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Áudio drama
O Último Encontro
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Sentia-me solitária, sem afeto, e esses sentimentos estavam consumindo meus pensamentos havia dias. A insatisfação se estabeleceu sem precedentes. Evitava construir amizades, relacionamentos estáveis, e não havia motivo aparente para isso, mas não conseguia sair da bolha e do meu mundo particular e introvertido por maior que fosse o meu esforço. A minha rotina se tornou sacal até para mim, que sou amante da constância, pois não fazia nada de diferente havia meses.

À mesa do computador do escritório da minha casa, refleti sobre meu cotidiano: vou para o trabalho às 08h00, saio às 18h00. Caminho até a lanchonete da esquina de minha casa, peço panqueca de frango ou omelete de queijo e presunto, faço essa refeição geralmente com um copo de suco de laranja e, na maioria das vezes, sozinha. Volto para casa para consumir internet ou televisão até a hora de dormir. No dia seguinte, tudo se repete.

Há meses, encontrei esperança de contato humano na internet sem saber que é o lugar mais perigoso do mundo, pois é o espaço em que anônimos se encontram e se reconhecem como espelhos. Sem que percebesse minhas motivações, tornei-me anônima para muitos, e navegava na rede usando um perfil com alguns dados reais e outros não tão reais assim, por exemplo: o meu nome e minha fotografia. O meu conforto era saber que mais da metade das pessoas que acessa essa rede social da qual eu faço parte age dessa maneira.

A internet tem salvado muitas vidas de um tédio profundo, inclusive a minha. E a tristeza de hoje é que a luz da rua onde moro acabou por causa da chuva intensa que insiste em acontecer. Em dia de chuva, tudo parece mais arrastado e nostálgico para mim, posto que as memórias de minhas vivências tomam a proporção de profunda introspecção. Estava pensando na minha vida empacada e olhando a vista pela janela da minha casa quando reparei pela primeira vez em 10 anos morando no mesmo endereço que do outro lado da rua há uma loja chamada Mística, com um letreiro iluminado escrito “Joga-se cartas”.

Achei estranho somente parte da avenida estar sem energia, e, como não sabia se iria demorar a voltar, decidi ir à loja para passar o tempo. Apesar da chuva, caminhei lentamente até o local pelo frescor que a água proporciona. Um banho de chuva não faz mal a ninguém, e não pude deixar de me lembrar das palavras do meu horóscopo de hoje. “O momento é de limpeza espiritual” estava escrito no signo de virgem do jornal impresso que sempre leio pela manhã.

Entrei na loja e avistei uma jovem sentada em um tamborete fazendo tricô, mas quem falou comigo foi uma senhora quase obesa de cabelos brancos, olhos claros, olheiras profundas, pele pálida, vestido colorido, muitas pulseiras no pulso e sorriso enigmático, que saiu de repente detrás de uma cortina com decoração típica de ciganos.

— Sabia que viria, menina. 

— Oi? — questionei.

— Sabia que um dia viria até nós. — Seu sorriso tornou-se sarcástico, mas incrivelmente havia nele alguma doçura.

— Ah, sim, pode ser que tenha me visto caminhar nessa rua, pois geralmente janto logo ali — respondi sem muito jeito, apontando para a lanchonete da rua em que moro.

— Venha cá, vamos conversar um pouco. Eu me chamo Carmen.

Caminhei atrás dela, me considerando uma completa irresponsável por adentrar a loja com alguém que nunca vi anteriormente. Porém, Carmen me inspirava confiança.

— A propósito, meu nome é...

— Rosângela. Já sei seu nome.

— A senhora está me assustando. Como sabe meu nome?

— Sou cartomante e sei muito mais do que imagina. Sente-se. — Carmen me sugeriu um banco com a lateral toda arranhada por unhas de gatos.

Sentei-me no banco sem muita cerimônia e para não fazer feiura, mas se tivesse um pouquinho de intimidade com essa senhora falaria para ela fazer uma faxina no local porque o espaço além de escuro era muito sujo.

Carmen pegou um baralho cheio de figuras e começou a embaralhar com a destreza que eu nunca havia visto antes. Aquilo, devo confessar, me hipnotizou. Depois das cartas embaralhadas, ela acendeu duas velas pretas ao lado de um copo d’água e de um pires repleto de sal grosso. Mentalmente, agradeci por mais luz.

— O que deseja saber, Rosângela? — ela me perguntou com o semblante calmo e sereno.

— Bom, nem sei quanto é o jogo de cartas...

— Farei um preço camarada para ti: gratuito para virar freguesa. — Carmen voltou a ter o sorriso irônico, mas dessa vez sem meiguices.

— Muito obrigada! Bem, quero saber de minha vida afetiva... Tenho me sentido sozinha — respondi sem rodeios.

— Pois muito bem, vamos lá. Concentre-se em seu nome completo e em sua pergunta, e então corte o baralho quantas vezes quiser. — Ela me indicou o monte de cartas em cima da toalha preta no centro da mesa que nos separava.

Cortei o baralho em três montes iguais e me lembrei mais uma vez que sou virginiana sem conserto. A perfeição, a limpeza, a crítica e o alinhamento fazem parte da minha vida medonha e pacata.

Carmen abriu as três primeiras cartas dos três montes e pulou de sua cadeira. Por um momento, considerei a hipótese de encenação, mas olhei para as cartas e elas sangravam. Fiquei apavorada e levantei-me da cadeira também.

— Saia daqui! Você tem atraído... SAIA DAQUI! — Descontrolada, Carmen berrou comigo, apontando o dedo para a porta de saída.

Eu saí da taróloga como entrei: sem respostas, mas muito assustada e amedrontada. Corri para minha casa sem olhar para trás. Cheguei no meu lar, testei o interruptor de luz e a energia estava de volta, contudo, não me senti de todo tranquila. Fiquei parcialmente calma, já que o medo ainda dominava meu corpo. Corri para a janela e fechei as cortinas; não queria que a cartomante maluca me avistasse do outro lado da rua.

— Isso só pode ter sido algum teatro que saiu do controle para me convencer de sua habilidade. Talvez na hora do embaralhamento, não sei — falei comigo mesma enquanto tentava controlar a respiração ainda afoita.

Comecei a chorar com a possibilidade de ser algo real, e então telefonei para meu irmão, mas caiu na caixa de mensagens. Deixei um recado:

— Só para dizer que te amo, Jeff, não é nada de mais.

Não quis preocupá-lo e a mais ninguém. Desisti de telefonemas, sobretudo para minha família. Depois de um banho, me joguei no sofá para ver o que os canais fechados poderiam me oferecer de entretenimento, mas o pensamento ainda estava nessa situação inusitada de hoje. Decidi parar de pensar nisso, afinal, nem mesmo acredito nessa besteira de misticismo. Já me basta o horóscopo, que não diz nada com nada, em que todas as mensagens são genéricas.

Como quem morre em câmera lenta, passei os canais da televisão sem esperanças de encontrar algo interessante que prendesse meu olhar. A última tentativa foi observar o que estava passando em um conhecido canal de noticiários. Rapidamente, desisti de saber o que acontecia na região, pois a repórter afirmava em tom solene, mas com certa dosagem de morbidez: “...o número de vítimas é crescente e alarmante entre os que acessam...”. Não aguentei o sarcasmo e desliguei o aparelho de TV.

Sozinha em casa e sem sono, a sensação de solidão compareceu mais uma vez em alta dosagem. Estava com medo, e não tinha namorado nem amigos para necessária companhia nesse momento. Isso me fez chorar novamente, porque reconheci que não tenho ninguém. A ideia recorrente de que ninguém me quer para namorar voltou a povoar meus neurônios.

Recorri ao meu refúgio favorito: a internet, no computador de meu escritório como sempre. Na internet, sou quem quero ser e não preciso ser a insatisfeita com a vida, compulsiva por doces e a assalariada Rosângela. Por isso mesmo, entrei com minha conta anônima em um site de relacionamentos amorosos para conversar com meus contatos mais fiéis, e, quem sabe, conhecer mais pessoas pelo virtual.

Na conta com dados falsos, me nomeei como Solange, mas os meus colegas virtuais me chamam de Sol. Acho chique, não posso negar, e gostaria de ter a vibração e energia do astro-rei. Quando acessei a minha conta, muitas notificações apareceram no canto inferior direito do meu aparelho. Dentre elas, uma mensagem privada com o seguinte teor: “Você vai morrer em breve, Rosângela”, dizia em linhas expressas na mensagem. Dei um pulo da cadeira. Aliás, é o segundo no dia de hoje.

— Que brincadeira de mau gosto é essa?! Como essa pessoa sabe meu nome verdadeiro? Será que é a bruaca da rua vizinha? — Revoltada, fui até a janela da sala de minha casa e avistei a loja Mística, que se encontrava fechada no momento e com o letreiro desligado.

Depois de alguns minutos atônita com o que havia recebido na mensagem, decidi retornar para a frente do computador e averiguar o perfil que me enviou tal correspondência. Não consegui acessá-lo, pois, de repente, o computador travou.

Não acha que deveria mandar para seus seguidores sua real fotografia antes de morrer, Rosângela?, disse-me o perfil desconhecido por digitação no bate-papo da rede social, mesmo com meu computador travado.

Não tem mais o que fazer? Você está me confundindo e fazendo uma brincadeira completamente sem graça. Se você for quem penso que é, vai ser presa, porque vou te denunciar para polícia, Carmen!, respondi, quando o teclado destravou, com tanta irritação que quase quebrei algumas peças.

Não houve resposta imediata, porém, na tela do meu computador apareceu sem que eu clicasse em nada uma página de blog com a imagem de uma pessoa torturada na capa, com os seguintes dizeres:

Você vai morrer em breve, Rosângela.

— Eu vou ligar para a polícia! Está me ouvindo? Eu vou ligar para a polícia! Você vai brincar com a sua... — Levantei-me novamente da cadeira e, ao virar-me para a porta de meu escritório, vi pichado de sangue na parede a mesma mensagem da tela do computador.

O calafrio na espinha se confundiu com o frio do ambiente por causa da chuva. Senti muito frio e terror. Corri para meu quarto e me vesti com um casaco, pois não sabia se o medo que sentia era por causa do barulho dos trovões ou das mensagens de hoje. Por um lado, me senti segura em casa, porém, testei novamente se a porta de entrada estava trancada.

Peguei o telefone sem fio e tentei linha para ligar para a polícia, mas o telefone estava mudo e o celular, sem bateria. Meu rosto escorria suor, minha respiração voltou a ficar ofegante e não consegui segurar o choro.

— Rosângela... Ei, Rosângela... volte aqui para seu escritório. — A voz que saía pelas caixas de som do computador era feminina e fúnebre, mas muito debochada. E, de tudo, pude ter certeza: não era a voz da cartomante Carmen.

— O que você quer comigo? Vai embora! Deixe-me em paz! — meu suplício saiu embargado, tenso, com medo. Falei alto para que a voz que vinha do escritório me escutasse. Chorei compulsoriamente, e o pavor tomou conta de mim. Paralisei junto ao silêncio da minha casa, sem nenhuma companhia que me acalentasse a alma.

— Eu não vou chamar novamente, Rosângela. Seja uma boa menina e sente-se em sua cadeira aqui no escritório.

— Mostra a cara, covarde!

— Você não mostrou a sua. Até seu nome é falso — ela disse com ironia.

— Eu vou ligar para a polícia, você invadiu meu computador! Isso é crime! Está me observando pela câmera, criminosa! Vai para a cadeia.

— Estou morrendo de medo. Faça isso, telefone para a polícia. — Ela soltou uma gargalhada cáustica.

Suando frio, as gotículas da transpiração escorriam e tornavam minhas mãos geladas a cada minuto. Tremia muito e não era somente o frio, era pavor. Senti uma tristeza imensa de tudo e de todas as vezes que preferi ficar sozinha em casa a ponto de perder todos os meus amigos reais. De repente, comecei a ser dominada pela raiva de ter minha privacidade interrompida e minha vida, ameaçada. Enfurecida, voltei para o escritório disposta a dizer muitos desaforos para quem brincava comigo dessa forma sórdida, jocosa e leviana. Contudo, acabou a luz novamente tão logo pus os pés no cômodo. O susto foi tão grande que não soube conter o grito.

Tudo estava escuro novamente, e, desta vez, sem nenhum resquício mínimo de iluminação na rua. Do lado de fora da minha casa, o céu ainda era dominado pelas chuvas e trovões.

— Oi, Rosângela — disse lentamente a Anônima, desta vez dentro do escritório. A voz não saía pelas caixas de som. Era real, ela estava ali junto comigo, e minha boca ficou seca, meu estômago, vazio, e voltei a chorar. 

— Como você entrou em minha...? — perguntei, trêmula, sem conseguir enxergar em que lugar a Anônima se encontrava.

— Falei que iria morrer em breve, não falei? Nunca descumpro promessas. — Desta vez, o tom dela era seco e calculista.

— O que eu te fiz, psicopata maldita?! — Mal terminei a pergunta e senti o golpe da lâmina afiada passar por meu pescoço. Ataque cirúrgico, sem direito à defesa, caí sem vida no chão.

— O que você fez? Nasceu — respondeu a Morte depois de me matar.


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