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Olhos de gato
Conto

Olhos de gato

Crianças são totalmente adoráveis. Seres inocentes, se pudermos chamá-los assim. Ao menos era essa a ideia que elas passavam.

Sophia Leite
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Áudio drama
Olhos de gato
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Os irmãos Enzo e Cadu Borges tinham o que sua vizinha, uma senhora de 74 anos, gostava de chamar de “uma aparência enganadora”. Qualquer um que os visse correndo pelo mercado os acharia uma dupla adorável. Cabelos naturalmente encaracolados, sorrisos largos e olhos esverdeados. Mal sabiam, no entanto, que eles provavelmente estavam matando pombos com um estilingue ou organizando uma guerra de gangues entre as crianças locais.

—Ninguém mexe com os irmãos Borges. — Duda refletiu, terminando de engolir sua raspadinha. — O que eles estão preparando dessa vez? Tá tudo muito quieto.

—Nada. — Juca, o filho do quitandeiro, sentou-se ao lado dele. Estavam gritando devido o barulho da feirinha do outro lado da praça. — Estão de castigo essa semana, não sabiam? Aprontaram com a velha de novo. 

—Dona Neném? Por quê? Ela é tão legal. — Ju parou de morder o palito do picolé e fitou-os.

—Legal? Ela fede a xixi de gato.

—Mas ela me dá doces quando minha mãe me leva lá. — Suzanne argumentou, gesticulando para o círculo de amigos. —Isso deve contar algo.

O grupo concordou solenemente, ficando em silêncio por alguns minutos. Sem sua dupla de líderes, não havia muito o que fazer naquela tarde. Ou assim pensavam, até que uma comoção se formou no final da rua. Eles imediatamente correram até as vendinhas e subiram em algumas caixas de frutas para espiar. Ao longe, uma tenda listrada de branco e vermelho havia sido erguida e várias pessoas com roupas estranhas começavam a se arrumar ao redor, montando barracas e passarelas.

Juca soltou um assobio longo.

—Parece que o circo chegou na cidade.

Todos menearam as cabeças em concordância, olhando fixamente para aquela estranheza que parecia ter surgido do nada. Ninguém notou quando o vento mudou de direção e levantou a poeira, fazendo um móbile em uma varanda entoar um tintilar sombrio.

***

Cadu era dez minutos mais velho e fazia questão de lembrar seu irmão constantemente disso, principalmente na situação atual em que se encontravam. Depois de terem destruído parte do jardim da vizinha com uma fogueira improvisada, estavam proibidos de sair de casa e obrigados a cumprir todos os tipos de afazeres domésticos possíveis que sua mãe conseguia imaginar. E ela havia sido bem criativa.

—Eu não vou entrar aí, vai você. 

—Nem morto.

—Alguém tem que ir, mamãe mandou limpar o galpão.

—Vai você, é o mais velho.

—Por eu ser mais velho, você tem que me obedecer.

—Eu não tenho que fazer nada, seu bocó.

Os dois pararam de discutir e analisaram o galpão a sua frente. Ao lado da piscina haviam construído um pequeno quarto de entulho que ficava escondido entre plantas retorcidas, quase colado no muro. Como ninguém ia lá, limo havia crescido e tomado conta das paredes, camuflando a construção com a paisagem de folhas mortas. Era ilógico, mas o amontoado criava sombras que pareciam esconder algo disposto agarrar a mão de qualquer um que ousasse esticar o braço a procura do interruptor.

—Não me diga que está com medo?

Enzo mordeu o interior da bochecha e soltou um resmungo.

—Claro que não, você é que está todo medroso e querendo me botar para fazer o trabalho sujo. Duvido que tenha coragem de colocar a mão ali.

—Dúvida?

Ele sorriu ao ver sua isca sendo pega. Virou-se e fitou o outro com prepotência.

—Duvido. Aposto que não entra lá e acende a luz nem pagando. 

—E o que eu ganho se eu fizer?

Os dois se entreolharam desconfiados, tentando ler o blefe um do outro.

—Faço todas as tarefas sozinho o resto da semana. Mas se eu ganhar, você é quem tem que fazer tudo. E não adianta ir reclamar para a mãe depois.

—Fechado.

Cadu prendeu a respiração e se virou para a entrada, sentindo os pelos do braço se eriçarem. A ironia maior era que o local havia sido feito para ficar escondido, então parecia ter absorvido muito bem essa função. A madeira podre e lama criadas pelo escorrimento da piscina davam a sensação de quem pisasse lá, não era bem-vindo. E havia o cheiro. Um cheiro pesado que tinha uma presença própria e indesejada, sufocando quem quer que se aproximasse. Os pássaros sabiam disso e mantinham sua distância, deixando aquela parte do jardim somente para os insetos e qualquer outra criatura noturna que procurasse abrigo nas sombras.

—Merda. — O menino fez uma careta, colocando o braço na frente do rosto. O fedor parecia ainda pior que o normal e algum instinto primitivo gritava para que ele fosse embora.

Uma aposta, no entanto, havia sido feita e ele odiava ser chamado de covarde. Com cuidado, se aproximou o suficiente para que a ponta do seu tênis parasse no limiar da luz e ele se visse frente a frente com a escuridão. Uma mosca pousou em sua testa e o fez soltar uma reclamação de nojo, ressaltando o zumbido que vinha lá de dentro. Um som familiar, multiplicado várias e várias vezes até que havia se tornado algo irreconhecível e deformado. Cadu hesitou antes de estender a mão com pressa, ligando o interruptor e acendendo a lâmpada.

Olhos opacos o fitaram de volta e ele soltou um grito, esbarrando em uma estante, derrubando tudo no chão e caindo em meio à confusão. Atrás de si, seu irmão gritou também e saiu correndo, deixando-o sozinho com um cadáver de um gato na sua frente.

O animal estava meio amassado no chão, duro, com a barriga aberta e as tripas escorrendo pela ferida. O maxilar deslocado para o lado fazia a língua pender para fora, seca e escura. Um enxame de moscas sobrevoava a carcaça e vermes brancos e gordos saiam por todos os orifícios possíveis, movimentando a pele morta como algo pulsante.

O menino gritou mais uma vez, tentando se libertar do arame que havia se enrolado em seus pés, ao que sua mãe e pai saíam correndo de dentro da casa acompanhados de Enzo.

—O que houve?! —Seu pai ajudou-o a se levantar e soltou um palavrão ao ver o gato.

Cadu abraçou sua mãe com força e os quatro ficaram ali, parados em frente o galpão, olhando horrorizados para aquela cena grotesca.

***

—Eu imagino que ele tenha sido atropelado e tentado voltar para casa, mas se perdeu no nosso quintal. — A mãe dos gêmeos falava devagar, sentindo-se terrível quando a senhora soltou um choro baixinho e sentou-se no banco da varanda.

—Ele não voltou para casa anteontem, mas não foi a primeira vez, então pensei que... — Dona Neném levou as mãos enrugadas ao rosto e começou a chorar. Imediatamente dois gatos saltaram da janela e se esfregaram em suas pernas.

—Sinto muito. — A mulher suspirou e começou a fazer gestos para o marido sair de perto com o saco plástico.

O homem entendeu a deixa e mudou de direção, voltando para a própria casa. Cadu e Enzo estavam parados perto da cerca, olhando a cena com receio. Viram o pai erguer a tampa da lata de lixo e jogar o saco lá, fazendo uma careta antes de sair.

—Odeio gatos. — O primeiro bufou, jogando uma pedra onde um dos felinos estava descansando, fazendo-o sair correndo.

—É, você ficou bem assustado.

—Você também!

—Eu gritei porque você gritou!

—Eu vou te...

A fala foi interrompida quando o grupo de amigos apareceu de repente na rua, correndo animadamente até eles. Cadu fez um gesto de silêncio para Enzo, que revirou os olhos, concordando. Suzanne foi a primeira a chegar, sacudindo um saco de pipoca.

—Tem um circo!... Na cidade! — Anunciou sem fôlego.

—Circo?

—Sim! Circus Capella. Super estranho. — Duda e Ju chegaram logo depois, cada um segurando um boneco bizarro de palhaço. A menina loira mantinha o seu cuidadosamente abraçado contra o peito. —Vocês tinham que ver, eles têm um monte de bizarrices!

—E uma Casa de Espelhos. — Juca completou, sempre o último a chegar com seu tamanho todo passo lento. — Eles estão por curta temporada, é melhor tentarem ir logo. 

—É, eles chegaram tão de repente, sabe-se lá se não vão embora do mesmo jeito.

Os irmãos trocaram olhares ansiosos ao se lembrarem que estavam de castigo, mas Enzo engoliu em seco e endireitou a coluna.

—Circo é para bobocas.

—Não esse. — Ju roubou uma pipoca de Suzanne e fitou os dois. —Sério, eu vi uma mulher barbada, trapezista, cowboy, bailarinas, mágico...

—Não esquece os palhaços! — Duda pegou o saco das duas e comeu uma mão-cheia, ignorando a reclamação da dona.

—Eles eram bizarros. Não pareciam muito felizes. — Juca coçou a cabeça. — E tinha o apresentador...

—Ah, esse sim era muito estranho. 

—Por quê? O que ele tinha? — Cadu olhou de um para outro.

—Os olhos dele eram cada um de uma cor, tipo de gato, azul e amarelo. Acho que se chama heterocromia. — Suzanne parou por instantes e balançou a cabeça. —E ele estava usando uma máscara branca que cobria metade do rosto. Foi ele que guiou a gente pelas barracas. Foi bem legal, vocês iam adorar. Tem até um leão.

—Leão?! — Os dois se animaram.

—Sim, mas ele ficou na jaula. Só o apresentador se aproximou. 

—É, uma pena que estejam de castigo para sempre. — Duda apontou para as duas mulheres na varanda vizinha. —Vocês vão matar a Dona Neném, o que fizeram dessa vez?

—Não fizemos nada, foi um gato idiota que morreu no nosso jardim! — Cadu franziu a testa. — Ele estava com as tripas para fora e tudo!

—Eca!

—Coitadinho, eu gosto deles. — Ju olhou para a senhora com pena.

—Gosta por que não tem que aguentar eles a noite.

—E nem limpar os cadáveres. — Enzo adicionou, levantando as pálpebras com os dedos e rindo quando a menina deu a língua para ele. —Eu sei que você me ama.

—Nos seus sonhos.

—Olha a hora, já é tarde! Eu tenho que voltar para casa. — Suzanne interrompeu, sabendo como uma briga dos dois podia demorar. Um dia eles acabariam se casando. —Tentem ir, okay? Até depois! — Acenou se afastando.

—Eu também vou, vai ter visita lá em casa. — Duda guardou o boneco no bolso e deu tchau para todos. 

—Ei! Não quero ficar aqui com esses chatos! — Ju se apressou em seguir os dois, ignorando Enzo.

Os três que ficaram, permaneceram parados, olhando o bando partir até que Juca riu e focou-se nos irmãos, se apoiando na cerca em cumplicidade.

—Então, como vão escapulir?

—Podemos dizer que vamos brincar com o vídeo game e pular a janela da sala. — Cadu tocou o queixo. 

—Mas não temos dinheiro.

—Quem sabe vocês não conseguem se esgueirar no circo também? É tudo bem aberto e não tem ninguém vigiando. — O menino parou por um segundo e cruzou os braços, mais sério. — Só tomem cuidado. Aquele lugar é estranho. Minha avó ficou assustada quando viu.

—Até ela sabe do circo? Só a gente que não?!

—Não leve a mal, mas sua avó é meio doida, cara. — Cadu deu os ombros e puxou o irmão pela camisa, fazendo-o tropeçar antes de voltar para o seu lado. —De qualquer jeito, que mal pode acontecer?

Juca demorou um pouco para concordar.

—É, acho que nada ruim.

—Além do que, somos mais espertos que aqueles idiotas. Você vai ver, em algumas horas, eu e Enzo vamos estar assistindo o espetáculo de camarote.

***

Cadu odiava estar errado. O plano de fuga havia funcionado perfeitamente, mas assim que pisaram onde a enorme tenda havia sido montada, tiveram que repensar a segunda parte. O Circus Capella tinha uma presença própria que se destacava de qualquer outro lugar nas redondezas e, mesmo sem guardas, parecia ser um local impenetrável. Não por ter cercas ou câmeras, mas simplesmente por parecer estar vigiando quem quer que se aproximasse.

Os irmãos se entreolharam, tentando entender porque de repente seus corações estavam acelerados.

—Talvez seja melhor voltarmos? — Enzo deu um passo para trás, sem tirar os olhos dos carrinhos e postes iluminados. O mais estranho, talvez, fosse a falta de pessoas na região e o barulho do vento contra as árvores. Era como se toda a cidade estivesse receosa daquele monstro adormecido.

—Não! Falamos que íamos, Juca vai pensar que somos covardes. Além do que, é um circo. O que pode ter de assustador aí?

—Aquilo? 

Enzo apontou para um carrinho com jaula afastado da área principal, escondido atrás de um varal com lençóis. Um barulho grave de rosnado vinha de lá, baixinho o suficiente para você não notar até que sua curiosidade tivesse feito você chegar perto demais. 

—O leão?

—Não sei.

—Vamos espiar. — Antes que o mais novo reclamasse, Cadu já havia ido. 

Um vento forte soprou, levantando folhas e fazendo os lençóis dançarem de maneira provocadora, um tanto hipnótica, dando vislumbres da jaula vermelha e do que ela estava escondendo. O menino pode notar uma sombra andando de lá para cá ao que o rosnado parecia ficar mais alto, mais sofrido, quase como um choro. Havia também um balde com pedaços de carne e um chicote no chão.

—Cadu...

O menino ignorou e ergueu o braço, pronto para afastar a cortina improvisada, quando uma mão de repente pousou em seu ombro e o assustou, fazendo-o dar um salto para trás e esbarrar no irmão. Os dois ficaram parados, olhando a figura alta e esguia que os encarava por trás de uma máscara branca com dois olhos profundos, um amarelo e outro azul. Ele tinha cabelos compridos e um cavanhaque que moldava feições vampirescas, mas o efeito era quebrado pelas calças largas, casaco vermelho e cartola preta. Devia ser o tal apresentador que os amigos haviam mencionado.

—Ora, ora, o que temos aqui? Invasores? —O homem abriu um sorriso fino.

Enzo cutucou o irmão.

—Er, desculpe senhor, é que ficamos curiosos com os... — Apontou para a jaula, mas desistiu. — Suas atrações.

—Sei. E porque não tentam vê-las no nosso horário de show, como todas as outras crianças curiosas que recebemos?

—É que...

—Não temos dinheiro! E nossos pais nos deixaram de castigo, mas fugimos para ver o que todo mundo estava falando e na hora teve a jaula e... — Enzo só parou de falar quando Cadu lhe tapou a boca, fazendo o apresentador rir.

—Oh, por que não falaram antes? Gostariam de um tour?

—Sério?

—Sim, adoramos pessoas que não ligam para regras por aqui.

O homem foi até a tenda listrada e apontou para dentro com um gesto da cabeça. Enzo fez uma careta com a oferta, mas logo foi contagiado pela animação do irmão, e juntos se aproximaram da abertura, hesitando somente por um segundo antes de entrarem. 

A música e vozes os atingiram em cheio, assim como a visão do picadeiro repleto de pessoas, distorcendo a atmosfera. Havia balões, palhaços, bailarinas, trapezistas e mais uma trupe inteira de gente fazendo truques ou apenas sentadas, conversando. Algumas eram bonitas demais para serem de verdade, outras feias, outras se escondiam nos cantos escuros.

—Uau!

—Bem-vindos ao Circus Capella! — O apresentador tocou as costas de cada um e guiou-os pela arena, parecendo deslizar sem dificuldades em meio à multidão, sua voz se destacando dentre as gargalhadas e sussurros. — Aqui é onde ficamos para treinar nossos números ou apenas descansar. 

Os meninos tiveram que se espremer para conseguir passar entre as pessoas, atordoados pela movimentação quase cênica que parecia querer esmagá-los em uma dança macabra de passos e piruetas. Cadu apertou a mão do irmão quando um homem de perna de pau passou por cima deles, quase esbarrando em um tanque escuro com alguma coisa suspeita dentro. Enzo teve que livrar a perna de uma cobra que rapidamente subiu por um poste segundos antes de uma mulher pular sob suas cabeças e agarrar-se em um balanço, fazendo uma acrobacia complicada.

—Aqui é incrível!

—É, acho que sim. Mas cadê o...?

Finalmente notaram a figura mascarada perto de uma segunda entrada a direita, se apressando para alcançá-lo e indo parar em outro ambiente mais vazio, com salas menores enfileiradas e uma vista para os carrinhos e brinquedos ao ar livre. Puderam então tomar fôlego e perceber a organização antiquada do lugar, além do forte cheiro de pipoca e fumaça. O apresentador apontou para os carrinhos. 

— Ali fica o espaço em que nossa querida Madame Lourdes lê o futuro das pessoas e ali, o Incrível Mágico Mancini realiza seus truques.

Cadu endireitou-se, engolindo em seco.

—E qual é o seu nome de palco?

—Eu? Me chame apenas de Radamés, receio que meu número ainda não está pronto. 

Os meninos concordaram, sem entender. Aquele homem definitivamente era uma figura estranha. A máscara parecia ressaltar ainda mais os olhos tão diferentes, e depois de um tempo, Enzo ficou se perguntando o que ele estava escondendo por trás dela. Cadu, no entanto, parecia mais interessado em olhar uma construção montada mais ao fundo, onde pela brecha da porta entreaberta, se podia ver um hall de espelhos. Cutucou o irmão e apontou.

Havia algo na maneira que a luz iluminava as superfícies refletoras que causava um leve arrepio, quase como se os puxassem para dentro. Além disso, os objetos haviam sido arrumados um de frente para o outro, tornando a sala um círculo infinito de quadrados e corredores. Radamés ficou mais sério ao vê-los entrar, um brilho perigoso surgindo em seus olhos antes de segui-los.

—O que é isso? —Enzo parou em frente um espelho largo, analisando seu reflexo divertido. Cadu se colocou ao lado dele e fez uma careta, rindo quando a imagem fez o mesmo.

—Nossa Casa de Espelhos. Uma atração muito curiosa, talvez a nossa mais famosa por aqui. —O apresentador comentou.

—Não vejo nada de especial.

—Por que não continua olhando? Às vezes é questão de achar o espelho certo...

Os dois concordaram e continuaram a andar, rindo quando viam a si mesmos altos demais ou achatados no chão. O riso, no entanto, morreu quando chegaram no final e um espelho com bordas enfeitadas bloqueou seu caminho. Era como se quem o tivesse feito não tivesse decidido sua forma, então criou uma aberração de madeira escura e superfície opaca.

Cadu e Enzo inconscientemente se deram as mãos, sem conseguir se mover. Podiam ver pelos seus reflexos que alguma coisa estava errada, principalmente quando a sala pareceu vibrar e a realidade deu luz a algo macabro, distorcendo a música circense que tocava. As lâmpadas piscaram, a vibração ficou mais alta e os gêmeos do outro lado do vidro de repente sorriram. Houve um estalo e o espelho rachou, parecendo liberar as crianças de seu feitiço. Os dois caíram de costas no chão.

—O que foi isso?! 

O apresentador riu.

—Não se preocupem, este lugar causa esse efeito em algumas pessoas. Mas vocês devem se lembrar que é apenas uma brincadeira. Uma ilusão.

Os dois não responderam, evitando olhar ao redor e se apressando em sair dali o mais rápido possível. Radamés foi em seguida, cobrindo cuidadosamente o espelho rachado com o casaco e sorrindo torto antes de fechar a porta.  

Já do lado de fora, os meninos pararam de andar, confusos. Era como se de repente tivessem acordado de um sonho no qual todos os detalhes haviam fugido de seu alcance. O cheiro de pipoca encheu o ar, a música de fundo se normalizou e a paisagem voltou a ficar em foco. Um vento gelado soprou entre eles, movimentando mais uma vez os varais de onde haviam começado. 

A jaula vermelha também ainda estava lá, escondida e tentadora. Cadu testou o queixo incomodado, sentindo dor como se tivesse trincado os dentes com muita força, e se apressou em apontá-la.

—Podemos ver o leão também?

—É, aquela Casa de Espelhos não foi grande coisa. — Enzo concordou, sentindo os músculos tensos por algum motivo.

Radamés parou de andar e tocou os lençóis distraído.

—Não posso fazer isso, ele está com fome. Temos pouca carne para alimentá-lo e conhecendo crianças, vocês não vão manter uma distância segura.

—Ah, vamos sim!

O homem ergueu uma sobrancelha e então levou uma mão ao rosto, tirando a máscara. Os irmãos quase gritaram ao ver seu rosto deformado por quatro cicatrizes profundas. Ele sorriu diante o efeito desejado e colocou-a de novo.

—Como você ficou assim, cara?

—Eu cheguei perto demais. — Os dois meninos engoliram em seco, desapontados. —Mas pensando bem, acho que tem uma maneira de vocês me ajudarem.

—Qual?

Radamés se inclinou.

—Vocês sabem onde podemos encontrar alguns gatos?


***

Era tarde da noite quando Enzo e Cadu, pela segunda vez no dia, saltaram da janela da sala com seus estilingues em punho. Estavam usando tênis e pijamas, ignorando o frio e os grilos, mas mesmo assim tentavam ser cuidadosos. Passaram a cerca, pararam em frente a lata de lixo e se entreolharam.

—Um já foi. Trouxe algo para os outros?

—Trouxe dois sacos de lixo da cozinha.

—Ótimo.

Encararam a lata por alguns instantes até Cadu abrir a tampa e tirar o saco plástico que o pai havia jogado fora algumas horas antes. Fizeram uma careta com o cheiro, se afastando rapidamente. Da varanda vizinha, alguns gatos haviam se enfileirado e os fitavam com suspeita, os olhos brilhando no escuro de maneira fria ao que miados ameaçadores de vez enquanto podiam ser ouvidos. Assim que os meninos se aproximaram, um deles soltou um silvo arisco, se encolhendo contra a parede.

—Aquele primeiro. — Cadu murmurou, tirando o estilingue e pegando uma pedra grande.

—Quantos acha que precisamos?

—Não sei. Vamos levar todos.

O tiro foi certeiro, amassando a cabeça do gato branco como uma lata velha. Pedaços de cérebro sujaram o gramado antes de Enzo se aproximar e colocar o animal no saco. Ele olhou para o sangue em suas mãos e engoliu em seco, limpando-o nas calças. Cadu pegou outra pedra e encontrou um novo alvo. Havia algo de arrebatador no cheiro metálico que aos poucos tomava conta do ar e na maneira que os gatos começavam a fugir.

Um, no entanto, atacou Enzo quando este tentou pegá-lo, mesmo estando machucado. O menino soltou uma reclamação e olhou para o irmão parado atrás de si, que lhe encarava como se esperasse uma reação óbvia. E o mais novo sabia qual era. Devagar, voltou-se para o felino patético que se arrastava para longe e suspirou, mirando o pescoço fino com a sola do sapato.

Algumas horas depois, os sacos estavam cheios e os meninos andavam pelas ruas vazias iguais animais enlouquecidos, evitando somente bares que ainda estivessem abertos naquela hora da noite. Suas roupas estavam cobertas de sangue, causando-lhes um frenesi inexplicável de um mal feito que jamais seria punido. Precisariam apenas tomar cuidado para não sujar nada na volta e se livrarem das roupas. 

Como feras obedecendo a um dono, voltaram instintivamente para o circo, onde uma nova vida parecia ter surgido. Sombras e silhuetas dançavam e brincavam ao redor de uma fogueira que havia sido acesa atrás da tenda, parecendo-a pintar de um vermelho flamejante. Perto dos varais, Radamés estava sentado fumando um cigarro, olhando para o nada como se soubesse que eles apareceriam ali mais cedo ou mais tarde.

—Trouxemos! — Cadu exclamou vitorioso, erguendo um dos sacos. Enzo fez o mesmo.

O apresentador soltou uma baforada lenta e apoiou os braços nos joelhos.

—E eu sou um homem de palavra.

Levantou-se e afastou as cortinas. Os gêmeos se aproximaram, olhando interessados Radamés erguer as mangas da camisa, colocar o cigarro atrás da orelha e abrir os sacos, tirando um dos cadáveres de gato e jogando-o para o leão aprisionado. A criatura parecia magra e um tanto arisca, mas agarrou a carne com dentes gigantescos e unhas poderosas, destroçando a carcaça em poucos minutos e partindo imediatamente para outra. O apresentador sorriu ao vê-lo se enlambuzar de sangue e soltar um rosnado baixo.

—Irônico, não? Um gato comendo outro?

Cadu e Enzo não responderam, hipnotizados pela carnificina. O homem despejou o resto do conteúdo dos dois sacos na jaula e colocou o cigarro de novo na boca, se apoiando em uma pequena escadinha ao lado da porta com a tranca. Os gêmeos se aproximaram ainda mais, sem desviar os olhos do felino aprisionado. Radamés deu uma longa baforada, tombando a cabeça para o lado.

—Então, ignorando o que eu disse antes... Gostariam de olhar mais de perto?

E inclinando o corpo alongado, ele girou a tranca e abriu a porta.


***

Enzo estava em seu jardim. O galpão à sua frente parecia exalar trevas, sugando a luz e tornando o cenário cinzento. Ele estava sozinho, caminhando até a entrada daquele inferno. Vozes pareciam vir de todos os lados, trazidas por uma brisa morta, tornando-se mais violentas a cada passo, como uma conversa em alta velocidade tocada ao contrário.

O menino finalmente alcançou seu destino e esticou o braço para acender a luz, piscando quando a luminosidade machucou seus olhos. Um barulho de mastigação o fez olhar para baixo, se assustando ao encontrar uma figura animalesca de cócoras, comendo as tripas de um gato morto. Pelos desordenados saiam de sua camisa rasgada, misturando-se com uma espécie de juba em cima da cabeça. Enzo deu um passo para trás, congelando quando o ser pareceu farejar sua presença e se virou, encarando-o com olhos amarelos e pupilas verticais. Ele soltou em um grito abafado quando percebeu que estava vendo um reflexo e entendeu que havia se tornado um monstro.


—Acorda!

Enzo caiu da cama assustado quando Cadu o sacudiu, espalhando os lençóis pelo chão. O mais novo piscou, tentando espantar o sono, e encarou o irmão. Os acontecimentos da noite anterior voltaram de uma só vez e ele se colocou de pé, arregalando os olhos.

—Nós...?

—Nós temos que voltar para o circo. 

O menino engoliu em seco e concordou, indo se vestir. As roupas de antes foram enterradas no jardim e em algumas horas, eles estavam limpos e inocentes como sempre. Ao saírem, no entanto, havia um tumulto na entrada da casa vizinha. Seus pais estavam na varanda, olhando o vai e vem preocupados.

—O que houve? — Cadu perguntou parando ao lado deles.

—Algo horrível, parece que o leão do circo fugiu e... — A mãe se engasgou, levando uma mão aos lábios. —Desculpe, não posso mais ver isso. — Murmurou voltando para dentro da casa.

O pai deles suspirou.

—Os gatos da Dona Neném foram mortos. A entrada da casa está coberta de sangue e ela...Ela não resistiu quando viu a cena. Parece que a jaula do leão do circo também amanheceu vazia, então a polícia está se preparando para ir caçar o bicho. Não pensem em pisar fora de casa enquanto isso, ouviram?

Enzo deu os ombros.

—Não estamos de castigo? Nem poderíamos.

O pai riu e acariciou a cabeça dele, parando por um instante.

—O quê? 

—Ahm, nada. É que seus olhos parecem meio amarelados hoje. Isso é o que dar não tomar café logo quando se acorda... — O homem suspirou e beijou a testa dos filhos, entrando em seguida.

Cadu se aproximou, nervoso.

—O que está acontecendo com a gente?

—Eu não sei.

Olharam para a varanda ao lado, onde uma maca estava sendo levada para dentro da ambulância. Um vento forte soprou e o lençol que cobria o corpo de Dona Neném se abriu, revelando o cadáver da senhora encarando os dois de maneira culposa. Algumas pessoas soltaram gritos e outras tiraram fotos, fazendo os paramédicos se atrapalharem na hora de fechar as portas e irem embora. Cadu sentiu vontade de vomitar.

Mais tarde, tiveram que esperar alguns minutos para conseguirem escapar, saindo pela lateral da casa enquanto os pais discutiam no andar de cima o que havia acontecido. Eles correram pela rua, descendo até a praça e parando somente quando avistaram o grupo de amigos sentados ao lado da feirinha, como de costume.

Duda os notou e acenou, chamando atenção dos outros.

—E aí caras!

—Onde vocês vão? Não estavam de castigo? — Suzanne parou de brincar com um boneco de palhaço e os olhou curiosa.

—Desde quando um castigo para os irmãos Borges? — Juca riu.

Enzo manteve os olhos sobre eles ao que o irmão soltava um suspiro.

—É melhor vocês voltarem para casa, tá? Aconteceu algo.

—O quê?

—Não podemos explicar, temos que...

—O que houve com os olhos de vocês? Estão de lente? — Ju o interrompeu, finalmente se pronunciando. — Estão com as pupilas de gato!

— É mesmo, que legal! Por isso vieram se exibir para a gente? — Duda riu. — Compraram lentes bizarras?

Os meninos olharam um para o outro e engoliram em seco.

—Temos que ir, nos falamos depois! — Cadu acenou, saindo.

Enzo olhou para Ju uma última vez antes de segui-lo, ignorando os gritos dos outros para que voltassem. Os dois passaram reto pelas pessoas que os cumprimentavam e foram direto para a tenda vermelha e branca, erguida na frente deles igual um farol sangrento. 

Como da outra vez, Radamés os aguardava pacientemente em sua cadeira ao lado do carrinho com a jaula. Ele não se moveu quando os dois se aproximaram exaltados, falando ao mesmo tempo, e fazendo gestos urgentes.

—Então se lembraram do que fizeram ontem à noite?

—Não fizemos nada, você que nos fez ir caçar os gatos e entrar naquela Casa de Espelhos infernal! 

O homem soltou uma gargalhada pesada, apagando o cigarro antes de se levantar e apontar para a porta da jaula aberta.

—E eu também os fiz fazer aquilo?

—Aquilo o quê? — Enzo olhou com desconfiança para o carrinho.

—Olhem com seus próprios olhos.

Os irmãos hesitaram.

—O que mais têm a perder? Estão com medo?

Cadu soltou um palavrão e virou-se para o irmão, indicando que iria na frente. O outro concordou e foi atrás, dando passos lentos até chegarem na porta. Sentiram um arrepio ao encontrarem no fundo, um amontoado de formas cobertas por um pano manchado. O mais velho prendeu a respiração e entrou, sentindo o irmão atrás de si. Devagar, puxou o lençol, se deparando a carcaça de um leão completamente destroçado.

 Então ouviram o barulho da tranca sendo fechada atrás de si.

—Hei! Seu maluco, o que está fazendo?! — Eles começaram a se debater contra as grades.

—Estou fazendo um favor a essa cidade e mantendo vocês conosco. Estão me devendo uma nova atração, afinal, e do jeito que a transformação está seguindo, logo, logo vocês poderão subir ao palco.

—Do que está falando?!

—Nossa Casa de Espelhos é especial, veja bem. Ela encontra uma maneira de exteriorizar o que os olhos não conseguem ver, em libertar o mal que existem em certas pessoas. Não são todos que são escolhidos, então sintam-se honrados. 

Enzo arregalou os olhos e começou a chorar ao ver que garras haviam crescido em suas mãos. Tentou gritar, mas seus dentes afiados machucaram a sua boca. Mais desesperante ainda, ao seu lado, Cadu se encolheu e começou a se arrastar até o leão, farejando a carne.

—Não, não faça isso, nós temos... — parou de falar quando o irmão soltou um rosnado alto e abocanhou o cadáver, começando a comer os restos de seu antecessor. 

—Ah, não fique triste, garoto. Tenho certeza que vocês farão muito sucesso.

O menino ainda tentou responder, mas algo dentro de si tomou controle e antes que ele percebesse, estava brigando com o irmão por um pedaço de osso.


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