Ela não morreu filha, isso é normal. Apenas, deve estar fugindo de algo.

- Algo como um monstro?

- Como um monstro ou pior... não sou ninguém para julgar, mas já estive assim também.

- Quando mamãe morreu? - Indagou o menino com timidez, as palavras lhe saindo atadas ao estômago.

- Sim... quando ela morreu, papai também fugia. Fugia para dentro de si em um lugar que nem ele mesmo poderia se encontrar. 

Ficaram em silêncio, um luto há muito passado flamejou em seus olhos, suas chamas estalando em seus corações da mesma forma que as da fogueira na madeira seca. O marido sentiu saudades da esposa que morrera no parto, os filhos depararam-se com o vácuo espectral que neles habitava e chamavam de maternidade. Um riacho corria ali perto, o barulho de suas águas escondeu os passos descalços de Tomoe Masako. Ela se aproximou da roda em volta da fogueira. 

- Me parecia uma boa mulher. 

- Hã?

- Me parecia uma boa mulher: sua esposa.

- Quem é você para falar dela, “mulher-samurai”? Estou apenas te dando carona. Não fique espiando minhas conversas.

- Perdão.

Ofendido, o homem, foi deitar-se em sua barraca. As crianças se aproximaram.

- Desculpas, Tomoe, é difícil pra ele. - Falou a irmã.

- Eu sei... imagino, não devia ter dito nada.

- Então por que disse? - Indagou o irmão, enquanto rabiscava a terra com um galho seco.

Ela pegou o galho de sua mão e sorriu. Desenhou o padrão de algumas estrelas no chão e se pôs a contar histórias de guerras já passadas, algumas que jurara viver e outras que disse nem estar viva quando ocorreram. Sublinhava nomes na terra, depois os apagava para dar lugar a armas, paisagens e rostos. As crianças podiam ouvir o encontro do aço com o aço, os gritos de generais, os cavalos a correr, os grasnantes corvos e as tempestades cataclísmicas... na mente infantil, a paz e a guerra, um turbilhão de aventuras. A garota tossiu forte, sorriu e pediu desculpas. Aproximou-se de Tomoe e, quase adormecendo em seus joelhos, perguntou a mais infantil das perguntas.

- Tomoe, você acha que poderia ser minha mãe?

A onna-musha sorri sem responder. Quando a garota caiu no sono e o rapaz também, ambos em suas pernas cruzadas, meditou, para não ter que deitar-se, evitando acordá-los. 

Em um vilarejo próximo, uma cerejeira balançava suas rosadas flores. Enquanto homens e mulheres pálidos e raquíticos cuspiam sangue. Corpos eram jogados em valas comuns ao som de fúnebres cânticos: famílias inteiras, injustiçadas por um mundo perverso, reunidas de maneira anônima no pós-morte pelos seus vizinhos. 

Na morte, amargura e ressentimento aceleram o corroer da carne, excitando vermes. Limpando-os de roupas, pele ou músculos, desnudando-os até os ossos. E os ossos se punham a bailar, aglomeravam-se.

- Musashi! Sakura! Já é cedo, temos que chegar no vilarejo.

As crianças ensonadas agarraram-se ao quimono da onna-musha. Ela sorriu para o “fazendeiro-guerreiro”, ele não retribuiu.

Seguiram caminho. Tomoe brincava com as crianças e fazia piadas com seus nomes. “O antigo samurai e a doce cerejeira”. O vilarejo, escondido em meio àquela mata infértil, era populoso. Um pequeno centro comercial, servindo de parada entre outros dois maiores, um mais ao centro da ilha e outro mais próximo da costa. 

Do alto de um declive já podiam ver e ouvir a confusão das ruas, os vendedores que gritavam, pedintes que murmuravam, estranhamente muita tosse. E, ao fim da rua principal, próxima a uma praça, cobrindo toda sua extensão, uma cerejeira majestosa. 

No arco de entrada o pai pagou um suborno aos guardas, um deles tossiu com força, uma tosse seca e áspera.

- Ele está bem? - Perguntou o fazendeiro.

- Temos tido problemas com uma doença. Não é nada demais, apenas entrem.

Sem pestanejar seguiram. Meio ao som de panelas de aço, frangos caminhando nas ruas, vacas mugindo, homens bêbados brigando, vozes competindo em altura, volume e forma. O inconfundível som de tosses prosseguia. A princípio o pai pensou que o número de pedintes e bêbados havia aumentado, mas bastou uma olhada mais atenta para ver que aqueles magricelas pálidos, com sangue entre os lábios, palavras roucas implorando por ajuda na ponta das línguas, estavam doentes e definhando. Um homem e uma mulher se aproximaram deles. 

- Se afastem! - Mandou o pai.

- Por favor, senhor. Nos deem algo de comer, temos tanta fome, ninguém nos ajuda. Vocês! Vocês crianças! Nos passem um repolho, por favor.

Esticaram as mãos sujas de sangue para as crianças, ameaçando agarrá-las. Tomoe desembainhou a katana num único gesto e, com uma precisão implacável, a qual silenciou a confusão das ruas, repousou-a a um milímetro e meio de suas gargantas.

- Não ouviram?! Ele pediu que se afastassem. 

Atirou ela mesma um repolho para eles, pedindo desculpas ao fazendeiro e o pagando de imediato. Musashi e Sakura agradeceram. A carroça prosseguiu e o volume das ruas não tardou a subir. Desmontaram num canto mais distante da longa avenida principal, a meio caminho da cerejeira. Vassouras varriam a calçada, velhas senhoras fofocavam algo triste, limpando as lágrimas dos olhos. 

- Chegamos muito tarde. Vai ser difícil chamar a atenção dos clientes – Disse o pai aos filhos, desanimado.

- Então vamos competir nos preços! - Animou a menina.

O pai sorriu, Sakura, logo poderia, sozinha, prosseguir o negócio. Ultrapassara até mesmo o irmão. Ela tossiu levemente, escondendo com o punho a boca, abafando o som e ignorando a dor que sentia nos pulmões. 

- Vou meditar perto da sakura. Não, não você Sakura, meu bem. A árvore na praça, vou estar por ali, se precisarem de ajuda me busquem, qualquer coisa também dormirei na cidade pelos próximos três dias. Obrigada pela carona! Espero vê-los mais tarde.

Se despediram, o fazendeiro lhe dirigiu uma referência a qual ela retribuiu com alegria. 

A cerejeira era bela e intrigante, tirava sua força de uma terra morta, sem água ou nutrientes, um milagre por si só estar viva, parecia ainda por cima estar bem. Tomoe sentou em suas raízes para meditar. Tanto crianças que brincavam ali perto, com um intrigante medo da árvore quanto alguns senhores, desesperados, com lágrimas nos olhos, implorando pelo fim da peste, lhe dirigiram olhares irritados. Tomoe ouvia as risadas infantis e os suplícios senis na distância da meditação, ou seja, sem realmente ouvir. Abafando a realidade nas memórias duras da guerra. 

O velho monastério invadido, sua amada com um longo e fundo corte no peito, tropeçando em sua direção. “Tomoe Masako, eu te amo”. Logo após as últimas palavras, uma tragada de ar. Ela caí, agarra-se na saia daquele mesmo quimono azul e se vai. 

Lágrimas lhe arrancaram da meditação, ergue-se meio a fria tarde e, sem ter para onde ir, dirigiu-se para as ruas da cidade. 

Na noite daquele primeiro dia o guarda morreu num fulminante acesso de tosse. Tomoe estava do lado de fora de sua casa quando retiraram o corpo ainda quente. Atrás venho a viúva do recém falecido, sangue escorria de sua boca, levava nos braços seu bebê. Ignorou a cena, não tinha como ajudá-los. 

Na noite do primeiro dia, os ossos bailantes se juntaram, fundiram-se, reconheciam uns nos outros a mesma força, o mesmo desejo incontrolável e inexplicável de sangue quente, o qual não apresentaram em vida. Nas entranhas do cemitério para doentes, construído provisoriamente do lado de fora da cidade, formava-se um gigantesco crânio. De seu escalpo ósseo emanavam guinchos de sofrimento e berros de raiva inumanos. 

Na manhã do segundo dia, ainda cedo, quando os barulhos do comércio se limitavam às controladas conversas entre negociantes, ao som de óleo fervendo e o coro de latidos, mugidos e cantos animais, Tomoe foi atrás da família. Procurou-os e não tardou a descobrir que haviam sido os primeiros a chegar.  Avistou no ponto mais extremo da avenida, próximo ao muro, o boi e a carroça cheia. 

- Ei! Aqui! - Chamou acenando Musashi ao lado do pai. Sem sinais de Sakura.

- Oi, Musashi, tudo bem? Está gostando da cidade? 

- Estou bem e já estivemos aqui outras vezes, é muito chato, todos os garotos só querem saber daquela árvore velha ou de se apaixonar pela minha irmã, que comparam com a árvore. - Respondeu num fôlego só, um chiado escapando dos pulmões.

- E a Sakura?

- Minha filha está no apartamento... ela não está bem, mas vai melhorar, ela é minha garotinha, um anjo... eu sei que vai melhorar. Por sinal, pode passar lá mais tarde? Ela quer te ver... podemos dividir um chá, estamos no “Cabeça de Porco” - o pai parecia abatido, seus olhos vermelhos e inchados por lágrimas e cansaço, a pele com pouca cor. Ao fim, retomou certa glória e um sorriso tímido e sarcástico derramou-se em seus lábios. - Isto é, se a “mulher-samurai” não tiver nada mais importante para fazer.

- Pode deixar, mais tarde eu vou passar lá. Talvez pela noite, tenho que.

- Meditar? - Completou o fazendeiro. - Já imaginava... ainda assim nos visite.

A tarde escoou lenta. Os moribundos aumentaram em gravidade e proporção. O casal que havia pedido o repolho no dia anterior havia sumido. Nos bares nada de cantos, brigas ou apostas, apenas as notas vagas de um koto a acompanhar a cegueira proporcionada pelo álcool. No muro que protegia a cidade espiava uma garça, levava em seu bico um pequeno e estranho osso, o qual atirou ao solo, logo acima do cemitério a céu aberto destinado aos doentes. A onna-musha dirigiu um sorriso amargo a beleza da cena. Seus ouvidos buscaram as risadas infantis e as fofocas das senhoras, mas encontraram apenas o som de correntes a balançar, pregos sendo pregados em um caixão e o ruído de fundo permanente das tosses. 

Assistiu um carro de mão com corpos empilhados passar, entre eles a mesma jovem mulher, esposa do guarda. Catarro e sangue desciam-lhe do nariz. Nos braços enrijecidos pelo toque da morte um pano velho recheado com um volume disforme, sobre o pano, com negras garras cravadas onde estaria a cabeça do bebê, um corvo a grasnar. 

Meditar mostrou-se impossível e insensato. Caminhou pela avenida principal, vendo a movimentação perto do arco da cidade e tomando cuidado com os moribundos. Uma pequena multidão era contida por soldados na saída da cidade. Em carroças e a pé famílias inteiras protestavam, levando nas costas e em carros de madeira mantimentos, mobília, ferramentas e suas crianças. 

- Queremos sair! Homens e mulheres estão morrendo aqui! A doença vai matar a todos! - Clamava uma senhora, a multidão a apoiando.

- São ordens de seu xogum para que permaneçam. Entre vocês quem dirá se não há infectados? E, ainda por cima, esta cidade está no meio de uma rota importante, não pode ser simplesmente abandonada – Retrucou um soldado de patente mais alta, que levava uma longa naginata nas costas, os braços cruzados. 

- São ordens de nosso xogum que morramos?! 

O guarda enrijeceu o corpo, muito lento, pensou Tomoe. Deduzindo o que se seguiria levou uma mão a espada muito antes dos dedos do soldado formarem um punho, rangendo o couro de sua luva. Seus passos ágeis acompanharam uma única passada do homem. O braço voou em direção a face da senhora. Uma brisa suave, o som de pés se arrastando na terra. Impacto.

Entre o imobilizado soldado e a senhora assustada, para surpresa geral, havia surgido uma mulher. A ponta de sua espada cortara até a pele sob a armadura do homem e um soco potente lhe afundava entre as costelas. A mulher, implacável, cochichou em seu ouvido.

- Também não acho que seja a melhor das ideias deixá-los ir, mas, não levante um dedo contra essa gente.

- E quem é você para me dar ordens? 

Ela girou o quadril, agarrou-o com uma mão pela gola da armadura e atirou-o ao chão. 

- Acho que não fui clara com você! Não permitirei que você encoste um único dedo nessas pessoas! 

A ponta da katana repousou a alguns centímetros da virilha do homem. O batalhão agitou-se.

- N-não ataquem! Não ataquem! Apenas se concentrem nas pessoas! Não deixem que ninguém escape. - Diminuindo o tom de voz se dirigiu a mulher. - Isso não vai ficar assim samurai, essa humilh... - Foi interrompido pelo descer da lâmina, a pele fina ameaça rasgar.

- Cala-boca, você não vai fazer merda nenhuma, entendido? E o nome certo é onna-musha, não sou “uma samurai”. 

Ele não respondeu. Ela fez mais pressão, relaxando um pouco o braço. A multidão aplaudia e comemorava.

- Está bem! Entendido! Entendido! Apenas me deixe em paz! 

A tarde já desfalecia, levando com ela tantas almas moribundas. Os saudáveis aglomeravam-se a multidão, ninguém mais queria ficar na cidade. Guardas e outros oficiais se reuniam a eles e o atrito com o batalhão do exército, o qual chamara reforço, aumentava aos poucos. A Lua como um pingente dependurava-se no céu noturno e, no centro da cidade, era possível ouvir o barulho de chamas. 

- Estão tentando queimar a cerejeira! Estão tentando queimar a cerejeira!

Com um mal pressentimento lembrou-se da garota, de seu irmão e de seu pai. Ignorando o soldado correu em direção ao hotel “O Cabeça de Porco”. Pessoas gritavam em meio as ruas: doentes desolados com sua dor mediante a perspectiva da morte, familiares em prantos e a multidão que desviara a atenção para a cerejeira em chamas, o bem mais precioso da cidade. 

Empurrando essa multidão, sem sentir os corpos que contra ela se batiam, Tomoe avançou pelas ruas. Chegou a hospedagem. Parados do lado de fora estavam dois homens bêbados e doentes, e uma mulher que chorava, também doente. Cheiro de vômito invadia o ar, adocicado, levemente amargo e enjoativo. O prédio de papel e madeira tinha três andares, estes preenchidos por quartos diversos. Entrou apressada, havia mais gente lá dentro, todos moribundos. Subiu as escadas com passos rápidos. 

- Sakura? Sakura?!  “Guerreiro-fazendeiro”?! - Repetia enquanto subia as escadas.

De um quarto com a porta de correr aberta ouviu um grito, “Musashi?”, e o corte de carne por uma espada. Sangue manchou o papel da porta. Ela se aproximou, os olhos arregalados. Empurrou-a. O quarto estava consternado. Panelas atiradas para os lados, mobília quebrada, cacos de tigelas de barro espalharam-se pelo chão. Ofegava, no centro, o pai. Em sua mão direita uma antiga katana, com falhas na lâmina, a sua frente, como que dormindo, Musashi. O pai tremia.

- O que você fez?!

- Eu tive... Sakura morreu de forma tão horrível... com tanto sofrimento. Você não entende, eu tive que fazer isso por ele. 

- É... é injustificável! - Respondeu Tomoe, lágrimas em seus olhos. A mão, pela segunda vez em sua vida, tremendo no cabo da katana, sem forças para tirá-la da bainha.

- Me mate, Tomoe.

- Como assim?! O que você está pedindo é...

- Cale a boca, “mulher-samurai” e me escute... eu vou morrer amanhã, isso tenho certeza... mas não quero e nem mereço viver um único segundo mais que eles... me mate Tomoe Masako. 

Em choque, movida por apreço, raiva e desespero, ela se aproximou, a espada na mão, levantou-a para o golpe. Ele girou o corpo, acertando-lhe um chute na barriga, sorrindo o mesmo sorriso melancólico e sarcástico do dia anterior.

- Não pense que eu vou morrer sem lutar, “samurai-mulher”. Não seria justo, m-meus filhos me admiravam por isso. Meus filhos admiravam essa arma que eu levo na mão... a arma da mãe deles, outra “samurai-mulher” que nem você. Não irei desonrar essa memória, não poderia morrer matando a última coisa que neles persistiu até o fim. 

- Pois então venha, “fazendeiro-guerreiro”. 

- Obrigado, Tomoe.

Seus passos eram leves no carpete, enferrujados, mas ágeis. Mirou o ventre da mulher, ela saltou sobre ele, o corte rasgou a porta de correr. Tomoe projeto uma estocada ágil, nas costas, em direção ao coração. Ele rolou para frente, a luta ia para o corredor. Outra vez Tomoe avança, a lâmina mira a jugular, mas é bloqueada, o fazendeiro, agora convertido em samurai, avança contra ela um soco, ela salta para trás, quase caindo da bancada. Ele a segura pelo quimono.

- Não morra, “mulher-samurai”.

- Imbecil, eu não vou morrer. - Acertou-lhe um chute no queixo e caiu para trás.

No ar agarrou-se às cordas que desciam do teto, desacelerando a queda e caindo ilesa no chão. Correu para a rua. O samurai venho atrás, na cara o sorriso, no rosto lágrimas. Cinzas e brasa do incêndio que se espalhava pela cidade grudavam em sua pele, acinzentando-o ainda mais. Ele avançou, ela bloqueou o primeiro e o segundo golpes, o terceiro penetrou sua mão esquerda, aproveitando-se da oportunidade, moveu o braço afastando a lâmina, abrindo uma brecha. 

Ambos já sabiam o resultado final. A lâmina lhe atravessou o peito e saiu nas costas. Sangue quente encharcou quase de imediato o peito do quimono negro. Arregalou os olhos, um sorriso sincero debruçado em seus lábios. Sua voz parecia calma, embora já enfraquecida. Puxou a guerreira para perto de si, afundando ainda mais a espada em seu peito, torcendo-a em sua carne. Desvencilhou sua arma da mão da mulher e a atirou ao chão. Sua boca no ouvido dela, sangue escapando de seus lábios.

- Ela queria ser enterrada debaixo da árvore, faça isso por mim...

- Sim!

- Obrigado... onna-musha... obrigado...

Caiu em seus braços, agarrando-se ao quimono azul e prata. Morreu encarando os olhos da doce mulher que o assassinara. 

Meio a noite, a onna-musha carregava três corpos seguindo a trilha cinzenta das brasas. Em sua frente a cerejeira em chamas. Suas róseas flores contrastando a seda espectral do fogo. Boa parte da população, doentes e saudáveis, crianças e adultos, oficiais e cidadãos, se uniam em gigantescas fileiras para levar baldes de água até a árvore. Estendiam-se de um riacho próximo, famoso por seus pássaros exóticos e corujas noturnas, “O Riacho dos Pássaros”, até a praça central, uma vela em meio à multidão. 

Era o local sagrado, a espinha dorsal de toda a crença dos cidadãos. Em outro dia, em outra hora, em outro instante, teriam tentado impedir Tomoe de depositar aqueles corpos ali, entre as raízes da árvore, mas naquele estavam concentrados em salvar seu objeto sacro. A planta que parecia habitar aquela região desde o início dos tempos, mais velha que o mais velho dos homens, espectadora de uma paisagem em constante transformação. Juntos salvaram a árvore, sem nem notar a guerreira que enterrava seus mortos em sua base e nem os dedos ósseos e brancos que emergiam da terra junto a gritos de dor, nos limites da cidade.

A noite passou, as chamas baixaram e, ainda na manhã do terceiro dia, os saudáveis foram examinados e evacuados da cidade a comando do xogum. Tomoe escondeu-se no quarto destruído do abandonado Cabeça de Porco... se sua coragem e sua lâmina permitissem, jamais voltaria a abandonar ninguém. 

Ao fim da tarde, na cidade fantasma, restava apenas ela, os espectros moribundos que eram os quase-mortos, as ameaçadoras nuvens de tempestade que avançavam vindas do horizonte - com trovões abafados, raios distantes e uma brisa úmida as precedendo - e a ressentida besta que aguardava seu estágio final se completar para sair de dentro da terra. Eram estes os quatro elementos da paisagem: a centelha da vida, a destruída figura humana, a natureza caótica dos elementos mais básicos e a corrupção da matéria pelo sentimento abstrato.

Conforme passava o dia o cheiro cadavérico do esqueleto se tornava mais nítido. Animais, pressentindo o desastre, ou se esconderam em suas tocas ou fugiram da região. Os doentes julgavam que o cheiro vinha de seus corpos, sinal da morte que se aproximava, seus choros tornaram-se mais um forte. 

A tempestade tocou a vila. Seus ventos arrancaram telhas e fizeram uivar, como uma flauta malfeita, as ruas e a avenida principal. A chuva esfriou as brasas da cidade destruída pelo incêndio e o sangue o qual escorria das bocas dos doentes diluía-se em poças no barro e nas gotas acumuladas na palma de suas mãos. Um raio caiu no centro da cidade, perto da cerejeira, Tomoe levantou-se, preocupada com a chance do lugar escolhido para o eterno descanso da família, fosse outra vez perturbado. 

Coberta por nuvens negras o fim de tarde havia se convertido em noite profunda. E, foi antes curiosa que espantada, que Tomoe assistiu o gigantesco esqueleto se erguer, sua cabeça quinze metros acima do chão. Dezenas de milhares de crânios constituíam o seu próprio, as órbitas dos menores, poros da colossal estrutura calcificada. Seus dedos, dezenas de milhares de falanges, e assim seguiam as costelas, os dentes, os pés. Uma multidão amargurada personificava-se numa criatura imagética. A manifestação máxima de um trauma coletivo: a morte coletiva que a todos quer vingar. 

A criatura, como uma criança a colher uma flor, arrancou do chão uma arroxeada glicínia. Com o dedo indicador mexeu nos ramos arroxeados que lhe caíam como cabelos dos galhos. Maravilhada, trouxe-a para mais perto. Num brilho retorcido e pouco uniforme, semelhante a lua refletida no espelho d’água de um lago perturbado, as negras cavidades oculares reluziram o mesmo tom de roxo da planta.

Emanaram da criatura milhares de vozes a se contradizer, sem entender umas às outras ou a si mesmas.  Sentiam fome, desejavam mais ossos, mais catástrofes, mais traumas. Farejou, o roxo dos olhos convergindo ao rosa, ao se deparar com a cerejeira plantada na praça.

- Não! - Gritou Tomoe da sacada, a ordem sendo pontuada por um raio que atingiu a cabeça do gigante e inflamou a planta que levava na mão. 

Os galhos queimaram e o ser pode distinguir ovos de pássaros em seu interior. Um tipo de morte distinto, não-humano, que jamais seria capaz de corromper e se alimentar, um tipo de morte que, por tanto, não desejava. Mirando as brasas, seus olhos fulgiram um vermelho vivo e sanguíneo. Outras vez comandada pelo ódio e amargura a criatura foi capaz de falar - sua voz como a de uma cansada legião.

- A cerejeira... não é... sua...

- E nem sua! - Respondeu Tomoe chorando novamente, tentando competir com a chuva e os trovões.

- Ela é minha mãe!... ela é minha...

- Eu... eu não permitirei.

A criatura caminhou em direção a cerejeira. Tomoe desceu a estrutura no máximo de sua velocidade. Encontraram-se na avenida principal. O esqueleto-vivo, após destruir parte da murada e algumas casas que restavam, num ponto mais próximo da entrada. A onna-musha de costas para a cerejeira, a espada desembainhada. Encararam-se. A criatura suspirou - um suspiro de cem mil pessoas. Tomoe gritou. 

Virou a espada para trás, abaixou os joelhos e esperou. A criatura ameaçou seu primeiro passo, Tomoe partiu em disparada. Doentes assistiam de suas casas contendo as tosses, assustados, torcendo para não serem esmagadas e para que, de alguma forma milagrosa, aquela pequenina mulher os salvasse. 

Ela pulou em uma cadeira, depois em uma placa, quando se viu, corria sobre os telhados. Um salto ágil, a espada rodopia por cima de sua cabeça, a criatura é lenta de mais, a lâmina corta a face direita de seu rosto partindo vários crânios. Um urro é ouvido desde as montanhas, confundindo-se com um estranho e prolongado trovão que caíra sobre a antiga vila de todo um povo, talvez sobre sua tão amada cerejeira. 

Um soco bastaria para acabar com aquele incômodo, fecha o punho, constituído de tantos outros punhos que se fechavam uns sobre os outros. Tomoe salta do telhado em que caíra, a casa atrás de si desmonta-se pelo golpe do esqueleto. Vendo que errou ela atira os detritos em direção a mulher. Cortes rápidos da espada, no ar ela divide madeira, quebra cadeiras e tijolos, alguns a acertam com força o suficiente para que vá ao chão, porém permanece na luta. 

A criatura avança em direção a cerejeira. 

Com galhos a lhe ligar os dedos e a face, raízes na sola dos pés, a mesma amargura e ódio que sustenta o esqueleto e suas partes floresce na onna-musha. Tão veloz quanto o raio que desce por entre as nuvens, lhe quebra um dos ossos da perna direita, o posterior. A criatura vai ao chão desferindo socos e tapas, convulsionando, preocupada com uma segunda morte. Barro jorra para os lados escondendo Tomoe. 

Ela parou em frente a besta. Em suas costas, a gigantesca cerejeira e os espíritos de duas crianças abraçadas ao pai a lhe assistir. Um pedaço de madeira lhe atravessa as costelas, é difícil respirar. 

Reconhece um ponto mais frágil na estrutura do crânio do ser. Frágil o suficiente para romper toda sua face e apagar a pira que parece existir no interior de sua mente.  Fecha os olhos, a criatura se arrasta em sua direção, com todo ódio, preparada para a devorar. 

Um salto no último instante, ela atinge o ponto vital, a parte superior do crânio se abre. Esperando por fogo, a onna-musha se depara com água, a qual jorra, translúcida, de dentro da criatura. Seus olhos de fogo tornam-se brasa, restos de uma chama-viva. 

Sem sentir suas pernas onna-musha tropeça - a katana parada no alto de sua cabeça. Sangue mancha o prata de suas vestes rasgadas por uma tora de madeira tão larga quanto um braço atravessada entre as costelas, perfurando o pulmão e tocando o coração, o qual acelera a morte a cada pulsar. Ela sente medo, vacila, mas, amparada pela presença que por ela torce baixo a cerejeira, sorri.

Um, dois, três suspiros. Tomoe Masako está pronta para morrer. Seus braços amolecem no mesmo instante que a centelha se apaga nos olhos da criatura e, junto ao voo de uma garça que a luta assistia, sibila a lâmina de sua espada, enquanto despenca ao chão.


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