Origem oculta

Terror
Janeiro de 2020
Começou, agora termina queride!

Giovana Mazaro

Autor e Organizador
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Conquista Literária
Conto publicado em
Sabença dos homens comuns

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Origem oculta
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Você já deve ter ouvido muitos mitos populares ao longo da sua formação. Sabe que muitos se pautaram em um acontecimento real, e foram transformados ao longo do tempo. Quem conta um conto, aumenta um ponto, certo? E se eu disser que, entre nossas lendas, a última a surgir, pode ter sido muito mais modificada para que não chocasse os ouvintes, especialmente as crianças? Prendi a sua atenção? Ótimo, posso continuar então.

Num Brasil que começava a ser desbravado, com pequenas vilas de moares aqui e ali, e muita gente em movimento, havia uma vila chamada Juruauma-Açu. Começava em uma estrada de terra e pedregulho e terminava na boca de uma floresta, que seguia até a próxima cidade. Havia algumas casas de taipa, uma pequena igreja, uma estalagem, um banco e uma venda. 

Para agora o que nos interessa é a venda. Sua dona chamava-se Samantha, uma mulher extraordinária para um buraco como aquele. Quando seu pai faleceu, deixou a venda como herança-ou dote, mas nunca havia se casado-e ali fazia seu sustento, mas se havia alguém doente ou ferido era à ela que recorriam, já que entendia de ervas e não havia um cirurgião-barbeiro por perto.

Apenas com esses fatos que citei, ela já era mal vista pelo dono da estalagem, Seu Oliveira, o banqueiro, D.Castro e o padre Samuel-mas para ele tanto fazia, desde que contribuíssem para a Igreja. Como era possível, naquela época uma mulher tão jovem ser uma comerciante tão bem sucedida sem um marido? A resposta era bem simples: ela não precisava de um para saber o que fazer. Para tudo, bastava sua inteligência e sua confiança.

No trânsito daquele lugar, certo dia, apareceu Cleonice, uma mulata recém-alforriada, pedindo um serviço qualquer, e no momento em que elas cruzaram os olhares, sentiram que suas almas já eram velhas conhecidas, e a roda da vida de ambas começou a girar mais rápido. 

Cleonice, que a vida inteira fora escrava, passou de uma fazenda a outra porque não era "domesticável". Seu corpo podia até trazer muitas marcas, mas seu espírito livre, ah, esse ninguém modificara. Desde conquistara sua liberdade, queria sair pelo mundo, já que era só, mas depois de um tempo, necessitava de dinheiro para se manter. Sabia fazer qualquer serviço, desde o doméstico até o braçal, além de montar em qualquer animal, inclusive uma mula que apenas o pai de Samantha tocava. Era tudo que Samantha precisava. As duas estavam felizes.

Mas os outros moradores, não. Se por um lado, Samantha prosperava, Seu Oliveira, dono da estalagem, há muito não tinha uma alma viva em seus quartos. Don Castro, responsável pelo banco, começava a esquecer a última carruagem Real que passara por ali para pegar o dinheiro, e sem isso, era apenas uma casa de tijolos que destoava das outras construções de taipa. Sentiram inveja daquelas mulheres, e depois raiva.

Já para o padre Samuel, o que lhe incomodava era a relação entre as moças. Numa tentativa de alertar o que poderia causar a suas almas no pós-vida, Samantha, na sua resplandecente calma, disse ao padre que ele deveria se preocupar com as almas que padeciam de fome na vila e não recebiam atenção da Igreja, e que caso voltasse a esse assunto, retiraria os donativos que sempre sustentaram a igreja. Cleonice apenas lhe respondeu que não seguia a fé católica e lhe desejou um bom dia.

Os dois homens, convencidos que Samantha e Cleonice tinham qualquer coisa com o Mal, e sob a bênção de um padre aturdido e pressionado, decidiram pôr fim aquilo. Juntando alguns empregados, invadiram a venda e depredaram tudo. Cleonice, que voltava de uma entrega, fora laçada feito um novilho pelo pescoço e arrastada por um cavalo pela estrada de terra. A mula que montava atacou os homens que tentavam pegá-la, mas acabou sendo degolada por um facão. Samantha, que viu toda a cena, berrava pelas ruas, mas ninguém se atreveu a socorrê-la. Pediu ao padre Samuel ajuda, mas esse fechou os olhos, já arrependido do que havia permitido, e voltou para dentro da igreja. Ela foi espancada e violentada, e largada na floresta para que os animais devorassem seu corpo. 

Cleonice, que sempre tivera o espírito livre, desprendeu-se de seu corpo e acompanhou Iansã de bom grado para o Outro Lado.

Samantha, que não teve a morte tão rápida, em seus últimos suspiros, fez um apelo a qualquer entidade que estivesse passando, e prometeu sua alma, caso pudesse se vingar de todos em Juruauma-Açu. A entidade que montava  um porco não pode fazer nada, mas deu-lhe um pouco d’água. O Jurupari, que começava a se fazer presente nos sonhos dos moradores da vila, por pouco não fez uma proposta. Um outro Ser se apressou e aceitou o trato. Já era um velho conhecido de Samantha, mas ela nunca lhe dera atenção. Ele sugeriu que entregasse sua alma naquele momento, para que cessasse sua dor e que deixasse a vingança por conta dele. Samantha riu.

-Na minha vida inteira não dependi de homem algum, não será na minha morte que vou fazer isso. Dê-me minha vingança!

Com um balanço de cabeça e um sorriso malicioso, o Ser levantou-a e deu-lhe poderes, dando espaço para partir, porque quando uma mulher se vinga, até o Diabo senta para aprender a lição.

No meio daquela madrugada, quando apenas um grande lobo corria pela estrada, D. Castro acordou com uma comichão no pênis, que aumentou para uma ardência, até perceber que pegava fogo e que se espalhava por todo seu corpo. Sua esposa, horrorizada, pedia socorro, mas as portas e janelas estavam lacradas. Foi carbonizada com seu homem e  todo o banco. O fogo se espalhou pelas casas vizinhas, e toda Juruauma-Açu empenhou-se em erradicar aquele incêndio, na madrugada. Tudo em vão. Muitos morreram ou perderam tudo. E todos sabiam o porquê.

Seu Oliveira, que havia desmaiado de tanto beber em sua estalagem, despertou com um barulho de cascos batendo na porta. Viu que uma mula sem cabeça estava parada no lado de fora, e uma grande corda estava amarrada em seu pescoço. Antes que pudesse gritar, a mula relinchou soltando uma enorme labareda do pescoço e saiu no galope. Seu Oliveira foi arrastado pelo chão e pela floresta adentro, enquanto uma mulher desfigurada ria de sua desgraça. Sua cabeça foi encontrada na estrada no dia seguinte. O corpo, nunca.

O padre Samuel, fugiu montado em uma mula, enquanto a vila ardia em chamas. Ele sabia que seria perseguido, e que nenhuma intervenção o salvaria. Aqui se faz, aqui se paga. Foram ao todo sete cidades até que encontraram seu corpo pisoteado e chamuscado. Seus olhos haviam sumido.

Alcançada sua vingança, Samantha voltou ao ponto de encontro com o Ser, para finalizar o trato. Este lhe recebeu batendo palmas, e curioso perguntou se estava satisfeita. Samantha, na sua calma resplandecente respondeu que aquilo tinha custado a eternidade de não viver ao lado de sua amiga, mas que agora seria exemplo do que aconteceria aos homens se caso mexessem com uma mulher independente. Dando a mão ao Ser, partiram para o Outro Mundo.

Sabemos que isso não aconteceu com as outras mulheres-já que essas recorreram à vingança de outras formas menos sobrenaturais-mas por tratar-se de uma lenda, nunca se sabe o que realmente motivou seu surgimento, ou se sabe, é melhor escondê-lo. E claro, sempre perderá sua essência quando é passada de uma boca a outra. Por isso é chamada de lenda.


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Você já deve ter ouvido muitos mitos populares ao longo da sua formação. Sabe que muitos se pautaram em um acontecimento real, e foram transformados ao longo do tempo. Quem conta um conto, aumenta um ponto, certo? E se eu disser que, entre nossas lendas, a última a surgir, pode ter sido muito mais modificada para que não chocasse os ouvintes, especialmente as crianças? Prendi a sua atenção? Ótimo, posso continuar então.

Num Brasil que começava a ser desbravado, com pequenas vilas de moares aqui e ali, e muita gente em movimento, havia uma vila chamada Juruauma-Açu. Começava em uma estrada de terra e pedregulho e terminava na boca de uma floresta, que seguia até a próxima cidade. Havia algumas casas de taipa, uma pequena igreja, uma estalagem, um banco e uma venda. 

Para agora o que nos interessa é a venda. Sua dona chamava-se Samantha, uma mulher extraordinária para um buraco como aquele. Quando seu pai faleceu, deixou a venda como herança-ou dote, mas nunca havia se casado-e ali fazia seu sustento, mas se havia alguém doente ou ferido era à ela que recorriam, já que entendia de ervas e não havia um cirurgião-barbeiro por perto.

Apenas com esses fatos que citei, ela já era mal vista pelo dono da estalagem, Seu Oliveira, o banqueiro, D.Castro e o padre Samuel-mas para ele tanto fazia, desde que contribuíssem para a Igreja. Como era possível, naquela época uma mulher tão jovem ser uma comerciante tão bem sucedida sem um marido? A resposta era bem simples: ela não precisava de um para saber o que fazer. Para tudo, bastava sua inteligência e sua confiança.

No trânsito daquele lugar, certo dia, apareceu Cleonice, uma mulata recém-alforriada, pedindo um serviço qualquer, e no momento em que elas cruzaram os olhares, sentiram que suas almas já eram velhas conhecidas, e a roda da vida de ambas começou a girar mais rápido. 

Cleonice, que a vida inteira fora escrava, passou de uma fazenda a outra porque não era "domesticável". Seu corpo podia até trazer muitas marcas, mas seu espírito livre, ah, esse ninguém modificara. Desde conquistara sua liberdade, queria sair pelo mundo, já que era só, mas depois de um tempo, necessitava de dinheiro para se manter. Sabia fazer qualquer serviço, desde o doméstico até o braçal, além de montar em qualquer animal, inclusive uma mula que apenas o pai de Samantha tocava. Era tudo que Samantha precisava. As duas estavam felizes.

Mas os outros moradores, não. Se por um lado, Samantha prosperava, Seu Oliveira, dono da estalagem, há muito não tinha uma alma viva em seus quartos. Don Castro, responsável pelo banco, começava a esquecer a última carruagem Real que passara por ali para pegar o dinheiro, e sem isso, era apenas uma casa de tijolos que destoava das outras construções de taipa. Sentiram inveja daquelas mulheres, e depois raiva.

Já para o padre Samuel, o que lhe incomodava era a relação entre as moças. Numa tentativa de alertar o que poderia causar a suas almas no pós-vida, Samantha, na sua resplandecente calma, disse ao padre que ele deveria se preocupar com as almas que padeciam de fome na vila e não recebiam atenção da Igreja, e que caso voltasse a esse assunto, retiraria os donativos que sempre sustentaram a igreja. Cleonice apenas lhe respondeu que não seguia a fé católica e lhe desejou um bom dia.

Os dois homens, convencidos que Samantha e Cleonice tinham qualquer coisa com o Mal, e sob a bênção de um padre aturdido e pressionado, decidiram pôr fim aquilo. Juntando alguns empregados, invadiram a venda e depredaram tudo. Cleonice, que voltava de uma entrega, fora laçada feito um novilho pelo pescoço e arrastada por um cavalo pela estrada de terra. A mula que montava atacou os homens que tentavam pegá-la, mas acabou sendo degolada por um facão. Samantha, que viu toda a cena, berrava pelas ruas, mas ninguém se atreveu a socorrê-la. Pediu ao padre Samuel ajuda, mas esse fechou os olhos, já arrependido do que havia permitido, e voltou para dentro da igreja. Ela foi espancada e violentada, e largada na floresta para que os animais devorassem seu corpo. 

Cleonice, que sempre tivera o espírito livre, desprendeu-se de seu corpo e acompanhou Iansã de bom grado para o Outro Lado.

Samantha, que não teve a morte tão rápida, em seus últimos suspiros, fez um apelo a qualquer entidade que estivesse passando, e prometeu sua alma, caso pudesse se vingar de todos em Juruauma-Açu. A entidade que montava  um porco não pode fazer nada, mas deu-lhe um pouco d’água. O Jurupari, que começava a se fazer presente nos sonhos dos moradores da vila, por pouco não fez uma proposta. Um outro Ser se apressou e aceitou o trato. Já era um velho conhecido de Samantha, mas ela nunca lhe dera atenção. Ele sugeriu que entregasse sua alma naquele momento, para que cessasse sua dor e que deixasse a vingança por conta dele. Samantha riu.

-Na minha vida inteira não dependi de homem algum, não será na minha morte que vou fazer isso. Dê-me minha vingança!

Com um balanço de cabeça e um sorriso malicioso, o Ser levantou-a e deu-lhe poderes, dando espaço para partir, porque quando uma mulher se vinga, até o Diabo senta para aprender a lição.

No meio daquela madrugada, quando apenas um grande lobo corria pela estrada, D. Castro acordou com uma comichão no pênis, que aumentou para uma ardência, até perceber que pegava fogo e que se espalhava por todo seu corpo. Sua esposa, horrorizada, pedia socorro, mas as portas e janelas estavam lacradas. Foi carbonizada com seu homem e  todo o banco. O fogo se espalhou pelas casas vizinhas, e toda Juruauma-Açu empenhou-se em erradicar aquele incêndio, na madrugada. Tudo em vão. Muitos morreram ou perderam tudo. E todos sabiam o porquê.

Seu Oliveira, que havia desmaiado de tanto beber em sua estalagem, despertou com um barulho de cascos batendo na porta. Viu que uma mula sem cabeça estava parada no lado de fora, e uma grande corda estava amarrada em seu pescoço. Antes que pudesse gritar, a mula relinchou soltando uma enorme labareda do pescoço e saiu no galope. Seu Oliveira foi arrastado pelo chão e pela floresta adentro, enquanto uma mulher desfigurada ria de sua desgraça. Sua cabeça foi encontrada na estrada no dia seguinte. O corpo, nunca.

O padre Samuel, fugiu montado em uma mula, enquanto a vila ardia em chamas. Ele sabia que seria perseguido, e que nenhuma intervenção o salvaria. Aqui se faz, aqui se paga. Foram ao todo sete cidades até que encontraram seu corpo pisoteado e chamuscado. Seus olhos haviam sumido.

Alcançada sua vingança, Samantha voltou ao ponto de encontro com o Ser, para finalizar o trato. Este lhe recebeu batendo palmas, e curioso perguntou se estava satisfeita. Samantha, na sua calma resplandecente respondeu que aquilo tinha custado a eternidade de não viver ao lado de sua amiga, mas que agora seria exemplo do que aconteceria aos homens se caso mexessem com uma mulher independente. Dando a mão ao Ser, partiram para o Outro Mundo.

Sabemos que isso não aconteceu com as outras mulheres-já que essas recorreram à vingança de outras formas menos sobrenaturais-mas por tratar-se de uma lenda, nunca se sabe o que realmente motivou seu surgimento, ou se sabe, é melhor escondê-lo. E claro, sempre perderá sua essência quando é passada de uma boca a outra. Por isso é chamada de lenda.


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