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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

1-

Sexta-feira era dia de bolo no refeitório três da Espaçonave Hurt. Tinha bolo de chocolate, cheesecake e até bolo de laranja.

Sexta-feira também era o dia de lembranças.

Diana Novato se lembrava de comer bolo de laranja na padaria Pan d’Plata em frente à casa de sua irmã nos finais de semana, a única padaria do bairro que tinha uma certa luxúria que a astrofísica se envergonhava de gostar. Tomava um cappuccino e observava a luz dos carros passeando pela rua. Com os tilintares de pratos, copos e talheres se tornando um canto para seus ouvidos.

Gostava de pensar em equações, em incógnitas e pensava no espaço.

Júlia Novato sempre acompanhava a irmã mais velha, comendo seu bolo de cenoura com cobertura de chocolate e tomando seu café com leite, sendo incapaz de engordar. A caçula sempre seria uma criança aos olhos de Diana, mas ambas já tinham passado do primeiro quarto da vida humana.

Naquela época, Diana tinha os cabelos escuros batendo no ombro e a irmã tinha uma cachoeira castanha despejada pelas costas.

— Desejam mais alguma coisa? — O mesmo garçom sempre servia elas, um loiro baixo, tremendo as mãos ao apoiar seu pedaço de bolo na mesa.

— Está tudo bem, obrigado — Diana agradeceu, e observou ele a bisbilhotar de longe depois de um tempo, um olhar foi trocado e então os dois se recolheram a sua timidez. — O garçom fica me olhando.

— Por que não chama ele? Pede o número, sei lá — perguntou Júlia, limpando a boca com um guardanapo, falhando ao manchar mais os lábios de chocolate. 

— Não tenho tempo para isso… sua boca ainda está suja — Diana pegou outro guardanapo, e limpou a boca da irmã direito assim como sua mãe costumava fazer.

— Valeu.

Elas sempre sentavam na última mesa ao lado da janela. Alguns carros levitavam para um fluxo elevado ao redor dos prédios, mostrando sua nova tecnologia aerodinâmica. Anúncios ocupavam grande parte da cidade alta, mostrando as mais diversas propagandas coloridas. O céu alaranjado desaparecia lentamente.

— Como está o trabalho? Aquele livro que você estava escrevendo… sobre o que era mesmo?

— Sequências e séries numéricas, uma aplicação mais avançada — Júlia disse com orgulho. Para Diana, aquela matéria era simplória demais para chamar sua atenção, matéria básica de faculdade, achava que Júlia devia estar se ocupando com algo mais promissor, mas não comentou nada. — Está indo muito bem na verdade, devo mandar para a editora esse mês.

— Isso é ótimo, bem… — Diana largou o garfo de comer bolo. — Eu recebi uma proposta. — Disse de uma forma sombria, terminando seu cappuccino e ajustando os óculos, a voz da mulher se assemelhava a de uma dubladora que apenas atua com personagens velhos e sábios.

— Proposta? Decidiu que vai casar? — Júlia deu uma risadinha.

— Não… presta atenção, estou falando sério, dá uma lida nesse e-mail — então a astrofísica apanhou um tablet holográfico de dentro de sua bolsa, e o expandiu em cima da mesa.

A face de Júlia transmutou de felicidade para uma desolação súbita. Uma garoa começou a inundar as ruas do lado de fora, as pessoas puxavam seus guarda-chuvas elétricos e entravam dentro de seus carros. Diana percebeu que a irmã mais nova já tinha lido tudo, e apenas encarava o vazio. 

O e-mail mostrava a linda imagem da Espaçonave Hurt, junto com um pedido oficial assinado pelo alto escalão do Departamento Mercosul de Ciência e Engenharia.

— Você só pode estar de brincadeira.

Diana não respondeu nada.

— A gente acabou de perder a mãe, estamos sozinhas, e você quer se mandar para a puta que pariu? — A voz aumentou de leve, virando algumas cabeças das mesas adjacentes.

— Se acalma, não precisa ser dramática, a proposta não é só para mim, eu consigo te colocar nessa nave.

Não houve resposta, e também não havia apetite. A metade do bolo de cenoura que fora feito para o sabor, agora apenas servia como paisagem.

— Olha… nós não temos mais nada aqui. Nossa família foi embora, não sou casada, nem você. Somos livres, dá pra imaginar?

Diana era terrível em convencer as pessoas ou dar qualquer tipo de conselhos, Júlia tinha puxado a parte carismática da família.

A chuva piorava e os sons dos carros acompanhava o caos. 

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. Diana estendeu a mão e tocou na pele fria dos dedos da irmã, sabia apenas uma forma de alcançar seus pensamentos, apenas uma forma de expressar seus sentimentos tão escassos, como um oásis de poucas gotas em um mar bege.

 — Lembra-se do que o pai dizia? — E os olhos agora levemente molhados da caçula encontrou os da irmã mais velha.

— A primeira parte de aprender é aplicar o conhecimento em um problema conhecido… e depois em um problema desconhecido.

Então Diana conseguiu ver o sorriso do pai, uma inclinação sútil do lábio. Uma expressão que limpava céus e fazia os brotos crescerem, o único motivo que fazia a irmã antissocial viajar quilômetros para se encontrar com Júlia todos os dias. Não era o bolo de laranja do Pan d’Plata, não era o cappuccino e não era o xaveco tímido do garçom.

Júlia Novato carregava a herança mais preciosa de seu pai, aquela breve semelhança. Diana, então, finalizou:

— Existe algo mais desconhecido do que o centro da galáxia?

2-

Três anos depois, Diana teria aquelas lembranças enquanto tomava café da manhã com sua irmã em outro tipo de lanchonete.

Dessa vez estavam longe da padaria Pan d’Plata. Anos-luz de distância.

Em um refeitório cinzento e branco, Diana tinha o cabelo mais extenso, e Júlia tinha reduzido a altura de sua cachoeira para alguns centímetros, mostrando seu sedutor pescoço.

A geometria do interior da Espaçonave Hurt era uma mistura de cilindros e paralelepípedos. As mesas do refeitório eram blocos brancos e as cadeiras eram troncos almofadados no topo. 

Sons mecânicos e robóticos saiam de engenhos complicados dos robôs utilitários, vozes nos alto-falantes cuspiam ordens para pesquisadores, navegadores e sociólogos. Uma perfeita utopia científica.

O fluxo de pessoas era constante, e apesar dos grandes filmes de ficção científica, não havia janelas imensas que mostravam o universo. Na situação mental e emocional dos tripulantes, a visão do vazio podia levar qualquer um a loucura se encarasse por mais de alguns minutos.

Quatrocentas pessoas foram escolhidas para tripular a nave colonial. O objetivo: explorar a protuberância no centro da galáxia, e se possível, semear a humanidade. Parecia simples e sedutor, mas o trabalho não passava de recolher dados e analisar componentes químicos dos planetas perdidos.

Desejam mais alguma coisa? — Dessa vez foi a voz de um robô garçom, e não de um humano.

— Não, obrigado — Diana fez um sinal com a cabeça, com esse tipo de garçom ela não flertaria.

Na sua frente, Júlia tremia em receio, enquanto a irmã mais velha estava calma como uma folha sépia caindo no outono.

— Você não terminou seu bolo de cenoura — questionou Diana, levando o bolo de laranja a boca. Ambas vestiam uniformes cinzas com crachás escritos: Setor de Matemática e Física.

Os tripulantes tinham saído da criogenia a algumas semanas, a Espaçonave Hurt estava na fronteira do braço de Orion com a protuberância da Via Láctea — o grande amontoado de estrelas, gases e poeira que fica no centro da galáxia.

Tinham deixado o humilde planetinha azul para trás. Na era que emergiram depois do sono, o planeta Terra provavelmente era uma esfera fervente, vítima da destruição humana.

— Desde que eu acordei eles estão me vigiando. Tem esse cara no Departamento de Análise que não para de me observar, achei que ele estava afim de mim, até pensei em puxar conversa, mas percebi que ele só estava de olho nos meus cálculos.

— Você é uma das melhores matemáticas que eu já conheci, eles não vão te rebaixar — uma mentira confortável, queria fazer a irmã se sentir melhor, e bastava um elogio intelectual para isso, além de uma mudança de assunto. — Além do mais, tem cada imbecil trabalhando aqui, tive que ensinar um gringo a rodar um algoritmo de escaneamento esses dias, ele não devia ter aprendido isso em Harvard ou na universidade de riquinho que ele veio?

Júlia deu uma risadinha, e sem querer, Diana conseguiu quebrar o humor tenso da irmã.

— Meu deus, eu não queria estar no seu Setor, você deve ser chata demais.

— Eu só falo o que penso.

Ambas devoraram seus respectivos bolos lentamente, observando o fluxo de pessoas de um lado para o outro.

— Acha que papai estaria orgulhoso da gente? — Júlia ainda chamava ele de “papai”, o que fazia sentido, ela sempre foi a “filhinha” dele, e era visível que procurava superar a irmã para impressionar o fantasma de seu pai.

— Acho que ele…

Foi naquele momento que eles chegaram, interrompendo o precioso momento sentimental das duas irmãs. Não podiam ter escolhido um momento melhor.

Vermelhas e vibrantes luzes dispararam em cima das portas deslizantes do refeitório, uma sirene que fazia o coração de qualquer um pulsar duas vezes mais rápido.

— O que está acontecendo? Di? — Júlia começou a se desesperar, mas sua voz foi meramente ouvida sobre o ruído irritante e pulsante da emergência.

Subitamente, o local se transformou em uma colmeia agitada.

— Protocolo de emergência, Júlia, se acalma — mas a voz de Diana também estava agitada. As luzes de emergência transformavam o branco e o cinza do interior da nave em um vermelho desesperador.

Uma voz feminina e computadorizada inundou o refeitório:

— Alerta de proximidade, reportar até seu respectivo setor… Alerta de proximidade, reportar até seu respectivo setor… isso não é um treinamento.

3-

Quando a onda eletromagnética foi traduzida em mecânica, se transformou em um ruído cheio de picos e vales de amplitudes confusas. Uma vibração senoidal afetada.

O som começava baixo, e então crescia subitamente e arranhava o teto do gráfico. Depois descia para ficar mais calmo, e, novamente, crescia para assustar os ouvintes, fazia isso de uma forma aparentemente aleatória, e ao fundo, algo parecido com um batimento cardíaco servia para deixar o ruído mais tenso.

Muitos dos cientistas pensaram ter ouvido vozes em meio ao som, talvez algum tipo de mensagem de casa, mas não havia nada do tipo, apenas a insanidade espacial. 

Haviam muitas teorias sendo faladas pelos refeitórios e pelos corredores, estavam esperando os misteriosos embaixadores do centro da galáxia entrarem em contato novamente para lidar com os forasteiros humanos.

Cada um dos tripulantes queria a glória de desvendar o mistério dos seres da fronteira e traduzir as vibrações enviadas.

Diana passava todo o seu tempo no laboratório, junto com físicos, matemáticos e sociólogos. Analisando cada possibilidade e discutindo cada elemento. Ouvindo o maldito do ruído, como um mantra científico.

Júlia decidiu ficar isolada, pois aquilo significava algo a mais para ela. Ela notava alguma coisa no meio dos números, um certo padrão… lembrava do seu livro que tinha sido escrito e revisado, mas nunca publicado. Lembrava das sequências e séries, e tinha certeza que via a mesma coisa naqueles sons celestiais.

4-

Júlia Novato estava parada no meio da passarela que interligava a Ala dos Pesquisadores e a Ala Central. Na sua frente, um dos únicos paredões da Espaçonave Hurt mostrava o lado de fora. 

Os médicos não recomendavam a contemplação do vazio, mas aquilo a acalmava, acalmava sua mente e a deixava focada em seus objetivos.

A mesma voz feminina que anunciou a movimentação dos “seres da fronteira”, também comentava calmamente algumas frases no paredão de janelas:

Bem-vindo as janelas celestiais da Ala Científica. Não é recomendado a permanência de mais de dez minutos observando as estrelas, danos emocionais e mentais podem comprometer a sua sanidade. Tome cuidado e aproveite a vista!

Em volta de seus olhos a pele estava murcha, como se tivesse tomado um soco do próprio sono. O trabalho esteve pesado nos últimos dias, desde que estranhas ondas de rádios começaram a ser detectadas no vácuo e desde que a espaçonave entrou na fronteira de uma civilização estelar, que aparentemente tinha dominado grande parte do centro da galáxia.

A tripulação estava eufórica. 

Alguns cientistas caminharam pelo corredor, passando pela matemática e comentando em um idioma oriental.

No ombro de Júlia, uma voz masculina era uma memória sólida em seu hipocampo, suave e nostálgica.

— O universo não é bonito? Achou que ia encontrar mais estrelas, filha? Esperava mais? 

Alucinações era parte da contemplação do vazio, um sintoma previsível, visto que a tripulação nunca mais veria sua casa. No caso de Júlia, isso incluía o fantasma cósmico de seu pai.

— Eu já esperava isso.

Seu pai riu de forma breve, tossindo no final.

— Estou morto Júlia, não precisa me impressionar. 

Na frente da matemática, o universo era mais escuro do que brilhante. Navegavam no centro da galáxia, no meio do acumulado de gases, estrelas e poeira. Mesmo assim tudo parecia igualmente espaçado, como se nada fosse alcançável.

— Como está sua irmã?

— Ela… — parou por um segundo e então continuou: — Ela acha que tem a resposta para tudo.

— Ela tem?

— Não, dessa vez ela não tem — apesar de confusa e cansada nos últimos dias, Júlia estava certa de que sabia a resposta para as ondas eletromagnéticas. — Os ruídos parecem uma sequência numérica, eu sei disso pai, eu fiz meu doutorado nesse assunto, sei que…

— Você não sabe Júlia, deixe sua irmã lidar com isso.

— Por que eu estou falando com você? Você está morto, é só uma alucinação, e eu sei o que eu estou fazendo… 

— Você não sabe, você não é uma astrofísica, você nem deveria estar aqui, foi sua irmã que te colocou onde você está hoje — o pai parecia lhe dar uma bronca, Júlia ainda se sentia como uma garotinha.

Estava prestes a liberar sua raiva, mas ao se virar para a imagem ilusória de seu pai, não havia nada lá. 

Sua mente estava lhe pregando peças. 

A voz robótica feminina repetiu o aviso mais uma vez, e a matemática concluiu que era melhor se afastar das janelas. Não queria mais receber outra visita de seu pai.

5-

Diana pensava que era a cientista certa para o trabalho.

Seu grupo de laboratório era composta de um sociólogo irlandês. Dois matemáticos, um japonês e outro espanhol. Uma matemática inglesa, e finalmente um químico de algum país escandinavo. 

A astrofísica brasileira logo se posicionou como uma perfeita líder, tinha um inglês perfeito, além de um espanhol convincente.

Discutiram sem parar sobre os dados coletados sobre os planetas, teorizavam, formulavam e concluíam, sem sair do mesmo lugar. As ondas eletromagnéticas pareciam confusas e sem propósito, mas Diana estava certa que ficariam daquela forma por pouco tempo, não havia um problema cuja dificuldade deixava a astrofísica sem respostas.

No quinto dia de trabalho, o grupo estava procurando validar sua décima segunda teoria, algo que envolvia a quantidade absurda de enxofre, neônio e oxigênio nas atmosferas dos planetas e a propagação das ondas em contato com tais gases. 

Sua mente trabalhou por toda a tarde, e de noite era o momento de descanso.

Dividia o seu quarto com Júlia, e estava ansiosa para ver como ela estava lidando com a situação, era uma grande pressão nas costas de sua irmãzinha.

Quando as portas do dormitório deslizaram, ficou surpresa em ver a figura de sua irmã debruçada como uma gárgula em cima de seu tablet de tripulante, calculando e anotando algo em alta velocidade e com os ruídos alienígenas tocando de fundo.

Nunca tinha visto ela daquela forma.

Júlia parecia acabada, ainda mais acabada do que Diana, e demorou um tempo para notar a sua chegada.

— Di, ainda bem que você chegou… eu preciso te mostrar umas coisas.

— Nossa, o seu grupo te maltratou tanto assim? — Diana se aproximou da irmã e colocou uma garrafa de água na mesa. — Toma um pouco da minha água, você está pálida.

— Eu não fui para o laboratório hoje, disse para eles que estava doente — disse Júlia, depois de tomar longos goles da garrafa, Diana pareceu decepcionada.

— Por que você fez isso? Não me diga que ficou nervosa de novo…

— Não é isso — retrucou Júlia, com certa rispidez. — Tenho uma teoria sobre as vibrações, e decidi trabalhar sozinha.

— Você tem que trabalhar com seu grupo, Júlia.

— Eles não acharam minha teoria válida, e eu sei que eu tenho alguma coisa aqui — e pegou o tablet para mostrar para Diana, que pareceu ignorar o gesto, como uma mãe ignora as perguntas inocentes de uma criança. — Olhe isso, está vendo essas fórmulas?

— Júlia, por favor, você não pode…

— Não me diga o que eu posso e o que eu não posso fazer — Júlia interrompeu, e a irmã mais velha pareceu tomar um tapa na cara de tanta surpresa, nunca tinha sido respondida daquela forma.

Ambas se silenciaram, Diana pensou em responder à altura, pensou em lançar todas as suas verdades. Sentiu as suas bochechas esquentarem e seus olhos alcançarem a face cansada e imprudente da irmã mais nova.

Contudo, houve outro choque de sentimentos. Dessa vez, ao olhar para Júlia, não percebeu aquele sorriso inclinado que era uma herança confortável de seu pai. Dessa vez notou um outro tipo de semelhança. Algo mais sombrio, o tipo de característica que lhe relembrou seu leito de morte, a forma lenta com que o câncer abateu seu corpo e sua mente. Aquele tipo de reação que fazia o céu escurecer e os brotos murcharem.

O ruído continuava tocando ao fundo, deixando tudo mais tenso.

— Você parece muito com nosso pai — a raiva tinha sumido e foi tudo que Diana conseguiu dizer. — Pode explicar a sua teoria.

6-

Júlia Novato começou a falar, tinha vinte minutos para convencer sua tão venerada irmã que talvez ela podia ter uma pista.

Começou manipulando alguns gráficos em uma lousa tecnológica, puxando retas e descobrindo valores.

Diana não deu muita atenção no começo, não estava acostumada a mexer com muitos conceitos matemáticos daquela forma, normalmente aquele tipo de cálculo não dava muitas respostas.

Mas pela metade da explicação, a irmã mais velha se inclinou na cadeira, sua atenção tinha sido comprada. Júlia desenhava na lousa como uma artista manejava um pincel, e aquilo realmente começou a fazer sentido. Finalmente, ela respirou fundo.

— Sequências de números? — Perguntou Diana.

— Isso — Júlia sorria, um estranho contraste com sua aparência desgastada. — É estranho como tudo se encaixa perfeitamente, o tamanho dos planetas… a energia que eles puxam de cada sistema, quer dizer…

— De onde você tirou a energia retirada dos sistemas?

— A Escala de Kardashev, uma teoria antiga que classifica os tipos de civilizações estelares. O Tipo 1 é o tipo que consegue armazenar energia de um planeta, o Tipo 2 consegue armazenar energia de um sistema, e o Tipo 3… de uma galáxia inteira. Eu presumi que… eles são uma civilização do tipo 2 e possuem algum tipo de mecanismo para armazenar a energia das estrelas.

Diana respirou fundo, agora toda a sua credibilidade tinha ido embora.

— Isso me parece um monte de besteira.

— Mas eu acabei de provar para você! Não viu os gráficos? — Júlia apontou para a lousa. — Eu consegui calcular a quantidade de energia aproveitada que eles tiram de cada um dos sistemas, e advinha só… elas formam a porra de uma sequência.

— Isso pode ser uma coincidência, Júlia.

— E quanto aos gases da atmosfera? Enxofre, neônio e oxigênio? — Júlia estava começando a se desesperar. Diana levantou a sobrancelha e perguntou:

— O que tem eles?

— Os números atômicos deles, os minerais mais abundantes dos planetas são magnésio e silício. Todos juntos formam uma sequência perfeita, oito, dez, doze, quatorze e dezesseis…— tornou a mostrar uma tabela, algo parecido como um dicionário numérico. — Dá uma olhada nisso aqui, eu traduzi as ondas… eles estão dizendo… “Identificação”, acho que eles querem uma resposta.

Diana começou a pensar que tinha sido um erro trazer sua irmã para aquela viagem, ela era muito sensível a tudo aquilo, precisava urgentemente de algum acompanhamento psicológico. Entretanto, uma coisa era certa, não podia recusar suas comprovações matemáticas, tinha alguma coisa de estranho ali, talvez algum tipo de proporção… mas era necessário fatores empíricos para sustentar aquela teoria.

— Você acredita em mim? — Os olhos de Júlia pareciam brilhar, uma esperança de que sua irmã mais velha, a sua heroína secreta da ciência, lhe desse alguma faísca de relevância.

— Acredito… de manhã vamos tentar recolher mais alguns dados, e então levamos para o coordenador — Diana respondeu, forçando um sorriso para a irmã, que pareceu derreter em alívio e prazer. — Agora vê se descansa um pouco, se esforçou muito para descobrir tudo sozinha.

Júlia tentou dormir, mas não estava pronta para esperar até a manhã. 

Os números eram um pesadelo em sua mente. Sonhava com o vazio do universo. O ruído dava pancadas em seu subconsciente, transformando seu sonho em uma mistura abstrata de dados. As estrelas pareciam pontos de gráficos, e as nebulosas eram como campos de vetores.

E se estivesse errada?

A voz do seu pai suspirava em seu ouvido:  Você não sabe Júlia, deixe sua irmã lidar com isso. Ouviu sons mecânicos e futuristas, uma nave partindo do repouso, teclados sendo utilizados, seu pai cuspia algumas equações confundindo sua mente.

Afinal, magnésio e silício eram abundantes em vários tipos de planetas, e a energia estimada pelas equações de Kardashev podia estar errada. Tudo podia estar errado.

Júlia acordou no meio da noite, ofegando e suando, uma febre atingia sua testa e confundia seus pensamentos.

— Eu não estou errada — suspirou baixo para si mesma como uma louca. 

Ela tinha um plano. Iria comprovar sua teoria naquela noite. Provaria para todos, principalmente para o fantasma de seu pai e para a sua irmã.

Não era recomendado fazer pesquisas durante as horas de repouso, mas não havia um toque de recolher restrito.

Diana dormia profundamente quando Júlia saiu do quarto. Mesmo sabendo que seu pai era apenas uma alucinação, queria falar com ele, queria pedir ajuda.

7-

— O que acha que está fazendo, filha? — Perguntou seu pai, quando Júlia retornou aos paredões de janelas. As luzes da Espaçonave Hurt estavam amenizadas, e o corredor estava escuro, com o brilho das estrelas formando uma fonte de luz suficiente.

A voz feminina da nave avisou sobre a insanidade causada pelo vazio novamente, mas a matemática estava disposta a enfrentar suas loucuras.

— Eu vou chamar eles, os seres da fronteira — gaguejou muito, estava nervosa com o olhar fantasmagórico de seu pai, julgando seu plano e suas teorias.

— E como planeja fazer isso?

— Eu já te disse, as sequências numéricas, vou transmitir elas da nave, em forma de ondas de rádio — Júlia tremia quando segurou nas mãos um dispositivo, um pequeno computador de mão que conseguiu furtar do laboratório, não era tão difícil, os militares não esperavam qualquer tipo de furto. — Vou usar um emissor, e vou usar a tradução que eu fiz para conversar com eles.

— Chame a sua irmã, ela vai saber o que fazer — agora a voz de seu pai lhe trazia um terror inexplicável, era como uma criatura diabólica, suspirando maldades em seu ombro.

Júlia encarou o vazio e mergulhou em sua vastidão… estava na hora.

Levantou o emissor e começou a apertar as teclas para formar uma sequência de amplitudes, enviando as ondas através de uma pequena antena do dispositivo.

— Um, três, cinco, sete, nove… — e continuou, apertando os números e projetando as ondas, que eram mostradas por um gráfico em uma tela, revelando seus picos e vales.

— Isso não vai dar certo, por que não vai dormir garotinha? Amanhã tem aula — agora seu pai suspirava em seu ouvido, como nas vezes em que levava a garota para dormir e lhe cobria com um cobertor peludo.

— …vinte e três, vinte e cinco, vinte e sete — estava na hora de recomeçar a sequência, aquela foi apenas a primeira palavra: “Viemos”. — um, cinco, nove, treze, dezessete…

  Continuou, clicando em cada um dos botões em um intervalo de tempo idêntico, tudo tinha que ser perfeitamente calculado. Em alguma dimensão eletromagnética, ondas fortes estavam sendo pulsadas para o vácuo.

— Já fez o seu dever de casa? Por que não pede ajuda para Diana, ela tirou dez na prova de matemática… — seu pai deu uma risadinha no final. Na frente de Júlia, o universo continuava o mesmo, distante e escuro, a mulher não piscava, seus olhos vermelhos lacrimejavam e suas mãos estavam magras e esqueléticas.

— … vinte e cinco, vinte e nove, trinta e três. — Parou para respirar e relaxar os dedos, os botões do emissor eram pesados e rústicos, mas não podia demorar muito, tinha acabado de traduzir a simples monossílaba: “em”. Então recomeçou: — um, dois, três, quatro… 

— Olhe só para você, completamente perdida — e foi a última coisa que seu pai disse.

Quando Júlia finalizou a última sequência, sentiu como se o mundo todo tivesse congelado.

Tinha acabado de escrever a palavra “paz”, formando a frase clichê: “Viemos em paz”.

Júlia olhou para o pequeno computador que ela segurava com as duas mãos. Estava esperando uma resposta… qualquer coisa para provar que estava certa, qualquer coisa para mostrar para sua irmã, e assim, merecer o seu segundo lugar no pódio de intelectualidade da família.

Se sentiu vazia e estúpida por alguns segundos que pareceram minutos.

Logo, a resposta chegou, na forma de luzes vermelhas que começaram a apitar como na última vez. Júlia se assustou quando o aviso ressoou:

— Alerta de proximidade, reportar até seu respectivo setor… Alerta de proximidade, reportar até seu respectivo setor… isso não é um treinamento.

A noite simulada se tornou em um inferno rubro. A matemática começou a entrar em pânico. O que foi que eu fiz? Se perguntou, quando levantou os olhos do computador e encarou o vazio, percebendo as consequências de suas ações.

Não viu nenhuma luz das estrelas, viu apenas um cinza robótico e colossal. Uma nave quatro vezes maior que a Espaçonave Hurt flutuava diante dela.

8-

Diana trancou a porta de seu quarto quando sua irmã retornou, e tornou a empurrar um armário de ferro para bloquear a entrada. 

— Onde você estava?

Júlia não respondeu, apenas se encolheu em um canto do quarto para começar a chorar.

Lá fora, os gritos tinha a forma de todos os idiomas, gêneros e alturas. De repente, o tiroteio começou. Os militares provavelmente estavam entrando em ação. Diana ouviu ordens de generais e ouviu sons de desespero, morte, e dor. 

Ouviu alguém gritando em inglês: “Por favor não feche a porta, não feche…”, e então o som de algo sendo esmagado, o crânio provavelmente golpeado por alguma coisa.

Por favor se mantenham calmos e fiquem em seus quartos, a situação está sendo controlada pela nossa segurança — até a voz robótica e feminina parecia desesperada e falsa.

— Merda, que porra que a gente vai fazer? — Diana olhou para a irmã, que parecia um cadáver. — Alguma coisa abordou na nave, acordei a alguns minutos e recebi uma mensagem dizendo que a pressão diminuiu e os níveis de oxigênio estão caindo… espera, o que é isso na sua mão? Um emissor?

Júlia olhou para a irmã, e não conseguiu dizer nada, estava completamente desabada.

— O que você estava fazendo acordada no meio da noite com um emissor?

— Eu… só queria provar…para você — começou a soluçar, com os olhos castanhos brilhando. — Eu enviei uma mensagem para eles.

Diana arregalou os olhos, não pode ser, pensou ela, ela estava certa.

De repente os gritos pararam. O tiroteio cessou. Um silêncio envolveu o quarto que piscava em vermelho e branco. Diana ajeitou os óculos e olhou em direção a porta, com as mãos e dentes tremendo, pensando se essa seria a última vez que utilizaria o seu cérebro, pensando se esse era o final da grande astrofísica brasileira.

Embaixo do armário, por uma fenda fina, algumas sombras se moviam e uma luz azul parecia ameaçadora… alguém estava se aproximando da porta. Diana sussurrou para a irmã:

— Envia outra mensagem, tenta falar com eles de novo.

— Eu… não sei se consigo… — Júlia estava com os olhos arregalados, encarando as luzes embaixo da porta, torcendo para que as sombras fossem embora.

— Você é a única que consegue, irmã… lembra… do que o pai costumava falar?

Então os olhares da irmã se encontraram, o desespero em ambas as faces, e então Júlia murmurou em um tom quase inaudível:

— Aplicar… em um problema conhecido… e depois em um… desconhecido.

Diana assentiu com a cabeça, então Júlia escapou de seu transe e começou a apertar alguns botões em seu emissor, suspirando melancolicamente sequências numéricas.

— Um, três, cinco, sete… — apertando os botões e enxaguando suas bochechas molhadas, esse era o seu momento, tinha que dominar o desconhecido.

Um barulho alto e repentino acertou a porta do quarto, alguma coisa estava tentando entrar. Júlia gritou em desespero, mas continuou falando suas sequencias. Diana correu para procurar algum tipo de arma improvisada pelo quarto, algo para reagir, mas não tinha nada.

— Merda… MERDA!

— … treze, quinze, dezessete…

Outro impacto atingiu a porta, levantando o armário de seu ponto de equilíbrio e o fazendo se esparramar no chão.

O ser da fronteira entrou na sala com passos largos e lentos. Júlia não levantou os olhos de seu computador, se esforçava para não olhar para a figura, contudo, Diana comtemplou a criatura de cima a baixo.

Notou sua forma alta, seu traje tecnológico com uma arma cilíndrica e vermelha projetada de suas costas, sua máscara de bico longo que lembrava os médicos da peste negra, uma terrível imagem em um livro antigo de história medieval. Finalmente, observou seus olhos esverdeados que mostravam números, uma sequência refletindo em seus glóbulos cheios de veias, piscado em algarismos humanos e seguidos por símbolos alienígenas. Uma tradução perfeita.

— … trinta e nove, trinta e três… terminei — disse Júlia, e quando levantou o olhar para encarar o alienígena, ficou sem ar.

Os números piscavam e mudavam em seus olhos quando o alienígena abaixou sua arma e encarou a matemática.

— O que ele está dizendo? — Diana estava completamente paralisada, de costas para a parede.

O ser aproximou sua máscara em direção a Júlia, e ficou a um palmo da distância do rosto da mulher. Os números eram letras e palavras. As sequências como poesias e versos.

Júlia olhou para Diana, sussurrou com o lábio tremendo e o suor reluzindo:

— Ele está repetindo… “Identificação desconhecida”.


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