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Conto

O preço do Sol

A luta dos Herdeiros pode ter um preço caro!

Fabrício Corradini
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O preço do Sol
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Uma grossa camada de pó encobria seu corpo deitado, uma poeira espessa acumulada dos diversos anos de imobilidade absoluta em que ele havia permanecido. Quando o Sinal o despertara, Mêmio levantou-se de sobressalto, com um grito gutural de agonia a rasgar-lhe a garganta. Que experiência surpreendente e aterrorizante retornar à sua forma física!

Ao finalmente dar-se conta de onde estava, o homem calou-se, embora o som de suas pragas ainda reverberasse no antro hermeticamente fechado. Espalmando o rosto e o peito despido na vã tentativa de limpar toda aquela sujeira, uma nuvem marrom-cinzenta elevou-se ao seu redor – ou pelo menos era isso o que ele imaginava, com a penumbra do ambiente a privar-lhe do sentido da visão – fazendo-o espirrar e tossir.

Somente após conseguir desobstruir os olhos, onde boa parte de poeira parecia ter-se assentado, e de livrar-se de seu breve lapso pulmonar, recobrando melhor suas faculdade há tanto tempo estagnadas, Mêmio começou a se concentrar em sair do escuro lugar que havia sido seu leito de repouso.

Tateando cegamente pela superfície fria e irregular da parede pedregosa, o homem demorou alguns minutos para encontrar a alavanca que acionava o dispositivo ligado à passagem de saída. Ao puxá-la na posição adequada, o barulho estrondoso de engrenagens se movendo e correntes sendo torcidas tomou toda a câmara, e um suspiro de vácuo sendo preenchido começou a chiar pela fresta que surgia, o ar parado extravasando para fora, libertando sua pressão comprimida.

Conforme a grande rocha rolava para a direita, uma intensa e peculiar luz amarelada iniciava seu trajeto adentrando pelo limiar que se abria, dissipando gradualmente a escuridão profunda em que o lugar estava imerso. E logo uma silhueta revelou-se do outro lado, tomando forma no brilho da tocha que dava origem àquela luminosidade, bastão o qual o misterioso vulto mantinha seguro numa das mãos ocultas.

– Bem-vindo de volta, Memmius Galeo. – disse o desconhecido, numa voz suave a tranquila, no latim romano de sua terra natal, o qual lhe soava tão familiar.

Refletindo ao fogo que estalava na extremidade da acha, o broche metálico da Ordem, no conhecido formato do minúsculo caduceu em chamas, ficava em evidência em meio às vestes negras que encobriam a fisionomia do estranho.

Estendendo-lhe um conjunto de roupas semelhante à Mêmio, o outro falou, já se virando para o corredor:

– Me acompanhe, por favor. – e sem esperar qualquer resposta, avançou em direção ao túnel que se abria à frente.

Era evidente que esta pessoa que agora o conduzia era aquele quem invocara o Sinal e o retirara de seu sono encantado. E isso só poderia significar uma coisa: seus serviços eram necessários em algum lugar.

– Meu nome é Saadi, à propósito... – comentou o sujeito, sem parar, o timbre sedutor de suas palavras sibilando como que expelido por uma exótica serpente.

Mêmio, nem um pouco alarmado, seguia seu desconhecido companheiro de Ordem, que o guiava pelo caminho que, a bem da verdade, ele já sabia onde terminaria.

Os túneis estreitos pelos quais passavam eram lisos e retilíneos demais, de uma forma impossível na natureza, o que dava provas de que não encontravam-se numa formação geológica natural, como uma caverna, mas numa construção feita por mãos humanas. Uma das construções mais antigas e mágicas de todo o mundo!

Fazendo várias curvas para a esquerda, os dois, quietos, desciam cada vez mais, engendrando pelos corredores gradualmente mais curtos que constituíam os níveis inferiores da lendária Pirâmide Invertida.

Batidas suaves acompanhavam cada passo que davam pelo piso rústico, reverberando à passagem de suas figuras taciturnas, que avançavam sem importar-se com as diversas portas seladas que eventualmente surgiam, algumas delas provavelmente abrigando mais alquimistas adormecidos.

A descida contínua persistiu até que eles dessem, afinal, numa espécie de salão quadrilátero ao qual, bem no centro, existia uma pequena piscina circular. Cravados ao solo num espaçamento simetricamente perfeito ao redor da indistinta banheira profundamente sulcada na pedra, obeliscos de mármore cobertos de hieróglifos jaziam como torres de observação, com bacias côncavas voltadas para cima a coroar seus respectivos cumes, a mais ou menos um metro e meio do solo.

Quando Saadi aproximou-se o suficiente, ele levantou a tocha que tinha numa mão e, com a outra, executando uma complicada torção de dedos, conjurou um encantamento que fez com que o fogo disparasse numa meia dúzia de raios incandescentes, atingindo, cada qual, um dos recipientes sobre os obeliscos, acendendo-os um a um com sua fagulhas laranja-douradas e fazendo com que toda a dependência refulgisse às chamas.

Dispensando o bastão agora apagado, Saadi indicou a Mêmio que tomasse lugar do outro lado das águas calmas que, agora iluminadas, refletiam como um espelho a abóboda repleta de gravuras de símbolos.

Estando os dois posicionados exatamente defronte um para o outro, ambos começaram a remover seus respectivos robes, deixando-os cair pelo chão, e juntos adentraram as águas, pisando em degraus ocultos em suas bordas.

– Baltazar ainda vive? – quis saber Mêmio, curioso.

– Fique tranquilizado. Vosso amigo passa bem, embora eu desconheça sua atual localização, ou situação...

– Em que ano estamos? – cortou o outro, antes que Saadi pudesse terminar.

– Esta semana, no Vaticano, a mais ou menos quatro mil e oitocentos cúbitos daqui, o segundo Papa chamado Bonifácio foi nomeado o chefe maior da Igreja Católica.

– Que fim levou Eutiquiano? – questionou o outro, revelando certa impaciência.

– Ainda encontra-se em Roma, sua terra natal – anunciou Saadi, com calma. – Mais precisamente nas Catacumbas de Calisto, há cerca de duzentos e quarenta e sete anos.

– Estive ausente por todo este período! – surpreendeu-se Memmius.

– Por certo! E vosso descanso deve ser considerado como um gesto de agradecimento aos seus serviços bem prestados no passado. Por haver recuperado aquela relíquia sagrada, a Tripla Legião Luminosa o tem em grande conta, e seus feitos entre os Herdeiros é muito comentado, Memmius Galeo.

Ao ouvir aquelas palavras, ele parecia não encontrar qualquer resposta. Sem espera-lo recompor-se, Saadi continuou:

– Mas nossa missão é servir. A hora é agora. Não podemos mais adiar. – disse, com gravidade. – E eu preciso de sua ajuda.

Longos minutos de silêncio se passaram até que Mêmio exclamasse, lentamente:

– Diga-me então, Saadi. Qual a razão de minha convocação?

– Para que você compreenda a magnitude do problema que temos em mãos, é preciso que eu lhe conte uma história. Muito tempo atrás – começou Saadi –, os seguidores do grande profeta Zoroastro, seja por conflitos de interpretação religiosa ou simplesmente por política, dividiram-se em facções, cada qual com agendas cada vez mais distintas e mais sinistras. Um destes grupos, em particular, iludido pelos caprichos orgulhosos de seu líder da época, Satrabel, foi seduzido pelas Artes Sombrias, convencido de que a Grande Verdade residia nos dogmas de Ahriman, o deus terrível que passaram a adorar. Corrompidos pela vontade negra desta entidade, os nomeados satrabitas começaram sua marcha pelo continente, disseminando sua influência nociva com o objetivo final de encobrir o mundo com o manto de escuridão de Ahriman.

– Nossa missão é detê-los – concluiu Mêmio, com simplicidade, ondeando as águas ao redor da cintura oculta, sem levantar os olhos para o companheiro.

– Quisera eu fosse tão simples... – suspirou Saadi, sua voz mais cansada do que nunca, reverberando crua, numa mistura perfeita entre o masculino e o feminino.

– Explique-se.

– Não nos deparamos apenas com um grupo de fanáticos cometendo atrocidades em nome de uma divindade fictícia, como houveram muitos até agora e provavelmente haverão ainda no futuro distante. Os seguidores de Satrabel conseguiram realmente invocar uma Entidade manifestante, que lhes concede poderes que você sequer desconfiaria. Eles são uma maldição sobre a Terra, e cabe a nós, aos Herdeiros de Hermes, o Três-Vezes-Grande, livrarmos o mundo desta praga que o assola! Foi nesse caminho que Satrabel os guiou, há mais de quatrocentos anos.

– Como eu nunca sequer ouvi falar de Satrabel ou seus seguidores?

– Provavelmente porque, por muito tempo, acreditou-se que eles haviam sido completamente extintos. Veja... – começou Saadi, medindo cada palavra com muito cuidado: – Eu mesmo fui enganado pelas falácias de Satrabel, e ao seu lado cometi atos indizíveis acreditando na sinceridade inquestionada de suas palavras. Ahriman nos imbuia de poderes mágicos que nenhum mago de Zoroastro jamais havia experienciado, mas o preço... Deter tamanho poder cobra um preço alto demais! – Saadi de repente parecia envergonhado.

– Ahriman é um deus egoísta – continuou, após um pequeno período de silêncio –; quanto mais nos dava, também mais nos exigia, e com cada vez mais frequência. Sem nos darmos conta, tudo o que fazíamos era seguir sua vontade, inconscientes de todo o resto.

– Quais eram as exigências de Ahriman?

– A única forma de Ahriman crescer em poder e distribuir essa carga mágica entre seus adoradores era drenando-a a partir de sacrifícios humanos...

– O que!?

– Não tenciono elaborar qualquer tipo de desculpa para as ações dos satrabitas e das minhas, pois tais atos não possuem ou merecem perdão – de minha redenção, cuido eu. Eu e Parwiz, meu primeiro e único amigo, em algum momento viemos à razão, e juntos desmantelamos nosso antigo grupo. Regozijo-me em admitir que eu mesmo fui o responsável por extrair o coração de Satrabel de seu peito ímpio. Mas a questão que se abate sobre nós agora é que um novo grupo surgiu, retornando às mesmas práticas obscuras, e cabe a quem seja capaz a tarefa de detê-los.

– A nós, você quer dizer.

– Sim. Os satrabitas são o meu fardo para carregar, todavia eu só poderei destruí-los de uma vez por todas com a sua ajuda. E não sou apenas eu quem compartilha desta opinião, já que acordá-lo não foi um fruto do meu desejo, Memmius Galeo, mas a vontade da Tripla Legião Luminosa!

– Então não há o que se discutir – decidiu-se o romano. – Partirei com você e colocaremos um fim nisso tudo.

Saindo finalmente dos andares mais baixos, deixando para trás a Câmara das Lágrimas da Plenitude onde se haviam purificado, fazer o caminho de volta pela Pirâmide Invertida provara-se ser tão cansativo quanto o de ida.

Mêmio jazia genuinamente intrigado pela narrativa de Saadi. Seus votos para com a Ordem o obrigavam a partir naquela missão, mas se ele o faria, como era sua intenção, após de ouvir seu companheiro, seria por sua livre vontade.

Pouco mais de duas horas de caminhada os deixaram no primeiro nível da construção, no labirinto rochoso que eles – diferentemente de algum intruso que porventura ali adentrasse – tão bem sabiam cruzar. Em meio aos caminhos tortuosos e confusos, ambos rapidamente localizaram seus pertences, guardados em segurança em compartimentos secretos que apenas seus respectivos donos tinham conhecimento. Afastando alguns pesados blocos de arenito, Mêmio reouve suas poucas posses materiais, entre as quais fez questão de ocultar entre suas vestes uma curiosa vela vermelho-carmim, a lembrança de um velho amigo seu e que, eventualmente, talvez lhe viesse a calhar. Tendo assim ambos coletado tudo o que julgaram necessitar para a jornada que empreenderiam, os dois Herdeiros silenciosamente despediram-se por hora de seu lar, colhendo alguns damascos da árvore centenária que quase milagrosamente crescera em meio ao solo árido do lado de dentro da Pirâmide Invertida, próximo à sua entrada secreta, conforme cruzaram o limiar encantado.

Quando emergiram da fortaleza subterrânea, o sol da tarde os recebeu em toda sua majestosidade, intenso como era de se esperar. Porém, sem dar grande importância ao clima hostil, as duas figuras iniciaram sua jornada, dando o primeiro passo da longa caminhada que se estendia adiante, Saadi na frente, conduzindo o caminho com um cajado feito de um galho de macieira e uma espécie de jarro metálico rebrilhando à luz do dia, preso por uma corda e meio oculto sob os tecidos de seu manto negro.  

– É imperativo que encontremos os seguidores de Satrabel e coloquemos um derradeiro fim ao seu culto, cortando sua ligação com Ahriman de uma vez por todas; e quanto mais nos apressarmos, mais pessoas poderemos salvar. Entretanto, diante de nossas atuais condições de locomoção, não podemos esperar alcança-los com a agilidade necessária. – comentou Saadi, alguns dias depois de haverem deixado o árduo deserto para trás, cruzando o Delta do Nilo. – Para a nossa sorte, há alguns obstáculos que também os detém: o primeiro é o fato de eles viajarem apenas durante a noite, escondendo-se longe do alcance do sol durante todo o dia, o que os faz, muitas vezes, seguirem por rotas tortuosas, em busca dos lugares ideais para repousarem; seu segundo obstáculo ao nosso favor é que os rituais de sacrifício a Ahriman sempre precisaram de muitos arranjos, o que os atrasa ainda mais, assim como as cerimônias só podem acontecer durante a lua nova, quando as noites são mais escuras. E, para os rituais, eles precisam capturar suas vítimas com alguma antecedência, alimentando-as com seu sangue e leite de cabras negras. Em momentos de grande desespero, quando sentem seu poder sombrio fenecer, sem desembaraço algum o satrabitas invadem pequenas aldeias e cruelmente massacram seu povo, sequer importando-se com a fase lunar, mas, se puderem, eles preferem agir na surdina, passando despercebidos enquanto atraem e abduzem os “cordeiros” corretos. Então – continuou Saadi –, é compreensível a maneira como sistematicamente evitam as cidades maiores, optando sempre pelas menos populosas, mais isoladas e, quase unanimemente, pelas sem contingente bélico, o que lhes poderia frustrar os planos. Assim, somando todos os fatores que propiciam as melhores condições de aproveitamento da energia sacrificial e a conveniência em sua operação, eu me arriscaria a dizer que os satrabitas performam dois ou três rituais por ano, quando muito – concluiu ele, demonstrando como tudo já havia sido considerado e refletido, ao que Mêmio apenas assentia, atento às suas palavras.

Passados quase dois anos do célebre início de sua jornada, suas infindáveis andanças – fosse a pé, a camelo, cavalo, avestruz ou a qualquer outra montaria que um misterioso instrumento de sopro de Saadi lhes arranjava –, os haviam levado às redondezas do Reino de Carmânia, parte do território sob o domínio do poderoso Império Sassânida, região cuja ascendência pérsica de Saadi mostrara-se ser extremamente conveniente no sentido de manter sua presença ali inotada.

Certa feita, ao largo de um assentamento de comerciantes, os dois andarilhos passavam em meio a um extenso campo de cinzas onde diversos brotos de árvores começavam a vicejar, recentemente plantados, organizados em fileiras circulares num esquema de camadas. Chafurdando no solo escurecido que tomava conta do caminho obviamente incendiado, Saadi apontou:

– Vê aqueles muros? É Kirman. Essa província vive sob o comando do Xá Khosrau Primeiro, filho de Qobãd Primeiro. Homem de grande visão; temido, mas justo, pelo que eu soube. – falou Saadi. – Há algum tempo, os satrabitas cruzaram esta região, trazendo consigo nada mais que desgraças. É compreensível sua atual aversão à estrangeiros, principalmente zoroastristas, dos quais, para eles, os satrabitas em nada se diferenciam. Em todo o caso, sua pele clara certamente chamará atenção, portanto mantenha a cabeça baixa e deixe que apenas eu fale.

– Meu pársi está ultrapassado em mais de duzentos anos, então eu provavelmente não entenda o que me perguntassem no seu idioma, de qualquer forma. – riu-se Mêmio, sem realmente transparecer animação.

– Vê estas mudas? – apontou Saadi, num gesto que abrangia todo o cenário à frente, depois de haverem andado mais alguns metros pelo caminho cinzento. – Quando os satrabitas fizeram sua passagem por esta área, em pouco tempo toda a floresta que existia no lugar começou a definhar e apodrecer, e estranhos insetos começaram a surgir, espalhando doenças com sua peçonha. Foram ordens de Khosrau, o Kirmanshah, que a tudo fosse ateado fogo. Estas jovens árvores pelas quais passamos agora foram plantadas para substituir a antiga floresta. “Para cada árvore caída graças aos estrangeiros, outras cem serão plantadas”, dissera o Xá. Em alguns anos, ele terá madeira suficiente para construir mil cidades!

 – Ele é realmente um homem sábio, esse Xá de Kirman...

– O perecimento da natureza é um dos principais sinais que nos denunciarão a presença dos satrabitas. – continuou Saadi. – Antes que eu o despertasse, Memmius Galeo, Kirman era a última localidade com vestígios da passagem dos satrabitas. Nosso objetivo aqui é conseguir ao menos que nos indiquem a direção que precisamos seguir para encontra-los. Uma vez perto o suficiente, eu o guiarei numa técnica que nos revelará sua exata localização.

– Farei como você ordenar. – respondeu Mêmio, com tranquilidade.

– Como eu disse, sua aparência chamará atenção demais no vilarejo. Você deve me aguardar longe de olhos curiosos enquanto entrevisto alguns moradores locais. É possível que deixem escapar algo que nos seja útil – falou Saadi, conduzindo-o até onde a floresta recém plantada avançava para um bosque já vicejante, aparentemente o limite de onde a influência dos satrabitas havia alcançado.

Mêmio nada questionou, indicando apenas que o estaria esperando ali até seu retorno.

Não muito depois que seu companheiro o abandonara, ele, entediado e cansado, sentou-se numa alcova em meio às raízes de um nodoso carvalho e cruzou as pernas, reconhecendo aquele como um bom momento para praticar as primeiras etapas da Peregrinação Luminosa. Assim, encontrando com facilidade a postura correta do corpo – que seu antigo mestre com tanta dureza o forçara a aprender –, o homem fechou os olhos, tendo as mãos voltadas para cima, com os dedos médios tocando sua respectiva palma, encobertos pelo polegares, num Shunya Mudra perfeito. Nesta posição, Mêmio rapidamente entrou em estado meditativo, elevando sua mente de forma a explorar a mata que o cercava, aos poucos captando e assimilando com sua consciência em expansão tudo ao seu redor, de tal feito que, em pouco tempo, sequer um grão de poeira movia-se naquele espaço sem que ele o soubesse.

Maravilhado com cada pedaço de vida que descobria tão próximo a si, Mêmio abstraiu-se em meio suas observações, completamente desconectado da percepção da passagem do tempo, e sem que desse-se conta, a tarde avançou. Ele ocupava-se em sentir o movimento de uma exótica aranha a traçar suas linhas com teia num vão entre altos galhos quando apercebeu-se de uma perturbação no pequeno conjunto de auras que havia atado contiguamente à sua, captando – e reconhecendo através de sua essência – a aproximação de Saadi, diversos metros antes de seus sentidos convencionais nota-lo.

– Bastou que eu esbanjasse alguns dracmas em sua feira para que a desconfiança inicial à minha presença se dissipasse. – começou ele, emergindo através de alguns arbustos floridos, sem preocupar-se em anunciar sua chegada. – Em suma: tenho um nome!

– Onde? – quis saber Mêmio, desfazendo sua postura para olhar o companheiro, que lhe estendia um jarro de barro cheio de um ensopado de legumes.

– Sirsa.

– Índia? – questionou o outro.

– Precisamente.

– Não percamos tempo, então! – começou Mêmio, já levantando-se.

– Partiremos ao amanhecer. Coma um pouco; devemos recuperar nossas forças. – tornou Saadi, acomodando-se entre dois troncos caídos, deixando clara sua decisão de passar a noite ali; noite que se somaria às muitas das quais o persa tivera o sono perturbado por detestáveis pesadelos.

Os dois acordaram à primeira luz e, dadas as suas poucas posses, não foram necessários mais que alguns minutos até estarem devidamente preparados para a nova jornada.

Saindo do bosque de forma a contornar o vilarejo, os Herdeiros, após um punhado de horas de caminhada, deram num campo que estendia-se a perder de vista. Como fizera numa quantidade significativa de ocasiões durante os vários meses passados juntos, Saadi buscou no interior de suas vestes uma pequena ferramenta, feita de latão, no formato de um tubo cilíndrico repleto de furos e concavidades. Posicionando os dedos magros em alguns dos furos, tapando a saídas de ar corretas, ele soprou numa de suas extremidades, fazendo o instrumento emitir um som agudo e misteriosamente alto, que pareceu reverberar por todo o lugar, e, respondendo ao seu chamado musical, um grupo de grandes cavalos de pelo caramelo-dourado surgiu, galopando com graça pelo gramado verdíssimo, até alcançarem o local onde as duas figuras jaziam paradas. Cada qual escolhendo sua montaria, que os aceitou docemente, Saadi e Mêmio partiram à toda velocidade, sendo carregados até uma distância em que os animais conseguiriam retornar sem maiores problemas aos seus semelhantes, deixados para trás.

Durante o longo percurso que empreenderam nos meses subsequentes, repousando em alcovas feitas em florestas, dividindo moradia em cavernas ao lado de grandes ursos ou tendo como teto somente as estrelas, locomovendo-se com as forças das próprias pernas ou carregados por animais – numa ocasião até por um elefante! –, eles finalmente adentraram a região da Ásia Meridional, não sem antes banharem-se nas águas ligeiras do aclamado Rio Indo.

No auge do verão, exatamente na época das monções, Saadi e Mêmio alcançaram as redondezas de Sirsa, e não tardou para que os dois se deparassem com sinais da passagem dos satrabitas, tanto no empobrecimento do solo na natureza, quanto nos relatos quase fabulosos de um suposto comboio de carroções pintados de preto, puxados por touros negros, assombrando os vilarejos: os “carros lamentosos” – como dissera um andarilho Sadhu com o qual cruzaram certa vez.

– Quando o choro das crianças nos carros lamentosos é ouvido por perto, o melhor a se fazer é fugir, pois os tocados por Mara estão chegando! – dissera o monge mendicante, como se os aconselhasse.

– Nunca lhe ocorreu tentar salvar as crianças? – perguntou Mêmio, num hindi perfeito, ao asceta surpreso, cujo sorriso morria no rosto de testa pintada.

Encarando o romano sobremodo ofendido, o velho homem deu-lhes as costas com brusquidão, suas longas vestes amarelas e vermelhas sopradas pelo vento enquanto se distanciava, sem olhar para trás.

Seguindo em direção oposta ao Sadhu, sem importarem-se com sua reação pouco amistosa, os Herdeiros adentraram em Sirsa, que prometia ser mais receptiva que Kirman. O horror da passagem dos satrabitas, que ainda permanecia fresco na memória de seu povo, que tiveram dezenas de gurus e brâmanes anciãos levados pelas carroças negras, rapidamente os guiou em outro curso, apresentando uma nova etapa em sua viagem.

Semanas depois, aos arredores de Agra, os relatos dos “tocados por Mara” continuavam, ainda mais numerosos.

Eventualmente, os dois deram com uma estrada que conduzia a Varanasi, topando com diversas comitivas fúnebres que levavam entes queridos falecidos para serem cremados na cidade mortuária, às margens do Ganges. Livrando-se dessa estrada principal e engendrando por outros caminhos, rumo à Faizabad, eles afinal encontraram o que procuravam – mas isto não lhes trouxe qualquer satisfação.

O pequeno vilarejo ao qual se depararam, cujo nome lhes era completamente desconhecido, jazia em ruínas, imerso num silêncio anormalmente profundo. No centro geométrico do assentamento de cabanas rústicas de tijolos de barro e madeira pouco trabalhada, o horror fazia seu palco, numa cena onde, grotescamente, dezenas de cadáveres amontoavam-se uns sobre os outros, formando um círculo de pilhas de corpos ensanguentados.

– Eis em primeira mão o trabalho dos satrabitas! – apontou Saadi, com desgosto, lágrimas brotando em seus olhos de íris negra.

– Devemos pelo menos dar-lhes um funeral digno... – comentou Mêmio, olhando com tristeza para seu companheiro, que chorava discretamente, ajoelhado ao chão.

– Sim... – exclamou o persa, levantando-se, depois de alguns minutos de luto mal disfarçado. – Mas, antes, algo mais importante deve ser feito, algo que mesmo que jamais se equiparará ao valor destas vidas perdidas, pelo menos lhes dão uma utilidade que nos de grande ajuda para o cumprimento de nosso propósito.

– Não entendo...

– Nosso nível de poder mágico não nos permite ter acesso direto aos espíritos destes que nos dariam as respostas que precisamos, todavia, a energia sacrificial que agora traumatiza este local possui uma ligação direta a Ahriman e àqueles que se servem dela. Percebe onde quero chegar?

– Creio que sim... – respondeu Mêmio lentamente, refletindo as palavras de seu companheiro, que tornava-se gradualmente mais determinado. – A técnica a qual você prometeu me guiar, meses atrás, em Kirman.

– Precisamente! Uma técnica que apenas suas exímias habilidades como especialista no Princípio da Vibração são capazes de elaborar apropriadamente. Decerto, fora esta a razão pela qual a Tripla Legião Luminosa o destacou para nossa missão.

– Lancemos o feitiço então! Não vejo a hora colocar minhas sobre estes desgraçados; não os perdoarei pelo que fizeram a esta gente!

– Que assim seja! Só precisamos encontrar algumas coisas e estaremos prontos para começar. – disse finalmente Saadi, enumerando uma lista de ingredientes e utensílios necessários ao encantamento que performariam, materiais que não demoraram mais que algumas horas para reunir, nas casas cujos antigos moradores pretendiam vingar.

Tendo reunido tudo de que necessitavam, Saadi organizou uma espécie de altar no círculo de corpos, posicionando sobre sua superfície uma bacia com água limpa. Com a ajuda de Mêmio, ele coletou uma gota de sangue de cada pessoa sacrificada ali, misturando-as com a água juntamente com algumas gotas de seu próprio sangue. Ensinando ao romano as palavras de poder para o sortilégio, os dois começaram seu cântico mágico, evocando a energia ali presente, forçando-a a revelar-se. Como parte do ritual, ambos espalharam um pouco do conteúdo da bacia ao redor dos olhos, para que sua visão mostrasse o que desejavam visualizar, e então Mêmio expandiu sua consciência, sentindo a extensão da essência que buscavam através das camadas etéreas, potencializando-a com seu próprio poder, fazendo-as estremecer, como a corda de um instrumento musical vibraria ao ser tocada, criando uma onda que cresceria até perder-se no vazio – nesse caso sem perder-se, mas sim focalizando-se num ponto único, atando-se a esse a ele de uma maneira tão entrelaçada que não se quebraria mesmo com o movimento. Por um ínfimo instante, Saadi e Mêmio saberiam dizer exatamente onde encontrar os satrabitas que tão desesperadamente buscavam, por um breve momento, antes retornarem aos seus respectivos corpos físicos.

– Conseguimos? – quis saber Mêmio, piscando ao sair de seus estado de transe.

– Conclua por si próprio – respondeu seu companheiro, apontando para uma pequena nesga de luz dourada, pairando no suspensa no ar como o fio de teia de aranha, só que maior. Olhando-o com atenção, o homem percebeu que essa estranha forma avançava à diante indefinidamente; ele não precisava que lhe dissessem o que havia em sua outra extremidade.

– Agora que captamos a essência energética que alimenta Ahriman, será consideravelmente mais fácil interceptarmos os satrabitas. Bastará seguir este fio. – disse Saadi, satisfeito. – Não sei explicar exatamente, mas algo na maneira como agiram aqui mudou drasticamente... Eles tem pressa. Mas para o que? – ele parecia confuso, perdido em pensamentos que lhe escapavam em voz alta, como se falasse consigo mesmo. – Algo se aproxima, algo grande. E se não os determos logo, creio que será tarde demais.

Antes de seguirem pelo caminho luminoso que se apresentava, eles fizeram questão de cremar os aldeãos falecidos, realizando uma cerimônia em seu nome, com o desejo de que seus espíritos alcançassem a paz na Grande Passagem.

Cinco meses após este mirífico advento, que lhes oferecia uma grande vantagem, num intervalo de algumas semanas da virada lua nova, os Herdeiros, seguindo o rastro mágico de seus inimigos, novamente cruzaram com um vilarejo dizimado. Porém, entre os corpos sem vida dos camponeses que tiveram o desprazer de encontrar, usados para o mesmo macabro ritual de sacrifício, uma figura indistinta se sobressaia, meio à parte.

Ao passo que os outros finados já tinham sua carne em avançada decomposição, sendo alvo de aves carniceiras e todo o tipo de insetos necrófagos, esta diferente figura, exceto por um tridente volvedor de feno atravessado em seu tórax, permanecia quase incólume, como se a nenhum outro ser vivo apetecesse seus restos mortais.

– Temos aqui, meu caro Memmius Galeo, nosso primeiro satrabita! – anunciou o persa, encarando fixamente a imagem da bela mulher caída, de uma aparência muito semelhante à sua própria.

– “O todo é Mente; o Universo é Mental”... – citou Saadi, de repente. – Encare isso como uma oportunidade e uma experiência. – pediu o persa ao seu companheiro. – Toque-a e descubra o que se passava nessa cabecinha.

Sem esperar que Mêmio efetivamente concordasse consigo, ele iniciou a elaboração de um cântico mágico, evocando uma abertura na união das auras, tentando resgatar a linha de consciência que antes brilhava saindo da mente da satrabita morta. Encostando ambos os polegares na fronte de pele olivácea e fria da mulher, o romano concentrou o melhor que pôde, ignorando o cheiro forte de podridão que emanava dos cadáveres atrás de si. Num relance de imagens confusas, ele viu um círculo negro fixado no céu, onde deveria estar o sol, e a sombra de uma montanha longínqua, e subitamente havia fogo e fumaça, e depois, nada.

Quando reproduzira o que vira para Saadi, este apenas disse:

– O que você viu foi o pensamento que mais marcou aquela mente. Não era um vislumbre do futuro, como você pode estar imaginando, mas sim a expressão de um desejo de como será o futuro, ou seja, da liberação das trevas de Ahriman.

Novamente, a dupla concedeu um funeral digno aos mortos que encontraram, e assim continuaram seu caminho, seguindo o rastro quase invisível que era seu fio localizador, trespassando províncias, feudos, estados, nações e reinos, vendo sua espessura ora encorpar-se, como se estivessem próximos de sua fonte, ora afinar-se tanto que praticamente não o enxergavam no ar. Conforme prosseguiam, as estações se alteravam...

Durante este período, Saadi se aproveitara para transmitir a Mêmio todos os conhecimentos que possuía acerca dos seguidores de Satrabel, e para instruí-lo no feitiço que quebraria sua conexão ao deus Ahriman; para isso, ele lhe mostrara o peculiar jarro de prata que carregara consigo durante todo seu trajeto, desde a Pirâmide Invertida.

– Este objeto possui densos encantamentos de aprisionamento – dissera Saadi, naquela ocasião. – Vê esta ponta? – perguntou ao outro, girando o utensilio para que o outro enxergasse a base afiada de onde o líquido correria para fora da jarra. – Um corte nisso, e conseguiremos sugar a energia negra de Ahriman de seus adoradores, e então, com o ritual correto, poderemos selá-lo para sempre neste recipiente, impedindo-o de influenciar qualquer outra pobre alma com suas promessas impossíveis.  

Aos poucos, mas gradualmente, eles viam-se atraídos para o litoral, acompanhando sua curvatura em direção ao sul e sudeste, sempre descendo. Os idiomas mudavam, mas os relatos continuavam a surgir dizendo a mesma história, o mesmo conto dos carroções fantasmagóricos raptando pessoas – crianças, principalmente. Deixando para trás o país de Maran-mã após uma estada consideravelmente mais curta do que nos outros lugares, eles avançaram ainda mais, ao encalço daqueles que eram vistos agora apenas como sua presa.

Ao cabo de mais dois anos de peregrinações, Saadi e Mêmio encontravam-se na quente Johore, a cidade limite que separava a Península Malaca de Pulau Ujong, a “Ilha no Final”, conhecida como a maravilhosa Singapura, que se ligava ao continente asiático somente por um conjunto de pontes. Nos portos afastados do vilarejo de Nusajaya, os Herdeiros finalmente viram-se pessoalmente diante dos tão comentados “carros lamentosos”, abandonados entre as areias brancas de uma das muitas praias que cercava a cidade, contrastando no ambiente iluminado como um símbolo de mal agouro. Quando eles se aproximaram dos veículos, que eram verdadeiras monstruosidades construídas em madeira preta e ferro maciço, já sabiam que não encontrariam ninguém – o fio guia com o qual se orientavam já puxava para outra direção, apontando rumo ao mar como uma singela aurora boreal a desaparecer pelo horizonte longínquo. Ao lado dos carros abandonados, banhados sob um viscoso líquido negro e de odor pungente que já atraia moscas, os touros que os tracionaram até ali jaziam abatidos, todos degolados com cortes limpos e precisos nos respectivos pescoços.

– Eles devem haver mandado alguém na frente para preparar-lhes algum navio, ou o destino realmente estava ao lado de nossos inimigos. – reclamou Saadi, coçando o rosto perfeitamente liso, exatamente o oposto do de Mêmio, que permitira a barba crescer quase até a altura do peito.

– O que faremos agora? – perguntou o romano.

– Encontramos um navio para nós.

– Talvez o destino também esteja ao nosso lado. Veja! – Mêmio então apontou para uma embarcação encalhada na costa ao longe, o casco tendo avançado sobre os bancos de areia, os cabos de âncora provavelmente arrebentados do porto, mais acima.

O pequeno navio era modesto, com um convés minúsculo e de ínfimo espaço interno, mas, ao que parecia, era o desejo da Providência que tudo lhes corresse bem, pois, apesar das condições não muito boas de sua nau, ela ainda continha com uma quantia de suprimentos e conservas que bastaria por longas semanas.

Sem pensar duas vezes, eles, com toda a força cinética que conseguiram reunir em suas mentes combinadas, arrastaram seu belo presente dos céus até as águas profundas do estreito, e rapidamente o colocaram em movimento, invocando bons ventos que soprassem a vela triangular no mastro único.

No mar, seus dons alquímicos mostraram-se absolutamente indispensáveis – tanto no que tocava ao ganho de velocidade náutica, quanto no que dizia respeito à garantia de sua própria sobrevivência, já que, mesmo possuindo reservas de alimentos, a água potável ainda era-lhes um bem escasso, e que só podia ser obtido através da dessalga da água marinha feita com a aplicação de uma versão mágica de alguns dos Doze Processos, que seus superiores Magister Templi tão bem os haviam lecionado em seus tempos de Adeptus.

Seguindo os satrabitas incansavelmente, eles – souberam depois – por pouco não os alcançaram nas duas únicas ocasiões em que atracaram em terra para reabastecer seus mantimentos, a primeira vez após um mês de percurso, num agrupamento de ilhotas perdidas no Mar da China Meridional, e, mais tarde, num trecho litorâneo ao final de Sumatera, ou a “Ilha do Ouro”, como os árabes se referiam a ela então. Tudo isso para por fim chegarem uma ignota ilha vulcânica.

Ainda do mar, várias milhas de distância, eles conseguiam discernir a forma expansiva de um navio galeão, encalhado na orla saibrosa, muito possivelmente abandonado, como o foram as carroças negras em Nusajaya.

O que mais chamava atenção na ínsula, e que praticamente constituía toda sua fundação, era a grande silhueta triangular da montanha cinza-amarronzada – o mesmo vulcão que a visão de Mêmio lhe revelara, tempos atrás.

Aproximando-se o mais discretamente que conseguiam, os Herdeiros aportaram seu navio num canto afastado do galeão sombrio. Uma vez em terra firme, Saadi disse:

– Nós já deixamos isso ir longe demais. Somente pelo nível de luminosidade do dia, na hora em que estamos, é certo afirmar que o eclipse o qual você assistiu acontecerá amanhã. Os satrabitas provavelmente já devem estar quase no topo daquele vulcão. Nossa única chance de impedi-los, do jeito como as coisas estão se desenrolando, será pegá-los de sobressalto durante seu ritual, antes que sacrifiquem as crianças.

– Concordo. – respondeu Mêmio, preocupado.

– Temos até o meio-dia de amanhã para alcança-los, ou tudo estará perdido...

– Não os seguimos por meio mundo apenas para falhar agora, meu amigo. Tenha um pouco de fé! – incitou o romano, olhando para Saadi que parecia mais magro que o normal.

Tendo Mêmio permanecido de guarda durante toda a noite passada, mantendo o navio em movimento enquanto o companheiro descansava para rendê-lo mais tarde, ele vira como se decorrera o sono inquieto de Saadi, muito mais perturbado do que qualquer outra madrugada durante seus quase cinco anos lado a lado. E ele conseguia compreender o porquê – ou, pelo menos, acreditava que sim.

Aproveitando-se das poucas árvores frutíferas que surgiam em sua trilha, os dois tiveram uma lenta ascensão rumo à gigante estrutura rochosa. Sem os carroções, eles sabiam que os satrabitas não tiveram escolha senão obrigar seus cativos a caminhar – o que certamente os havia atrasado em grande conta, de forma que, apesar de chegado à ilha com uma diferença de aproximadamente dois dias, Saadi e Mêmio imaginavam que logo os alcançariam.

Atentos a todos os sinais da aproximação de inimigos e atendo-se à vista do fio dourado que os conduzia, a tarde transcorreu, assim como a noite. Enquanto escalavam a encosta pedregosa, tendo como luz apenas o brilho singelo das estrelas distantes na abóboda, chegavam-lhe às vezes, trazidos pelo vento, o som do choro de alguma criança desamparada ou do lamento de uma mulher, que, ao contrário da primeira, sabia qual seria seu fim. Saadi mantinha o jarro de prata, seu artefato místico, pronto para ser sacado a qualquer momento. Quando a alvorada riscou o céu com suas tonalidades purpúreas e laranja-douradas, o primeiro tremor foi sentido, um abalo que sacudiu toda a montanha, como o rosnar de uma fera furiosa.

– Eles estão acordando o vulcão! – gritou Saadi, em meio ao barulho ensurdecedor, que vinha das profundezas da terra em ondas.

Em poucos instantes, o frio intenso da imberbe manhã se dissipou e rapidamente foi substituído por um calor desconhecido, que aumentou gradualmente.

E então, os dois atingiram o cume, mantando as cabeças abaixadas para não serem vistos. Uma ampla e desolada cratera se abria nesse ponto, onde uma multidão de figuras encapuzadas formavam um grande círculo, tendo seus reféns agrupados no centro, mulheres e anciãos acorrentados carregando bebês e consolando crianças inconsoláveis. Um dos membros, dos aproximadamente cinquenta, parecia ser o líder da seita. Com absurda calma, ele andava ao redor de seus patrícios, ostentando um longa foice de cabo de mão única e entoando uma canção que era acompanhada em vozes pelos outros.

O calor subia, e dia, que acabara de nascer, tornava-se mais e mais escuro. De repente, vapores começaram a ser evacuados por aberturas no solo árido daquela que era a boca do vulcão. Insólitas sombras dançavam ao redor da assembleia, criando pequenos redemoinhos e unindo-se às cinzas que eram despejadas com a fumaça crescente. Faltava pouco para que o sangue começasse a ser derramado e o objetivo último das sementes de Satrabel, há muito germinadas, emergissem em sua total floração.

Mêmio e Saadi, lutando para que sua presença passasse inotada, faziam uma descida lenta e cuidadosa para o interior da alcova, escondendo-se atrás de simulacros de paredes feitas de rocha ígneas.

E as evocações ao profano nome de Ahriman prosseguiam, com cada vez mais fervor. Respondendo a um comando mágico, um pedaço do chão cedeu, escancarando uma abertura pela qual um vapor contínuo formava uma coluna tóxica. Todos pareciam prestes a explodir em combustão a qualquer momento.

Saadi apertava na mão o pegador do jarro com tanta força que não surpreenderia se ele o amassasse. Mêmio, mais perto dos satrabitas do que nunca, também quedava-se nervoso, segurando uma antiga adaga que fizera questão de manter embainhada até aquela específica ocasião.

Ele estava a um passo de invadir o círculo de asseclas do Deus da Escuridão quando, pego de surpresa e de completa guarda baixa, seus braços foram puxados por trás e torcidos até que sua arma caísse de seus dedos.

– “Nós não atravessamos meio mundo apenas para falhar agora”, amigo – murmurou Saadi, em seus ouvidos, ao mesmo tempo que o empurrava, compelindo-o a revelar-se.

Tendo estas palavras sido pronunciadas, o eclipse se completava, fazendo uma grande sombra cair sobre todo o lugar.

– Estávamos o aguardando, irmão! – gritou o indivíduo com a foice, aproximando-se da dupla como se estivesse ciente de sua presença ali há muito tempo. – Não é um sacrifício sem nossa principal oferenda! – riu-se o homem, em pársi antigo, abaixando o capuz que lhe cobria o rosto e rindo para os outros.

Sem deixa-lo elaborar qualquer resposta, Saadi o esfaqueou nas costas com o bico de seu alcatruz prateado, causando uma dor lancinante que percorreu todo o corpo de Mêmio, sugando cada fração de seu poder mágico.

– O mais puro dos Herdeiros de Trismegisto! – anunciou ele, para que todos o escutassem. – E também o mais idiota! – riu, suas gargalhadas sendo sobrepostas pelo som da terra se revolvendo.

Mêmio então foi derrubado ao chão e alguém sentou-se entre suas espáduas, comprimindo seu rosto de encontro para o solo escaldante. Na ansa de sua queda, um fino objeto rolou do bolso interno de suas vestes, escorrendo para uma ranhura entre as rochas. A vela que Baltazar lhe dera havia mais de trezentos anos!

A cantiga, que nem por um segundo havia se interrompido, elevou-se ainda mais.

– Que se comece a chacina! – berrou alguém.

– Pois a fome de Ahriman é infinita, assim como sua escuridão! – tornou o grupo, em uníssono.

De um a um, o romano foi forçado a assistir as pessoas que viera de tão longe para salvar sendo massacradas e jogadas na fissura brilhante de fogo. O calor atingia temperaturas tão intensas, que seu rosto formava bolhas, e o tecido das roupas de todos incendiavam-se.

Não havia salvação. Já era incrível o suficiente que ainda estivesse vivo! A verdade, que ele rapidamente aceitou e fez as pazes, era que absolutamente todos naquele lugar iriam morrer, pela lâmina ou pelo fogo. Por séculos, este fora o objetivo dos satrabitas – e ele falhara miseravelmente em detê-los, em todos os aspectos possíveis.

Resistindo à dor o máximo que suportava, ele conseguiu uma forma de desviar o olhar da carnificina, e sua visão recaiu sobre a vela que se soltara de seu bolso, agora completamente derretida e em chamas – a última lembrança de seu amigo e mentor, que jamais veria novamente!

Mas, se ele iria morrer, afinal, ele não atenderia os intentos de seus algozes; ele não seria abatido de boa-vontade! Assim que o libertaram do aperto que o imobilizava e colocaram de pé, Memmius Galeo lutou com toda a fúria que seu coração traído era capaz de produzir. Violentamente, ele esbofeteou, chutou e mordeu seu caminho para longe dos servos do demônio. Mesmo sabendo que a erupção o incineraria logo em seguida, ele correu em meio ao caos, determinado a negar a Ahriman sua última oblação.

Então, o impossível aconteceu! Surgindo em meio à fuligem seca, uma corpulenta mão o agarrou, içando-o para o alto como se seu peso não fosse maior que o de uma pluma; e quase imediatamente um estrondoso clamor foi ouvido abaixo, numa explosão de nuvens negras que Mêmio, arrebatado, simplesmente não compreendia como conseguira livrar-se. Olhando, desnorteado, para o alto, o romano semiconsciente vislumbrou uma peculiar criatura alada, batendo três pares de asas, e o braço musculoso daquele que reconheceu como sendo o próprio Baltazar, que viera em seu socorro.

– Quando eu disse para acender a vela somente em casos de extrema necessidade, não imaginei que você fosse seguir isso de forma tão literal! – gritou o velho homem, fazendo-se ouvir através do bater incessante das asas, conduzindo a enorme salamandra para longe da mortal nuvem negra que era cuspida aos céus.

– Não importa! – tentou dizer Mêmio, sua voz falhando na garganta. – Eu falhei... e agora todos pagarão o preço!

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