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Ombrofobia
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Ombrofobia
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

É, eu sei, é uma palavra esquisita. Ombrofobia é o medo da chuva. É claro que você não vai me ver surtando por causa de uma garoa, ou um raio; tenho meus medicamentos para isso. 

Mas não é a chuva em si que me apavora, mas do que se esconde sobre ela, que quase ninguém percebe nas nuvens escuras e nos trovões. 

Já que você está aqui, esperando esse aguaceiro passar, e sei que se interessa pelo sobrenatural, se importa de ouvir minha história? 

Eu nunca conheci meu pai. Ele morreu quando eu ainda era um bebê, e até meus dezessete anos, nunca tinha visto minha mãe namorando, até que ela me apresentou ao Ivo Brandão. 

Em menos de um mês, eles estavam casados, e nos mudamos para sua casa, que ficava na praia, junto com seu negócio de hospedaria. Eu ganhei dois irmãos: Isaque e Ilana. Eram dois anos mais velhos do que eu, tinham os olhos verdes felinos e a pele morena, tal qual o Ivo. 

Não havia ninguém naquela praia que não conhecesse os gêmeos Brandão. Ilana era meiga, de alma leve e atenciosa. Isaque, que sempre tinha um sorriso irônico nos cantos da boca, quando não estava envolvido com a hospedaria, estava rodeado de amigos (e mulheres!). 

Mesmo com nossas diferenças, eles me receberam com carinho, me apresentando a todo mundo como seu irmão caçula. Não houve um luau ou rave que eu não estava presente naquele ano, graças aos meus irmãos populares. 

Mas tá, a parte sobrenatural. O.k.! Certo! Eu estava me preparando para reviver essa história. 

Eu não sei qual é a sua religião ou ideologia, e eu não quero ligar isso a nenhuma delas, mas isso só aconteceu porque tem um viés religioso. Continue me escutando. 

A família Brandão também era conhecida pela tradição candomblé, que passava de geração em geração no centro que levava o nome da tataravó dos meus irmãos. Na época, quem comandava os trabalhos era Dona Carminha, a bisavó deles, uma dessas senhorinhas que passam da casa dos oitenta, e tem mais energia do que eu ou você. Todos nós frequentávamos: Ilana porque amava e era todo seu coração. Meus pais porque eram agradecidos. Eu porque era obrigado, e muito bobo para entender; já o Isaque era por ganância. 

Nunca entendi o porquê de algumas pessoas procurarem na espiritualidade as coisas materiais: Isaque seria muito rico um dia-mesmo que tivesse que dividir a herança com a irmã- e com sua inteligência, poderia facilmente triplicá-la. Mas sabe como é a adolescência, né? Dona Carminha deixou claro que ele não teria lucro material com a religião-óbvio! Então ele cortou os laços com o candomblé, e começou a buscar seu desejo em outras fontes. 

Quando estas se secaram ele buscou mais fundo, nas quais quanto mais se conhece, menos se vê a luz. Não sei o que você pensa sobre livros que têm a capa preta, mas acho que alguns deveriam conter um aviso em letras grandes, dizendo "Cuidado! Ao olhar o Abismo por muito tempo, ele voltará seus olhos a você!" O dele estava escrito Aka'syux . Era, na verdade, um caderno tão mal feito e tosco, de uma caligrafia infantil e borrada, que eu perguntei sinceramente ao meu irmão se ele acreditava naquilo. Ele, sempre com ar irônico, contou que, na família havia uma história que, desde a libertação dos pais dos tataravós Brandão, todos os bens materiais ganhos advinham de uma certa entidade, tão antiga quanto o tempo. Ela via o homem como um animal qualquer, mas gostava de ser bem tratada, e era muito generosa. Só que cobrava caro de seu devedor. Ele achava que era uma das que acompanhavam Dona Carminha, até descobrir aquele caderno. Na minha mente vi a imagem de Ilana incorporada, e como a entidade ficava se contrariada. Perguntei se ele sabia onde estava se metendo. "Se você estiver duvidando de mim, desafio você a vir comigo fazer a evocação, irmão." Eu nunca fugia de um desafio. Esperamos até a hora morta e saímos de casa, pegando uma trilha que levava ao meio da mata, com o caderno e algumas velas. Fiquei grato por não precisarmos matar nenhum bicho. Estava tão certo que não daria em nada, tão incrédulo com aquele caderno, que assim que Isaque começou aquele cântico enrolado, quase ri. Ouvi o primeiro trovão. Senti um gelo no estômago. Instantaneamente o ar em nossa volta ficou pesado, que dava a impressão de ser tátil. As estrelas haviam desaparecido, e vi uma tempestade chegando. Me arrepiei de ver os olhos verdes do Isaque, esbugalhados, com aquelas palavras sem nexo, saindo cada vez mais mais rápido sua boca. Outro trovão se fez, mas eu sabia no íntimo que não era normal. Olhei para o céu, e juro que vi uma forma enorme, com garras ou tentáculos que mais pareciam raízes. Mas aí Ilana, que nos seguiu e ficou escondida nas sombras, passou por mim e bateu nas mãos de Isaque para que soltasse o caderno. Outro trovão estranho, e um raio caiu sobre nós. 

Quando acordei, estava em minha cama. Minha mãe estava ao meu lado, junto com Dona Carminha. Perguntei sobre meus irmãos e ambas começaram a chorar. Isaque havia acordado um dia antes de mim, e Ilana estava desaparecida. Encontraram só nós dois na mata, ensopados e sem nenhum sinal de queimadura-o que seria provável devido ao raio. Havia uma semana que procuravam minha irmã, e não havia sequer uma pista. E para piorar, um chuva forte e contínua varria aquele lado do litoral. Comecei a ter meus primeiros sinais da fobia. Para não denunciar seu feito, Isaque mentiu. Disse fomos convidados por nossa irmã para um ritual qualquer no meio da mata, e acrescentou o raio. Isso acabou com os meus pais. 

Eles culparam Dona Carminha por ter instigado a bisneta a seguir no candomblé. Nunca perdoei meu irmão por ter feito aquilo, e parei de falar com ele. 

Mas ele conseguiu o que queria! Depois de quase um mês, Ivo Brandão morreu subitamente e todos os bens ficaram para ele. Misteriosamente, tudo que meu padrasto tinha deixado acordado no casamento foi anulado, e minha mãe só não ficou na miséria, porque eu consegui um bom emprego numa hospedaria rival ao dos Brandão. Sim, meu irmão nos convidou a sair daquela casa! Voltamos a ser ela e eu, tocando a vida como se tudo não tivesse passado de um sonho. Nunca encontraram Ilana. 

Muito tempo depois, quando eu me formei e pude dar uma vida mais sossegada para minha mãe, recebi uma ligação de Dona Carminha. Chorosa, ela me pedia perdão de não ter intercedido por nós, de não ter parado o bisneto e que malditos tinham sido seus ancestrais para pôr no papel a existência do Mal puro. Me lembrei daquela noite e meu estômago se embrulhou. Eu só pude dizer a ela que ficasse em paz, independente de tudo que havia acontecido. Não havia nada em que se desculpar. " Você nunca deixou de ser meu neto!" e desligo me abençoando. Dona Carminha morreu naquela mesma noite, dormindo. Ela tinha 98 anos. 

Na noite seguinte, Isaque me telefonou. Com voz de Maria Madalena (!), me pediu para encontrá-lo na antiga casa do pai. "Eu sei que não mereço sua atenção, Olavo. Mas por favor, eu lhe imploro, venha até aqui. Eu preciso muito conversar com alguém. Alguém que sabe o que eu fiz. Por favor...meu irmão." Eu poderia ter dito mil coisas, mas ao invés de vomitá-las pelo telefone, fui ao seu encontro. 

Uma vez lá, encontrei-o de frente para o mar, olhando para as ondas. Acertei um soco na sua cara (Não sou a melhor pessoa do mundo!) e ele caiu na areia. "Acho que eu merecia!...Obrigado por vir!", ele falou. Ajudei-o a levantar. Tímido, ele começou a me contar todas as coisas que aconteceram desde o ritual. Tudo que ele ganhou e dobrou de valor, a subida no ramo hoteleiro, as melhores notas na faculdade. Tudo muito cheio de pompa e circunstância, até o primeiro sonho com a entidade, na forma de Ilana, cobrando-o. 

E assim foi, um, dois, três, quatro, dez...até Dona Carminha lhe dizer "Dá a César o que é de César; dá a Deus o que de Deus, Fio. Não se brinca com divindades!". Sem ela por perto, estava desprotegido. E sentiu que a entidade estava cada vez mais perto de pegá-lo. "Preciso que você me ajude a dar fim nisso. Se eu terminar o que comecei naquela noite, tudo vai voltar ao normal." Perguntei se ele estava maluco de me pedir aquilo. Não se passou um dia de chuva que eu não passasse mal. Fora tudo que minha mãe passou. O fim que sua irmã gêmea teve. 

Vimos um raio cair no mar. Eu quase infartei. Isaque arregalou os olhos. "Ela está na água. Olha! Olha!", ele gritou. Vimos uma forma humana sair da água, morena e de olhos fosforescentes. Era Ilana, ou algo que se assemelhava a ela. Isaque correu para a mata."Se não vai me ajudar, irmão, farei sozinho!". Corri atrás dele. E Ilana correu atrás de nós. Vi a chuva e a forma nas nuvens. Com escuro da mata, me perdi de Isaque. Olhos verdes fosforescentes me fitavam de todos os lados. Ouvia a gargalhada de Ilana longe, e algumas vezes ao pé do ouvido. Também ouvia a voz de Isaque proferindo aquelas palavras. Mas o medo me fez empacar. Isaque parou de falar aquelas palavras e parecia brigar com alguém, até ouvir novamente aquele trovão-que-não-era-trovão. Do céu cinza desceu o que parecia ser uma raiz de alguma planta exótica. Isaque gritava, e gritava, e como eu pedi a Deus que o fizesse parar. Fez-se um terrível silêncio e consegui abrir os olhos. Parada em minha frente, estava Ilana. Inchada e azul, como se tivesse sido afogada. "Não era Iansã, irmão, mas agora está paga!" ela disse. Me beijou com aqueles lábio mortos. Vi a "raiz do céu" envolver seu corpo. Um raio caiu sobre nós- novamente. 

Me encontram prostrado no meio da mata, comendo página por página do caderno, balbuciando Aka'syux, Aka'syux . Da minha temporada no hospital, não me lembro de quase nada, a não ser pesadelos. Nunca encontraram Isaque, mas todos os nossos conhecidos acharam melhor deixar quieto. Não se brinca com as entidades, né? 

Toda vez que chove me lembro desse evento, e além do medo, não deixo de ficar triste. 

Ah sim! Ninguém consegue explicar como fiquei cego, também. Talvez esteja ligado ao trauma, ou foi pelo raio, mas a coloração deles é verde, igual aos de um gato, como me disseram. Então, o que você conclui com tudo isso? Aposto que nunca mais vai olhar para uma tempestade da mesma forma depois disso, né? 


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