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Melhor representação da proposta Bilbbo: A Rua Ímpar e a Rua Par.

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Oguh
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Par ou Ímpar
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Oguh
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Naquele dia, eu não quis abrir os olhos de imediato. Sabia eu que estava lá. Na rua Par. Dava para sentir no ar pesado, cheirando a decomposição. Sabia que, ao abrir os olhos, veria aquela luz estranha, cinzenta, entrando pela janela. Uma luz escura, era esta a definição.

- Carlos.

Tive que abrir os olhos. Sophia me chacoalhava.

- Tudo bem, estou aqui, So. Vamos pegar o Hugo.

Sempre que chegávamos lá, naquela casa de pesadelos, era igual. Sophia e eu acordávamos em nosso quarto. Mas Hugo não. Ele estava sempre no outro quarto. Com o “outro”. No começo, eu corria para lá. Queria chegar até Hugo antes do “outro”, ou teria que arrancá-lo dos braços gelados daquela sombra assustadora. À medida que Hugo cresceu, passei a ter menos pressa pois sabia que ele estaria apenas sentado na cama. Que os dois estariam se olhando como se fossem um espelho macabro.

Foi quando Sophia começou a chamar “o outro” de Oguh. Ela dizia que ele era o contrário do Hugo. E era verdade. Hugo crescia e foi ficando cada vez mais parecido com Oguh. Parecido e oposto ao mesmo tempo.

Meu irmão era doce e alegre. Estava sempre feliz. Mesmo na rua Par, enquanto Sophia e eu éramos tragados por aquela sensação tão ruim, de peso e medo, ele estava sempre normal, como se estivéssemos em casa.

Já Oguh era uma sombra silenciosa, uma sombra clara de Hugo. Uma versão do Hugo que não parecia ter sentimentos, nem bons nem ruins, somente aquela aura perversa, invisível mas quase palpável e que parecia lançar a seu redor uma névoa de desespero.

Uma coisa que nunca entendi é por que ele sempre pareceu mais velho do que todos nós. Mais velho do que eu, que tinha 6 anos quando o vi pela primeira vez. Hugo foi crescendo e estava quase de seu tamanho e me perturbava imaginar o que aconteceria quando estivessem iguais. Quando eu chegava ao outro quarto e os via, Hugo e Oguh, sentados um diante do outro em silêncio, tinha a impressão inquietante de que Oguh estava medindo seu irmão gêmeo.

Não foi diferente naquele dia. Ele olhava fixamente para Hugo. Fiquei aliviado ao constatar que ele continuava maior.  Fosse o que fosse que ele pretendesse fazer, ainda teríamos uns 4 anos pelo menos, já que Oguh parecia ter minha idade.

Sophia também partilhava de minhas preocupações.

- Carlos, o que você acha que vai acontecer quando os dois tiverem o mesmo tamanho?

- Não sei, So. Pode ser que ele tente voltar conosco para a rua Ímpar.

- Mas será que isso é possível? E se ele... quiser... digo, e se ele estiver pensando em... trocar?

- Não! Não vamos deixar! Hugo é nosso irmão. Temos que impedir.

- Mas, lembra do que mamãe disse?

Desde que começamos a ir à rua Par, tentamos descobrir o máximo possível sobre o bebê perdido. Foi difícil obter respostas. Este assunto era terrivelmente doloroso para mamãe e papai. Mas fomos juntando aos poucos algumas informações. A mais importante delas: Oguh não morrera. Mamãe fizera uma escolha.

Os médicos explicaram que um dos bebês na barriga de mamãe tinha uma rara condição que o fazia consumir todos os recursos disponíveis. Como resultado, ele morreria e mataria o outro. Mamãe perderia seus dois bebês. A única solução era simples, embora difícil: eliminar o bebê doente. Após uma longa e dolorosa reflexão, meus pais decidiram salvar ao menos um de seus filhos. Ficaram com Hugo.

Durante o resto da gravidez, mamãe esteve depressiva e angustiada. Só voltou a ser feliz após o nascimento de Hugo.

Um dia, Sophia perguntou a ela se ela amava mais Hugo do que nós. Ao que ela respondeu:

- Todos vocês são meus filhos, eu os amo do mesmo jeito. Vocês são iguais aos meus olhos.

- Até o Og..., digo, até o bebê que morreu?

- Sim, amor. Ele também. - ela respondeu com os olhos cheios de lágrimas.

Era a isso que Sophia se referia.

- Mamãe disse que nos ama do mesmo jeito. Que somos iguais. Será que ela não gostaria de conhecer Oguh?

Oguh morava sozinho na casa da rua Par. Nunca vi ninguém mais por lá. Exceto naquela noite de inverno. Vovó aparecera lá, parecendo confusa. Sophia e eu exultamos! Ao menos um dos adultos estava lá conosco. Poderíamos pedir ajuda. Mas nossa alegria durou pouco. Vovó parecia um holograma flutuante. Ela estava lá, falava, mas não ouvíamos. Ela não nos ouvia tampouco. Parecíamos estar em aquários separados sobre o mesmo aparador. De repente, ela viu Oguh, seus olhos se arregalaram, deu um grito de pavor e se desfez no ar. Ao voltarmos para a rua Impar, mamãe e papai choravam. Vovó estava morta em sua cama.

Voltando para aquele dia fatídico, em que vi Hugo e Oguh se olhando pela última vez, eu pensava que eram mesmo muito parecidos. Oguh era um retrato de Hugo, um retrato em sépia, danificado pelo tempo, rasgado em muitos pedaços e colado com fita adesiva barata. Havia maldade em seus olhos. Ou talvez, fosse apenas um reflexo daquele ar maligno que impregnava toda a rua Par. Devia ser isso. Porque naquele dia, eu vi a mesma maldade nos olhos doces de Hugo, enquanto ele apontava para mim.

Oguh parecia estar apenas aguardando uma ordem de Hugo. Ele se levantou e veio em minha direção. Seus olhos vazios, inteiramente negros, sem pupilas, estavam na altura exata dos meus. Mal tive tempo de ouvir o grito de Sophia. Oguh abriu sua boca vomitando uma escuridão sólida que me envolveu e me jogou no chão, pesada e grudenta.

Quando a escuridão se dissipou, não havia mais ninguém lá.

Eu devia ter imaginado. Oguh nunca quis trocar de lugar com Hugo. Ele ama seu irmão gêmeo. Ele queria voltar junto dele. Viver junto dele. Para isso, alguém tinha que ficar na rua Par.

Desde então, ninguém nunca mais apareceu por aqui.

Sou só eu.

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