Realidade de Teseu

Cyberpunk
Julho de 2020
Começou, agora termina queride!

Vitor Fernandes

Autor
Autora
Organizador
Organizadora
Autor e Organizador
Autora e Organizadora
Editor
Editora
Ilustrador
Ilustradora
Metade gótico, metade periférico, metade professor. A conta não bate, mas é fantástico por isso mesmo.

Romeu e Julieta

Conquista Literária
Conto publicado em
Projeto V.E.R.O.N.A.

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O velho mundo nos trouxe até aqui e os velhos hábitos nos impulsionaram a ser como somos. No entanto, o velho mundo precisa cair para que um novo mundo se erga das cinzas.

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Realidade de Teseu
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Antigamente, as calorosas discussões acadêmicas sobre o limite entre o ser humano e as máquinas pautavam-se em diversas especulações. Naquele tempo, o conceito de ciborgue mostrava uma zona mista entre biologia e tecnologia. Um atleta de alto desempenho era uma espécie de ciborgue com suas vitaminas. Uma pessoa com uma prótese era um ciborgue com essa intervenção. Um operado no coração, o mesmo. Me sinto nostálgico quando penso nesse tempo que nem vivi. Essa inocência desprevenida... Mal sabiam que abriram a caixa de pandora. Hoje em dia, as universidades já discutem o conceito de emaranhamento total... e tentam teorizar sobre os fios que singularizam o ser humano. A inteligência já não é um deles, as IA’s também são, inclusive carregam isso no nome. Bem. Há discussão. Mais intensa do que nunca. Hoje, recebemos no departamento uma notificação, na verdade, um decreto do governo lá de fora. Em um prazo de poucos dias, todos os seres humanos com identificações virtuais devem cancelar seu passaporte para V.E.R.O.N.A. se desejarem continuar com o status de “humanos”. Como disse, a discussão continua, e assume práticas concretas.

Confesso que fiquei preocupado. Nós trabalhamos aqui, vamos pouquíssimas vezes ao departamento físico da Universidade... não é seguro sair... e a frequência aumenta as chances de não voltar. Ainda tem o fato de sermos pesquisadores... piora tudo. Mesmo aqui em V.E.R.O.N.A. há aqueles que perguntam se nós defendemos “robôs”. Penso... como eles acham que essa cidade foi criada? Sem contar a escolha do próprio uso da palavra “robô”. Bem. Essa situação tem saído de controle e esse decreto levou à criação de um novo protocolo na cidade. Os distritos serão divididos entre humanos em upload e IA’s. Nós ficaremos em determinadas áreas, elas em outras. Humanos não queriam trabalhar para IA’s. Mesmo escolas já se dividiam.

— O que você acha disso, Rômulo?

— Você sabe que eu espero isso há tempos...

Rômulo e eu trabalhamos no departamento. Ele é uma IA. Eu sou humano. Desenvolvemos uma pesquisa juntos. Partimos do princípio que a criação humana e a criação das IA’s são duas partes da mesma moeda. Biologia e tecnologia são faces da mesma realidade. Assim como divindade e humanidade se encontram nos textos religiosos diversos, também acreditamos no encontro entre biologia e tecnologia. Começamos há anos. Era um projeto misto do setor Pacificador com a ala menos radical dos Segmentários. Tinha problemas. Mas dava esperança... havia diálogo e confiança em dias melhores, apesar de tudo. Hoje não... hoje certamente não. Apesar da vanguarda, não nos davam muitas verbas por causa da cautela e etc, etc, etc. Rômulo confirmava que não era por isso, era por causa do projeto de guerra. O dinheiro escorre para eliminar uma raça, nós somos apenas uma cortina. Eu precisava concordar... Tivemos tantos avanços, Rômulo...

Ele me encarava... uma placa de vídeo em sua face... me encarava. Lisa. Prateada, com detalhes em preto. Esquentam quando ele as aciona muito. Estão quentes agora. Sinto o calor.

Se aproximou de mim.

Encostei minha cabeça na sua testa, ardeu um pouco. Incrível como aqui somos tão parecidos... sinto suas camadas macias e quentes. Uma vez ele disse que sente meu corpo elétrico. Eu sou uma nuvem de dados, ele é uma nuvem de dados. A diferença... qual seria?

Um sinal apitou no mundo. Uma mensagem nova no sistema. Me aproximei da janela para ver melhor. Uma nuvem de drones formavam os pixels da imagem. Uma IA ao lado de um humano em upload sorriam para os usuários. A tela voadora era fantasmagórica... No fundo, o céu azul bicado por prédios e esqueletos de placas neon desligadas. Essa imagem me deixou um tanto deprimido. Fantasmas sempre me deprimem.

— Queridos usuários. Temos apenas uma hora até a alteração distrital. Façam suas atualizações para já experimentar a nova realidade que V.E.R.O.N.A. oferece. IA’s e humanos poderão fincar suas raízes e proteger suas origens em uma terra livre.

— Eu vou deixar você decidir isso, Julio. É a nossa pesquisa, não é só minha. Ontologicamente.

Nós tínhamos certos privilégios antes... tanto os Pacificadores quanto os Segmentários toleravam nossa existência. Fomos inocentes em acreditar? Nos permitiram esse pedaço na Universidade. Uma pequena torre flutuante. Víamos tudo... a baía que engolfava a cidade, os neons brilhando como estrelas... Uma pena que também começamos a ver, do alto, os embates entre IA’s e humanos. Lembro daquele mar de dados vazando na baía... hackers corromperam o sistema para eliminar alguém... IA’s ou nós... não importa... no final, vários usuários tiveram sua nuvem de dados perdida. Uns voltaram para o mundo lá fora. Outros sumiram.

Uma patrulha cerca o departamento em seus planadores.

O setup já está na minha mão. No meu corpo, lá fora, deixei um USB conectado a uma gambiarra. Arcaico, mas útil para back-up dos dados. Aciono o setup. Rômulo faz o mesmo. O setup é o start. Passa pelo firewall dos sistemas que os acionam e mistura seus dados. Isso a genética já faz, mas sempre gera ou fetos mortos ou infertilidade quando se trata de espécies distintas. Aqui, geramos inteligência. Rômulo foi designado para isso. Me questiono muito sobre o que foi impresso nas suas entranhas de dados.

— Você lembra minha senha, Julio?

— Lembro. Posso?

Me questiono muito. Mas teve esse dia... Enquanto eu mexia com alguns números para formar o setup, uma tela se abriu na minha frente. Era o login de Rômulo. Ele não só estava fazendo aquilo pra que tinha sido programado: ser o Teseu. Ele estava abrindo seus sistemas para mim, eu era o único a permitir o processo do setup. Naquele dia, também abri minha nuvem de dados a Rômulo. Meu corpo elétrico tremeu. Pois eu nunca tinha sentido prazer tão puro até aquele dia. Lembro de que, naquele dia, quando voltei lá para fora, meu corpo tinha reagido e fluído àquela experiência agradável.

— Pode.

Sinto um choque. O mundo brilha em cores fortes.

Nossas nuvens se misturam num único arquivo. O USB pisca. O corpo abre os olhos. Enxerga tudo. Há Segmentários no departamento físico da universidade. Em V.E.R.O.N.A., já perceberam que há um problema. O relógio para o fim do mundo, travado, não conta as horas para atualizar. O céu range e chia em tons de cinza. A cidade não suporta o novo arquivo. Está se corrompendo, um buraco sem cor e sem espaço surge no horizonte, é o fim, a começar pela queda do céu.

Sinto o fluxo de informação. Sinto o sangue e a carne que não são recarregáveis. O avatar cresce em tamanho e rompe o teto do departamento flutuante. Temos toda a cidade na palma de nossas mãos e fluindo em números como um arquivo em nossa pasta. Troco a câmera. Do outro lado, Segmentários atiram no Teseu. O corpo não cai.

O gigante Teseu ergue-se acima das nuvens de pixels de V.E.R.O.N.A. e rasga o buraco. De um lado e outro do tecido das velhas realidades, humanos e IA’s veem o futuro esmagar o velho céu.

Satisfeitos, Pacificadores comemoram o novo mundo.

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O velho mundo nos trouxe até aqui e os velhos hábitos nos impulsionaram a ser como somos. No entanto, o velho mundo precisa cair para que um novo mundo se erga das cinzas.

Prólogo

Epílogo

Conto

Antigamente, as calorosas discussões acadêmicas sobre o limite entre o ser humano e as máquinas pautavam-se em diversas especulações. Naquele tempo, o conceito de ciborgue mostrava uma zona mista entre biologia e tecnologia. Um atleta de alto desempenho era uma espécie de ciborgue com suas vitaminas. Uma pessoa com uma prótese era um ciborgue com essa intervenção. Um operado no coração, o mesmo. Me sinto nostálgico quando penso nesse tempo que nem vivi. Essa inocência desprevenida... Mal sabiam que abriram a caixa de pandora. Hoje em dia, as universidades já discutem o conceito de emaranhamento total... e tentam teorizar sobre os fios que singularizam o ser humano. A inteligência já não é um deles, as IA’s também são, inclusive carregam isso no nome. Bem. Há discussão. Mais intensa do que nunca. Hoje, recebemos no departamento uma notificação, na verdade, um decreto do governo lá de fora. Em um prazo de poucos dias, todos os seres humanos com identificações virtuais devem cancelar seu passaporte para V.E.R.O.N.A. se desejarem continuar com o status de “humanos”. Como disse, a discussão continua, e assume práticas concretas.

Confesso que fiquei preocupado. Nós trabalhamos aqui, vamos pouquíssimas vezes ao departamento físico da Universidade... não é seguro sair... e a frequência aumenta as chances de não voltar. Ainda tem o fato de sermos pesquisadores... piora tudo. Mesmo aqui em V.E.R.O.N.A. há aqueles que perguntam se nós defendemos “robôs”. Penso... como eles acham que essa cidade foi criada? Sem contar a escolha do próprio uso da palavra “robô”. Bem. Essa situação tem saído de controle e esse decreto levou à criação de um novo protocolo na cidade. Os distritos serão divididos entre humanos em upload e IA’s. Nós ficaremos em determinadas áreas, elas em outras. Humanos não queriam trabalhar para IA’s. Mesmo escolas já se dividiam.

— O que você acha disso, Rômulo?

— Você sabe que eu espero isso há tempos...

Rômulo e eu trabalhamos no departamento. Ele é uma IA. Eu sou humano. Desenvolvemos uma pesquisa juntos. Partimos do princípio que a criação humana e a criação das IA’s são duas partes da mesma moeda. Biologia e tecnologia são faces da mesma realidade. Assim como divindade e humanidade se encontram nos textos religiosos diversos, também acreditamos no encontro entre biologia e tecnologia. Começamos há anos. Era um projeto misto do setor Pacificador com a ala menos radical dos Segmentários. Tinha problemas. Mas dava esperança... havia diálogo e confiança em dias melhores, apesar de tudo. Hoje não... hoje certamente não. Apesar da vanguarda, não nos davam muitas verbas por causa da cautela e etc, etc, etc. Rômulo confirmava que não era por isso, era por causa do projeto de guerra. O dinheiro escorre para eliminar uma raça, nós somos apenas uma cortina. Eu precisava concordar... Tivemos tantos avanços, Rômulo...

Ele me encarava... uma placa de vídeo em sua face... me encarava. Lisa. Prateada, com detalhes em preto. Esquentam quando ele as aciona muito. Estão quentes agora. Sinto o calor.

Se aproximou de mim.

Encostei minha cabeça na sua testa, ardeu um pouco. Incrível como aqui somos tão parecidos... sinto suas camadas macias e quentes. Uma vez ele disse que sente meu corpo elétrico. Eu sou uma nuvem de dados, ele é uma nuvem de dados. A diferença... qual seria?

Um sinal apitou no mundo. Uma mensagem nova no sistema. Me aproximei da janela para ver melhor. Uma nuvem de drones formavam os pixels da imagem. Uma IA ao lado de um humano em upload sorriam para os usuários. A tela voadora era fantasmagórica... No fundo, o céu azul bicado por prédios e esqueletos de placas neon desligadas. Essa imagem me deixou um tanto deprimido. Fantasmas sempre me deprimem.

— Queridos usuários. Temos apenas uma hora até a alteração distrital. Façam suas atualizações para já experimentar a nova realidade que V.E.R.O.N.A. oferece. IA’s e humanos poderão fincar suas raízes e proteger suas origens em uma terra livre.

— Eu vou deixar você decidir isso, Julio. É a nossa pesquisa, não é só minha. Ontologicamente.

Nós tínhamos certos privilégios antes... tanto os Pacificadores quanto os Segmentários toleravam nossa existência. Fomos inocentes em acreditar? Nos permitiram esse pedaço na Universidade. Uma pequena torre flutuante. Víamos tudo... a baía que engolfava a cidade, os neons brilhando como estrelas... Uma pena que também começamos a ver, do alto, os embates entre IA’s e humanos. Lembro daquele mar de dados vazando na baía... hackers corromperam o sistema para eliminar alguém... IA’s ou nós... não importa... no final, vários usuários tiveram sua nuvem de dados perdida. Uns voltaram para o mundo lá fora. Outros sumiram.

Uma patrulha cerca o departamento em seus planadores.

O setup já está na minha mão. No meu corpo, lá fora, deixei um USB conectado a uma gambiarra. Arcaico, mas útil para back-up dos dados. Aciono o setup. Rômulo faz o mesmo. O setup é o start. Passa pelo firewall dos sistemas que os acionam e mistura seus dados. Isso a genética já faz, mas sempre gera ou fetos mortos ou infertilidade quando se trata de espécies distintas. Aqui, geramos inteligência. Rômulo foi designado para isso. Me questiono muito sobre o que foi impresso nas suas entranhas de dados.

— Você lembra minha senha, Julio?

— Lembro. Posso?

Me questiono muito. Mas teve esse dia... Enquanto eu mexia com alguns números para formar o setup, uma tela se abriu na minha frente. Era o login de Rômulo. Ele não só estava fazendo aquilo pra que tinha sido programado: ser o Teseu. Ele estava abrindo seus sistemas para mim, eu era o único a permitir o processo do setup. Naquele dia, também abri minha nuvem de dados a Rômulo. Meu corpo elétrico tremeu. Pois eu nunca tinha sentido prazer tão puro até aquele dia. Lembro de que, naquele dia, quando voltei lá para fora, meu corpo tinha reagido e fluído àquela experiência agradável.

— Pode.

Sinto um choque. O mundo brilha em cores fortes.

Nossas nuvens se misturam num único arquivo. O USB pisca. O corpo abre os olhos. Enxerga tudo. Há Segmentários no departamento físico da universidade. Em V.E.R.O.N.A., já perceberam que há um problema. O relógio para o fim do mundo, travado, não conta as horas para atualizar. O céu range e chia em tons de cinza. A cidade não suporta o novo arquivo. Está se corrompendo, um buraco sem cor e sem espaço surge no horizonte, é o fim, a começar pela queda do céu.

Sinto o fluxo de informação. Sinto o sangue e a carne que não são recarregáveis. O avatar cresce em tamanho e rompe o teto do departamento flutuante. Temos toda a cidade na palma de nossas mãos e fluindo em números como um arquivo em nossa pasta. Troco a câmera. Do outro lado, Segmentários atiram no Teseu. O corpo não cai.

O gigante Teseu ergue-se acima das nuvens de pixels de V.E.R.O.N.A. e rasga o buraco. De um lado e outro do tecido das velhas realidades, humanos e IA’s veem o futuro esmagar o velho céu.

Satisfeitos, Pacificadores comemoram o novo mundo.

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