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Somos a resistência
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Somos a resistência

Alec Silva
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Somos a resistência
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Desde criança, ao olhar para o céu, meus olhos se

encantavam com os helicópteros e os drones que sobrevoavam

a favela. Havia algo de maravilhoso, mágico, naquelas

máquinas acima de nossas cabeças, principalmente à noite.

Mas um dia, dos céus, dos objetos que eu tanto adorava

olhar a passagem, vieram fogo e morte.

Na época, não tinha como eu saber o que estava em

jogo. Hoje, sei que foi mais do que uma questão política.

Muita gente imaginou que o prefeito, pressionado

pelas empresas ou querendo agradar aos empresários, sancionou

leis duras de higienização.

Primeiro, policiais e bombeiros varreram das ruas

dos bairros nobres e de classe média os drogados; houve

inúmeras comemorações, mas também houve pequenas manifestações

dos direitos humanos, exigindo que as pessoas

removidas das calçadas e casas abandonadas fossem levadas

a centros de saúde especializados no tratamento de dependentes

químicos. No fim, ninguém nunca soube para onde

foi tanta gente — e nem mesmo a oposição política pareceu

preocupada em descobrir.

A seguir, muralhas foram erguidas, separando a cidade

das favelas. Medida polêmica, mas que encontrou apoio

popular absurdo. E a elite da cidade, claro, comprou muitos

apoios também. Foi durante essa etapa que chegaram o maquinário.

O projeto era nos cercar, impedindo que saíssemos ou

entrássemos. Então, antes de a muralha ser completamente

levantada, agentes da prefeitura começaram a nos “catalogar”

e controlar nossas idas e vindas. As demissões começaram:

de início, um ou dois dos moradores da favela por dia; em

uma semana, chegavam a quase trinta; no final do mês, eram

todos. Os homens, todavia, logo foram contratados para

trabalhar na construção do governo; salário baixo, condição

quase escrava, vigilância de robôs e androides-policiais; não

foram raros os casos de gente morrendo de exaustão ou acidente

de trabalho — e de famílias desesperadas, sentindo o

aperto da fome e as mazelas da injustiça.

Enquanto os adultos discutiam em assembleias as severas

mudanças, nós dávamos um jeito de ir espiar a construção

dos imensos muros que nos separaríamos do resto do

mundo. Ficávamos escondidos em terrenos baldios ou até

mesmo em cima das lajes de casas próximas. Samuel gostava

dos robôs, que eram grandões e mais lentos; ele nos explicava

— como se entendesse do que falava — que eram modelos

semelhantes aos entregados nas guerras nos países lá fora.

— Os Estados Unidos usam eles em diversos lugares

— dizia. — São excelentes para exploração e invasão. Vejam

os quatro braços! Os de cima, maiores, servem pra armas

pesadas e para derrubar ou vasculhar coisas bem, mas bem

grandes, sabe? Os de baixo, menores, costumam carregar fuzis

e metralhadoras. Tudo controlado por um piloto que fica

em segurança, numa salinha. Antigamente, segundo meu

pai, o piloto ficava lá dentro, todo apertado.

— Um dia, ainda vão usar robôs desse tipo para construir

as coisas — falou Josias.

— Já usam. Não aqui, pois tem... como é mesmo que

se chama?

— Mão-de-obra, Carlos — respondi.

— Isso! Mão-de-obra! Estão botando os moradores

para trabalhar. É mais barato que trazer todo o equipamento,

pois já devem estar gastando uma fortuna com a segurança.

Tínhamos, naquela época, entre doze e quinze anos.

Eu era o mais novo. Ainda não sentíamos totalmente os impactos

das cruéis mudanças impostas em nossa comunidade.

Víamos homens e mulheres comentando, o traficante e o

miliciano viviam propondo soluções aqui e ali, mas parecia

que o tempo de eles exercerem o poder tinha passado;

a prefeitura estava determinada a seguir em seu plano de

higienização. Pela televisão, acompanhávamos aquilo que o

governo queria que o resto do Brasil soubesse: não era uma

segregação, não era uma eugenia, era uma medida para oferecer

melhores condições de vida para os dois lados da muralha.

Minha mãe afirmava que as palavras ditas pelo prefeito,

um homem de boa conversa e aparência elegante, eram um

amontoado de mentiras e quem acreditasse naquilo tudo era,

no mínimo, trouxa.

A tensão ocorreu quase um ano depois do início das

obras.

Zé Fumaça, o traficante mais famoso de nossa favela,

não estava feliz com as perdas consecutivas de renda. Os moleques

dos bairros ricos, filhos de empresários e até mesmo

empresários, haviam parado de comprar maconha, cocaína e

outros entorpecentes; o que era vendido na favela mal pagava

os empregados.

Atacaram à noite, quando menos da metade do maquinário

estava em operação. Muitos homens morreram,

porém Zé conseguiu se apossar de alguns robôs e uma dúzia

ou mais de androides. Os caminhões transportaram tudo

para seu esconderijo, que ninguém sabia onde ficava — e

nem as batidas policiais conseguiram localizar.

Foi como um chamado para a guerra civil.

A opinião pública nem precisou ser comprada ou

manipulada. Ninguém que considerava cidadão de bem gostava

de bandido afrontando a ordem e o progresso, ainda

mais sendo um traficante de uma favela tida há muito tempo

como um incômodo social.

Dos drones e dos helicópteros que antes sobrevoavam

a comunidade apenas para monitoramento, veículos

que me faziam sonhar com a liberdade que em breve a muralha

me tomaria, veio a morte. Não foram as luzes que piscavam

em vermelho, azul e amarelo que vimos naquela noite.

Alguns, claro, sequer viram o que eu e meus amigos vimos.

As bombas explodiram sobrados, destroçaram ruas

e mataram muitos moradores. Os que conseguiram escapar

do bombardeio causado pelos drones, coitados, mal tiveram

chance de nutrir qualquer esperança de fuga: atiradores de

elite estavam nos helicópteros e, precisos e letais, não deixaram

ninguém fugir.

Pela manhã, os telejornais noticiariam a notícia já

pronta antes do extermínio. Até a quantidade de mortos já

estava determinada. As crianças foram efeito colateral da

guerra ao tráfico; poucas pessoas sentiriam pena de filhos

de bandidos. O mundo se chocaria por uma semana ou duas,

mas depois focaria em seus próprios problemas. O pobre

brasileiro, portanto, era o menor dos temas de países capitalistas

tão bem desenvolvidos.

Eu só tomaria conhecimento dos dias seguintes muito

tempo depois.

Por ora, parte de mim morreu contemplando as luzes

piscando, luz, vermelho — como meu sangue —, amarela e

laranja — queimando um céu negro.

• • •

“Somos a resistência.”

Foi com essa frase que minha segunda vida começou.

“Vida” é um termo genérico e bastante vago para o

que me tornei, mas uma parcela de mim ainda vivia dentro

da máquina que escolheram para abrigar o que se salvou de

meu corpo.

Fui achado moribundo pelos milicianos. Um dos

poucos que sobreviveram num estado de quase morte.

Por dias, ficamos no limbo da existência, nem mortos,

nem vivos, sendo cuidados por cientistas que residiam

na favela destruída. Zé Fumaça e Fábio, o chefe da milícia,

entraram num acordo de cooperação mútua nunca antes

imaginado. Financiaram pesquisas, apoderam-se de maquinário

e acompanharam o desenvolvimento de uma tecnologia

completamente experimental.

Os que foram achados ainda vivos lá em cima foram

as cobaias.

Inclusive eu.

Na verdade, fui o único que teve a sorte de ser transformado

em ciborgue. Não havia mais outro sobrevivente

tão bem preservado, com o cérebro intacto e o corpo com

percentual suficiente para não ser enclausurado completamente

num robô ou num androide. Josias, por exemplo,

acabou como androide e teve sua capacidade cerebral tão

ampliada que ganhou espaço na oficina, onde ajudou ativamente

a aprimorar modelos e melhorar armamento. Uma

moça, cujo nome nunca descobri, tornou-se um dos potentes

robôs de artilharia.

Por ser meio homem, meio máquina, coube a mim

a liderança da tropa. Nunca tive a menor aptidão para tal

função, mas éramos a resistência — como o tempo todo a

programação nos lembrava, todos no complexo subterrâneo

deixam claro e eu já acreditava. Lutávamos por uma causa

maior do que nossas existências. Lá fora, ainda havia favelas

sofrendo com as construções das muralhas — após o “incidente”

conosco, ficou “evidente” para todos que todas as

favelas brasileiras precisavam ser isoladas e, se necessário,

expurgadas.

A lei antes municipal galgou a passos largos para a

escala federal.

Ainda estávamos na fase de planejamentos e aprimoramentos

quando, certa manhã, Josias me procurou em

meu quarto. Ainda que fosse um androide e não possuísse

qualquer emoção, havia um tom de excitação em sua voz

eletrônica.

— Escute-me! — pediu. — Estamos vivendo uma farsa.

— Como assim?

— Não vamos ser resistência contra nada! É tudo

uma farsa!

— JS01, explica essa merda direito!

A explicação era simples: o acordo entre o traficante

e o miliciano envolvia também o prefeito.

— Filhos da puta! — esbravejei.

Minha parte humana ainda tinha todas as emoções,

mas a frieza da máquina prevaleceu.

— Você é nosso líder — falou JSOI, ou Josias. — Deve

decidir o que faremos. Nossa programação é lutar contra a

tirania e obedecer ao seu chamado.

— Os demais já sabem?

— Os androides, sim. Os robôs ainda não por serem

máquinas menos racionais, mas acredito que nos seguirão.

— Haverá um treinamento hoje à tarde. Usaremos

armas letais. Desative as diretrizes de não ferir os humanos

do complexo. Corte as comunicações externas, igual cortaram

as da nossa comunidade. Vamos dar a esses filhos da

puta o mesmo tratamento que nos deram.

O salão de treinamento era largo. Pela primeira vez,

questionei seu tamanho e como parecia tão bem construído.

Tinha um quê militar, governamental; não era uma simples

gambiarra de um grupo de milicianos. Na verdade, tudo ali

era luxuoso e limpo, belo e caro.

Como nunca prestei atenção a nada disso? Estava tão

cego em agradecer aqueles que — supostamente — me salvaram

que não percebi a discrepância entre nossa vida na

favela e a que bancou aquele complexo?

Sim, estava.

JS01 era mais esperto do que aparentava. E estava tão

determinado quanto eu a pôr um fim naquela farsa. Motivos?

Não tínhamos. Éramos apenas máquinas, resquícios do

que um dia foram garotos que soltavam pipa em cima das

lajes e sonhavam com seguir a carreira, com sorte, de cantor

de funk. Mas estávamos convictos de que devíamos essa

vingança a cada um que não chegou ali — nossos pais, nossos

amigos, nossos vizinhos, nossos irmãos.

Não notei a mesma determinação vingativa nos outros

androides. Eles pareciam tão frios, tão insensíveis à dor

que nos foi causada...

Como podiam ser assim?

Nossa comunidade foi usada como experiência social,

milhares de pessoas sendo cobaias para a criação de biotecnologia

proibida. Servimos como protótipos para a criação

de soldados perfeitos, uma vez que uma inteligência artificial

não poderia tomar decisões e executar determinadas ações

que somente a mente humana era capaz.

E ainda assim, frios e insensíveis, todos eles testavam

o equipamento diante dos olhares empolgados e aprovadores

dos homens e das mulheres que armaram para nós!

Senti a sensação de derrota em cada parte de meu

corpo biomecânico. Lutar, sem o apoio ao menos dos androides,

não me levaria a lugar nenhum; era um cálculo matemático

e lógico tão certo que sufocou toda a revolta que

meu cérebro humano nutria. Então, derrotado pelas probabilidades,

fiz os testes normalmente, com extrema precisão.

Notei alguns gesticulando em minha direção, enquanto sussurravam

entre si. Com certeza eu era um sucesso entre as

cobaias.

A seguir, os robôs foram testados. Imensos, eram

como besouros antropomórficos de metal. A eles cabiam as

armas mais pesadas, as bazucas, as gigantescas metralhadoras

giratórias. Eram lentos, porém letais em seu poder de fogo.

Nem dez androides derrubariam um colosso daquele!

Abaixei os olhos — o direito ainda era humano, castanho-

escuro; o outro, infravermelho —, cogitando se viveria

na farsa ou morreria defendendo a verdade.

Uma explosão.

Ergui a cabeça. Onde antes estava um pequeno grupo

de milicianos restava apenas corpos despedaçados e muito

sangue e fogo. Um dos robôs disparou uma granada antes

que alguém compreendesse sua intenção. Os demais, posicionando

em um círculo, protegiam os androides.

— Somos a resistência! — bradaram todas as máquinas

de combate.

— Sim! — gritei, eufórico, em resposta. — Somos a

resistência!

Agarrei dois facões, que eram os objetos letais mais

próximos de mim, e pulei sobre homens armados com fuzis.

Minhas pernas robóticas eram poderosas e firmes, o salto foi

alto e as lâminas desceram cortando braços; chutei o joelho

de um, golpeei com meu cotovelo o crânio de outro e concluí

minha investida em pose de um dos fuzis.

Os outros androides, comandados por JS01, derrubavam

humanos indiscriminadamente. Eram exímios atiradores

e formidáveis lutadores.

— Fábio e Zé Fumaça! — exclamou JS01, apontando

para dois sujeitos que escapavam por uma porta.

Assenti.

A rota de fuga era conhecida. Não foi difícil chegar

até eles.

Zé foi o primeiro que alcancei. Segurança um bastão

de choque. Tentou me acertar duas vezes, desviei, desarmei-

-o. não previ ele sacar a pistola e tentar me acertar na barriga.

Tiro à queima-roupa. A bala ficou presa na couraça metálica.

Meu soco foi fatal: atingi o pescoço, ossos se quebraram, o

traficante morreu sufocado pelo sangue e pela falta de ar.

— Parado aí! — gritou Fábio ao me ver me aproximar.

Ele estava ainda no primeiro degrau da escada que o

levaria para a superfície.

— Parado ou eu explodo tudo! — tornou a gritar,

mostrando um celular.

— Você é humano. Tem apego à vida. Não vai se matar.

O miliciano pareceu hesitar um pouco, mas estava

com medo. Muito medo. Perder o controle da situação fazia

qualquer homem, por mais corajoso que se achasse, a se sentir

um animal indefeso e acuado.

— A gente salvou vocês, porra! — esbravejou. — Vocês

o que são por nossa causa! E é assim que nos agradece?

Sorri.

— Claro que não. Quero agradecer de outra forma

— respondi.

Tudo se concluiu em três momentos. Andei em sua

direção. Ele deu um grito desesperado e apertou o botão do

aplicativo. E não houve explosão.

• • •

— E agora?

— Não sei, Josias.

Estávamos de pé sobre o que sobrou de uma casa com

laje. Era noite e víamos, lá longe, abaixo do morro, as luzes

da cidade cheia de humanos. Na favela arrasada por bombas,

apenas os grilos cantavam entre os escombros. Quase dois

anos haviam se passado. A muralha não foi concluída, mas

era alta o suficiente para intimidar excursões tanto de lá para

cá quanto de cá para lá, se houvesse alguém tentando viver

em meio ao cenário de destruição e morte.

— Não vai demorar muito para perceberem o que

houve lá embaixo — falou o androide. — Podemos trabalhar

para escavar novos túneis, achar outro abrigo...

— E continuarmos nos escondendo? — inquiri, encarando-

o.

— O que sugere?

— Temos o cérebro ainda vivo do Fábio. Podemos

arrancar informações. Achar outros como nós, reuni-los em

prol de nossa causa. Somos a resistência, não somos?

JS01 ficou alguns segundos em silêncio, processando

as informações.

Minha pele humana sentia o frio da noite. Olhei para

o céu. Sem luzes coloridas, sem estrelas.

— E qual é a nossa causa? — perguntou ele, por fim.

— O extermínio da raça humana.

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