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Preparem-se para a sua destruição

Alexandre Torres
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Preparem-se para a sua destruição
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Tudo começou durante meu estágio de pós-doutorado em astronomia. Nosso grupo de pesquisa, liderado pela professora Brown, analisava dados obtidos pelo telescópio orbital para o levantamento de exoplanetas transitantes. Eu estava focado nos dados obtidos da análise do sistema binário “Tau Boötis”, na constelação do Boieiro, em especial por causa de um novo planeta localizado dentro da zona habitável da estrela primária. Entretanto, como gozava de algum tempo livre, desenvolvia um projeto pessoal de examinar também os dados da estrela secundária deste sistema, para desânimo de Martina, minha noiva.

– Não acredito! Você vai passar o fim de semana estudando essa tal mini estrela que fica a milhões de anos-luz. Seus colegas estão rindo de você, me disseram que é uma perda de tempo procurar por algo em uma estrela tão pálida  – reclamou naquela sexta-feira a noite.

– Em primeiro lugar, é uma estrela anã vermelha, não uma mini estrela. E ela está apenas a cinquenta e um anos-luz, é praticamente nossa vizinha. Depois, se todos acham que minha ideia é um beco sem saída, melhor ainda, tenho menos concorrência – respondi.

– Podíamos estar aproveitando este tempo para viajar, como todo mundo faz no pós-doc – argumentou com um beiço.

– Você também segue carreira acadêmica, sabe como funciona. Depois do pós-doc não vou ter tempo para desenvolver este tipo de projeto. Estou perto de descobrir algo, posso sentir isso. Prometo te compensar no próximo fim de semana.

Martina era uma matemática, estudava gramáticas formais, uma área que se conectava com computação e linguística. Mas eu a entendia, os teóricos organizam melhor o tempo, astrônomos não. Todavia, eu não cumpriria essa promessa.

– Quero só ver! Por que às vezes têm letras minúsculas e outras vezes letras maiúsculas no nome dos planetas?

 – As letras maiúsculas são para identificar as estrelas, em ordem de grandeza. Como o sistema é binário, são duas estrelas, “A” e “B”. As minúsculas identificam os planetas que orbitam as estrelas.

– Mas você não vai conseguir ver nenhum planeta em uma estrela tão fraca – sentenciou, olhando na tela de meu note aquele monte de números, incompreensíveis para ela, enquanto apoiava a cabeça em meu ombro.

– Não dá para “ver” um exoplaneta, no sentido de olhar por uma lente ou tirar uma foto.

– Sempre que saem notícias de novos planetas tem fotos – argumentou Martina.

– Essas imagens são concepções artísticas. No caso do método de trânsito, que estou utilizando, a única coisa que vemos é uma variação na luminosidade da estrela causada pela sombra do objeto. Luminosidade em todo espectro eletromagnético, não apenas a luz visível, como também infravermelho, ultravioleta ou micro-ondas.

– Que chato isso daí. Eu vou dormir e te deixar trabalhar – disse Martina, me dando um beijo na bochecha.

Naquela noite testei pela primeira vez um novo algoritmo que analisava os dados da estrela. Tive uma grata surpresa: encontrei um pequeno planeta, com cerca de mil quilômetros de diâmetro, menos até que a nossa lua. O fato da estrela ser de baixa luminosidade, pois tinha zero vírgula quatro vezes a massa de nosso sol, acabou por contribuir para detecção do pequeno planeta.

Passei o fim de semana analisando o espectro de absorção do objeto, que não era nada parecido com o que os planetas geralmente apresentam. O corpo emitia muita energia no espectro do infravermelho, e fazia isso de forma uniforme. Uma esfera absorve mais energia no centro do que nas bordas, porque as ondas eletromagnéticas precisam atravessar mais matéria ali. Aquele novo corpo celeste, o “Tau Boötis Ba”, absorvia energia por igual, ou seja, não era uma esfera, mas alguma outra coisa homogênea como um disco.

Alguns fins de semana sem descanso depois, estava publicando a descoberta que mudaria minha vida. Logo depois do pós-doc tinha um escritório só meu, com uma bela placa onde se lia Professor Marcos Ferreira, orientando vários pesquisadores para descobrir mais sobre aquele novo corpo celeste. Infelizmente não fui eu que dei o próximo passo neste sentido, a ciência é assim mesmo, mas uma turma na China descobriu que “Tau Boötis Ba” não era um planeta, nem tampouco era redondo. O formato geral do objeto era, muito provavelmente, o de um grande prisma, com a base duas vezes maior que a altura.

O corpo celeste logo foi apelidado de monólito negro, em alusão ao filme 2001 uma odisseia no espaço. Era um erro porque, ao que tudo indicava, ele parecia refletir a luz para algum lugar, não podendo ser de cor escura. Foi assim que escrevemos o segundo artigo que me tornou ainda mais famoso. Em conjunto com meus alunos, sugeri que “Tau Boötis Ba” poderia ser um conjunto gigante de estações espaciais, o que os especuladores científicos chamam de “enxame de Dyson”, habitados por uma civilização que abandonou a vida em planetas por uma existência em órbita de uma estrela. Claro que também poderia ser uma nuvem de gás, um monte de pequenos asteroides, ou um cometa que explodiu deixando um rastro estranho. Muitas eram as possibilidades naturais e todo mundo no meio científico sabia que este tipo de especulação era pura autopromoção.

Sete anos se passaram, nos quais casei com Martina e tivemos dois filhos. O assunto foi perdendo tração, enquanto me dedicava às atividades acadêmicas e pesquisas mais mundanas. Tudo mudou quando começamos a processar os novos dados obtidos pelo observatório espacial James Webb. Estava dada a largada para determinar o que raios era “Tau Boötis Ba” e, dessa vez, a sorte favorecia os bravos: o objeto não se encaixava em nenhuma categoria natural.

Pesquisadores de todo o mundo divulgavam descobertas todos os dias, desta vez sendo os americanos que deram o passo decisivo: haviam padrões e símbolos luminosos detectáveis no corpo celeste. “Tau Boötis Ba” era um conjunto de objetos espaciais artificiais que funcionava como um outdoor gigante para quem quisesse ver. Ou melhor ainda, direcionado para que nós pudéssemos ver. Mas o que estava escrito ali?

– Amor, você se lembra como nos conhecemos? – perguntei para Martina, enquanto examinava os dados citados no artigo americano.

– Claro! Estava dando uma palestra sobre Lincos e você me fez uma pergunta. Depois da palestra nós continuamos conversando e não paramos mais, não é?

Lincos é uma linguagem artificial proposta por Hans Freudenthal em 1960. Seu objetivo era criar uma maneira autocontida de se comunicar com alienígenas inteligentes, utilizando-se apenas da lógica e da matemática como contexto. O principal problema de se comunicar com um povo alienígena é a falta de parâmetros comuns para estabelecer objetos, verbos e adjetivos. Sem pontos culturais em comum, assume-se que a matemática sirva de base para comunicação entre todos os povos.

– Você lembra qual foi minha pergunta?

– Sim, você queria saber como o meio de comunicação afeta a linguagem, uma vez que o Lincos foi baseado em transmissões de rádio – respondeu Martina.

– A gente acreditava que usaríamos sinais de rádio para se comunicar com extraterrestres. Só que emitir sinais de rádio, potentes o suficiente para serem compreendidos em outros sistemas, exige e desperdiça muita energia. Entretanto, e se usássemos algo mais visual, como um outdoor?

– Um outdoor espacial não daria mais trabalho? Teria que ser do tamanho de um planeta. Bom, o princípio seria o mesmo, e você pode usar o espaço bidimensional para enviar figuras ou diagramas.

– Não daria mais trabalho se você já morasse nele. Imagine que você usasse os telhados das casas para escrever uma mensagem, visível somente de avião, apenas alternando telhas coloridas quando constrói as casas. O custo seria mínimo – expliquei.

– Você está falando do seu artigo de sete anos atrás?

– Sim! Eu acho que você pode me ajudar a decifrar uma mensagem extraterrestre.

Foi assim que Martina e eu começamos a trabalhar na mensagem dos habitantes de Boieiro. A parte superior do quadro alienígena tinha inscrições maiores, cujo objetivo era chamar a atenção de astrônomos extraterrestres para aquele ponto, fornecendo inequívoca evidência da artificialidade do corpo celeste. Eles poderiam realizar isso modulando a quantidade de infravermelho emitido pelos objetos que compunham o corpo, provavelmente pelo controle da quantidade de luz absorvida pelos painéis solares que abasteceriam estas estações.

As inscrições inferiores eram menores, o que exigiu muito trabalho até obtermos uma resolução suficiente para compreendê-las. Na parte central estava a mensagem principal, novamente bem nítida, mas ainda incompreensível para nós. A parte inferior continha descrições alternativas da parte superior. Somente compreendendo as inscrições menores, que descreviam a língua deles, saberíamos o que estava escrito na mensagem principal.

– Olha Marquinho, é como no Lincos, as primeiras frases estabelecem um vocabulário lógico e aritmético. Apresenta uma forma de representação dos números, como um código binário, e seu equivalente na língua. Nós usamos números decimais, de base dez, mas eles usam números duodecimais, de base doze.

– Então eles têm seis dedos em cada mão? – perguntei.

– Não necessariamente. O sistema duodecimal é considerado o mais prático porque pode ser fatorado por 1, 2, 3, 4 e 6. Ele torna a matemática mais elegante e simples, se eu fosse escolher a base de um sistema numérico, para me comunicar com outro povo, essa seria a escolha mais lógica.

A medida que compreendíamos seu sistema de números e letras, novas perguntas surgiam.

– E estas expressões mais compridas? – apontei no gráfico produzido pelo filtro de imagem.

– Essas utilizam o vocabulário básico para introduzir conceitos mais complexos. Nesse aqui você tem dois atores, que são esses símbolos que parecem um ipsilone. Este outro símbolo, que parece um maior, significa uma pergunta. Depois da pergunta, tem uma expressão algébrica que equivale a 4x=10.

– Entendo, e na expressão seguinte o segundo ator responde com 10/4. O que seria este símbolo da resposta do primeiro ator? Não é verdadeiro nem falso.

– É tipo o símbolo de “Mal” no Lincos. Significa que o resultado, apesar de correto, é incompleto. A resposta mais correta seria 5/2. É desta forma que eles introduzem conceitos.

Publicamos o primeiro artigo sobre a relação da língua extraterrestre com o Lincos. Foi um sucesso, nos transformamos em celebridades. Todo mundo queria saber o que os alienígenas nos diriam. Alguns acreditavam que seriam como deuses, ou o próprio Deus, nos revelando um novo evangelho. Outros achavam que nos revelariam os segredos mais profundos do universo. Os mais otimistas achavam que seriam instruções para construirmos avançadas naves espaciais, como os  motores de dobra do Star Trek.

Novamente fomos ultrapassados por instituições de pesquisa maiores. Foi na Suíça que terminaram de decifrar a língua de Boieiros. É claro que nossa contribuição, especialmente o que Martina fez, foi fundamental. Ali não encontraram novos segredos sobre a ciência ou universo, pois estava escrito apenas uma mensagem curta e muito clara, mas de diferentes maneiras para não deixar dúvidas: “Preparem-se para sua destruição”.

Às sete da manhã acordei com minha casa cercada de jornalistas, todos querendo nossa opinião sobre a descoberta.

– A mensagem enviada pelos extraterrestres, decodificada pelos meus pares na Suíça, está correta. Cabe agora a humanidade compreender o significado desta ameaça – explicou Martina aos jornalistas.

– Qual seria o nível tecnológico desta civilização inimiga? – perguntou outro repórter.

– Existe uma escala de desenvolvimento que pode nos ser útil neste caso, a escala Kardashev. Nossa civilização ainda não atingiu o nível um desta escala, que equivale a controlar a energia em uma escala planetária. Ao que tudo indica, a civilização que observamos em “Tau Boötis Ba” pertence ao nível dois desta escala, sendo capaz de controlar a energia de uma estrela inteira. Isto porque a anã vermelha está cercada de estações espaciais, o que chamamos de enxame de Dyson. A face que primeiramente detectamos deste enxame está propositalmente direcionada para nós, mas já podemos arriscar que há mais estações envolvendo toda a estrela – expliquei.

– O senhores acham que eles estão planejando nos destruir? – perguntou a jornalista.

Martina e eu nos entreolhamos e eu respondi.

– É possível. Eles ou alguma outra coisa. Pode ser uma ameaça ou um aviso. Pode existir outra civilização que queira nossa destruição. Se existe uma, podem existir muitas mais por aí. Podemos direcionar o SETI para buscar civilizações que vivem em enxames de Dyson, ao invés de planetas habitáveis. Não detectamos planetas ao redor da anã vermelha, apenas ao redor da estrela principal.

– Que chance teríamos de nos defender de um ataque desta civilização?

– Considerando a distância, levaria no mínimo cinquenta e um anos para que eles pudessem nos agredir. A forma mais rápida de realizar este ataque seria através de um raio de Nicoll Dyson, que consiste em posicionar espelhos ao redor da estrela, refletindo uma grande parte de sua energia na forma de um raio coerente em direção a nosso planeta. Algo como a estrela da morte do Star Wars. Este ataque levaria quarenta e dois anos para chegar aqui, imaginando que foi disparado no momento em que detectamos a mensagem. Pode ter sido disparado há mais tempo. E existem outras formas mais efetivas de nos atacar, em escalas de tempo um pouco maiores. Uma delas é o uso de mísseis relativísticos – divaguei, mais do que deveria.

– O que seriam esses mísseis?

– Qualquer objeto com alguma massa, como um pequeno asteroide, pode ser acelerado até velocidades próximas da luz e arremessado contra nosso planeta. Uma civilização avançada, como a deles, poderia enviar centenas destes mísseis, e bastaria apenas um para destruir a vida em nosso planeta.

– É possível se defender? – perguntou uma jornalista.

– Teremos que nos preparar para todas as eventualidades. Talvez estes mísseis já estejam a caminho e prestes a atingir a Terra. Talvez eles estejam enviando naves tripuladas para uma invasão, e neste caso provavelmente teríamos mais tempo.

Foi por causa desta entrevista que acabei ingressando no seleto grupo de defesa planetária da ONU, liderado na época pelo ex-astronauta e general de brigada Charles Bolden. Foi ali que conheci pela primeira vez o major Griffin, que no futuro lideraria nosso grupo de defesa planetária. Nesta época, entretanto, ele representava uma minoria que defendia a tese da retaliação, mesmo sem apresentar qualquer plano viável para tal.

O mundo mudou muito depois dessas descobertas. As religiões tradicionais sofreram um grande impacto, mas outras surgiram, reinterpretando os textos sagrados para a nova situação da humanidade. Sempre haviam crentes, assim como céticos que duvidaram dos fatos. Não foram poucos os reacionários à nova realidade, entretanto sua opinião pouco importava. A ameaça estava nos céus, e a cada ano se tornava mais visível a quem quisesse ver. As disputas nacionais e culturais precisavam ficar de lado, pois um inimigo como nenhum outro assomava no horizonte de nossa história.

Durante essa era de ouro, cientistas e engenheiros determinavam o destino do mundo. A humanidade precisava se tornar uma espécie espacial para sobreviver. Colonizar a lua e os outros planetas se tornou urgente e um gasto prioritário de todos os povos. Se a princípio tal movimento representou um sacrifício econômico, em pouco mais de dez anos havia um novo mercado espacial que movimentava trilhões de dólares. A industrialização da lua levou a construção de estações espaciais, alimentadas primeiramente por painéis solares e depois por usinas de fusão nuclear. Novos métodos engenhosos de lançamento levavam materiais e pessoas ao espaço de mais forma barata e segura que os atuais foguetes.

Aos poucos a indústria e a agricultura começaram a se mover para órbita da Terra, ampliando as áreas verdes de nosso planeta. Utilizando-se da gravidade simulada pela rotação, estações cilíndricas gigantescas serviam de moradia, indústria e terra arável em pleno espaço. Para elas iam quem pudesse pagar, na esperança de estarem bem longe da Terra quando os ataques começassem.

Uma rede de satélites foi lançada para detectar objetos extrassolares no cinturão de Kuiper, além do planeta Urano. Espelhos solares espaciais eram projetados para fornecer energia e, ao mesmo tempo, para abastecerem armas espaciais de defesa, capazes de repelir ataques ou acelerar projéteis para neutralizá-los.

Cinquenta anos se passaram desde então, quando a humanidade começou a construir seu próprio exame de Dyson, utilizando-se de minas no planeta Mercúrio. Ao mesmo tempo, a qualidade de vida humana melhorou muito, uma vez que a economia de defesa planetária mantinha ocupados largos contingentes de trabalhadores que não tinham mais utilidade em um novo capitalismo de produção automatizada.

A inteligência artificial, aliada a medicina nanotecnológica e as tecnologias cibernéticas, ampliavam a expectativa de vida das pessoas para horizontes imprevisíveis. Infelizmente, não a tempo para minha esposa Martina, que faleceu antes que estas opções de prolongamento da vida na forma digital estivessem disponíveis.

É nesta época que o agora general Griffin comandava a iniciativa de defesa espacial. Desde o princípio existia a ideia de enviar uma nave tripulada a “Tau Boötis”, com o objetivo de entrar em contato com aquela civilização. Contudo, as escalas de tempo eram proibitivas no início, levaríamos milhares de anos para atingir a estrela. Finalmente, com os avanços destes cinquenta anos, a viagem se reduzira para apenas cento e cinquenta anos. Griffin era um defensor ferrenho desta ideia, mas sempre nutri suspeitas pelas suas motivações. Também não tínhamos a melhor das relações,  achava-o muito agressivo e militarista.

– Precisamos de você nesta missão! – me disse Griffin em particular, ao saber que tinha recusado o convite oficial.

– Existem cientistas muito melhores e mais jovens do que eu. Tenho oitenta e cinco anos – respondi.

– Eu estarei nessa missão, mesmo que fora do comando. Temos a mesma idade, eu não perderia isso por nada neste mundo, tenho certeza que você também não. É viúvo, seus filhos e netos estão crescidos, nada mais te prende aqui – insistiu o general.

– São sessenta anos de viagem, ao chegar seria muito mais velho que um humano deveria poder ser – respondi.

– Não somos mais seres humanos como antes. Você já é mais máquina que gente, um ciborgue, uma mescla de computadores, inteligência artificial, membros e órgãos mecânicos. Para nós não é um passo tão grande abraçar uma vida puramente eletrônica.

Sem o problema da carga biológica, nossa nave poderia acelerar até velocidades relativistas, distorcendo o espaço-tempo de forma que passasse mais rapidamente para nós. Da Terra levaríamos cento e cinquenta anos, mas para nós apenas sessenta anos se passariam. A nave aceleraria até próximo a velocidade da luz, depois desaceleraria nas proximidades de “Tau Boötis A”, a estrela principal. Usaríamos a gravidade da estrela como freio e nos lançaríamos até “Tau Boötis B”, a anã vermelha, em uma velocidade newtoniana.

– É difícil de argumentar com você. Acho bom que esta missão tenha realmente um caráter pacifista. Seria ridículo enfrentar um tanque com um estilingue – desabafei.

– Você faz parte do projeto desta missão desde sua primeira encarnação. Não sou mais aquele jovem major com o qual discutia, aprendemos algo com o tempo, você e eu. É um expedição  puramente exploratória e diplomática – me garantiu.

Aceitei. Éramos uma equipe de cem astronautas, comandados pelo capitão Huang, todos nascidos humanos, mas tornados em ciborgues. Não precisávamos mais comer nem respirar, eramos abastecidos por energia elétrica. A nave era gigantesca, um conjunto colossal de tanques de hidrogênio formava uma coluna que conectava o propulsor ao centro de comando. Uma usina nuclear de fusão abastecia a nave, e a propulsão principal era iônica. Dentro do sistema solar, a nave também era empurrada por poderosos raios mazer, o laser de micro-ondas, emitidos por estações espaciais. Contudo, a viagem era só de ida, se quiséssemos voltar teríamos que conseguir o combustível em nosso destino.

Fomos a primeira nave interestelar, mas não seríamos a única. Outras seriam enviadas para sistemas solares vizinhos, como “Alfa Centauri” e “Próxima Centauri”, com o objetivo de colonização. Para lá enviaram humanos e animais de verdade, em verdadeiras arcas de noé cósmicas. Seriam a alternativa para o caso de nosso sistema solar ser destruído.

Por causa da aceleração até velocidades relativísticas, ficamos cerca de cem anos sem contato com a Terra, pois este tempo se passou para nós em apenas três anos. Foi só quando desaceleramos, próximos à estrela “Tau Boötis A”, que descobrimos que nosso mundo estava bem. Nenhum ataque tinha acontecido até ali, mas a mensagem dos alienígenas continuava lá.

Isso não nos deixava fora de perigo. Para uma civilização tão avançada, ao ponto de se lançar à conquista interestelar, séculos não são nada. Mesmo para nós, a primeira geração de ciborgues espaciais da Terra, o tempo começava a ter outro significado. A qualquer momento espaçonaves inimigas poderiam surgir.

Entretanto, o medo da invasão mostrou-se algo positivo para a humanidade. A crise ecológica da Terra foi revertida, à medida que boa parte das atividades nocivas ao ecossistema tinham se deslocado para o espaço. O planeta era um jardim verde e natural, pontuado por cidades planejadas para utilizar os terrenos de forma consciente e racional. A agricultura robotizada podia ser realizada dentro dessas cidades usando iluminação artificial, graças ao custo mínimo da eletricidade, com a vantagem de eliminar os gastos e a poluição do transporte entre o campo e os centros urbanos.

No espaço a humanidade fazia-se presente em todos os planetas do sistema solar. O grosso da população morava no espaço, principalmente em órbita da Terra, que agora possuía anéis artificiais que permitiam sair e entrar no planeta usando-se trens e elevadores espaciais. O que se produzia no espaço podia também ser enviado para Terra por esta rede de transporte, movida exclusivamente pela eletricidade. Finalmente éramos uma civilização de nível um na escala Kardashev, mas nosso inimigo estaria sempre a frente de nós.

Nos aproximamos de “Tau Boötis Ba” ao ponto de já sermos capazes de ver os detalhes das mega-construções de nosso nêmesis. Logo naves espaciais muito pequenas cercaram nossa própria nave, nos escoltando ao nosso destino. Observavam em silêncio, não respondendo a nossas chamadas. Estava feliz por não termos armas, pois poderiam ser interpretadas como comportamento agressivo. 

Todavia, isso não era inteiramente verdade, porque toda nave espacial é uma arma. Com a energia que tínhamos, poderíamos nos chocar contra os inimigos, ou acelerar mísseis relativísticos capazes de causar um grande estrago. Ciente desta ameaça, estava sempre de olho no que Griffin estava fazendo.

Seguimos desacelerando. Não podíamos esperar instruções da Terra, levaria trezentos anos para recebermos uma resposta. A estrela vermelha estava visível através daquela fina nuvem de estações espaciais. Quantos planetas foram desmontados para construir algo tão grande?

Era muito maior do que imaginávamos a princípio. Ainda era uma anã vermelha, mas boa parte de sua energia era consumida pelo enxame de Dyson, o que a tornava tão apagada quando observada da Terra. Nossa nave movia-se suavemente quando o enxame de naves de nossos anfitriões formou uma espécie de reboque espacial, nos conduzindo em um direção, possivelmente um porto sideral.

Foi naquela noite que fui despertado por um alerta dos medidores de energia do reator. Alguma coisa estava drenando a energia. Utilizei a conexão mental com os computadores da nave para alertar o capitão e localizar Griffin. Ainda não dava para saber se era ele que tinha alguma intenção belicosa, ou se eram os alienígenas que estavam provocando esta ação.

Mas não demorou muito para descobrir que Griffin estava fora do centro de comando, com outros dois companheiros de sua facção. O capitão então convocou dez homens, nos quais me incluía, até seu camarote. Lá dentro ele distribuiu pistolas para cada um de nós.

– Só utilizem em último caso. Um tiro desses mal direcionado pode comprometer a operação da nave, ou até destruí-la – orientou o Huang.

Colocamos trajes espaciais, pois mesmo ciberneticamente alterados não sobreviveríamos no vácuo. Saindo do centro habitável, seguimos descendo os tanques de hidrogênio, subdivididos em duplas. Nosso palpite era que Griffin não estaria ali, mas na usina, localizada na ponta oposta em relação ao habitat, ao lado dos motores.

Um dos nossos era a major Troisgros, uma oficial veterana em operações espaciais. Ela propôs uma tática para abordarmos a usina: a porta principal poderia estar vigiada, mas tinha uma outra entrada pela parte interna do último tanque de hidrogênio. Assim teríamos o elemento surpresa.

A metade do grupo do qual eu fazia parte seguiu por este caminho, enquanto a outra metade vigiaria a porta principal, pela qual entrariam assim que nos revelássemos. Quando chegamos na conexão do tanque de hidrogênio com a usina, ficou claro para mim o plano daquela facção. Dois homens estavam desconectando a parte traseira da nave, provavelmente para utilizar o motor e a usina em um ataque suicida contra os alienígenas.

– Desistam desta ideia – disse Troisgros pelo comunicador, apontando a arma para os homens de Griffin.

Apontamos também nossas armas, mas Griffin não estava ali. Enquanto isso, o outro grupo se dirigia até a porta principal. Contudo, um clarão capaz de confundir nossos sensores veio daquela entrada. Parecia ser a detonação de uma carga explosiva. Em meio a confusão, Griffin se revelou e atirou em Troisgros, a colocando fora de ação.

– Não somos cordeiros correndo para a boca do lobo! Podemos não vencer essa guerra, mas os faremos pagar por isso – gritou Griffin, dando início ao tiroteio.

Eu e os outros três sobreviventes conseguimos abater os dois homens de Griffin, mas perdemos mais um dos nossos. Griffin era um soldado experiente, tinha se posicionado de tal forma que não poderíamos atirar sem colocar em risco a segurança da nave. Porém, ele estava livre para atirar em nós.

– Marcos, você descobriu a mensagem destes alienígenas. Faz mais de um século que nos transformamos em um povo de covardes, vivendo com medo, sem saber se haverá outro dia. Vocês precisam compreender que isto é necessário – argumentou Griffin.

Ele continuava desconectando a usina e os propulsores do resto da nave. Se continuasse assim, não poderíamos fazer nada para impedi-lo. Precisávamos ganhar tempo para nos aproximar.

– Não seja um imbecil Griffin. Estamos cercados de naves espaciais muito superiores as nossas. Você não conseguiria chegar nem perto deles. E mesmo que conseguisse, o estrago seria mínimo. Lembre-se, eles não são uma construção única, mas milhares, talvez milhões de estações individuais, todas móveis – argumentei.

– Mesmo que eu consiga apenas arranhar seu orgulho, mesmo que as chances sejam mínimas, faço isso pela nossa honra. Algo que os cientistas e burocratas, como você, parecem de fato não ter – retrucou.

– Você nem tem combustível o suficiente para isso. Seu cálculo está incorreto, precisaria levar mais tanques de hidrogênio – sentenciei.

Não adiantou nada. Pensei que a única saída seria fazer o restante do grupo, ao mesmo tempo, aproximar-se dele pelos flancos e realizar um ataque corporal. Éramos três, e possivelmente alguém iria ser alvejado. E assim agimos da forma mais rápida possível.

– Estúpidos, vocês três vão morrer – alertou Griffin, antes de começar a atirar.

Um dos companheiros foi alvejado, sobramos dois. Nos jogamos sobre Griffin, mas seu corpo cibernético, de porte militar, era muito mais forte e rápido do que antecipamos. O último de meus companheiros foi arremessado ao espaço e eu logo me via com uma arma apontada para minha testa.

– Vamos lá, falta apenas uma coluna para ser desconectada. Já que você está aqui, por que não faz as honras? – ordenou Griffin, tomado de ódio.

Entretanto, na hora em que tudo parecia perdido, pelo reflexo de seu capacete eu percebi uma sombra. O espaço não tem som, então não ouvi nada, apenas vi quando sua cabeça explodiu pelo impacto da bala, seu sangue artificial se espalhando dentro do capacete e evaporando pelo rombo no traje. Um dos cinco, que tinha se deslocado para a porta principal, tinha sobrevivido a explosão e conseguido se esgueirar até ali, por trás de Griffin.

Como éramos cibernéticos, a maioria de nós pôde ser reparado, mas dois não resistiram. Até o homem que foi arremessado ao espaço foi salvo pelas pequenas naves alienígenas, que o carregaram de volta até a ponte. Foi a primeira interação direta deles conosco.

Agora que estávamos na parte interna do sistema solar, um enxame de naves começou a formar um porto, conforme as dimensões e características de nossa nave. Era afastado do núcleo de sua civilização, talvez por uma questão de precaução, depois de tudo que aconteceu com Griffin.

Atracamos em uma estação silenciosa, adaptada para nossas necessidades humanas, ou ciber humanas. Toda a tecnologia deles funcionava como uma espécie de Lego espacial, com pequenas unidades de multipropósito capazes de cooperar entre si para atingir um objetivo. Ali encontramos suprimentos e combustível para viajarmos para qualquer lugar, além de gigantescas enciclopédias digitais sobre a história e a ciência de nossos anfitriões.

Pelo comunicador, nosso capitão nos informou que a mensagem no enxame de Dyson havia mudado. Agora estava escrito “Vocês sobreviveram”. Talvez a maior ameaça para a humanidade fosse ela mesma.


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