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Fantasia
Outubro de 2019
Começou, agora termina queride!

Leo Surcin

Autor
Autora
Organizador
Organizadora
Autor e Organizador
Autora e Organizadora
Editor
Editora
Ilustrador
Ilustradora
‘‘Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça num movimento de recusa.’’—Arthur Schopenhauer

Conquista Literária
Conto publicado em
Nas Mãos da Morte

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
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Eu, Carlos, sou um cidadão que chamam de respeitado. Faz tempo que não entro em discussões. Só faço questionamentos com meu único amigo, o padre Norberto. E nos últimos meses a dúvida era sempre sobre o tal do carma, reencarnação, essas coisas. Desde que ouvi falar disso, passei a agir corretamente, dei esmolas, ajudei o próximo, me alimentava bem, e até larguei meu maior vício de todos: o marvado do cigarro. Mas para o pulmão, arrependimento não basta. Ele dói. E muito. E a tosse, cada dia pior. Mas aceito a penitência, afinal, foi a única coisa da qual não cuidei.

Certa noite, procurei Norberto lá pelas tantas. O padre abriu a porta, assustado, colocando os óculos pra enxergar o relógio da parede. Eu entrei afobado, falando que acabara de levantar assustado com um sonho ou visão. Na ilusão, recebi a visita da morte. Estava muito angustiado. Após conversarmos, ela disse que voltaria, mas dessa vez seria nossa última conversa que acompanharia.

— Me ajude, Norberto. Não quero voltar pra essa pocilga.

— Pocilga? Confesso que fiquei surpreso. Você é sempre tão correto...

— Perdoe a franqueza de seu amigo neste momento crucial de angústia que me invade. É medo desse encontro. Sei que está perto. Estou meio perdido, pra ser sincero.

— Mas o amigo sempre demonstrou ansiedade por esse momento. Diante de tantas obras caridosas, a única falha de que me lembro é prolongar o fumo. Mas não penso que seja tamanho pecado que lhe tire o destino celeste.

— Sabe que é meu único amigo. Já deixou de ser apenas confessor faz tempo.

— Sei, sim. E sabe que também o considero próximo. Mas a hora já é avançada, e não há motivo real imenso que não possa te fazer dormir. Vá em paz. Preciso repousar, porque amanhã tem missa cedo.

— Desculpe o nervosismo e ousadia de bater-lhe à porta a esta hora. Mas o senhor me ajuda a sossegar os pensamentos.

Fui-me embora mais calmo e mais leve. A única coisa que doía eram os pulmões. E quanto mais encolhia a barriga, mais tossia. E quanto mais tentava cessar, mais agonia dava. Cheguei a sufocar por uns segundos. A dor me fazia retorcer. Mas consegui entrar em casa e tomar um xarope de ervas. Já tomei tanta coisa pra não tossir. E acho que a única coisa que mudou foram as embalagens. Dessa vez, nada adiantou. A dor só aumentava.

Resolvi deitar e tirar um cochilo pra enganar a dor. Bebi uma solução forte pra dor e desmaiei de alívio.


Acordei no susto com alguém batendo à porta. A preguiça estava tão gostosa que fiz silêncio pra desistirem e irem embora. Mas as batidas continuavam. Resolvi levantar com receio de o vizinho reclamar. Abri a porta. Padre Norberto, calmo, ar sério, esboçou um sorriso sem graça.

— Está tudo bem? — perguntei, curioso.

— Sim — respondeu a figura fria em minha porta.

— Desculpe os modos. Acordei agora. Entre, por favor.

— Posso?

Fiz um gesto com a mão, convidando-o para entrar.

— Ainda estou meio aéreo. Quer beber algo? Desculpe por mais cedo, ou por ontem, sei lá. Nem sei que dia e hora é. O fato é que eu estava perdido com o sonho que tive. Na verdade, até agora estou confuso.

Após fazer sinal negativo para a oferta da bebida, Norberto sentou-se no sofá velho.

— Mas, afinal, qual seu medo da morte?

— Pra ser bem sincero, não tenho medo da morte. Tenho do depois.

— Mas você não fez boas ações? Ajudava a todos? Gastava dinheiro com estranhos? Tanto que sua casa é bem simples — disse o padre enquanto reparava no casebre.

— No fundo, ninguém tem certeza do que vem depois. Tenho amigos de toda religião e com todos é a mesma coisa: na hora da morte, todos confidenciaram esse medo. Se a vida que viveram foi o suficiente.

— Entendi. Mas o que diz sua consciência?

— Não. Em relação a castigo estou em paz. O que faz tremer de medo é ter que voltar para cá.

— Deixe-me ver se estou entendendo. Você não tem medo de morrer, mas sim de viver? — Norberto perguntou, perplexo.

— Exato. Usou as palavras certas. De morrer não tenho um pingo de medo. Mas apavoro quando penso em ver a luz e algo me impedir de ir até ela.

— Interessante. E como você sabe que é pra luz que tem que ir?

— Ué. É o que todos dizem. Até os filmes. Quando uma pessoa boa morre, a luz aparece pra levá-la ao Paraíso, ou seja lá qual for o nome que dão. E quem tem medo de morrer corre da luz com esperança de voltar ao corpo. Quando eu vir a luz, vou correndo pra ela.

— E se aparecer mais de uma luz? O que você vai fazer?

— Não tinha pensado nisso. Já vem você trazer caraminholas pra minha cabeça. Tem alguma ideia?

— Na verdade, nem posso indicar. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho. Uns vão pra primeira luz que aparece. Outros esperam. Uns até ficam nesse lugar escuro. Mas a decisão tem que ser individual.

— Droga. Nem sabia que tinha tanta opção. Nem sabia que ia ter gente nessa escuridão. Mas esses não devem ser boa coisa, né? Pra ficarem na escuridão...

— Quem sou eu para julgá-los? Sou apenas o guia. A decisão é da pessoa.

— Mas como assim, guia? Que conversa estranha é essa, Norberto? Nossa. Deu um arrepio na espinha.

— Já que gosta de filmes, nunca viu que na hora da morte as pessoas querem estar próximas aos entes queridos, ou amigos, ou de quem confiam?

— Já ouvi, sim. Mas não tenho família. Eles morreram quando eu nem era gente...

— Exatamente. Apesar de todos gostarem de você por sua ajuda, amigo de verdade você não tinha. A única pessoa com quem se abria era este padre.

A essa altura, eu estava confuso. Me perguntando se ainda estava dormindo e sonhando. Até gaguejei.

— E-era?

— Sim, era. Acaso não reparou que a dor nos pulmões foi-se embora?

Fiquei em silêncio. Coloquei as mãos na direção dos pulmões. Levantei. O coração acelerou. Fui até a porta do quarto conferir algo. Encontrei meu corpo frio na cama. Apoiei no portal. Abaixei a cabeça por um instante. Dei um suspiro.

— Você tá certo. O padre Norberto era meu único amigo.

— Fica tranquilo. Ele vai cuidar do corpo.

— O lugar pra onde irei é bom ou ruim?

— Nada é estático. Bom e ruim são as pessoas. Vocês humanos têm a mania de julgar o lugar. São as pessoas que tornam o lugar bom ou mau.

— Ao menos fico aliviado de não voltar mais pra cá.

— Receio que possa se decepcionar.

— Sabia que existia esse lance de reencarnação.

— Eu não chamaria assim. Nada tem a ver com o que você aprendeu. Não dá mui...

Eu o cortei, ansioso:

— Quero fugir deste lugar. A Terra já deu pra mim. Assim que você me envolver com seu manto de sono eterno, no momento em que eu vir a luz irei correndo pra ela, sem pensar duas vezes.

— Que assim seja. Você é quem escolhe seu caminho.

 A morte, então, me envolveu, e as luzes da casa foram escurecendo até que além de escuro senti um vazio e solidão genuínos. A escuridão era tão densa que podia senti-la roçando seu espírito recém-moribundo. Pela primeira vez, senti medo.

Perdido no escuro, olhei em todas as direções e encontrei um ponto de luz. Corri em sua direção. Comecei a ouvir vozes dizendo para não ir em direção à luz. Até vozes familiares. Quanto mais corria em direção à luz, mais vozes se juntavam ao coro:

— Volte. Venha conosco. Não faça isso...

Comecei a sentir medo. Não podia vê-los. Corri mais rápido em direção à luz. Tropecei em algo. Levantei rapidamente e continuei a corrida.

— Me deixem em paz, almas perdidas.

Quanto mais chegava perto da luz, mais alto e mais vozes berravam pra me convencer a não ir. Corri mais depressa até escorregar numa secreção. Agora, meus movimentos estavam limitados por uma espécie de túnel gosmento cada vez mais apertado e angustiante. O Guardião da Luz se apresentou:

— Agora me vês com minha forma real. Tens certeza de seguir este caminho?

— Total. Não quero voltar para aquele lugar sombrio — disse, me referindo à Terra.

— Tens noção da responsabilidade em seguir este caminho? Terás que se submeter à hierarquia. Crescer, obedecer, evoluir. E só quando estiveres pronto pra enfrentar sua escuridão que conseguirás atingir seu objetivo.

— Acho que tenho. Desculpe interromper, mas pra que essa secreção?

— Ganharás um corpo novo. O Carlos não existirá mais. Somente sua centelha de vida atravessará este caminho. Serás uma nova pessoa. Terás que aprender tudo do zero.

— Ah, tá, o tal “novo nascimento”. Entendi. Nunca estive mais certo.

— Que assim seja. Ao passar por mim, sua memória começará a apagar, você não se lembrará mais de que foi Carlos, e Mauro, e Carla. Sua centelha pode passar.

Duas mãos me puxaram para a luz, que ficava cada vez mais forte, me cegando, e eu nem conseguia abrir os olhos. A luz estava crescendo, ampliando e incomodando meus olhos. Era como se estivesse saindo de uma espécie de casulo macio. Uma fenda se abriu. Desse ponto em diante, a claridade era tão grande que eu não conseguia mais abrir os olhos. Finalmente, me retiraram do local apertado. Mesmo imundo com aquela secreção, o silêncio mórbido foi interrompido com risos de alegria do outro lado. Pra não doer a vista, abri um olho bem de leve. Percebi que quem havia me puxado era um obstetra. As luzes eram da maternidade. Minha nova mãe estava emocionada. Eu estava decepcionado em voltar à Terra. Apavorado, só me restava gritar de choro e de raiva, enquanto as últimas memórias de Carlos eram apagadas de mim.


Prólogo

Epílogo

Conto

Eu, Carlos, sou um cidadão que chamam de respeitado. Faz tempo que não entro em discussões. Só faço questionamentos com meu único amigo, o padre Norberto. E nos últimos meses a dúvida era sempre sobre o tal do carma, reencarnação, essas coisas. Desde que ouvi falar disso, passei a agir corretamente, dei esmolas, ajudei o próximo, me alimentava bem, e até larguei meu maior vício de todos: o marvado do cigarro. Mas para o pulmão, arrependimento não basta. Ele dói. E muito. E a tosse, cada dia pior. Mas aceito a penitência, afinal, foi a única coisa da qual não cuidei.

Certa noite, procurei Norberto lá pelas tantas. O padre abriu a porta, assustado, colocando os óculos pra enxergar o relógio da parede. Eu entrei afobado, falando que acabara de levantar assustado com um sonho ou visão. Na ilusão, recebi a visita da morte. Estava muito angustiado. Após conversarmos, ela disse que voltaria, mas dessa vez seria nossa última conversa que acompanharia.

— Me ajude, Norberto. Não quero voltar pra essa pocilga.

— Pocilga? Confesso que fiquei surpreso. Você é sempre tão correto...

— Perdoe a franqueza de seu amigo neste momento crucial de angústia que me invade. É medo desse encontro. Sei que está perto. Estou meio perdido, pra ser sincero.

— Mas o amigo sempre demonstrou ansiedade por esse momento. Diante de tantas obras caridosas, a única falha de que me lembro é prolongar o fumo. Mas não penso que seja tamanho pecado que lhe tire o destino celeste.

— Sabe que é meu único amigo. Já deixou de ser apenas confessor faz tempo.

— Sei, sim. E sabe que também o considero próximo. Mas a hora já é avançada, e não há motivo real imenso que não possa te fazer dormir. Vá em paz. Preciso repousar, porque amanhã tem missa cedo.

— Desculpe o nervosismo e ousadia de bater-lhe à porta a esta hora. Mas o senhor me ajuda a sossegar os pensamentos.

Fui-me embora mais calmo e mais leve. A única coisa que doía eram os pulmões. E quanto mais encolhia a barriga, mais tossia. E quanto mais tentava cessar, mais agonia dava. Cheguei a sufocar por uns segundos. A dor me fazia retorcer. Mas consegui entrar em casa e tomar um xarope de ervas. Já tomei tanta coisa pra não tossir. E acho que a única coisa que mudou foram as embalagens. Dessa vez, nada adiantou. A dor só aumentava.

Resolvi deitar e tirar um cochilo pra enganar a dor. Bebi uma solução forte pra dor e desmaiei de alívio.


Acordei no susto com alguém batendo à porta. A preguiça estava tão gostosa que fiz silêncio pra desistirem e irem embora. Mas as batidas continuavam. Resolvi levantar com receio de o vizinho reclamar. Abri a porta. Padre Norberto, calmo, ar sério, esboçou um sorriso sem graça.

— Está tudo bem? — perguntei, curioso.

— Sim — respondeu a figura fria em minha porta.

— Desculpe os modos. Acordei agora. Entre, por favor.

— Posso?

Fiz um gesto com a mão, convidando-o para entrar.

— Ainda estou meio aéreo. Quer beber algo? Desculpe por mais cedo, ou por ontem, sei lá. Nem sei que dia e hora é. O fato é que eu estava perdido com o sonho que tive. Na verdade, até agora estou confuso.

Após fazer sinal negativo para a oferta da bebida, Norberto sentou-se no sofá velho.

— Mas, afinal, qual seu medo da morte?

— Pra ser bem sincero, não tenho medo da morte. Tenho do depois.

— Mas você não fez boas ações? Ajudava a todos? Gastava dinheiro com estranhos? Tanto que sua casa é bem simples — disse o padre enquanto reparava no casebre.

— No fundo, ninguém tem certeza do que vem depois. Tenho amigos de toda religião e com todos é a mesma coisa: na hora da morte, todos confidenciaram esse medo. Se a vida que viveram foi o suficiente.

— Entendi. Mas o que diz sua consciência?

— Não. Em relação a castigo estou em paz. O que faz tremer de medo é ter que voltar para cá.

— Deixe-me ver se estou entendendo. Você não tem medo de morrer, mas sim de viver? — Norberto perguntou, perplexo.

— Exato. Usou as palavras certas. De morrer não tenho um pingo de medo. Mas apavoro quando penso em ver a luz e algo me impedir de ir até ela.

— Interessante. E como você sabe que é pra luz que tem que ir?

— Ué. É o que todos dizem. Até os filmes. Quando uma pessoa boa morre, a luz aparece pra levá-la ao Paraíso, ou seja lá qual for o nome que dão. E quem tem medo de morrer corre da luz com esperança de voltar ao corpo. Quando eu vir a luz, vou correndo pra ela.

— E se aparecer mais de uma luz? O que você vai fazer?

— Não tinha pensado nisso. Já vem você trazer caraminholas pra minha cabeça. Tem alguma ideia?

— Na verdade, nem posso indicar. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho. Uns vão pra primeira luz que aparece. Outros esperam. Uns até ficam nesse lugar escuro. Mas a decisão tem que ser individual.

— Droga. Nem sabia que tinha tanta opção. Nem sabia que ia ter gente nessa escuridão. Mas esses não devem ser boa coisa, né? Pra ficarem na escuridão...

— Quem sou eu para julgá-los? Sou apenas o guia. A decisão é da pessoa.

— Mas como assim, guia? Que conversa estranha é essa, Norberto? Nossa. Deu um arrepio na espinha.

— Já que gosta de filmes, nunca viu que na hora da morte as pessoas querem estar próximas aos entes queridos, ou amigos, ou de quem confiam?

— Já ouvi, sim. Mas não tenho família. Eles morreram quando eu nem era gente...

— Exatamente. Apesar de todos gostarem de você por sua ajuda, amigo de verdade você não tinha. A única pessoa com quem se abria era este padre.

A essa altura, eu estava confuso. Me perguntando se ainda estava dormindo e sonhando. Até gaguejei.

— E-era?

— Sim, era. Acaso não reparou que a dor nos pulmões foi-se embora?

Fiquei em silêncio. Coloquei as mãos na direção dos pulmões. Levantei. O coração acelerou. Fui até a porta do quarto conferir algo. Encontrei meu corpo frio na cama. Apoiei no portal. Abaixei a cabeça por um instante. Dei um suspiro.

— Você tá certo. O padre Norberto era meu único amigo.

— Fica tranquilo. Ele vai cuidar do corpo.

— O lugar pra onde irei é bom ou ruim?

— Nada é estático. Bom e ruim são as pessoas. Vocês humanos têm a mania de julgar o lugar. São as pessoas que tornam o lugar bom ou mau.

— Ao menos fico aliviado de não voltar mais pra cá.

— Receio que possa se decepcionar.

— Sabia que existia esse lance de reencarnação.

— Eu não chamaria assim. Nada tem a ver com o que você aprendeu. Não dá mui...

Eu o cortei, ansioso:

— Quero fugir deste lugar. A Terra já deu pra mim. Assim que você me envolver com seu manto de sono eterno, no momento em que eu vir a luz irei correndo pra ela, sem pensar duas vezes.

— Que assim seja. Você é quem escolhe seu caminho.

 A morte, então, me envolveu, e as luzes da casa foram escurecendo até que além de escuro senti um vazio e solidão genuínos. A escuridão era tão densa que podia senti-la roçando seu espírito recém-moribundo. Pela primeira vez, senti medo.

Perdido no escuro, olhei em todas as direções e encontrei um ponto de luz. Corri em sua direção. Comecei a ouvir vozes dizendo para não ir em direção à luz. Até vozes familiares. Quanto mais corria em direção à luz, mais vozes se juntavam ao coro:

— Volte. Venha conosco. Não faça isso...

Comecei a sentir medo. Não podia vê-los. Corri mais rápido em direção à luz. Tropecei em algo. Levantei rapidamente e continuei a corrida.

— Me deixem em paz, almas perdidas.

Quanto mais chegava perto da luz, mais alto e mais vozes berravam pra me convencer a não ir. Corri mais depressa até escorregar numa secreção. Agora, meus movimentos estavam limitados por uma espécie de túnel gosmento cada vez mais apertado e angustiante. O Guardião da Luz se apresentou:

— Agora me vês com minha forma real. Tens certeza de seguir este caminho?

— Total. Não quero voltar para aquele lugar sombrio — disse, me referindo à Terra.

— Tens noção da responsabilidade em seguir este caminho? Terás que se submeter à hierarquia. Crescer, obedecer, evoluir. E só quando estiveres pronto pra enfrentar sua escuridão que conseguirás atingir seu objetivo.

— Acho que tenho. Desculpe interromper, mas pra que essa secreção?

— Ganharás um corpo novo. O Carlos não existirá mais. Somente sua centelha de vida atravessará este caminho. Serás uma nova pessoa. Terás que aprender tudo do zero.

— Ah, tá, o tal “novo nascimento”. Entendi. Nunca estive mais certo.

— Que assim seja. Ao passar por mim, sua memória começará a apagar, você não se lembrará mais de que foi Carlos, e Mauro, e Carla. Sua centelha pode passar.

Duas mãos me puxaram para a luz, que ficava cada vez mais forte, me cegando, e eu nem conseguia abrir os olhos. A luz estava crescendo, ampliando e incomodando meus olhos. Era como se estivesse saindo de uma espécie de casulo macio. Uma fenda se abriu. Desse ponto em diante, a claridade era tão grande que eu não conseguia mais abrir os olhos. Finalmente, me retiraram do local apertado. Mesmo imundo com aquela secreção, o silêncio mórbido foi interrompido com risos de alegria do outro lado. Pra não doer a vista, abri um olho bem de leve. Percebi que quem havia me puxado era um obstetra. As luzes eram da maternidade. Minha nova mãe estava emocionada. Eu estava decepcionado em voltar à Terra. Apavorado, só me restava gritar de choro e de raiva, enquanto as últimas memórias de Carlos eram apagadas de mim.


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