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Meus sapatos ainda carregam as poeiras de Cusco. Talvez o barro enfronhado nas frestas da sola pertença a Machu Picchu.

Thiago Souza
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Meus sapatos ainda carregam as poeiras de Cusco. Talvez o barro enfronhado nas frestas da sola pertença a Machu Picchu. Embaixo da terra, me fita o reflexo no vidro da porta. Esses sapatos nem combinam com o resto da indumentária. São tênis de caminhada, que enfiei no pé apressado pela manhã, os de uso comum ainda não secaram da última chuva. Não sei o que me desagrada mais, voltar para casa com os pés encharcados ou saber que não poderei calçar o par de tênis que tanto gosto no dia seguinte. Calçar um tênis confortável, ainda que surrado, tem sido um dos meus poucos prazeres, a simbiose do pé com o tecido muito me agrada.

Trombam em mim como pedido de licença, é assim que funciona por aqui, no subsolo. “Também vou descer”, retruco para ninguém, a voz reverbera no ar viciado. Me cospem do vagão.

O sapato calçado no pé estranha o caminho repetido dos dias úteis. Pra quem já pisou a nobre poeira dos andes, que miséria é a imundície de São Paulo. Aquele sapato carregava um propósito, subir e descer o morro até a cidade perdida. Foi encaixotado após o retorno, lembrança de viagem. Às companheiras mais íntimas, que já acessavam meu guarda-roupa, explicava que o havia comprado só para a ocasião, por isso a desarmonia com as skinnys, ou a jaqueta jeans rasgada nos cotovelos. Jamais conhecera água, o bendito, mas hoje cumpria bem a função de manter secas minhas meias até o trabalho.

Piso com ousadia poças rasas, só pra testar a qualidade do solado, sua impermeabilidade.

Com o outro, qualquer fio d’água na rua já umedecia os calcanhares, a palmilha esmigalhada visível pela parte de baixo. Ficou secando atrás da geladeira, coisa de gente antiga, macete de mãe.  Com o novo sigo seco, até mais alto devido às molas traseiras. É um bom sapato, bonito seria forçoso. Não rima com meu repertório, só no contexto cusquenho ganhava sentido. Lá, se reconhecem os turistas através das roupas, a característica touca andina, uma blusa de lã com detalhes étnicos, luvas, cachecol e um bom sapato de caminhada. Tudo meio esquisito, até cafona, pique aventureiro de apartamento, alvo fácil para os vendedores ambulantes. “Brasileño? Macoña? Buceta?”. Passava-se fácil assim dos chaveirinhos de lhama para os ilícitos.

Bato o ponto eletrônico. Suspiro em homenagem aos dois anos de viagem. Dois anos atropelados, um par de sapatos ensopados, um casamento, uma filha pequena, nem dois reais na carteira, nem dois minutos de atraso no relógio do ponto. Viagem feito essa nunca mais. Partir do Tietê, quatro dias de estrada, sozinho, desempregado, solto no mundo.

Giro a chave do laboratório. A luz permanece apagada, resta uns minutos antes da primeira turma agendada. Me meto a caçar lembranças nas redes sociais, encharco de nostalgia fugaz eu e os meus sapatos.

É segunda-feira.

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