Áudio drama
O Que Você Faria De Diferente No Seu Último Dia?
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Enquanto eu olhava para o lado, lá estava aquela sombra que parecia ocupar minha mente e tomar a maior parte dos meus dias. Enquanto a encarava, fitando cada pedaço da sua existência, pensava no que poderia acontecer após a minha morte. Não considerando o que ocorreria ou como se sentiriam meus familiares, meus amigos, meus colegas de trabalho, pois nada disso me interessava. Nada disso fazia a mínima diferença para mim. O que eu queria saber, de verdade, era o que aconteceria comigo após a minha morte. Iria para algum lugar? Para onde eu iria? 

Costumamos pensar que, depois da morte, ainda pode existir uma vida naquele além-cristão que Dante percorreu ao lado de Virgílio. Aos maus, um espaço reservado no Inferno com suas torturas inimagináveis aos olhos humanos. Aos que pecaram, mas se arrependeram, a purificação no fogo do Purgatório até ascenderem aos Céus. Enfim, aos que levaram uma vida santa, os benefícios e a riqueza que o Paraíso poderia oferecer. Pela vida que levo, dificilmente mereceria uma eternidade no Céu, ainda que, também, não tivesse feito por merecer como destino a tortura eterna. Honestamente, nada disso pra mim significava alguma coisa e nem me seduzia. Não queria trocar uma vida por outra. Seis por meia dúzia. Jamais aceitaria esse meu destino se a morte significasse apenas um renascer em outro lugar, uma passagem. Não queria uma vida aqui; nem queria uma lá, independentemente de onde e de como fosse esse outro lugar. A simples existência para mim já era, por si só, um peso enorme para ser carregado.

Percebi, então, que poderia existir uma outra resposta e uma outra saída. Deveríamos considerar a morte como uma situação similar ao que existia antes de nascermos. Era simples; era o nada. Um estado de total aniquilamento que fazia sobrar apenas uma carcaça inóspita do que já teria sido nossa morada. E essa perspectiva de não ter uma “alma para salvar”, de não precisar lutar para sermos uma melhor pessoa em troca de uma melhor condição depois que morrermos, ou, de não termos que sofrer as agonias do Inferno era, na minha visão, muito agradável e acolhedora.

Reafirmo que não gostaria de trocar minha existência aqui por qualquer outra. Essa situação, aliás, não faz nenhum sentido para mim. Por isso, não penso exatamente no que quero que façam com meu corpo após a morte. Da mesma forma, não me interessa e eu não vou me aproveitar de benefício nenhum que isso poderia me fornecer num “além”. Quero que vocês façam o que quiserem e como quiserem, como o bom-senso e o protocolo exigir. Fielmente acredito que todo esse negócio de funeral serve apenas para aliviar a consciência daqueles que ficaram e daqueles que falharam comigo. Então, não preciso de um sepultamento em cemitério chique, nem uma campa em mármore branco ou uma cruz com meu nome, uma curta biografia e palavras agradáveis para serem lidas pelos que ali passarem. Esqueçam tudo isso. Não tenho essa ânsia de posterioridade ou desejo de permanecer na memória de quem quer que seja, principalmente as de transeuntes. 

Entendam, contudo, essa prisão em que eu vivia. Que pelo eufemismo os nossos contemporâneos costumam chamar por rotina. Ela que fez crescer essa sombra que, de início, eu via raramente, vindo a ocupar todos os espaços. Lá estava ao lado da mesa do meu trabalho, na minha casa, em todos os cantos que eu frequentava. Seu tamanho era indefinido: ora grande, ora pequena… mas, de um tempo pra cá, sempre presente. A primeira vez que percebi seus contornos foi na adolescência, e, desde então, ela veio me seguir pela vida adulta. Começamos a nos respeitar e viramos íntimos. Flertávamos esporadicamente até que, hoje, decidimos que era o momento de uma maior aproximação. 

Para celebrar nossa união definitiva, meu próximo ato era sentar para escrever uma carta aos que ficaram de fora desse relacionamento que seria, enfim, consumado. Não tinha a proposta de ser uma carta de despedida, nem de consolo, muito menos procurando culpados pelo meu cansaço com toda essa situação que as instituições normalizam na égide do crescimento pessoal e outras baboseiras diárias que encaramos desde nos comerciais da TV até nos diálogos simples em filas de supermercados. Era uma carta simples, com alguns pensamentos sobre o fim, sobre os meus motivos e posteriores ações tomadas.

Fazendo isso, comecei a pensar e a organizar uma rotina de preparação para a minha despedida, mas acabou ocorrendo como se fosse um dia normal. Meu primeiro pensamento foi em juntar alguns dos amigos mais chegados para uma cerveja ao entardecer, após os trabalhos, para conversarmos um pouco já que fazíamos isso, cada vez mais, com menos frequência. Infelizmente, não se concretizou. Cada um também estava preso na sua rotina, nas suas obrigações, e muitos motivos diferentes, válidos, honestos, foram dados. Todos eles, também, estavam cansados.

Usei o tempo que seria destinado a eles para a organização dos meus livros, por motivos que desconheço, já que eu também não tiraria proveito disso. Retirava da estante cada exemplar, limpava, folheava os que tinham dedicatórias, lendo atenciosamente cada palavra deixada, e, enfim, colocava-os de volta na prateleira, organizando-os, dessa vez, pelas cores da capa. Outra ação estúpida, realizada em sequência, foi lavar a louça que já estava na pia por dois ou três dias. Usei até uma esponja nova como se tivesse algo que me impedisse de, simplesmente, usar aquela que já estava ali para isso... Como se ela não conseguisse lavar mais alguns pratos e copos normalmente antes da aposentadoria. Faria alguma diferença deixar aquelas louças sujas? Quem se importaria com isso, ou, pior, por qual motivo eu me importaria com isso? Não sei, mas lavei cada objeto, sequei e devolvi ao seu devido lugar. Essas atividades eram, inclusive, um lembrete de tudo o que eu detestava fazer. Talvez por esse motivo me dei ao trabalho de, como se fosse uma redenção sacrificial, fazê-las pela última vez. Faltava, ainda, uma limpeza nos cômodos; lavar a pilha de roupa suja e outras ações que podem carecer de sentidos para aqueles que enxergam o fim se aproximando, mas, naquele momento, significavam algo pra mim.

Entre esses costumes ordinários, minha mente caminhava para a frente. Precisava decidir todos os meus passos e pautar a trajetória na irreversibilidade deles. Não queria nem precisava de uma segunda chance. Nada poderia dar errado. Por algum motivo, comecei a pensar em maneiras de não incomodar as outras pessoas de forma nenhuma, ainda que eu não tivesse nenhum afeto, carinho ou consideração por qualquer uma delas. Queria deixar isso o mais privado possível, portanto, risquei da lista a possibilidade de fazer num quarto de hotel, logo após considerar, também, que o ambiente da minha residência seria péssimo: a solidão em que vivo faria com que demorassem muito para descobrir qualquer atitude que eu tomasse. Todavia, ao olhar pela janela encontrei uma boa saída enquanto encarava a calmaria da Baía de Guanabara, com a ponte Rio-Niterói cortando o ambiente.

Já tarde da noite de um dia desperdiçado, como todos os outros, pensei em pegar as chaves do carro e dirigir até o vão central da ponte. Sabemos que uma queda de 72 metros de altura seria muito mais que o suficiente, então, decidi que ali seria. Desisti, contudo, da ideia de ir de carro para não causar um engarrafamento e atrapalhar as pessoas que madrugam para ir ao Rio de Janeiro trabalhar, e, assim, outro plano surgiu: ao amanhecer, durante o trânsito pesado e eventual engarrafamento que faz parte dessa maldita rotina de todos os fluminenses e cariocas, pegaria um táxi, pagaria com uma bela gorjeta a corrida de ida e de volta antecipadamente e, quando eventualmente o engarrafamento fizesse o carro parar perto do meu ponto final, agradeceria ao motorista, abriria a porta e pularia. Tudo, então, fazia sentido, e a sombra começou a ceder todo o seu espaço para toda a claridade que agora se fazia presente nos ambientes.

Preparei meu jantar sem luxo algum. Era uma lasanha dessas congeladas que esquentávamos no micro-ondas e que fazia parte do meu cardápio habitual. Um copo de refrigerante acompanhava ainda algum programa qualquer na televisão que servia de barulho ambiente enquanto estava absorto em meus pensamentos. Usei alguns talheres descartáveis que estavam guardados desde quando eu tinha me mudado para essa casa, fazendo com que eu não tivesse algo pra lavar após jogar a embalagem e os utensílios fora. Essa pequena vitória colocou um breve sorriso no meu rosto.

Restava, somente, passar algumas horas para entrar no táxi até meu ponto final. Pareciam séculos, mas não sentia em mim nenhuma angústia ou ansiedade com a situação que viria. Pelo contrário, estava numa paz que eu não saberia dizer qual tinha sido a última vez que ela se apresentava. Pulei o sono e, assim, conforme o sol subia, acenei para o carro que me ofereceu um breve diálogo que eu já previa. “Bom dia! Para onde?”; “Praça XV, por favor. Pagarei adiantado e um pouco a mais do que o taxímetro cobrará”. Já tinha feito essa corrida algumas vezes.

No banco traseiro, me acompanhava somente um exemplar de um livro. Era a história, contada através de cartas, de um triângulo amoroso entre o protagonista e uma mulher já prometida para outro homem. Não tinha chegado nas suas páginas finais quando percebi que me aproximava do ponto em que deveria descer. Tinha que ser rápido. Sair, olhar e ir. Pedi ao motorista, então, que fosse para a faixa mais externa da ponte. “Queria ficar mais próximo do horizonte.” Com o engarrafamento ao meu lado, daria tudo certo e evitaria que alguém tentasse fazer alguma coisa, restando, apenas, no máximo, um breve olhar sobre a situação.

Chegamos. Saí. Olhei. Pulei...


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