Conto

O último inverno de Port Village

Wanderson Miranda
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O último inverno de Port Village
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Andei um pouco pensando no desconhecido e nas coisas que me levaram ao hospício no qual John Edwin foi internado. Foi remoendo sobre esses pensamentos que me lembrei dele, aquele garoto doentio que alegava falar com monstros. Eu tive permissão para entrevistá-lo duas vezes, pois interessei por suas loucuras, não porque eu acreditava, mas porque eu sabia que poderia tirar proveito do que aquela mente perturbada me contava. Quando olhei o seu registro, descobrir que ele vivia em um vilarejo remoto próximo a praia. Ele nem sempre foi assim, tudo começou quando ele ainda tinha vinte anos... 

*** 

O mar estava calmo quando John e seu pai resolveram sair de casa mais cedo para pescarem. O dia estava limpo e uma brisa suave soprava do Norte, trazendo o doce aroma de vinho que os marinheiros transportavam em grandes quantidades de barris no navio atracado no porto. Aos vinte anos, John nunca imaginou que ainda estaria vivendo naquele lugar que para ele, fedia a peixe. O vilarejo era pacato e ficava próximo ao mar. Era uma época difícil, um rigoroso inverno se aproximava e como sua família não tinha condições para comprar carne no mercado, eles dependiam do cultivo da terra e da pesca para sobreviverem, porém a neve logo começaria a cair, cobrindo todo o solo, nada cresceria nos próximos meses e por isso, John se via obrigado a seguir seu pai em um velho barco de pesca para garantirem o sustento do longo inverno, mas já fazia mais de uma hora que estavam em alto mar e tudo o que conseguiram foram alguns peixes pequenos, não seria possível passar o inverno somente com aquilo. 

Era quase meio dia quando seu pai resolveu recolher a rede para regressarem de volta ao porto, tentariam durante a tarde novamente, talvez teriam mais sorte. No entanto, John avistou no horizonte, nuvens negras que se aproximavam do ponto onde se encontravam. 

- Parece que vem tempestade aí – Disse o garoto para seu pai que terminava de enrolar a rede. 

- Não é possível, o céu estava limpo a menos de uma hora – Retrucou o velho, mas após olhar para o horizonte, ficou surpreso ao ver que realmente uma tempestade se aproximava e disse em um tom preocupante – Rápido filho, vamos dar meia volta, essa é das grandes! 

Os dois se prepararam para zarparem de volta, mas já era tarde demais, a grande nuvem escura já os alcançavam. Aquela sem dúvida era uma tempestade das grandes e viera sem aviso nenhum. O mar começou a se agitar, formando ondas que chacoalhava o barco, impedindo-o de seguir o seu curso. 

- John, vá para dentro da cabine! – Ordenou seu pai ao ver que a nuvem agora pairava em cima de suas cabeças. Para o velho pescador, aquilo não era normal, uma mudança de clima tão repentinamente nunca havia acontecido em suas pescarias, era realmente algo misterioso. John correu assustado para a cabine e ficou observando da janela enquanto seu velho tentava manter o barco em direção ao porto, virando o leme com toda a sua força, mas a chuva começou a cair e na medida em que engrossava, ficava cada vez mais difícil enxergar algo a sua frente. O tempo se escureceu naquele ponto do mar, mas bem longe podia-se observar o dia claro e sem nuvens, era surreal. 

Um estrondo ecoou por debaixo do casco do barco, o impacto fez com que John se desequilibrasse e caísse no chão da cabine. Talvez tenham se chocado de raspão em alguma pedra, era o que ele pensava naquela época, mas ao se levantar e olhar novamente pela janela, viu o leme do barco vazio, seu pai havia sumido. John correu pelo convés procurando por seu pai, encostou na amurada do barco e observou na água a procura do corpo, algum sinal ou um grito de socorro, mas nada, ele estava sozinho. O garoto ficou tão desesperado que nem percebeu o barco indo de encontro com um amontoado de rochas, dessa vez o choque destroçou completamente a embarcação, jogando-o para as profundezas do mar. 

De volta a superfície, John foi o primeiro a conseguir emergir-se. Tentou localizar seu pai em meio aos destroços do barco e até gritou, mas sem nenhum retorno. 

- PAAAAAAAAAAAAAI!!! 

Por mais que ele gritasse, sua voz era abafada pelo som dos trovões. Era inútil tentar. Ele estava perdido, no meio de uma tempestade, em meio a destroços em um mar em fúria, cujas ondas o jogava de um lado para outro, como uma marionete. Mesmo assim, John resistiu e tentava a todo instante nadar contra a força das ondas. Se agarrava a pedaços do barco e continuava a gritar desesperadamente pelo seu pai. E quando achou que morreria, quando suas forças começavam a esvair e seus braços já estavam doloridos, enxergou entre as ondas, uma figura grotesca que começou a surgir sobre as águas. Talvez estivesse vendo coisas, ou talvez fosse um efeito alucinante causado pela proximidade da morte, mas a coisa estava a sua frente e era grande, muito grande. É difícil descrevê-lo, visto que tudo o que sei foram histórias passadas através de várias pessoas, nem o próprio John soube de fato me dizer sua verdadeira característica. A real imagem da coisa se perdeu em sua mente, pois sua forma é indescritível e quem ousasse tentar, acredito que enlouqueceria, mas era grande e colossal – Possuía uma cabeça polpuda e cheia de tentáculos, era tudo o que John via, tentáculos como os de um polvo, mas não era um polvo, não era nada do que ele pudesse associar. Foi de repente, uma hora estava ali e outra hora, desaparecia, fazendo John acreditar novamente que era tudo fruto da sua mente alucinada. Não se sabe o que houve depois, mas John ficou tão apavorado com toda a situação, que não percebeu a aproximação de uma onda gigante que o acertou, jogando-o novamente para as profundezas, e então, tudo ficou escuro. 

*** 

Quando John voltou a acordar, ele estava deitado na praia com marinheiros ao seu redor. 

- Vejam, ele está acordando! – Gritou um dos homens. 

Todos se aproximaram e o levantaram. Sua cabeça doía e sua visão meio turva enxergava pessoas disformes, com vozes que soavam como balbucios. 

- Você está bem garoto? Consegue me ouvir? 

- Cadê... o meu pai? – Perguntou John. 

- Nossos homens estão fazendo uma varredura pelo local, seu pai ainda não foi encontrado. 

- E o monstro? Vocês viram aquela coisa? 

- O que, do que está falando? 

Claro que os marinheiros não acreditaram na história de John, quem acreditaria? Acharam que o garoto estava com algum tipo de distúrbio, causado pela pancada que havia levado na cabeça, mas ninguém podia esconder o fato estranho daquela tempestade misteriosa surgir sem aviso. Depois de uma semana de busca, todos desistiram de procurar pelo seu pai, o tempo estava se fechando cada vez mais. Disseram que a tempestade provavelmente arrastou o corpo para muito longe, ou sido alvo de tubarões, o que era duro de se ouvir, mas não poderia ser descartado. No entanto, John tinha outra opinião, para ele, seu pai havia sido levado pelo monstro da tempestade, sim, fora esse o nome que ele deu a coisa, porque John acreditava que de alguma forma aquela tempestade estava relacionada com a criatura. Depois daquele evento, ele nunca mais foi o mesmo, as pessoas o chamavam de louco por falar sobre o monstro da tempestade, mas isso nem era a pior parte, John tinha pesadelos a noite em que a criatura aparecia e o arrastada da cama com seus tentáculos pegajosos e o levava novamente para as profundezas abissais do mar. Depois de um tempo, sua mãe começou a ficar preocupada e o levou ao psicólogo, esse por outro lado, afirmava nunca ter tratado de um caso como aquele. John dizia ao velho Doutor Franklin, que a coisa se comunicava através de seus sonhos em uma linguagem desconhecida. 

- E o que esse tal monstro lhe diz, John? – Perguntou o doutor em uma das sessões. 

- Ele diz que quando o inverno chegar, chegará também o dia do seu despertar. Nesse dia, ela sairá das águas profundas para se alimentar daqueles que não tem fé... 

Sua mente febril falava sobre coisas estranhas e muitas vezes o próprio doutor ficava perturbado ao ouvi-lo. Por indicação médica, sua mãe teve que tomar uma decisão difícil, a de interná-lo em um hospício bem distante do vilarejo, um lugar onde ele não pudesse ver o mar ou ver coisas que faziam sua mente lembrar-se do seu pai. John não questionou sobre aquela decisão, para ser sincero, o garoto sentiu-se aliviado por deixar Port Village, apesar de ter insistido para que sua mãe viesse com ele, mas ela não podia deixar a casa e tudo o que construiu para ceder as loucuras do seu pobre filho. 

*** 

Até hoje me lembro do vilarejo, era pacato, mas bom de se viver. Nunca entendi como um vilarejo pôde simplesmente ter sumido do mapa como o curioso caso de Port Village. Aquele inverno de fato foi rigoroso e matou muitas pessoas de fome e frio, mas não foi o inverno que levou o seu extermínio e talvez ninguém saiba explicar de fato o que houve, mas bem distante dos seus destroços, em um hospício, um velho John ainda medita sobre monstros, rabiscando em seu diário no qual nunca deixou de escrever e desenhar imagens grotescas sobre um suposto ser que agora, segundo ele, nada novamente pelas profundezas dos mares. 

Meu nome é Howard Phillips, sou um escritor, procurei John porque queria publicar suas histórias, me interessei pelos seus monstros e extrair tudo que pude da sua mente. Espero seriamente que algum dia ele possa descansar em paz e espero também que os médicos estejam certos em dizer que ele é louco, eu não queria me deparar com nenhum desses monstros por aí, prefiro imaginá-los apenas no papel, mas por precaução, prefiro ficar bem distante do mar.


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