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Olhar o céu

Um presente da vida é a amizade verdadeira. Daquelas que nunca se pode esquecer, nem mesmo a morte pode fazê-la se perder.

Miguel Dracul
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Áudio drama
Olhar o céu
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Sentados lado a lado, Iago e Robson, sentiam a água do riacho correndo sob seus pés enquanto olhavam para as nuvens brancas tentando buscar por formas nelas. Robson apreciava aquele momento de intensidade incomum, a grama parecia mais verde naquela tarde, o sol mais quente. Respirou fundo registrando o cheiro característico que aquele cenário tinha; o cheiro da vida, da natureza. Queria viver naquele momento para sempre. Iago sorriu testemunhando a paz de espírito do amigo.

— Esse é o dia mais feliz da minha vida. — Robson declarou.

— Você não viu todos os outros dias para poder dizer isso. 

Havia um quê de tristeza na resposta de Iago.

— Você tem razão... será que a gente ainda vai ter dias iguais a esse quando formos mais velhos?

Robson encarou os olhos escuros do amigo ao perguntar. Iago mentiria se pudesse, mas esta não era uma opção.

— Na verdade, essa é a última vez que... — o garoto foi interrompido antes que pudesse concluir sua revelação.

— Você tá ouvindo esse bipe, Iago? Tem alguma coisa tocando aqui perto.

Se Robson já estava ouvindo sons, isso significava que Iago estava próximo de concluir o que viera fazer. Deixou de lado o que pretendia dizer e ao invés disso soltou:

— Vem comigo, a gente precisa continuar.

Sem questionar, Robson tirou os pés da água e, juntos, caminharam até um carro preto estacionado à poucos metros, mas ao qual não percebera até então.

— Só você tem a chave, Rob.

A pele de Iago era escura como seus olhos e ambos tinham um brilho refulgente. Seus cabelos crespos, emolduravam ao rosto como uma auréola. Robson atentou-se ao amigo por um momento, sua aparência era idêntica ao que sempre se lembrara, mas havia algo de diferente ali.

— Iago... por que você tá triste?

— Só abre a porta e entra no carro.

— Não. Me diz primeiro.

— Eu senti falta de olhar o céu com você, queria ter aproveitado mais desses momentos, mas agora nós precisamos ir. É por isso que estou triste.

— Calma, a gente pode voltar amanhã, seu bobo — Robson riu com doçura, os cabelos castanhos caindo-lhe sobre os olhos. Pegou a chave no bolso da bermuda e abriu a porta do carro.

Tão logo sentaram-se nos bancos, já não eram mais meninos. Anoitecera, como quando se muda de cenário em um sonho. Os olhos de Robson se arregalaram. O carro estava rápido demais, não era capaz de controlá-lo. Luzes altas lhe ofuscaram a visão.

— Não!

Foi tudo o que teve tempo de dizer.

Abriu os olhos deitado na cama do hospital, ouvindo os bipes dos aparelhos.

— IAGO!

— Shh... Tá tudo bem, meu querido.

— Me perdoa, eu não sei o que aconteceu. O carro...

— Robson, isso já faz muito tempo, eu nunca te culpei.

— Foi a última vez que eu te vi. Depois disso sua família...

— Você está se lembrando... — Iago torceu os lábios. Era uma memória dolorosa, mas necessária. — Robson, se lembra do que me disse nesse hospital? O seu maior medo?

— Meu maior medo era morrer sozinho. Que não tivesse ninguém que se importasse comigo no fim de tudo.

Iago acariciou o rosto pálido e machucado do amigo. 

— Que medo idiota. Como se fosse possível alguém como você ficar só. Me desculpe te fazer passar por isso de novo, mas este foi um momento chave em sua vida. Se você não passasse por ele, eu não conseguiria te levar para o próximo.

Robson ouviu o amigo sem compreender o que lhe estava sendo dito, mas confiante de que, o que quer que fosse, estava sendo feito para seu bem. Iago estendeu a mão para o amigo e o ajudou a levantar-se da cama. Empurraram juntos a porta do quarto de hospital e a mais uma vez o cenário se alterou.

Estavam diante de uma porta de madeira, a entrada de uma casa grande. Iago mantinha a mesma aparência de seus dezoito anos, mas Robson agora era um senhorzinho. Rugas, cabelos grisalhos, marcas da idade sobre a pele, mas o mesmo olhar de quem aprecia a vida a sua volta e saboreia cada momento vivido.

— Essa é a última porta, meu amigo.

— E só eu tenho a chave, não é?

Iago riu:

— Exatamente.

Robson abaixou com dificuldade e pegou uma chave escondida sob o capacho frente a porta. Destrancou-a e girou a maçaneta fazendo com que abrisse com um rangido, ao qual se seguiram os gritos de crianças:

— Biso! Biso!

Um garoto e uma garota com não mais que seis anos, abraçaram os joelhos trêmulos de Robson. Seus bisnetos. As memórias ressurgiam com rapidez. Uma voz feminina disse “Pai, o vovô chegou”, e logo um homem por volta de seus cinquenta anos veio e o abraçou. O levaram para o quintal, onde uma grande mesa de madeira, repleta de muita comida, acomodava vários familiares. 

Entre risos, abraços e histórias, Robson se recordou de cada momento de sua vida: o casamento, o nascimento dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Se lembrava dos momentos especiais que tivera com cada um deles. Virou para o jovem Iago, que sentara a seu lado de forma inconspícua durante o almoço de família, e lhe confidenciou:

— Mesmo depois da sua família ir embora eu nunca esqueci de você, meu amigo. Eu nunca deixei de sentir sua falta. Por isso meu filho mais velho tem seu nome. Eu amo você, meu querido.

— Eu também amo você, Rob — Iago não pôde deixar de se emocionar. — Agora que você já se lembra de tudo, é hora de se despedir.

Iago apertou a mão enrugada do amigo de infância e então Robson respirou fundo e abriu os olhos. Estava no hospital. Ouvia os bipes dos aparelhos. Por um instante sentiu-se confuso. Aquilo tudo fora um sonho? Então percebeu, sentado a seu lado, o jovem Iago.

— Você é real?

Iago acariciou o rosto do amigo, agora marcado pela idade, como fizera tantas vezes na juventude.

— Tão real quanto todas as memórias perdidas pela idade e pela doença as quais você recuperou hoje.

— Como?

— Eu sabia qual era o seu maior medo, Rob. Acompanhei você à distância por todos esses anos sem poder fazer parte da sua vida, porque isso é privilégio dos vivos, mas eu não o deixaria partir sem memórias. Seria o mesmo que deixá-lo só. Pessoas boas não morrem sozinhas.

— Você é um anjo?

— Não... mas o que sou, permite que eu possa passear pela mente daqueles que se abrem para mim. Foi isso que fiz enquanto você dormia. Meu presente de despedida.

— Eu vivi uma vida boa, mas nunca deixei de pensar como ela seria ainda melhor se você tivesse continuado nela. Bem, acho que, de certa forma, você continuou.

— Pode ter certeza de que sim, meu amigo.

Iago deixou as lágrimas caírem silenciosamente.

— Por que você está triste?

— Eu senti falta de olhar o céu com você, e não poderemos fazer isso amanhã.

— Tá tudo bem, eu sei que nos encontraremos de novo. Até lá, você pode olhar o céu e se lembrar de mim — Sorriu como na juventude. 

— Eu irei.

***

Ao amanhecer, a família de Robson o visitou. Seus filhos, netos e bisnetos o viram lúcido, como há muito não o viam. Partilharam memórias sobre acontecimentos diversos, relembraram histórias do passado e o velho aproveitou para contar a todos sobre seu melhor amigo da juventude, Iago, sob o qual batizara seu primeiro filho. E foi ao fim da tarde, depois de pedir para observar o céu uma última vez, cercado de amor e lembranças felizes que partiu desta vida.

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