Tabula Terrae

Aventura
Novembro de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Os Herdeiros de Trismegisto

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Tabula Terrae
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Nahel montou acampamento na base de uma pequena colina, protegido do vento e longe o bastante do lago para ficar fora do caminho de animais noturnos sedentos. Acendeu uma fogueira, molhou um pedaço de pão duro no vinho e comeu com apetite. Estava viajando havia dias, desde Alexandria com destino a Aquitânia. Seu destino, porém, continuava tão obscuro quanto no dia de sua última conversa com Venerável.

Era raro que Venerável, que ocupava a mais alta posição na hierarquia da Ordem dos Herdeiros de Trismegisto, externasse suas preocupações e inseguranças. Quase tão velho quanto o tempo, era uma figura mítica. Entre os neófitos corria a história de que ele confabulava livremente com o próprio Hermes Trismegisto durante seus períodos de reclusão. Porém, entre Nahel e Venerável havia uma relação próxima e afetuosa, o que permitiu que o ancião o pusesse a par de suas aflições.

Naquele dia, meses atrás, foi convocado aos aposentos de Venerável assim que chegara à Pirâmide Invertida e Nahel recordava cada palavra daquela conversa.

— Conte-me, filho. O que viu?

Aquela voz sempre teria o poder de transformá-lo num menino, não importava quantos anos se tivessem passado. Apesar de não ser filho de sangue daquele ancião, sentia-se acolhido em sua presença. Sempre fora assim, desde que chegara até ele, trazido pela mão por uma mãe com bocas demais para alimentar. A Ordem contava com apenas 33 membros, mas havia inúmeros aprendizes sob sua proteção. Todos eram acolhidos, alimentados e educados. Alguns, mais talentosos, eram treinados para servirem como auxiliares da Ordem. A grande maioria, porém, saía em alguns anos e se tornavam ferreiros, marceneiros, músicos, padeiros, curandeiros, levando em sua bagagem e memória afetiva canções e histórias que mantinham as tradições herméticas circulando no mundo dos homens comuns. Poucos acabavam sendo admitidos como Irmãos, como foi o caso de Nahel.

Tornar-se membro da Ordem dos Herdeiros de Trismegisto requeria uma mistura de talento, estudos intensos e sorte. Desde sua fundação pela Tripla Legião Luminosa, sempre houveram trinta e três membros na Ordem. Um novo membro só era admitido se houvesse uma vaga, de forma que muitos discípulos extremamente talentosos terminaram seus dias como meros auxiliares. Nahel teve sorte. Quando estava para completar seu segundo ano como ajudante de serviços gerais, o grande Nicodemus, seu mentor e amigo, caiu em meio a uma sangrenta batalha; seu corpo, carbonizado. Sua vaga foi destinada a Nahel por decisão unânime e assim, ele começou seu caminho iniciático, num misto de alegria, por si, e tristeza pela perda de Nicodemus. E, sem dúvida, uma grande porção de culpa irracional, afinal, se ele não tivera qualquer responsabilidade pela partida de Nicodemus, por outro lado, fora beneficiado por sua morte.

Nos últimos anos a missão de Nahel e de alguns outros irmãos de Ordem foi vagar pelo mundo conhecido, estabelecer alianças com o Império Romano e com líderes de povos antigos. Manter a Ordem viva no mundo material e patrulhar as linhas de força do planeta.

— Como estão as linhas de poder? Estou velho e os anos pesam. Não me faça esperar pelas informações e não tente adoçá-las.

Não era possível deixar de contar a ele toda a verdade, pois ela, como sempre, parecia ser atraída por aqueles olhos cristalinos.

— Percorri as principais linhas de poder do continente. A magia flui, mas parece estar diluída, até se esgarçando em alguns pontos. Outros irmãos, vindos do Extremo Oriente e do Norte reportaram o mesmo. No Oeste, porém o Poder parece ainda intocado.

— No Oeste... Você me falou do que descobriu de suas andanças. E seus dons, o que revelaram?

— Chamei a visão enquanto tocava o solo perto do Círculo de Pedra de Thorius, um dos locais em que a magia estava esgarçada. Vi mãos cadavéricas rasgando o chão e uma pedra cor de sangue bebendo o mundo.

— A Pedra Filosofal.

— Mas, a Pedra Filosofal está na Dimensão Etérea, junto a Árvore da Vida!

— Sim, a verdadeira Pedra está lá. Mas a ambição vaidosa de recriá-la continua viva. Muitas tentativas foram feitas ao longo dos séculos, todas sem sucesso. Mas me parece que alguém tentou um movimento mais audacioso e com repercussões desastrosas, que prejudicou o fluxo natural da magia.

— Mas, somente um alquimista poderia fazer algo parecido. E nenhum de nós, Herdeiros de Trismegisto faria algo assim. Conhecemos as Leis universais.

— Com certeza não foi ninguém da Ordem, mas alguém pode ter tido acesso a nossos segredos e é por isso que mandei chamá-lo.

Venerável levantou-se e, com um gesto, pediu que Nahel o seguisse até uma bacia prateada. O Lago do Oráculo. Feita com metal extraído de uma estrela caída e cheia da água do lago cósmico que abriga a Árvore da Vida, guardava todas as profecias do mundo.

— Olhe, e me diga o que vê.

Seus olhos repousaram sobre a superfície transparente da água sagrada, que tremulou e, aos poucos, uma imagem se formou. Nahel viu uma tábua, que de início lhe pareceu a Tábua Esmeralda, porém feita de terra, oculta na escuridão em um campo ermo e ignorada por todos. Então, uma mão adornada com o anel iniciático da Ordem a tocava e a tábua se erguia, crescia e se iluminava até ser vista desde a Pirâmide Invertida até os confins da Terra. Ela restaurava a magia, que cintilava novamente no mundo, e ia diminuindo até tomar as dimensões de um livro e ser guardada e protegida dentro da Pirâmide. Em seguida, ele viu uma pedra vermelha se desfazer em pó. Depois, a visão mudou e ele via o mar e as costas de uma menina de longos cabelos castanhos que observava as ondas.

Venerável ouviu de olhos fechados e, por fim, falou.

— Esta tábua cor de terra, Tabula Terrae, é o que buscamos. Ela pode corrigir o mal causado pela ambição. Em sua visão, quando apareceu a menina olhando o mar, viu também uma ilha com três montes gêmeos?

Nahel assentiu.

— É a ilha de Tribus Regum, no litoral da Aquitânia. É para lá que deve ir, para o oeste, resgatar este artefato e trazê-lo em segurança para cá.

— Por que eu, Venerável?

— Porque, como a magia está comprometida, é necessário usá-la o mínimo possível fora da proteção da Pirâmide Invertida ou dos outros espaços da Ordem. E, dentre toda nossa irmandade, você é o que menos se apoia na magia.

E agora, diante da fogueira noturna, Nahel se preparava para dormir. Já estava na Aquitânia e a apenas um dia de viagem da faixa litorânea de onde era possível avistar Tribus Regum, a ilha dos Três Reis. Mas ainda não fazia a menor ideia de como encontrar a Tabula Terrae. A Tabua Esmeralda é espetacular. Nahel a vira uma única vez, mas seus olhos jamais esqueceriam. Uma grossa lâmina da esmeralda mais pura, sem qualquer mancha ou veio, lisa e luminosa. Gravada em sua superfície com letras perfeitamente esculpidas, as bases da alquimia sagrada, escritas por Hermes Trismegisto. Seria a Tabula Terrae igualmente magnífica?

Já há vários dias Nahel evitava usar a magia. Mas, resolveu perscrutar as chamas da fogueira. Invocou mentalmente o poder das salamandras e silenciou os pensamentos. Mas, ao olhar para dentro do fogo só viu a menina, seus cabelos castanhos e o mar.

Ao final do dia, Nahel chegou ao vilarejo de onde se via Tribus Regum. Ainda sem saber o que procurava, esta localização ao menos parecia promissora. Os outros quatro vilarejos que se voltavam para aquela ilha ou tinham a vista bloqueada por outra ilha ou estavam posicionadas sobre uma falésia. Somente lá era possível ver a ilha a partir da areia, como o Lago havia mostrado.

Nahel foi até a taberna. Seu plano era se fazer invisível e ouvir as conversas. Poderia encontrar assim alguma pista. Entregou seu cavalo aos cuidados de um menino magrela.

— Comporte-se, Daimonas.

Mas, para sua surpresa, o temperamental cavalo seguiu o menino docilmente e aceitou o afago em sua crina negra e uma porção de aveia. Observou enquanto o menino falava com o cavalo. Ele parecia saber o que fazia e Daimonas estava sendo bem tratado.

Dentro da taberna, pediu uma caneca de cerveja e se sentou numa mesa de canto, próximo a uma janela, antes de invocar um feitiço de invisibilidade. Estava protegido de olhares curiosos e poderia ouvir à vontade os assuntos que circulavam naquele lugar.

Durante algum tempo, desfrutou da cerveja e se inteirou das fofocas da região, da colheita de cevada, dos animais que morreram e nasceram e do mau temperamento do dono da taberna. Até que uma voz que se elevava chamou sua atenção.

— Duvidam de minhas palavras, idiotas? Pois vejam os túmulos abertos com seus próprios olhos! Os mortos andam, é o que eu digo!

— Acho mais provável que você tenha bebido demais, velho.

— Ontem foi um túmulo, hoje mais três. Vão ao cemitério e vejam!

— Alguém deve estar roubando os túmulos. Alguém que esteja precisando mais do que os mortos.

— Mas e os corpos? Sumiram!

— Já devem ter virado pó. Agora cala a boca e me deixe beber em paz.

A voz do velho foi abafada pela zombaria, mas Nahel sabia que ele estava certo. Foi a visão que tivera em Thorius, perto do círculo de pedra. Mortos saindo do túmulo.

— Mais cerveja, senhor? Temos também um pouco de assado e pão fresco.

Nahel olhava espantado para o menino franzino que tinha cuidado de Daimonas e agora estava parado a seu lado, oferecendo as opções do dia. Como ele o via, através do encantamento de invisibilidade? Impossível.

— Menino estúpido! Eu o pago para cuidar dos animais e servir as mesas e não para olhar pela janela. Vá cuidar dos clientes ou jogo você de volta para a rua. Inútil!

Acompanhando estas palavras, seguiu-se um violento tapa na cabeça e foi a vez do menino olhar aturdido para Nahel e para o furioso dono da taberna, percebendo que este não via o estranho. Afastou-se, relutante, ainda olhando para Nahel sem compreender e foi buscar mais cerveja para a mesa do lado, esfregando a cabeça coberta por um capuz muito velho.

Nahel checara a principal linha de poder daquela região assim que pisara na Aquitânia e ela estava intacta. Mas talvez ela tivesse começado a esgarçar agora, o que explicaria a falha no seu encantamento. De qualquer forma, sentia que o tempo urgia. Deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu da taberna. Encontrou o estranho menino cuidando de um burrico.

— Senhor... por que Manus não o enxergou? Só eu o vejo? É um fantasma?

Sentindo-se culpado pelo tapa e pela repreensão que o menino levou tão injustamente por sua causa, entregou a ele uma moeda de prata e partiu com Daimonas sem dizer palavra. Enquanto o observava se afastar, de olhos arregalados, o menino pensava que fantasmas não carregavam prata de verdade em seus bolsos.

No cemitério, Nahel constatou que o velho bêbado dissera a verdade. Quatro túmulos vazios, revirados e afundados sobre si mesmos.  Se alguém tivesse cavado os túmulos para saqueá-los, seria de esperar um monte de terra ao lado e a sepultura inteiramente aberta. Mas, daquele jeito, parecia que haviam saído da terra por conta própria. Seja lá o que tivesse acontecido, não deve ter havido testemunhas. De um lado do cemitério havia uma colina íngreme e do outro lado, mais adiante, a areia e o mar.

Tocou o chão. Sentiu o poder, a magia, mas ela estava diferente. Não era a magia que estava acostumado a buscar, sua velha amiga. Era uma outra face, oculta, obscura que se mostrava. Invocou a Visão e, ao invés de imagens, sentiu a terra tremer e se viu diante da grande pedra cor de sangue que tragava tudo a seu redor. Sentiu-se tragar também, mas teve a visão interrompida por um grito de horror. Despertou do transe e viu diante de si o menino da taberna.

— Senhor! Volte! Afaste-se dessa pedra maligna!

— Você de novo, menino? Está me seguindo? Como me alcançou?

— Vim pelo atalho do povo antigo. Eu imaginei que o senhor viria aqui porque estava prestando muita atenção na conversa do velho Tuck. O senhor é um morto vivo? Que pedra era aquela? Porque o senhor a conjurou? Qual o seu nome? Todos me chamam de Will.

A cabeça de Nahel doía horrivelmente. Era normal para os iniciantes sentirem isto após chamarem a Visão. Mas há muitos anos Nahel dominava esta arte com maestria mais do que suficiente para não sentir efeitos indesejáveis. Porém, estava claro que aquela não era uma Visão normal. E a enxurrada de perguntas do menino não estavam ajudando.

— Aqui. Masque isto, vai ajudar.

Nahel olhou para a plantinha que Will lhe estendia. Erva-de-peregrino. De fato, era uma boa ideia, mas como aquele menino podia saber disto? Além disso, Will também vira a pedra. Ele partilhara da Visão. O que significava isso? Mas antes que qualquer pergunta fosse feita ou respondida, um forte vento gelado soprou trazendo nuvens escuras e uma noite fora de hora, cheia de sons lamentosos.

— O que é isso, senhor?

— O inimigo mostra sua face. Fique perto de mim e mantenha a boca fechada.

Saindo das trevas, quatro figuras cambaleantes seguiam na direção de Nahel e Will. O ar, gelado. Nahel ainda estava tonto pela Visão da pedra de sangue e parecia vacilar. Mas, fora treinado dentro da disciplina da Ordem e, reunindo todas as suas forças, invocou as palavras de poder para gerar um escudo. O escudo, luminoso de início, fez com que os mortos vivos recuassem, mas a luz começou a se apagar, o escudo vacilou e as figuras terríveis voltaram a avançar. Estavam perdidos.

Quando Nahel se virou para o menino para mandá-lo fugir, viu que ele murmurava algo baixinho e que suas mãos, luminosas, brandiam longos chicotes de fogo. Os mortos vivos, atingidos, se incendiaram e se transformaram em cinzas enquanto guinchavam. Quando tudo silenciou, um último vento forte dissipou as nuvens, trazendo de volta a fraca iluminação da tarde, derrubando o capuz que cobria a cabeça de Will e liberando uma cascata de cabelos castanhos sobre seus ombros.

— Você...

Will tentou esconder os cabelos rapidamente, mas não conseguiu e, perturbado, se virou para o mar, dando as costas para Nahel. Ao longe, no mar, a ilha de Tribus Regum. A enigmática imagem do Lago da Profecia acabara de se concretizar. A menina de costas, a ilha ao fundo.

Nahel tinha muitas perguntas a fazer. Mas a menina estava pálida e gelada e, pela sua magreza, achou importante comerem algo primeiro. A erva-de-peregrino fez efeito enfim e, recuperando a energia habitual, Nahel levantou acampamento num local seguro, fez fogueira e assou um coelho. Will, se era este mesmo seu nome, seguia muda, mas seus olhos brilharam a vista da refeição.

Enquanto ela comia, Nahel perguntou:

— Will é mesmo seu nome?

— Por que eu deveria responder a suas perguntas se nunca respondeu a nenhuma das minhas?

Palavras petulantes, porém era uma colocação justa.

— Tem razão. O dono da taberna não me viu porque eu tinha lançado sobre mim um encantamento para ficar invisível. Não sou um fantasma, nem um morto vivo. Não conjurei a pedra, aquilo foi uma Visão, ou deveria ser. Meu nome é Nahel. Para as outras respostas, preciso de sua ajuda.

A menina parece ter achado as respostas satisfatórias.

— Meu nome é Willow.

— Quem são seus pais, Willow?

— Minha mãe morreu no parto. Meu pai morreu ano passado.

— Quantos anos você tem? Há alguém que possa cuidar de você?

— Tenho doze. Eu cuido de mim mesma.

Ela era só e estava na defensiva.

— O chicote de fogo no cemitério... você já tinha feito antes?

— Meu pai me disse para nunca falar sobre isto com ninguém. Mas você conjurou o escudo e fez aquela visão da pedra vermelha. Talvez seja como eu.

— Sou um mago.

— Eu não sei o que sou. Mas sempre fiz coisas estranhas, sem saber como.

— E, desde quando você se veste de menino?

— Uma madrugada meu pai me acordou, me deu o pouco dinheiro que tínhamos e me mandou embora. Disse que eu não estava segura em casa. Alguns dias depois, seu espírito veio se despedir de mim e eu soube que estava só. Resolvi me vestir de menino porque achei mais seguro.

— Seu pai também tinha poderes como os seus?

— Não. Mas ele nunca se importou com isso. Ele só queria que eu estivesse em segurança.

Isso era impressionante. Nahel era um mago muito experiente e um dos mais poderosos dentre seus irmãos. Mas suas habilidades vieram de extenso estudo e treino. Por outro lado, aquela menina utilizava o poder com naturalidade, era uma parte dela. E sua magia tinha força e controle. Teria ela tido acesso a Tabula Terrae e por isso apareceu na visão da profecia? E, finalmente, o que a teria ameaçado e causado a morte de seu pai?

— Willow, eu procuro um artefato poderoso. Uma tábua cor de terra. Você já viu algo assim?

Ela balançou a cabeça, negando.

— Nem na casa de seu pai? Talvez seja um livro.

— Não sei ler e meu pai também não sabia. Não tínhamos nenhum livro em casa. Mas se quiser ir até lá e procurar, mostro o caminho.

Talvez não fosse um livro, talvez estivesse escondido, enterrado. Podia ser uma pedra entalhada. Podia ser um lugar. A única certeza era sua conexão com Willow e por isso, Nahel concordou.

— E você? Como se tornou um mago?

Willow tinha terminado de comer, e se enrolava em sua velha capa com capuz.

— Quando criança, fui acolhido por uma irmandade e lá estudei magia.

— Mas, você era como eu? Foi aprender magia porque fazia coisas estranhas?

— Não, no meu caso, era diferente: eu não sabia nada. Fui lá para aprender.

— Mas eu também não sei nada. Lá é como uma escola? Tem meninas também?

— Não, não é nada como uma escola. E não tem meninas.

Nahel nunca tinha pensado nisso. “Perguntas estranhas, menina estranha...”, pensou, enquanto via que os olhos da menina pesavam e ela estava sendo vencida pelo sono.

— Bom, se não tem meninas parece muito com uma escola. — Foram suas últimas palavras, antes de mergulhar em um sono pesado.

Após cinco dias de viagem, aproximavam-se de seu destino: a antiga casa de Willow. Nahel tinha pressa em achar a Tabula Terrae. Fosse o que fosse aquilo que os atacara no cemitério, não iria desistir. Certamente só não atacara novamente porque os mortos vivos foram destruídos. Mas sempre haveria mais cemitérios, com cadáveres que poderiam ser reanimados, ou seja, um novo ataque era só questão de tempo.

Estavam cavalgando rapidamente, Willow era uma amazona habilidosa. Paravam brevemente no início da tarde para uma refeição leve e ao anoitecer, para jantar e dormir. No mais, havia apenas a estrada passando rapidamente sob as patas dos cavalos. À noite, Willow sempre tinha inúmeras perguntas sobre a Ordem e a puxada marcha diurna não parecia ter nenhum efeito sobre sua curiosidade. Ela pareceu decepcionada com a informação de que não havia meninas entre os aprendizes, embora não surpresa, afinal, o mundo era assim. Mas o que lhe causou surpresa foi a quantidade de coisas que era necessário estudar para fazer magia. Ela nunca havia precisado ler, embora desejasse aprender de todo coração.

Esta confissão viera acompanhada de tanta tristeza, que Nahel se comoveu e se dispôs a ensinar-lhe as letras. O momento não era ideal, havia urgência em encontrar Tabula Terrae e se colocarem em segurança, mas Nahel mostrou a ela um pequeno texto que todo aprendiz precisava memorizar e explicou-lhe o sentido daquelas palavras. Para sua surpresa, ela aprendeu rápido e estava quase concluindo seu estudo. Pena não ter à mão todo o material obrigatório aos aprendizes. Willow faria certamente bom uso desse conhecimento.

Um dia, ao entardecer, Nahel deixou Willow fazendo fogo enquanto ia caçar algo para comer. A caça naquela região era farta e ele não demorou a voltar com uma lebre nas mãos. Encontrou Willow conversando com uma pequena senhora com porte de rainha, diante da fogueira. Ao notá-lo, a senhora olhou para ele muito séria, fez um estranho gesto com as mãos e desapareceu.

— Quem era ela?

— Ela é a rainha do povo antigo.

— Que povo antigo é este de que você fala?

— São as pessoas pequenas da floresta, seres mágicos, com sangue de árvore.

“Seriam os duendes, descendentes do homúnculo criado pelo próprio Hermes?”

— Não sei se foram feitos por Hermes. Sei que são bondosos e são mais velhos do que parecem.

Nahel tomou um susto. Willow lera seus pensamentos, sem sequer notar.

— Você sempre fala com ela?

— Às vezes. Não é comum. Falo mais com as outras meninas do povo fada. Elas gostam de brincar.

Willow tinha o dom de deixá-lo atordoado. Nahel já havia observado nos últimos dias que ela não era uma garota comum. Ela parecia ter uma ligação muito próxima com as forças da natureza. Os animais se aproximavam dela, sem medo, mesmo os mais selvagens e arredios. Ele a surpreendera uma vez brincando com o vento: ela movimentava o ar a sua vontade, direcionando a brisa, controlando sua intensidade. E agora, ele descobriu que ela lia pensamentos e conversava com as fadas.

Numa outra noite, após comerem, Willow voltou ao texto que estava estudando.

— Não entendo esta Lei da Polaridade. Fale mais sobre ela, por favor.

— Você já ouviu falar que os opostos se atraem?

— Sim.

— Mas é mais do que isto na verdade. Mais do que se atraírem, os opostos se criam mutuamente. A luz faz nascer a escuridão e é da escuridão que surge a luz. Um extremo traz em si a semente do seu oposto.

— É o mesmo que a Lei do Gênero?

— Não. A Lei do Gênero diz que as energias masculinas e femininas estão em tudo, em toda a Criação.

Willow parecia confusa.

— Menos na sua irmandade.

— Como assim?

— Não há meninas. A Lei do Gênero não funciona lá.

Aquilo parecia errado, mas antes que pudesse pensar numa resposta, um forte vento inesperado apagou a fogueira e os mergulhou numa escuridão tenebrosa. Desta vez, Nahel não estava debilitado por nenhuma visão maligna e, rapidamente, conjurou um círculo de fogo ao redor deles.

— Círculo de fogo, Nahel? Que coisa mais básica. Esperava mais de você.

Nahel congelou. Aquela voz. Não podia ser.

— Sim, Nahel. Sou eu. Ficou tão feliz em ficar com meu lugar na Ordem que se apressou em me esquecer... irmão?

— Nicodemus... o que faz aqui? Por que não retornou para nós? Pensamos que tinha morrido.

— É muito fácil enganar quem pensa que sabe tudo. Por que eu voltaria para a Ordem? Para ser impedido de explorar a potência máxima de meus poderes?

Nahel lutava para acreditar que seu amigo, seu antigo mentor, fora consumido desta forma pela ganância, pela fome de poder. Ele traíra a Ordem, ele usara a sabedoria sagrada, que jurara proteger, de forma maligna.

— Nicodemus, amigo... O que fez?

— Não ouse me chamar de amigo. Fomos irmãos em outro tempo, quando estava conformado em ser medíocre. Mas me libertei. E assim, estou a um passo de obter a Pedra Filosofal, um feito jamais conquistado por ninguém. Isto jamais seria possível dentro da Ordem, obedecendo a todas suas limitações tolas.

— Mas, a que custo? O fluxo de magia está comprometido.

Nahel só podia imaginar as iniquidades que Nicodemus havia realizado para levantar os mortos, o quanto de sua própria alma teve que ser sacrificada para obter aquilo.

— Ah, mas a magia não sumirá do mundo, Nahel. Ela estará concentrada, contida na Pedra Filosofal. Na minha Pedra.

Enquanto Nicodemus exibia a repugnante pedra cor de sangue, o círculo de fogo vacilava e Nahel sentia sua energia sendo drenada. Saindo do meio das árvores, mortos vivos se aproximavam.

— E tudo isto para quê, Nicodemus? Para ter um infame exército de mortos? É isto que você busca?

— Não. Quero a perfeição. Quer criar seres humanos, como o próprio Deus. Quero ressuscitar os mortos, quero a vida eterna.

— E o que você quer de mim? Por que me persegue?

— De você? Nada. Você só apareceu em meu caminho e deve ser retirado agora. O que busco é a garota.

Nahel olhou surpreso para Willow, que acompanhava a conversa muda de espanto.

— A Pedra levanta os mortos, mas não perfeitamente. Eles são frágeis. Ainda falta algo, o sacrifício supremo. É preciso o mais puro sangue mágico. Sangue de fada. Sabe como é difícil arrumar sangue de fada? Sim, porque fadas não tem sangue. Descobri isso depois de matar algumas e elas não morrem facilmente. Seria preciso achar algum mestiço. E, Nahel, como há mestiços! Essas fadas não parecem se importar com a pureza de linhagem e coisas do tipo. Ah, desculpe, estou me estendendo demais sobre este assunto?

Nahel se contorcia, tentando resguardar suas forças, lutando contra a pedra pulsante que sugava toda sua energia.

— Então, como ia dizendo, eu precisava de um mestiço de fada e humano, mas não qualquer um: tinha que ser um mestiço em que a magia estivesse preservada. E, adivinha quem cumpre estes requisitos? Esta menina remelenta.

— Meu pai... – a voz se Willow parecia sair com dificuldade.

— É, seu pai se recusou a me ajudar. Insistiu em dizer que a filha e a esposa morreram no parto. Foi bem convincente até. Mas não vi motivo para mantê-lo vivo. Continuei seguindo suas pistas, mas você tem sido muito comedida no uso de seus poderes, o que a tornou difícil de rastrear. Tanta relutância em abraçar o poder... se a Ordem aceitasse meninas você seria uma excelente adição. Você é igualzinha a eles.

Agora o círculo de fogo estava extinto. Nicodemus se aproximou de Willow, lentamente, acompanhado pelos mortos vivos. Muitos deles.

— Ah, posso sentir. Esta magia pura que corre em seu sangue. E aquele chicote de fogo no cemitério?! Muito impressionante. Mas agora não vai funcionar.

Willow tentou se mover, sem sucesso. Correntes invisíveis a imobilizavam. Nicodemus posicionou a pedra sob a jugular de Willow e aproximou seu punhal afiado.

— E agora, meu momento de glória. — disse Nicodemus. E começou a cantar palavras estranhas, numa língua esquecida.

“Seus poderes! Use-os! Agora!”.

Através do desespero, o pensamento de Nahel ecoou em sua mente e Willow percebeu que seus pés, nus, estavam em contato com o chão. Ela era parte da floresta, ela era parte de cada pedra, de cada animal, seu espírito era parte do grande espírito selvagem. Através de seus pés, sentiu o cervo que corria e o broto que rompia o chão. Rapidamente, ela direcionou sua energia vital para o alto, em direção ao topo da cabeça e depois para o chão e, em silêncio, gritou por socorro.

O chão, então, tremeu e a lâmina vacilou. O corte, que deveria ser fatal, apenas fez gotejar sangue sobre a pedra. Nicodemus observava a pedra manchada do sangue viscoso, cheio de expectativa, e nem percebeu a matilha que se aproximou e os lobos que atacavam seu exército amaldiçoado. Só tinha olhos para a pedra que, contrariando sua expectativa, começou a parar de pulsar até se tornar cinza e virar pó.

— Nãããão!!!! Não pode ser!

Nahel estava se levantando, recuperando o ar agora que a pedra tinha sido destruída. Willow, apertava o corte aberto em seu pescoço. Enquanto a pedra se desfazia, a magia cintilava com tanta força que era visível aos olhos, como flocos de neve subindo aos céus.

Neste exato momento, na Pirâmide Invertida, Venerável sentiu o chão tremer e o impacto da magia no ar. Sorriu. “Nahel teve sucesso em sua missão”.

— Não era o que esperava, homem-sombra?

Era a senhora, a rainha fada, que surgia acompanhada de um grande cervo.

— Sangue mágico tem muitos poderes, de fato. Mas o principal deles é eliminar o mal. Você se esqueceu disto?

— Faltou o sacrifício, o sangue tinha que ser dado em sacrifício.

— Sim, tinha que ter sido um sacrifício. Mas não foi.

Num último movimento desesperado, Nicodemus avançou com o punhal sobre a rainha do povo antigo, mas, antes que pudesse se aproximar, o grande cervo se adiantou e sua galhada atravessou o peito de Nicodemus, que caiu sem vida.

— Verdade é que nós, fadas, não morremos facilmente.

Sorriu para Willow e estendeu a mão sobre o corte em sua garganta, que fechou instantaneamente.

— Minha filha.

— Mãe?

— Sinto muito, não sou sua mãe, não como você imagina. Mas sou mãe de todo meu povo e sua mãe era do meu povo, de sangue antigo. Ela não resistiu ao parto, seu pai disse a verdade. Era um homem bom. Já pensei uma vez em trazê-la para meu mundo. Mas não seria o correto. Seu lugar é aqui. Não aqui, exatamente. – Emendou, olhando para Nahel.

— Você, filho de Adão, veio procurando por algo. Compreende agora o que era isso que buscava?

Sim, ele entendia. Esteve debaixo de seu nariz o tempo todo. A profecia foi absurdamente clara, quase didática. Era Willow. Ela era Tabula Terrae. Não um artefato que continha magia, mas uma pessoa pura e mágica em sua essência, com uma conexão sinergética com a terra. Ela era o instinto, que complementa o conhecimento.

— E agora, filho de Adão? O que será da menina?

— Eu vim para buscar Tabula Terrae e levá-la para a Ordem, pensando se tratar de uma coisa. Mas, se Willow quiser, posso manter este plano. Na Ordem ela estaria protegida.

— Verdade? Mas o que eu faria lá? — Willow perguntou, numa voz cheia de expectativa.

— O mesmo que todos os aprendizes: aprender e ensinar.

— Mas, achei que não houvesse meninas lá.

— Agora há. Nunca é tarde para corrigir um erro e você tem razão quanto à Lei do gênero. Nós não vimos nosso erro, tal como não se veem as próprias costas.

— Posso mesmo ir? Serei benvinda?

Nahel lembrou-se de Venerável e de seu olhar bondoso quando o levou para dentro da Pirâmide, para junto dos demais aprendizes.

— Sem dúvida. E então, o que decide?

Willow sorriu. Pela primeira vez, via alguma coisa ao perscrutar seu próprio futuro e gostou do que viu: uma maga, uma bruxa, uma fada, uma cavaLeira, uma mestra de Mistérios. Uma Herdeira de Trismegisto.

— Vamos para casa!

Sempre houve 33 = sempre se houveram trinta e três

Prólogo

Epílogo

Conto

Nahel montou acampamento na base de uma pequena colina, protegido do vento e longe o bastante do lago para ficar fora do caminho de animais noturnos sedentos. Acendeu uma fogueira, molhou um pedaço de pão duro no vinho e comeu com apetite. Estava viajando havia dias, desde Alexandria com destino a Aquitânia. Seu destino, porém, continuava tão obscuro quanto no dia de sua última conversa com Venerável.

Era raro que Venerável, que ocupava a mais alta posição na hierarquia da Ordem dos Herdeiros de Trismegisto, externasse suas preocupações e inseguranças. Quase tão velho quanto o tempo, era uma figura mítica. Entre os neófitos corria a história de que ele confabulava livremente com o próprio Hermes Trismegisto durante seus períodos de reclusão. Porém, entre Nahel e Venerável havia uma relação próxima e afetuosa, o que permitiu que o ancião o pusesse a par de suas aflições.

Naquele dia, meses atrás, foi convocado aos aposentos de Venerável assim que chegara à Pirâmide Invertida e Nahel recordava cada palavra daquela conversa.

— Conte-me, filho. O que viu?

Aquela voz sempre teria o poder de transformá-lo num menino, não importava quantos anos se tivessem passado. Apesar de não ser filho de sangue daquele ancião, sentia-se acolhido em sua presença. Sempre fora assim, desde que chegara até ele, trazido pela mão por uma mãe com bocas demais para alimentar. A Ordem contava com apenas 33 membros, mas havia inúmeros aprendizes sob sua proteção. Todos eram acolhidos, alimentados e educados. Alguns, mais talentosos, eram treinados para servirem como auxiliares da Ordem. A grande maioria, porém, saía em alguns anos e se tornavam ferreiros, marceneiros, músicos, padeiros, curandeiros, levando em sua bagagem e memória afetiva canções e histórias que mantinham as tradições herméticas circulando no mundo dos homens comuns. Poucos acabavam sendo admitidos como Irmãos, como foi o caso de Nahel.

Tornar-se membro da Ordem dos Herdeiros de Trismegisto requeria uma mistura de talento, estudos intensos e sorte. Desde sua fundação pela Tripla Legião Luminosa, sempre houveram trinta e três membros na Ordem. Um novo membro só era admitido se houvesse uma vaga, de forma que muitos discípulos extremamente talentosos terminaram seus dias como meros auxiliares. Nahel teve sorte. Quando estava para completar seu segundo ano como ajudante de serviços gerais, o grande Nicodemus, seu mentor e amigo, caiu em meio a uma sangrenta batalha; seu corpo, carbonizado. Sua vaga foi destinada a Nahel por decisão unânime e assim, ele começou seu caminho iniciático, num misto de alegria, por si, e tristeza pela perda de Nicodemus. E, sem dúvida, uma grande porção de culpa irracional, afinal, se ele não tivera qualquer responsabilidade pela partida de Nicodemus, por outro lado, fora beneficiado por sua morte.

Nos últimos anos a missão de Nahel e de alguns outros irmãos de Ordem foi vagar pelo mundo conhecido, estabelecer alianças com o Império Romano e com líderes de povos antigos. Manter a Ordem viva no mundo material e patrulhar as linhas de força do planeta.

— Como estão as linhas de poder? Estou velho e os anos pesam. Não me faça esperar pelas informações e não tente adoçá-las.

Não era possível deixar de contar a ele toda a verdade, pois ela, como sempre, parecia ser atraída por aqueles olhos cristalinos.

— Percorri as principais linhas de poder do continente. A magia flui, mas parece estar diluída, até se esgarçando em alguns pontos. Outros irmãos, vindos do Extremo Oriente e do Norte reportaram o mesmo. No Oeste, porém o Poder parece ainda intocado.

— No Oeste... Você me falou do que descobriu de suas andanças. E seus dons, o que revelaram?

— Chamei a visão enquanto tocava o solo perto do Círculo de Pedra de Thorius, um dos locais em que a magia estava esgarçada. Vi mãos cadavéricas rasgando o chão e uma pedra cor de sangue bebendo o mundo.

— A Pedra Filosofal.

— Mas, a Pedra Filosofal está na Dimensão Etérea, junto a Árvore da Vida!

— Sim, a verdadeira Pedra está lá. Mas a ambição vaidosa de recriá-la continua viva. Muitas tentativas foram feitas ao longo dos séculos, todas sem sucesso. Mas me parece que alguém tentou um movimento mais audacioso e com repercussões desastrosas, que prejudicou o fluxo natural da magia.

— Mas, somente um alquimista poderia fazer algo parecido. E nenhum de nós, Herdeiros de Trismegisto faria algo assim. Conhecemos as Leis universais.

— Com certeza não foi ninguém da Ordem, mas alguém pode ter tido acesso a nossos segredos e é por isso que mandei chamá-lo.

Venerável levantou-se e, com um gesto, pediu que Nahel o seguisse até uma bacia prateada. O Lago do Oráculo. Feita com metal extraído de uma estrela caída e cheia da água do lago cósmico que abriga a Árvore da Vida, guardava todas as profecias do mundo.

— Olhe, e me diga o que vê.

Seus olhos repousaram sobre a superfície transparente da água sagrada, que tremulou e, aos poucos, uma imagem se formou. Nahel viu uma tábua, que de início lhe pareceu a Tábua Esmeralda, porém feita de terra, oculta na escuridão em um campo ermo e ignorada por todos. Então, uma mão adornada com o anel iniciático da Ordem a tocava e a tábua se erguia, crescia e se iluminava até ser vista desde a Pirâmide Invertida até os confins da Terra. Ela restaurava a magia, que cintilava novamente no mundo, e ia diminuindo até tomar as dimensões de um livro e ser guardada e protegida dentro da Pirâmide. Em seguida, ele viu uma pedra vermelha se desfazer em pó. Depois, a visão mudou e ele via o mar e as costas de uma menina de longos cabelos castanhos que observava as ondas.

Venerável ouviu de olhos fechados e, por fim, falou.

— Esta tábua cor de terra, Tabula Terrae, é o que buscamos. Ela pode corrigir o mal causado pela ambição. Em sua visão, quando apareceu a menina olhando o mar, viu também uma ilha com três montes gêmeos?

Nahel assentiu.

— É a ilha de Tribus Regum, no litoral da Aquitânia. É para lá que deve ir, para o oeste, resgatar este artefato e trazê-lo em segurança para cá.

— Por que eu, Venerável?

— Porque, como a magia está comprometida, é necessário usá-la o mínimo possível fora da proteção da Pirâmide Invertida ou dos outros espaços da Ordem. E, dentre toda nossa irmandade, você é o que menos se apoia na magia.

E agora, diante da fogueira noturna, Nahel se preparava para dormir. Já estava na Aquitânia e a apenas um dia de viagem da faixa litorânea de onde era possível avistar Tribus Regum, a ilha dos Três Reis. Mas ainda não fazia a menor ideia de como encontrar a Tabula Terrae. A Tabua Esmeralda é espetacular. Nahel a vira uma única vez, mas seus olhos jamais esqueceriam. Uma grossa lâmina da esmeralda mais pura, sem qualquer mancha ou veio, lisa e luminosa. Gravada em sua superfície com letras perfeitamente esculpidas, as bases da alquimia sagrada, escritas por Hermes Trismegisto. Seria a Tabula Terrae igualmente magnífica?

Já há vários dias Nahel evitava usar a magia. Mas, resolveu perscrutar as chamas da fogueira. Invocou mentalmente o poder das salamandras e silenciou os pensamentos. Mas, ao olhar para dentro do fogo só viu a menina, seus cabelos castanhos e o mar.

Ao final do dia, Nahel chegou ao vilarejo de onde se via Tribus Regum. Ainda sem saber o que procurava, esta localização ao menos parecia promissora. Os outros quatro vilarejos que se voltavam para aquela ilha ou tinham a vista bloqueada por outra ilha ou estavam posicionadas sobre uma falésia. Somente lá era possível ver a ilha a partir da areia, como o Lago havia mostrado.

Nahel foi até a taberna. Seu plano era se fazer invisível e ouvir as conversas. Poderia encontrar assim alguma pista. Entregou seu cavalo aos cuidados de um menino magrela.

— Comporte-se, Daimonas.

Mas, para sua surpresa, o temperamental cavalo seguiu o menino docilmente e aceitou o afago em sua crina negra e uma porção de aveia. Observou enquanto o menino falava com o cavalo. Ele parecia saber o que fazia e Daimonas estava sendo bem tratado.

Dentro da taberna, pediu uma caneca de cerveja e se sentou numa mesa de canto, próximo a uma janela, antes de invocar um feitiço de invisibilidade. Estava protegido de olhares curiosos e poderia ouvir à vontade os assuntos que circulavam naquele lugar.

Durante algum tempo, desfrutou da cerveja e se inteirou das fofocas da região, da colheita de cevada, dos animais que morreram e nasceram e do mau temperamento do dono da taberna. Até que uma voz que se elevava chamou sua atenção.

— Duvidam de minhas palavras, idiotas? Pois vejam os túmulos abertos com seus próprios olhos! Os mortos andam, é o que eu digo!

— Acho mais provável que você tenha bebido demais, velho.

— Ontem foi um túmulo, hoje mais três. Vão ao cemitério e vejam!

— Alguém deve estar roubando os túmulos. Alguém que esteja precisando mais do que os mortos.

— Mas e os corpos? Sumiram!

— Já devem ter virado pó. Agora cala a boca e me deixe beber em paz.

A voz do velho foi abafada pela zombaria, mas Nahel sabia que ele estava certo. Foi a visão que tivera em Thorius, perto do círculo de pedra. Mortos saindo do túmulo.

— Mais cerveja, senhor? Temos também um pouco de assado e pão fresco.

Nahel olhava espantado para o menino franzino que tinha cuidado de Daimonas e agora estava parado a seu lado, oferecendo as opções do dia. Como ele o via, através do encantamento de invisibilidade? Impossível.

— Menino estúpido! Eu o pago para cuidar dos animais e servir as mesas e não para olhar pela janela. Vá cuidar dos clientes ou jogo você de volta para a rua. Inútil!

Acompanhando estas palavras, seguiu-se um violento tapa na cabeça e foi a vez do menino olhar aturdido para Nahel e para o furioso dono da taberna, percebendo que este não via o estranho. Afastou-se, relutante, ainda olhando para Nahel sem compreender e foi buscar mais cerveja para a mesa do lado, esfregando a cabeça coberta por um capuz muito velho.

Nahel checara a principal linha de poder daquela região assim que pisara na Aquitânia e ela estava intacta. Mas talvez ela tivesse começado a esgarçar agora, o que explicaria a falha no seu encantamento. De qualquer forma, sentia que o tempo urgia. Deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu da taberna. Encontrou o estranho menino cuidando de um burrico.

— Senhor... por que Manus não o enxergou? Só eu o vejo? É um fantasma?

Sentindo-se culpado pelo tapa e pela repreensão que o menino levou tão injustamente por sua causa, entregou a ele uma moeda de prata e partiu com Daimonas sem dizer palavra. Enquanto o observava se afastar, de olhos arregalados, o menino pensava que fantasmas não carregavam prata de verdade em seus bolsos.

No cemitério, Nahel constatou que o velho bêbado dissera a verdade. Quatro túmulos vazios, revirados e afundados sobre si mesmos.  Se alguém tivesse cavado os túmulos para saqueá-los, seria de esperar um monte de terra ao lado e a sepultura inteiramente aberta. Mas, daquele jeito, parecia que haviam saído da terra por conta própria. Seja lá o que tivesse acontecido, não deve ter havido testemunhas. De um lado do cemitério havia uma colina íngreme e do outro lado, mais adiante, a areia e o mar.

Tocou o chão. Sentiu o poder, a magia, mas ela estava diferente. Não era a magia que estava acostumado a buscar, sua velha amiga. Era uma outra face, oculta, obscura que se mostrava. Invocou a Visão e, ao invés de imagens, sentiu a terra tremer e se viu diante da grande pedra cor de sangue que tragava tudo a seu redor. Sentiu-se tragar também, mas teve a visão interrompida por um grito de horror. Despertou do transe e viu diante de si o menino da taberna.

— Senhor! Volte! Afaste-se dessa pedra maligna!

— Você de novo, menino? Está me seguindo? Como me alcançou?

— Vim pelo atalho do povo antigo. Eu imaginei que o senhor viria aqui porque estava prestando muita atenção na conversa do velho Tuck. O senhor é um morto vivo? Que pedra era aquela? Porque o senhor a conjurou? Qual o seu nome? Todos me chamam de Will.

A cabeça de Nahel doía horrivelmente. Era normal para os iniciantes sentirem isto após chamarem a Visão. Mas há muitos anos Nahel dominava esta arte com maestria mais do que suficiente para não sentir efeitos indesejáveis. Porém, estava claro que aquela não era uma Visão normal. E a enxurrada de perguntas do menino não estavam ajudando.

— Aqui. Masque isto, vai ajudar.

Nahel olhou para a plantinha que Will lhe estendia. Erva-de-peregrino. De fato, era uma boa ideia, mas como aquele menino podia saber disto? Além disso, Will também vira a pedra. Ele partilhara da Visão. O que significava isso? Mas antes que qualquer pergunta fosse feita ou respondida, um forte vento gelado soprou trazendo nuvens escuras e uma noite fora de hora, cheia de sons lamentosos.

— O que é isso, senhor?

— O inimigo mostra sua face. Fique perto de mim e mantenha a boca fechada.

Saindo das trevas, quatro figuras cambaleantes seguiam na direção de Nahel e Will. O ar, gelado. Nahel ainda estava tonto pela Visão da pedra de sangue e parecia vacilar. Mas, fora treinado dentro da disciplina da Ordem e, reunindo todas as suas forças, invocou as palavras de poder para gerar um escudo. O escudo, luminoso de início, fez com que os mortos vivos recuassem, mas a luz começou a se apagar, o escudo vacilou e as figuras terríveis voltaram a avançar. Estavam perdidos.

Quando Nahel se virou para o menino para mandá-lo fugir, viu que ele murmurava algo baixinho e que suas mãos, luminosas, brandiam longos chicotes de fogo. Os mortos vivos, atingidos, se incendiaram e se transformaram em cinzas enquanto guinchavam. Quando tudo silenciou, um último vento forte dissipou as nuvens, trazendo de volta a fraca iluminação da tarde, derrubando o capuz que cobria a cabeça de Will e liberando uma cascata de cabelos castanhos sobre seus ombros.

— Você...

Will tentou esconder os cabelos rapidamente, mas não conseguiu e, perturbado, se virou para o mar, dando as costas para Nahel. Ao longe, no mar, a ilha de Tribus Regum. A enigmática imagem do Lago da Profecia acabara de se concretizar. A menina de costas, a ilha ao fundo.

Nahel tinha muitas perguntas a fazer. Mas a menina estava pálida e gelada e, pela sua magreza, achou importante comerem algo primeiro. A erva-de-peregrino fez efeito enfim e, recuperando a energia habitual, Nahel levantou acampamento num local seguro, fez fogueira e assou um coelho. Will, se era este mesmo seu nome, seguia muda, mas seus olhos brilharam a vista da refeição.

Enquanto ela comia, Nahel perguntou:

— Will é mesmo seu nome?

— Por que eu deveria responder a suas perguntas se nunca respondeu a nenhuma das minhas?

Palavras petulantes, porém era uma colocação justa.

— Tem razão. O dono da taberna não me viu porque eu tinha lançado sobre mim um encantamento para ficar invisível. Não sou um fantasma, nem um morto vivo. Não conjurei a pedra, aquilo foi uma Visão, ou deveria ser. Meu nome é Nahel. Para as outras respostas, preciso de sua ajuda.

A menina parece ter achado as respostas satisfatórias.

— Meu nome é Willow.

— Quem são seus pais, Willow?

— Minha mãe morreu no parto. Meu pai morreu ano passado.

— Quantos anos você tem? Há alguém que possa cuidar de você?

— Tenho doze. Eu cuido de mim mesma.

Ela era só e estava na defensiva.

— O chicote de fogo no cemitério... você já tinha feito antes?

— Meu pai me disse para nunca falar sobre isto com ninguém. Mas você conjurou o escudo e fez aquela visão da pedra vermelha. Talvez seja como eu.

— Sou um mago.

— Eu não sei o que sou. Mas sempre fiz coisas estranhas, sem saber como.

— E, desde quando você se veste de menino?

— Uma madrugada meu pai me acordou, me deu o pouco dinheiro que tínhamos e me mandou embora. Disse que eu não estava segura em casa. Alguns dias depois, seu espírito veio se despedir de mim e eu soube que estava só. Resolvi me vestir de menino porque achei mais seguro.

— Seu pai também tinha poderes como os seus?

— Não. Mas ele nunca se importou com isso. Ele só queria que eu estivesse em segurança.

Isso era impressionante. Nahel era um mago muito experiente e um dos mais poderosos dentre seus irmãos. Mas suas habilidades vieram de extenso estudo e treino. Por outro lado, aquela menina utilizava o poder com naturalidade, era uma parte dela. E sua magia tinha força e controle. Teria ela tido acesso a Tabula Terrae e por isso apareceu na visão da profecia? E, finalmente, o que a teria ameaçado e causado a morte de seu pai?

— Willow, eu procuro um artefato poderoso. Uma tábua cor de terra. Você já viu algo assim?

Ela balançou a cabeça, negando.

— Nem na casa de seu pai? Talvez seja um livro.

— Não sei ler e meu pai também não sabia. Não tínhamos nenhum livro em casa. Mas se quiser ir até lá e procurar, mostro o caminho.

Talvez não fosse um livro, talvez estivesse escondido, enterrado. Podia ser uma pedra entalhada. Podia ser um lugar. A única certeza era sua conexão com Willow e por isso, Nahel concordou.

— E você? Como se tornou um mago?

Willow tinha terminado de comer, e se enrolava em sua velha capa com capuz.

— Quando criança, fui acolhido por uma irmandade e lá estudei magia.

— Mas, você era como eu? Foi aprender magia porque fazia coisas estranhas?

— Não, no meu caso, era diferente: eu não sabia nada. Fui lá para aprender.

— Mas eu também não sei nada. Lá é como uma escola? Tem meninas também?

— Não, não é nada como uma escola. E não tem meninas.

Nahel nunca tinha pensado nisso. “Perguntas estranhas, menina estranha...”, pensou, enquanto via que os olhos da menina pesavam e ela estava sendo vencida pelo sono.

— Bom, se não tem meninas parece muito com uma escola. — Foram suas últimas palavras, antes de mergulhar em um sono pesado.

Após cinco dias de viagem, aproximavam-se de seu destino: a antiga casa de Willow. Nahel tinha pressa em achar a Tabula Terrae. Fosse o que fosse aquilo que os atacara no cemitério, não iria desistir. Certamente só não atacara novamente porque os mortos vivos foram destruídos. Mas sempre haveria mais cemitérios, com cadáveres que poderiam ser reanimados, ou seja, um novo ataque era só questão de tempo.

Estavam cavalgando rapidamente, Willow era uma amazona habilidosa. Paravam brevemente no início da tarde para uma refeição leve e ao anoitecer, para jantar e dormir. No mais, havia apenas a estrada passando rapidamente sob as patas dos cavalos. À noite, Willow sempre tinha inúmeras perguntas sobre a Ordem e a puxada marcha diurna não parecia ter nenhum efeito sobre sua curiosidade. Ela pareceu decepcionada com a informação de que não havia meninas entre os aprendizes, embora não surpresa, afinal, o mundo era assim. Mas o que lhe causou surpresa foi a quantidade de coisas que era necessário estudar para fazer magia. Ela nunca havia precisado ler, embora desejasse aprender de todo coração.

Esta confissão viera acompanhada de tanta tristeza, que Nahel se comoveu e se dispôs a ensinar-lhe as letras. O momento não era ideal, havia urgência em encontrar Tabula Terrae e se colocarem em segurança, mas Nahel mostrou a ela um pequeno texto que todo aprendiz precisava memorizar e explicou-lhe o sentido daquelas palavras. Para sua surpresa, ela aprendeu rápido e estava quase concluindo seu estudo. Pena não ter à mão todo o material obrigatório aos aprendizes. Willow faria certamente bom uso desse conhecimento.

Um dia, ao entardecer, Nahel deixou Willow fazendo fogo enquanto ia caçar algo para comer. A caça naquela região era farta e ele não demorou a voltar com uma lebre nas mãos. Encontrou Willow conversando com uma pequena senhora com porte de rainha, diante da fogueira. Ao notá-lo, a senhora olhou para ele muito séria, fez um estranho gesto com as mãos e desapareceu.

— Quem era ela?

— Ela é a rainha do povo antigo.

— Que povo antigo é este de que você fala?

— São as pessoas pequenas da floresta, seres mágicos, com sangue de árvore.

“Seriam os duendes, descendentes do homúnculo criado pelo próprio Hermes?”

— Não sei se foram feitos por Hermes. Sei que são bondosos e são mais velhos do que parecem.

Nahel tomou um susto. Willow lera seus pensamentos, sem sequer notar.

— Você sempre fala com ela?

— Às vezes. Não é comum. Falo mais com as outras meninas do povo fada. Elas gostam de brincar.

Willow tinha o dom de deixá-lo atordoado. Nahel já havia observado nos últimos dias que ela não era uma garota comum. Ela parecia ter uma ligação muito próxima com as forças da natureza. Os animais se aproximavam dela, sem medo, mesmo os mais selvagens e arredios. Ele a surpreendera uma vez brincando com o vento: ela movimentava o ar a sua vontade, direcionando a brisa, controlando sua intensidade. E agora, ele descobriu que ela lia pensamentos e conversava com as fadas.

Numa outra noite, após comerem, Willow voltou ao texto que estava estudando.

— Não entendo esta Lei da Polaridade. Fale mais sobre ela, por favor.

— Você já ouviu falar que os opostos se atraem?

— Sim.

— Mas é mais do que isto na verdade. Mais do que se atraírem, os opostos se criam mutuamente. A luz faz nascer a escuridão e é da escuridão que surge a luz. Um extremo traz em si a semente do seu oposto.

— É o mesmo que a Lei do Gênero?

— Não. A Lei do Gênero diz que as energias masculinas e femininas estão em tudo, em toda a Criação.

Willow parecia confusa.

— Menos na sua irmandade.

— Como assim?

— Não há meninas. A Lei do Gênero não funciona lá.

Aquilo parecia errado, mas antes que pudesse pensar numa resposta, um forte vento inesperado apagou a fogueira e os mergulhou numa escuridão tenebrosa. Desta vez, Nahel não estava debilitado por nenhuma visão maligna e, rapidamente, conjurou um círculo de fogo ao redor deles.

— Círculo de fogo, Nahel? Que coisa mais básica. Esperava mais de você.

Nahel congelou. Aquela voz. Não podia ser.

— Sim, Nahel. Sou eu. Ficou tão feliz em ficar com meu lugar na Ordem que se apressou em me esquecer... irmão?

— Nicodemus... o que faz aqui? Por que não retornou para nós? Pensamos que tinha morrido.

— É muito fácil enganar quem pensa que sabe tudo. Por que eu voltaria para a Ordem? Para ser impedido de explorar a potência máxima de meus poderes?

Nahel lutava para acreditar que seu amigo, seu antigo mentor, fora consumido desta forma pela ganância, pela fome de poder. Ele traíra a Ordem, ele usara a sabedoria sagrada, que jurara proteger, de forma maligna.

— Nicodemus, amigo... O que fez?

— Não ouse me chamar de amigo. Fomos irmãos em outro tempo, quando estava conformado em ser medíocre. Mas me libertei. E assim, estou a um passo de obter a Pedra Filosofal, um feito jamais conquistado por ninguém. Isto jamais seria possível dentro da Ordem, obedecendo a todas suas limitações tolas.

— Mas, a que custo? O fluxo de magia está comprometido.

Nahel só podia imaginar as iniquidades que Nicodemus havia realizado para levantar os mortos, o quanto de sua própria alma teve que ser sacrificada para obter aquilo.

— Ah, mas a magia não sumirá do mundo, Nahel. Ela estará concentrada, contida na Pedra Filosofal. Na minha Pedra.

Enquanto Nicodemus exibia a repugnante pedra cor de sangue, o círculo de fogo vacilava e Nahel sentia sua energia sendo drenada. Saindo do meio das árvores, mortos vivos se aproximavam.

— E tudo isto para quê, Nicodemus? Para ter um infame exército de mortos? É isto que você busca?

— Não. Quero a perfeição. Quer criar seres humanos, como o próprio Deus. Quero ressuscitar os mortos, quero a vida eterna.

— E o que você quer de mim? Por que me persegue?

— De você? Nada. Você só apareceu em meu caminho e deve ser retirado agora. O que busco é a garota.

Nahel olhou surpreso para Willow, que acompanhava a conversa muda de espanto.

— A Pedra levanta os mortos, mas não perfeitamente. Eles são frágeis. Ainda falta algo, o sacrifício supremo. É preciso o mais puro sangue mágico. Sangue de fada. Sabe como é difícil arrumar sangue de fada? Sim, porque fadas não tem sangue. Descobri isso depois de matar algumas e elas não morrem facilmente. Seria preciso achar algum mestiço. E, Nahel, como há mestiços! Essas fadas não parecem se importar com a pureza de linhagem e coisas do tipo. Ah, desculpe, estou me estendendo demais sobre este assunto?

Nahel se contorcia, tentando resguardar suas forças, lutando contra a pedra pulsante que sugava toda sua energia.

— Então, como ia dizendo, eu precisava de um mestiço de fada e humano, mas não qualquer um: tinha que ser um mestiço em que a magia estivesse preservada. E, adivinha quem cumpre estes requisitos? Esta menina remelenta.

— Meu pai... – a voz se Willow parecia sair com dificuldade.

— É, seu pai se recusou a me ajudar. Insistiu em dizer que a filha e a esposa morreram no parto. Foi bem convincente até. Mas não vi motivo para mantê-lo vivo. Continuei seguindo suas pistas, mas você tem sido muito comedida no uso de seus poderes, o que a tornou difícil de rastrear. Tanta relutância em abraçar o poder... se a Ordem aceitasse meninas você seria uma excelente adição. Você é igualzinha a eles.

Agora o círculo de fogo estava extinto. Nicodemus se aproximou de Willow, lentamente, acompanhado pelos mortos vivos. Muitos deles.

— Ah, posso sentir. Esta magia pura que corre em seu sangue. E aquele chicote de fogo no cemitério?! Muito impressionante. Mas agora não vai funcionar.

Willow tentou se mover, sem sucesso. Correntes invisíveis a imobilizavam. Nicodemus posicionou a pedra sob a jugular de Willow e aproximou seu punhal afiado.

— E agora, meu momento de glória. — disse Nicodemus. E começou a cantar palavras estranhas, numa língua esquecida.

“Seus poderes! Use-os! Agora!”.

Através do desespero, o pensamento de Nahel ecoou em sua mente e Willow percebeu que seus pés, nus, estavam em contato com o chão. Ela era parte da floresta, ela era parte de cada pedra, de cada animal, seu espírito era parte do grande espírito selvagem. Através de seus pés, sentiu o cervo que corria e o broto que rompia o chão. Rapidamente, ela direcionou sua energia vital para o alto, em direção ao topo da cabeça e depois para o chão e, em silêncio, gritou por socorro.

O chão, então, tremeu e a lâmina vacilou. O corte, que deveria ser fatal, apenas fez gotejar sangue sobre a pedra. Nicodemus observava a pedra manchada do sangue viscoso, cheio de expectativa, e nem percebeu a matilha que se aproximou e os lobos que atacavam seu exército amaldiçoado. Só tinha olhos para a pedra que, contrariando sua expectativa, começou a parar de pulsar até se tornar cinza e virar pó.

— Nãããão!!!! Não pode ser!

Nahel estava se levantando, recuperando o ar agora que a pedra tinha sido destruída. Willow, apertava o corte aberto em seu pescoço. Enquanto a pedra se desfazia, a magia cintilava com tanta força que era visível aos olhos, como flocos de neve subindo aos céus.

Neste exato momento, na Pirâmide Invertida, Venerável sentiu o chão tremer e o impacto da magia no ar. Sorriu. “Nahel teve sucesso em sua missão”.

— Não era o que esperava, homem-sombra?

Era a senhora, a rainha fada, que surgia acompanhada de um grande cervo.

— Sangue mágico tem muitos poderes, de fato. Mas o principal deles é eliminar o mal. Você se esqueceu disto?

— Faltou o sacrifício, o sangue tinha que ser dado em sacrifício.

— Sim, tinha que ter sido um sacrifício. Mas não foi.

Num último movimento desesperado, Nicodemus avançou com o punhal sobre a rainha do povo antigo, mas, antes que pudesse se aproximar, o grande cervo se adiantou e sua galhada atravessou o peito de Nicodemus, que caiu sem vida.

— Verdade é que nós, fadas, não morremos facilmente.

Sorriu para Willow e estendeu a mão sobre o corte em sua garganta, que fechou instantaneamente.

— Minha filha.

— Mãe?

— Sinto muito, não sou sua mãe, não como você imagina. Mas sou mãe de todo meu povo e sua mãe era do meu povo, de sangue antigo. Ela não resistiu ao parto, seu pai disse a verdade. Era um homem bom. Já pensei uma vez em trazê-la para meu mundo. Mas não seria o correto. Seu lugar é aqui. Não aqui, exatamente. – Emendou, olhando para Nahel.

— Você, filho de Adão, veio procurando por algo. Compreende agora o que era isso que buscava?

Sim, ele entendia. Esteve debaixo de seu nariz o tempo todo. A profecia foi absurdamente clara, quase didática. Era Willow. Ela era Tabula Terrae. Não um artefato que continha magia, mas uma pessoa pura e mágica em sua essência, com uma conexão sinergética com a terra. Ela era o instinto, que complementa o conhecimento.

— E agora, filho de Adão? O que será da menina?

— Eu vim para buscar Tabula Terrae e levá-la para a Ordem, pensando se tratar de uma coisa. Mas, se Willow quiser, posso manter este plano. Na Ordem ela estaria protegida.

— Verdade? Mas o que eu faria lá? — Willow perguntou, numa voz cheia de expectativa.

— O mesmo que todos os aprendizes: aprender e ensinar.

— Mas, achei que não houvesse meninas lá.

— Agora há. Nunca é tarde para corrigir um erro e você tem razão quanto à Lei do gênero. Nós não vimos nosso erro, tal como não se veem as próprias costas.

— Posso mesmo ir? Serei benvinda?

Nahel lembrou-se de Venerável e de seu olhar bondoso quando o levou para dentro da Pirâmide, para junto dos demais aprendizes.

— Sem dúvida. E então, o que decide?

Willow sorriu. Pela primeira vez, via alguma coisa ao perscrutar seu próprio futuro e gostou do que viu: uma maga, uma bruxa, uma fada, uma cavaLeira, uma mestra de Mistérios. Uma Herdeira de Trismegisto.

— Vamos para casa!

Sempre houve 33 = sempre se houveram trinta e três

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