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O quarto encontro
Conto

O quarto encontro

Existem encontros que marcam a nossa memória. O encontro com a mãe após o primeiro dia de aula, o primeiro encontro com a menina bonita da rua, o encontro com o futuro parceiro de negócios, o encontro com seu primeiro filho e, por fim, chegaremos ao encontro com o final inevitável.

Aline Bassoli
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Áudio drama
O quarto encontro
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Calma!

Calma!

Respira!

Como é que eu vou ter calma, meu Deus?

Ela está chegando.

Eu sinto.

Não há para onde correr. Não tem como fugir!

Ela vai me pegar!

Será meu fim!

Abro os olhos e aquela familiar luz invade minhas irises. O som ritmado do monitor cardíaco me traz certa tranquilidade. Estou vivo.

Helena, a enfermeira que cuida de mim há algumas semanas, sorri levemente e se aproxima.

— Outro pesadelo, Sr. Osvaldo?

— Não. Apenas o mesmo. – respondo a ela. — Posso tomar um pouco de água?

— Claro. – ela se afasta e pega o copo com um canudinho repleto do líquido transparente.

Sorvo alguns goles, ela deixa o copo sobre a mesinha, ao meu alcance, e desaparece fechando a porta atrás de si. Estou sozinho novamente. Como estive a maior parte de minha vida.

Um leve bocejo me invade, mas não quero dormir naquele momento. Não quero voltar a ter aquele pesadelo. Preciso de algumas horas de descanso para me recuperar da agonia que sinto toda vez que ele invade o meu sono.

Alcanço o controle remoto da TV e a ligo num canal aleatório. Jornalismo, que de investigativo não tem nada, novela, futebol, canais religiosos. Nada atrai minha atenção. Onde foram parar os canais de filmes? Adoraria um bom bang-bang para me distrair.

Fecho os olhos por um instante. Volto aos meus dez anos quando, ao lado de papai, assistia vidrado aos filmes do John Wayne. Faroeste dos bons, mocinhos versus bandidos, histórias sobre honra e justiça, e também sobre amor.

Bons tempos aqueles ao lado de papai. Mamãe ficava na cozinha, preparando o jantar ou alguma sobremesa, sempre preocupada em oferecer alimentos saudáveis, mas que davam sustância.

E é aí que tudo acontece.

Como de costume eu e meu pai assistíamos a um filme de faroeste. Mamãe terminava uma torta para nosso jantar. Um baque arrebentou a porta da frente e dois homens armados invadiram a sala. Até hoje não sei o que queriam. Papai me protegeu com seu corpo, implorando por nossas vidas. Foi em vão. Dois tiros – pop, pop – e ele caiu sobre mim. Minha barriga ardia como se mil abelhas tivessem me picado. Ouvi o grito de mamãe e mais dois disparos se fizeram presentes, depois mais nada. Os homens voltaram para a sala, circundaram o corpo de papai e me chutaram. Nunca havia sentido tanto medo em minha vida. Fiz a única coisa que podia: me fingi de morto. Eles saíram rindo de nossa casa sem levar absolutamente nada. Um frio congelante me invadiu e foi nessa hora que eu a vi. Um vazio tenebroso, o fim da alegria, a Morte. Ela me olhou nos olhos, eu vi o Nada e apaguei. Só no dia seguinte, quando acordei, me dei conta de que estava vivo. E desde então o pesadelo me acompanha, como se fosse um sinal para que eu não a esquecesse jamais.

Abro os olhos, desfazendo as lembranças daquela noite. Desligo a TV, que só faz barulho, e pego novamente o copo de água. Ainda bem que estou de sonda!

O turno de Helena chega ao fim e entra no quarto o João. Não gosto muito dele. Enfermeiro da madrugada. Parece que nunca está de bom-humor. Como se fosse minha a culpa de ele ter de trabalhar naquele horário.

Ele checa meus sinais, mede a temperatura, verifica o nível da bolsa com meu xixi. Nenhuma expressão em seu rosto, nenhum sentimento em seus olhos. Se fosse um boneco em meu lugar, acho que daria na mesma para ele. Sai do meu quarto e segue para o próximo sem nem me dirigir o olhar. Não gosto dele.

Suspiro. Sei que terei mais uma longa noite pela frente.

Calma!

Calma!

Respira!

Como é que eu vou ter calma, meu Deus?

Ela está chegando.

Eu sinto.

Não há para onde correr. Não tem como fugir!

Ela vai me pegar!

Será meu fim!

Abro os olhos de supetão. Ouço meu ritmo cardíaco acelerado. Uma gota de suor escorre pela testa. Ainda estou vivo.

Enfermeiro João entra no meu quarto. Já é quase dia.

— O que houve, seu Osvaldo? Ouvi os gritos lá da salinha dos enfermeiros.

— O pesadelo... Mais uma vez o pesadelo.

— Quer alguma coisa para se acalmar? Seu ritmo ainda está alto.

— Não precisa. – respondo. — Logo voltará ao normal.

Ele me olha e, dessa vez – a primeira em tantos dias –, vejo algo em seu olhar, porém não identifico de imediato. Ele seca o suor em minha testa, checa o pulso e depois se vai.

Pena! O enfermeiro João sentia pena de mim. Em outros tempos eu ficaria bravo com ele, agora não mais. Afinal eu havia me tornado objeto de pena. Reprovação, às vezes, mas pena era uma constante.

O gorjear dos passarinhos fora do quarto anunciam a chegada de mais um dia. João vai embora e chega a vez da enfermeira Aurora. Gosto do fato de seu turno começar com o raiar do Sol. Seria quase poético, se ela não fosse ainda mais indiferente do que o enfermeiro João.

O sono da noite mal dormida me domina, porém, antes de sucumbir a ele, sei que o descanso está longe chegar.

Calma!

Calma!

Respira!

Como é que eu vou ter calma, meu Deus?

Ela está chegando.

Eu sinto.

Não há para onde correr. Não tem como fugir!

Ela vai me pegar!

Será meu fim!

A dor no peito me faz acordar. O aparelho que mede os batimentos do meu coração está em ritmo acelerado novamente. Estou completamente molhado de suor, mas estou vivo.

Enfermeira Aurora chega para medir meus sinais. Olha-me com desdém.

— Tome o remédio, vai ajudar com os pesadelos. – ela diz já enfiando a pílula em minha goela.

Nada me ajudará, eu penso, mas não digo. Engulo o comprimido com água e ela sai do quarto.

Olho para a porta. Queria que mais alguém, além de enfermeiros, entrasse por ela. Um vulto loiro atravessa o estéril corredor trazendo-me a lembrança dela, Maria. Minha Maria.

Conhecemo-nos na juventude, ela com seus dramas, eu com os meus e nos demos bem. Não era a garota mais bela, é verdade, mas tinha um coração de ouro e isso era o suficiente para mim.

Passamos alguns anos juntos, mas não nos casamos, nem tivemos filhos. Filhos. Hoje eu gostaria de tê-los tido. Mas ela não podia, nem eu, e adotar não fazia exatamente parte dos padrões da época. Grande arrependimento.

Seu sorriso largo domina minha mente até que uma buzina no lado de fora do hospital faz a angústia apertar novamente em meu peito.

Era uma linda manhã de domingo. Maria e eu decidimos pegar o carro e passear por uma estradinha do interior. Fazia frio, e havia um pouco de neblina, mas nada que tirasse a magia daquele passeio. Ríamos de uma piada, estávamos felizes e eu não resisti em olhar para seu rosto por um segundo a mais do que deveria. Meu maior arrependimento. Num minuto eu estava com meu amor, no instante seguinte estávamos capotados, submersos em um lago gelado no interior de um lugar qualquer. O lado de Maria estava mais fundo que o meu e ela estava começando a se afogar. Não consegui soltar o maldito cinto de segurança e vi, impotente, a vida escapar do corpo daquela que eu mais amei. O frio congelante me alcançou e dessa vez eu soube o que significava: lá estava ela pela segunda vez. Dessa vez o medo incapacitante dela veio acompanhado pelo desespero de não poder fazer mais nada. Seus olhos vazios me encararam pela segunda vez.

Volto de minhas lembranças e tenho náuseas. Sinto-me grogue devido ao remédio que tomei. Não quero dormir, mas é mais forte do que eu.

Calma!

Calma!

Respira!

Como é que eu vou ter calma, meu Deus?

Ela está chegando.

Eu sinto.

Não há para onde correr. Não tem como fugir!

Ela vai me pegar!

Será meu fim!

Quando acordo já é o turno da enfermeira Helena novamente. Ela tenta me alegrar e animar, mas eu sei que não há mais esperanças para mim.

Olho para meu corpo inerte sobre a cama. Minhas pernas estão paralisadas, meu braço direito não existe mais. Sinto a pancada em meu corpo mais uma vez e a dor me invade como no momento do atropelamento.

Malditos aparelhos celulares! Se não fosse por ele eu teria olhado a rua com mais atenção, teria visto a caminhonete, teria evitado aquele sofrimento e o futuro sombrio que me aguardava. Não é bem verdade. Eu estava distraído aquele dia. Muita coisa na cabeça, muitos problemas para resolver. Olhei para a tela do aparelho por um segundo e não vi que já estava na rua. Ouvi a buzina, mas não dava mais tempo. No momento seguinte eu voava pelos ares, uma dor lancinante em meu braço e em seguida o baque seco no asfalto sujo. Creck. Minha coluna fez creck e já não senti mais nada. Nada além daquele frio congelante que começava a me soar familiar. Ela pairava sobre mim. Tremi-me inteiro. Aquela devia ser minha hora. Minha vida correu diante dos meus olhos e não fiquei feliz com o que vi. Dor, medo, tristeza e alguns poucos momentos de alegria. Ela se aproximou de meu rosto, seus olhos vazios e repletos de desconhecido. O frio me congelou e eu só quis que aquilo tudo acabasse. Mas não era a hora.

Começa a chover e o vento frio invade o quarto. Helena aparece para fechar a janela. Checa meus sinais vitais, olha-me com ternura e vai embora. A sombra das árvores dançando na parede do quarto me relembra que aquele acidente fora meu terceiro encontro com ela, a Morte.

Aos dez anos de idade, numa noite de verão, meus pais foram assassinados em casa.

Aos 30, numa manhã de junho, um acidente de carro levou Maria de mim.

E aos 60 uma caminhonete levou meu braço e os movimentos das minhas pernas, deixando-me inválido pelo resto da minha vida.

O que me restava agora? Sem família, sem amigos, sozinho em um quarto impessoal de hospital? Restava-me esperar por ela, por nosso quarto encontro. E isso me arrepiava todos os pelos do corpo, mesmo aqueles que já não podiam mais se arrepiar.

Calma!

Calma!

Respira!

Como é que eu vou ter calma, meu Deus?

Ela está chegando.

Eu sinto.

Não há para onde correr. Não tem como fugir!

Ela vai me pegar!

Será meu fim!

Vejo os olhos ternos de Helena, mas não ouço o ritmado bipe que conta as batidas do meu coração, apesar de senti-lo acelerado em meu peito. O que está havendo?

Chamo por Helena, mas ela não me responde. O quarto começa a se mover de um jeito irreal. Continuo preso à cama sem poder me mexer, mas ao mesmo tempo sinto que não há nada abaixo de mim.

Helena aos poucos vai sumindo em meio ao breu que toma conta do ambiente, me deixando mais uma vez sozinho. Meu coração acelera ainda mais, o ar começa a ficar mais pesado, é difícil de respirar.

Um medo irracional toma conta de mim. Eu grito por Helena. Silêncio. O quarto vai se fechando sobre mim. Sinto-me sufocado. O que será de mim agora? E então eu entendo.

É ela. Aquele é o momento. Nosso quarto – e último – encontro está acontecendo.

Vejo a luz no fim do túnel, mas não quero ir. Não sei o que me espera do lado de lá. Haverá um lado de lá? Irei para o Céu ou para o Inferno? Eu tenho mesmo que ir?

A luz fica mais intensa conforme de aproxima de mim. E é nesse momento que percebo os vultos sobrevoarem meu corpo inerte.

São vultos com os rostos dos meus entes queridos: papai, mamãe, Maria. Porém, ao contrário do que eu poderia imaginar um dia, eles não estão alegres em me ver. Estão contorcidos de dor, de agonia, de desespero.

Começam a voar ainda mais perto de mim e então ouço seus gritos aterrorizados. Meus ouvidos doem com aquele barulho infernal. O quarto gira em movimentos indescritíveis, os rostos contorcidos transpassam meu corpo paralisado e invadem minha mente. Não consigo escapar deles.

E então faz-se silêncio para sempre.

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