O pacto sinistro

Suspense
Junho de 2019
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Contos de Lugar Nenhum

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
O pacto sinistro
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Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Meu nome é Jesse. Hoje estou morando em N..., mas essa não é minha cidade natal. Venho de uma cidade chamada Lugar Nenhum. Sim. Eu sei que é um nome bem estranho para uma cidade. E que vocês nunca ouviram falar nela antes. Mas acreditem em mim. Há um bom motivo para isso. 


Talvez o de preservar as suas vidas. 


Tocava Tequila no rádio. Jesse e Brian estavam entretidos em arrumar as suas bicicletas. Logo iriam no estacionamento do mercado, é para onde todo mundo ia aos domingos naquele tempo. O cheiro bom de cookies de chocolate se espalhava pela calçada e o pai de Jesse estava polindo o carro. Sim, era um Simca Chambord. Não havia muitos como aquele rodando por ali. Na verdade era o único carro daquele modelo. Os outros preferiam Buicks, Fords e Chevrolets. Mas a mãe de Jesse implicava dizendo que Parece carro de funerária. Mas Jesse admirava as linhas ousadas do veículo e o modo como ele brilhava ao sol, todo preto, imponente, as pessoas ainda olhavam com admiração. O pai também. E um dia, Jesse iria dirigi-lo. E do lado dele estaria a garota mais bonita. 

Lugar nenhum era mesmo um lugar agradável, onde se podia criar os filhos. O churrasco no fim de semana, até os cachorros eram amistosos. Era uma pequena comunidade unida e pacata, mas Jesse pensava. Ele tinha crescido ali com o seu melhor amigo, Brian. Ele morava na casa ao lado e sempre tinham visto as mesmas pessoas praticamente desde que nasceram. No hotel da Sra. Cassady, podia-se comer a melhor torta de maçã da cidade, mas Jesse não se lembrava de algum dia já ter visto alguém se hospedando lá.  Aliás, ele nunca tinha visto ninguém estranho, ninguém diferente, nem um turista. Nada. Às vezes chovia e o tempo ficava denso, inquieto, aí ele sentia uma certa agitação. O céu ficava vermelho como sangue, mas ele não via nada. Afinal de contas, estavam mesmo perdidos naquele lugarzinho esquecido por Deus, cravado no meio do oeste, cercado pelo deserto, longe da estrada principal. Quem iria para lá? No máximo algum índio desgarrado. E para os índios desgarrados, Jesse tinha seu revólver. Ele amava Tom Mix quando era moleque.

De todo modo, essas eram questões muito complexas para um garoto de 10 anos. Ali no estacionamento era bem legal, todo mundo ia de bicicleta. O lugar era amplo o bastante para alguns apostarem corrida, empinar, as meninas com seus shortinhos curtos, sentadas no guidão eram sempre uma coisa para se admirar. Bebiam coca-cola e milk-shake de chocolate. Era sim, um ótimo local para se passar as tardes de domingo.

Era noite, Jesse estava cansado de andar pra lá e pra cá feito tonto no estacionamento.  Ninguém tinha olhado para ele. Mas ele era só um menino de 10 anos. E parecia que ia chover. Ele sentia o ar agitado. Inquieto. O céu vermelho. É, vai cair uma bela tempestade. Era melhor se apressar.


Mas então ele a viu.

 

Ela era loira. Isso ele tinha reparado. Nunca tinha visto cabelos tão brancos. Platinada. Como Marilyn Monroe. Não. Mais loira. Jayne Mansfield. Jesse piscou. E o mesmo corpo. Jayne Mansfield perdida em Lugar Nenhum. Céus, o que tinha naquele milk-shake?

A moça o viu e acenou. Hey menino! Venha aqui. Jesse foi. Meio contrariado. Não sou tão menino assim. 

Ela sorriu.

- Oi. Como se chama este lugar? Lugar Nenhum? Ah sim, que nome diferente. Você sabe onde tem um hotel? Para eu passar a noite. Jesse explicou. Ela entrou no carro e seguiu pela rua. Era um Simca Chambord. Preto


Evelyn achou o hotel. Não sem alguma dificuldade. Mas como era possível, se a cidade era tão pequena? E então ela percebeu. Não havia letreiros. Nem placas nas ruas. Sim, pelos formatos dos prédios dava pra imaginar que tipo de comércio tinha ali, mas não que tivesse alguma placa explicando. Mas claro que pelo menos os moradores deveriam saber, já que estavam acostumados. Então ali não era um local receptivo aos turistas. 

Mas muitos lugares naquele tempo eram assim. Ainda se falava muito da Rússia e os comunistas vermelhos eram um perigo que pairava como um lençol atômico no american way of life. Pessoas quietas. Desconfiadas. Definitivamente não eram amigáveis. Como Jack Kerouac conseguiu perambular por aí sem levar um tiro, ela pensava.

Ela estava andando com seu carro pela estrada. Johnny B. Goode. Que bela música para pisar no acelerador. Nenhum carro à frente, nenhum carro atrás. Só ela e a imensidão. Logo chegaria em casa. E estaria nos braços do namorado. Estava tudo dando certo. Mas de repente o céu ficou vermelho. E parecia que ia chover. Ela diminuiu a velocidade. E como se fosse um sonho, já estava entrando na cidade. Ela não tinha visto a cidade se aproximar. Nem uma placa de localização. Aliás, pensando bem, aquela não parecia ser a rodovia onde ela estava. Ou era? Estava escuro. Ela não tinha certeza. E já que estava ali e ia chover, era melhor ir logo para o hotel. E ela estava se sentindo muito cansada. Aí poderia tomar um banho, jantar e dormir, e no dia seguinte retornaria viagem. Bobby entenderia

Jesse entrou em casa animado. Mãe, pai, vi uma pessoa na rua. A mãe colocava o jantar na mesa e ouvia sem interesse. Quem você viu Jesse? A filha da Betty? Não mãe. É uma mulher estranha. Nunca vi ela por aqui antes. Ela queria saber onde era o hotel.  A mãe de Jesse derrubou o prato no chão. Que foi mãe? Nada, o prato escorregou. Limpa isso pra mim, que eu vou buscar outro. O pai não tinha erguido a cabeça do jornal. 

Comeram em silêncio. Hambúrguer com batata frita. O pai de Jesse já tinha dito que aquilo não era comida adequada para uma criança. Tinha pelo menos que ter alguns vegetais, dizia. Minha mãe sempre fazia salada. Mas hoje ninguém reclamou de nada. Nem do fato de Jesse ter quase acabado com o vidro de maionese. 

Depois da janta, os pais de Jesse gostavam de sentar no sofá e ver televisão. Mas a mãe levantou da mesa reclamando de dor de cabeça. E eles foram deitar cedo. Jesse foi para o quarto. Pelo menos podia ler suas revistas de ficção científica. Era a vez dos marcianos. Já tinha lido milhares de histórias. Os homens verdes que iriam invadir a terra. Ele tinha ouvido falar algo a respeito de ameaça vermelha. Esses aí deviam ser de Vênus, pensava. 

Estava lendo quando viu dois vultos passando pela sua janela. E o coração dele disparou. Ei, são os meus pais. Onde eles vão? Por que não saíram pela porta da frente?  O medo era grande, mas a curiosidade era maior. E ele se levantou e foi atrás. Sem fazer ruído. Os pais estavam indo para o hotel.


Ela era uma loira petulante. Sim, o namorado tinha lhe dito. Atrevida. Do tipo que não tem medo de nada. Com seus cabelos loiros e um sorriso no rosto, podia ganhar o mundo em um piscar de olhos. E ela se sentia mesmo assim. Tão livre

Bateu na campainha no balcão. E logo veio uma senhora. Que a olhou de cima a baixo. Pois não menina? Quero um quarto. E onde posso jantar? Servimos às nove. Tem torta de maçã. Que ótimo, adoro torta de maçã. Com sorvete de creme? Sim, menina.

Pegou a chave. Era um lugarzinho aconchegante. E lá fora chovia. Ela estava com fome. Mal podia esperar.

A Sra. Cassady viu a moça se afastar. Evelyn, era o nome escrito na ficha. Ouviu seus passos subindo a escada. E a porta do quarto se abrir e fechar. Então ela pegou o telefone e discou. Alô? Sim, sou eu. Tenho uma novidade. 


Jesse viu os pais entrando no hotel. Mas dali ele não podia passar. E agora? Deu a volta. Sim, ele podia entrar pelos fundos. Muitas vezes ele tinha ajudado o Sr. Curtis a descarregar caixas de mantimentos. E ganhado algumas moedas. Aí corria na lanchonete da Sra. Carruthers e pedia o maior sorvete que tinha. Cinco bolas e cobertura. Quase passava mal

A cozinha tinha um cheiro gostoso de comida. Mas a Sra. Cassady não estava ali. E ele não ouvia nenhum barulho. Não. Espere. Tem mais gente no hall. Ele se esgueirou e espiou por uma fresta. Ué, mas o prefeito? O que ele está fazendo aqui? Mais pessoas chegavam. Os pais de Brian. A professora de óculos de grau, que tinha dado aula para ele no terceiro ano. O Sr. Skeeter. O professor de educação física. O que estava acontecendo?

Jesse nunca tinha visto aquela porta ali antes. Ou não tinha reparado. Mas todos estavam entrando por ela. E a porta se fechou. Agora sim, ele não ia poder saber mesmo o que estava havendo ali. Mas podia sempre tentar escutar. Eita, a Sra. Cassady vem vindo. Passou por ele com uma bandeja. Devia ser o jantar da moça. Não sabia o nome dela, mas sabia que ela era muito bonita. 

Ouviu os passos da Sra. Cassady descendo a escada. Ela também entrou naquele cômodo. E fechou a porta. Jesse não tinha conseguido ver o que tinha lá dentro. Já estava se arriscando até demais. Mas já que estava ali, ia ficar. Pelo menos até os pais dele voltarem para casa. 


A chuva martelava o telhado. Mas fora esse barulho, não se podia ouvir mais nenhum som no aposento. Todos estavam em silêncio, esperando. E o prefeito tomou a palavra. 

- Senhoras e senhores. Depois de muito tempo, eis que nossas preces foram novamente ouvidas. Ele a trouxe para nós. Nós, que deixamos casas, vinhas e campos para estar aqui. Nós, que o reverenciamos com o preço das nossas vidas. Nós lhe daremos o que ele pede em retorno. Em troca do nosso santuário, onde vivemos e criamos os nossos filhos. Onde a mão que segura o tempo é eterna. 


Esta é a nossa herança. 

E o nosso trabalho. 

Permanecer. 

Sobreviver. 


Jesse ficou na ponta dos pés. Achava que não tinha ouvido bem. Mas tinha ouvido sim. A voz do prefeito era clara. E o coro em seguida era como uma música. Mas não estava entendendo. Estavam falando da moça? Da Jayne Mansfield? 


Ali no deserto, não era possível sobreviver sozinho. Mas haviam criaturas que perambulavam pela noite. Elas revelavam seus segredos. E o olho humano não estava preparado para ver. Ali eram seus domínios, que poucos poderiam alcançar. Vivos. Velhos como o tempo, os guardiões do deserto espreitavam. E esperavam. 

Lugar Nenhum era o lugar deles. Que lhes servia de pasto. Desde o tempo que os índios passavam por ali e erguiam suas tendas. Mesmo antes que os primeiros pioneiros fossem para lá, com suas carruagens, seus perus, abóboras e tortas de maçã. Os brancos acharam que poderia haver ouro. Mas só tinha pedra e cascalho. Um riozinho que era quase como um sopro. E toda a vida se concentrava ali naquelas margens. 

Se todos os forasteiros fossem mortos, logo não haveria mais ninguém lá. E a fama de lugar amaldiçoado se espalharia. E eles tinham fome. Precisavam comer

Os índios sabiam como reverenciá-los. Não era carne humana, mas eram oferendas que lhes aplacavam a fome. Até aparecer algum desavisado. Mas os índios tinham ido embora há muito tempo. Realocados para locais que os brancos chamavam de reservas. 

Era muito longe para voltar, e quem chegou foi ficando. E a cidade se estabeleceu. Haviam lendas. Histórias. Pessoas desapareciam. Corujas cantavam nas margens do rio. E o lamento do lobo uivando parecia um choro de criança. Não era bom sair à noite

Mas eram só histórias. De dia a vida recomeçava. E o sol iluminava tudo. Não existiam monstros que assustavam as crianças. Lendas. História de índio.

De vez em quando se ouviam comentários. O filho do carteiro sumiu. A moça da loja de antiguidades não voltou pra casa. Duas meninas foram nadar no rio, e aparentemente se afogaram. Mas os corpos nunca tinham sido encontrados

E a vida corria. 

Mas as pessoas estavam indo embora. Tentar a vida em outro lugar. Lugar Nenhum não tinha nada pra lhes oferecer. Além de paz, tranqüilidade e a possibilidade de uma velhice sem sobressaltos. Mas não para todos

O pasto estava começando a rarear. Era preciso fazer alguma coisa. E o pacto foi feito. 

Lugar Nenhum seria um oásis de paz. E ninguém mais da cidade seria morto. Mas ali seria um lugar protegido. Os espíritos uivavam e cantavam em torno da cidade. E ninguém de fora poderia vê-los. O vento tinha tecido uma cortina sobre o lugar.

Quando os espíritos tinham fome, a cortina se abria. E alguém de fora entrava. Para servir de pasto.

Mas o pior era que ninguém podia sair. Não que quisessem. Havia algo no ar. E esse algo não os deixava enxergar. A vida estava ali. Não havia nada lá fora. Quando as crianças crescessem, tomariam o lugar dos mais velhos. E entenderiam o que era preciso fazer. Eles sobreviveriam. E os espíritos ficariam satisfeitos. Uma boa troca sim, para ambos os lados. Coexistindo.

James Logan ainda ia na cidade vizinha buscar mercadorias e abastecer o comércio. Era um velho ex-soldado que bebia e fumava quase como um demônio, e só não morria porque Deus tinha piedade. Era conhecido como a boca mais suja de Lugar Nenhum. E não tinha amigos. Ninguém se importava com ele.

 

O único elo deles com o mundo exterior. Não que alguém ligasse pra isso.


Jesse ouviu um tambor batendo do outro lado da porta. Sim, eles estavam todos cantando. Parecia música de índio. Aquelas velhas canções que davam sono. Que poderiam até fazer chover. E ele sentia o sangue gelar. Evelyn no seu quarto, dormia profundamente. 

O tambor parou. E a porta se abriu. No susto, Jesse caiu de lado. Foi a sua salvação, porque senão alguém o teria visto. Mas ali naquele canto escuro, caído no tapete, ele era só um menino invisível. De qualquer modo, ninguém que saía da sala parecia estar no seu estado normal. Saíram todos em silêncio. Os pais de Jesse também. E ele achou melhor ir atrás. 

A pequena procissão saiu silenciosa pela cidade. Se dirigiram às margens do rio. Os homens acenderam uma fogueira, e todos eles fizeram um círculo. De mãos dadas. Jesse olhava. Dois homens, mais afastados, traziam tambores.

E um carro chegou. Com a moça. Ela estava de mãos atadas, mas parecia estar anestesiada. Seguia dócil o homem que a conduzia. Seu Carruthers da lanchonete. E ela foi posta de joelhos no meio do círculo. Jesse no início ainda achou a cena engraçada. Vão escalpelá-la, pensou. Eu acho que estou delirando. 

Tudo se movia como um sonho. Jesse estava se sentindo apavorado e queria ir embora. Mas aquilo ali não ia terminar tão cedo. As pessoas dançavam em uma cadência. Afastavam-se e aproximavam-se da fogueira. Mas ninguém cantava. Só os tambores ressoavam como uma ameaça. E o ritmo ia se acelerando cada vez mais. 

E então ele viu. O fogo. O fogo crescia e tomava forma. A forma de um homem. Ao redor deles, o ar soprava. Um ar escuro. Jesse só sentia frio e medo. O céu poderia muito bem pingar sangue, de tão vermelho que estava.

O prefeito, em silêncio, se aproximou da moça. E cortou o seu pescoço em uma única facada. A cabeça dela tombou. O sangue corria e pingava no chão. Uma nuvem negra envolveu o corpo. E o canto das corujas ficou mais forte. Os outros continuavam dançando. Jesse olhou pra cima, e o céu não parecia mais tão vermelho. Nem o ar inquieto. Quando voltou a olhar a cena, o corpo da moça não estava mais lá. Tinha sumido.

Agora estavam todos de joelhos e o prefeito orava em voz alta. Em palavras desconhecidas. Era como se as palavras do prefeito estivessem trazendo a paz. Como se elas estivessem colocando tudo no lugar. A paz da ordem restabelecida. 


Os espíritos estavam satisfeitos. A coruja se recolheu no seu ninho. A cobra espreguiçava atrás da pedra.


Era um novo dia. Mas alguém ali não tinha encontrado a paz. Alguém que não poderia viver com aquilo. E nem naquela cidade. Ele tinha que sair dali. Porque estava em pânico. Porque tinha visto o homem no fogo. E as corujas se desfazendo no ar escuro. Tudo em volta dele o chamava. E ele tinha medo até das sombras das árvores. Estava prisioneiro de um lugar amaldiçoado. E os espíritos sabiam que ele sabia. Se ele não fosse embora, iria acabar morrendo. Ou dançaria no círculo. Jesse não queria nenhuma das duas coisas.

A caminhonete do Sr. Logan tinha uma lona. E seria embaixo dessa lona que ele encontraria a liberdade. E poderia dormir de novo. O mundo estava lá fora. E só ele podia enxergar uma saída. 

E em uma manhã de sol, Jesse partiu. Escondido debaixo da lona amarela da caminhonete. Para nunca mais voltar.


Fim.


Prólogo

Epílogo

Conto

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Meu nome é Jesse. Hoje estou morando em N..., mas essa não é minha cidade natal. Venho de uma cidade chamada Lugar Nenhum. Sim. Eu sei que é um nome bem estranho para uma cidade. E que vocês nunca ouviram falar nela antes. Mas acreditem em mim. Há um bom motivo para isso. 


Talvez o de preservar as suas vidas. 


Tocava Tequila no rádio. Jesse e Brian estavam entretidos em arrumar as suas bicicletas. Logo iriam no estacionamento do mercado, é para onde todo mundo ia aos domingos naquele tempo. O cheiro bom de cookies de chocolate se espalhava pela calçada e o pai de Jesse estava polindo o carro. Sim, era um Simca Chambord. Não havia muitos como aquele rodando por ali. Na verdade era o único carro daquele modelo. Os outros preferiam Buicks, Fords e Chevrolets. Mas a mãe de Jesse implicava dizendo que Parece carro de funerária. Mas Jesse admirava as linhas ousadas do veículo e o modo como ele brilhava ao sol, todo preto, imponente, as pessoas ainda olhavam com admiração. O pai também. E um dia, Jesse iria dirigi-lo. E do lado dele estaria a garota mais bonita. 

Lugar nenhum era mesmo um lugar agradável, onde se podia criar os filhos. O churrasco no fim de semana, até os cachorros eram amistosos. Era uma pequena comunidade unida e pacata, mas Jesse pensava. Ele tinha crescido ali com o seu melhor amigo, Brian. Ele morava na casa ao lado e sempre tinham visto as mesmas pessoas praticamente desde que nasceram. No hotel da Sra. Cassady, podia-se comer a melhor torta de maçã da cidade, mas Jesse não se lembrava de algum dia já ter visto alguém se hospedando lá.  Aliás, ele nunca tinha visto ninguém estranho, ninguém diferente, nem um turista. Nada. Às vezes chovia e o tempo ficava denso, inquieto, aí ele sentia uma certa agitação. O céu ficava vermelho como sangue, mas ele não via nada. Afinal de contas, estavam mesmo perdidos naquele lugarzinho esquecido por Deus, cravado no meio do oeste, cercado pelo deserto, longe da estrada principal. Quem iria para lá? No máximo algum índio desgarrado. E para os índios desgarrados, Jesse tinha seu revólver. Ele amava Tom Mix quando era moleque.

De todo modo, essas eram questões muito complexas para um garoto de 10 anos. Ali no estacionamento era bem legal, todo mundo ia de bicicleta. O lugar era amplo o bastante para alguns apostarem corrida, empinar, as meninas com seus shortinhos curtos, sentadas no guidão eram sempre uma coisa para se admirar. Bebiam coca-cola e milk-shake de chocolate. Era sim, um ótimo local para se passar as tardes de domingo.

Era noite, Jesse estava cansado de andar pra lá e pra cá feito tonto no estacionamento.  Ninguém tinha olhado para ele. Mas ele era só um menino de 10 anos. E parecia que ia chover. Ele sentia o ar agitado. Inquieto. O céu vermelho. É, vai cair uma bela tempestade. Era melhor se apressar.


Mas então ele a viu.

 

Ela era loira. Isso ele tinha reparado. Nunca tinha visto cabelos tão brancos. Platinada. Como Marilyn Monroe. Não. Mais loira. Jayne Mansfield. Jesse piscou. E o mesmo corpo. Jayne Mansfield perdida em Lugar Nenhum. Céus, o que tinha naquele milk-shake?

A moça o viu e acenou. Hey menino! Venha aqui. Jesse foi. Meio contrariado. Não sou tão menino assim. 

Ela sorriu.

- Oi. Como se chama este lugar? Lugar Nenhum? Ah sim, que nome diferente. Você sabe onde tem um hotel? Para eu passar a noite. Jesse explicou. Ela entrou no carro e seguiu pela rua. Era um Simca Chambord. Preto


Evelyn achou o hotel. Não sem alguma dificuldade. Mas como era possível, se a cidade era tão pequena? E então ela percebeu. Não havia letreiros. Nem placas nas ruas. Sim, pelos formatos dos prédios dava pra imaginar que tipo de comércio tinha ali, mas não que tivesse alguma placa explicando. Mas claro que pelo menos os moradores deveriam saber, já que estavam acostumados. Então ali não era um local receptivo aos turistas. 

Mas muitos lugares naquele tempo eram assim. Ainda se falava muito da Rússia e os comunistas vermelhos eram um perigo que pairava como um lençol atômico no american way of life. Pessoas quietas. Desconfiadas. Definitivamente não eram amigáveis. Como Jack Kerouac conseguiu perambular por aí sem levar um tiro, ela pensava.

Ela estava andando com seu carro pela estrada. Johnny B. Goode. Que bela música para pisar no acelerador. Nenhum carro à frente, nenhum carro atrás. Só ela e a imensidão. Logo chegaria em casa. E estaria nos braços do namorado. Estava tudo dando certo. Mas de repente o céu ficou vermelho. E parecia que ia chover. Ela diminuiu a velocidade. E como se fosse um sonho, já estava entrando na cidade. Ela não tinha visto a cidade se aproximar. Nem uma placa de localização. Aliás, pensando bem, aquela não parecia ser a rodovia onde ela estava. Ou era? Estava escuro. Ela não tinha certeza. E já que estava ali e ia chover, era melhor ir logo para o hotel. E ela estava se sentindo muito cansada. Aí poderia tomar um banho, jantar e dormir, e no dia seguinte retornaria viagem. Bobby entenderia

Jesse entrou em casa animado. Mãe, pai, vi uma pessoa na rua. A mãe colocava o jantar na mesa e ouvia sem interesse. Quem você viu Jesse? A filha da Betty? Não mãe. É uma mulher estranha. Nunca vi ela por aqui antes. Ela queria saber onde era o hotel.  A mãe de Jesse derrubou o prato no chão. Que foi mãe? Nada, o prato escorregou. Limpa isso pra mim, que eu vou buscar outro. O pai não tinha erguido a cabeça do jornal. 

Comeram em silêncio. Hambúrguer com batata frita. O pai de Jesse já tinha dito que aquilo não era comida adequada para uma criança. Tinha pelo menos que ter alguns vegetais, dizia. Minha mãe sempre fazia salada. Mas hoje ninguém reclamou de nada. Nem do fato de Jesse ter quase acabado com o vidro de maionese. 

Depois da janta, os pais de Jesse gostavam de sentar no sofá e ver televisão. Mas a mãe levantou da mesa reclamando de dor de cabeça. E eles foram deitar cedo. Jesse foi para o quarto. Pelo menos podia ler suas revistas de ficção científica. Era a vez dos marcianos. Já tinha lido milhares de histórias. Os homens verdes que iriam invadir a terra. Ele tinha ouvido falar algo a respeito de ameaça vermelha. Esses aí deviam ser de Vênus, pensava. 

Estava lendo quando viu dois vultos passando pela sua janela. E o coração dele disparou. Ei, são os meus pais. Onde eles vão? Por que não saíram pela porta da frente?  O medo era grande, mas a curiosidade era maior. E ele se levantou e foi atrás. Sem fazer ruído. Os pais estavam indo para o hotel.


Ela era uma loira petulante. Sim, o namorado tinha lhe dito. Atrevida. Do tipo que não tem medo de nada. Com seus cabelos loiros e um sorriso no rosto, podia ganhar o mundo em um piscar de olhos. E ela se sentia mesmo assim. Tão livre

Bateu na campainha no balcão. E logo veio uma senhora. Que a olhou de cima a baixo. Pois não menina? Quero um quarto. E onde posso jantar? Servimos às nove. Tem torta de maçã. Que ótimo, adoro torta de maçã. Com sorvete de creme? Sim, menina.

Pegou a chave. Era um lugarzinho aconchegante. E lá fora chovia. Ela estava com fome. Mal podia esperar.

A Sra. Cassady viu a moça se afastar. Evelyn, era o nome escrito na ficha. Ouviu seus passos subindo a escada. E a porta do quarto se abrir e fechar. Então ela pegou o telefone e discou. Alô? Sim, sou eu. Tenho uma novidade. 


Jesse viu os pais entrando no hotel. Mas dali ele não podia passar. E agora? Deu a volta. Sim, ele podia entrar pelos fundos. Muitas vezes ele tinha ajudado o Sr. Curtis a descarregar caixas de mantimentos. E ganhado algumas moedas. Aí corria na lanchonete da Sra. Carruthers e pedia o maior sorvete que tinha. Cinco bolas e cobertura. Quase passava mal

A cozinha tinha um cheiro gostoso de comida. Mas a Sra. Cassady não estava ali. E ele não ouvia nenhum barulho. Não. Espere. Tem mais gente no hall. Ele se esgueirou e espiou por uma fresta. Ué, mas o prefeito? O que ele está fazendo aqui? Mais pessoas chegavam. Os pais de Brian. A professora de óculos de grau, que tinha dado aula para ele no terceiro ano. O Sr. Skeeter. O professor de educação física. O que estava acontecendo?

Jesse nunca tinha visto aquela porta ali antes. Ou não tinha reparado. Mas todos estavam entrando por ela. E a porta se fechou. Agora sim, ele não ia poder saber mesmo o que estava havendo ali. Mas podia sempre tentar escutar. Eita, a Sra. Cassady vem vindo. Passou por ele com uma bandeja. Devia ser o jantar da moça. Não sabia o nome dela, mas sabia que ela era muito bonita. 

Ouviu os passos da Sra. Cassady descendo a escada. Ela também entrou naquele cômodo. E fechou a porta. Jesse não tinha conseguido ver o que tinha lá dentro. Já estava se arriscando até demais. Mas já que estava ali, ia ficar. Pelo menos até os pais dele voltarem para casa. 


A chuva martelava o telhado. Mas fora esse barulho, não se podia ouvir mais nenhum som no aposento. Todos estavam em silêncio, esperando. E o prefeito tomou a palavra. 

- Senhoras e senhores. Depois de muito tempo, eis que nossas preces foram novamente ouvidas. Ele a trouxe para nós. Nós, que deixamos casas, vinhas e campos para estar aqui. Nós, que o reverenciamos com o preço das nossas vidas. Nós lhe daremos o que ele pede em retorno. Em troca do nosso santuário, onde vivemos e criamos os nossos filhos. Onde a mão que segura o tempo é eterna. 


Esta é a nossa herança. 

E o nosso trabalho. 

Permanecer. 

Sobreviver. 


Jesse ficou na ponta dos pés. Achava que não tinha ouvido bem. Mas tinha ouvido sim. A voz do prefeito era clara. E o coro em seguida era como uma música. Mas não estava entendendo. Estavam falando da moça? Da Jayne Mansfield? 


Ali no deserto, não era possível sobreviver sozinho. Mas haviam criaturas que perambulavam pela noite. Elas revelavam seus segredos. E o olho humano não estava preparado para ver. Ali eram seus domínios, que poucos poderiam alcançar. Vivos. Velhos como o tempo, os guardiões do deserto espreitavam. E esperavam. 

Lugar Nenhum era o lugar deles. Que lhes servia de pasto. Desde o tempo que os índios passavam por ali e erguiam suas tendas. Mesmo antes que os primeiros pioneiros fossem para lá, com suas carruagens, seus perus, abóboras e tortas de maçã. Os brancos acharam que poderia haver ouro. Mas só tinha pedra e cascalho. Um riozinho que era quase como um sopro. E toda a vida se concentrava ali naquelas margens. 

Se todos os forasteiros fossem mortos, logo não haveria mais ninguém lá. E a fama de lugar amaldiçoado se espalharia. E eles tinham fome. Precisavam comer

Os índios sabiam como reverenciá-los. Não era carne humana, mas eram oferendas que lhes aplacavam a fome. Até aparecer algum desavisado. Mas os índios tinham ido embora há muito tempo. Realocados para locais que os brancos chamavam de reservas. 

Era muito longe para voltar, e quem chegou foi ficando. E a cidade se estabeleceu. Haviam lendas. Histórias. Pessoas desapareciam. Corujas cantavam nas margens do rio. E o lamento do lobo uivando parecia um choro de criança. Não era bom sair à noite

Mas eram só histórias. De dia a vida recomeçava. E o sol iluminava tudo. Não existiam monstros que assustavam as crianças. Lendas. História de índio.

De vez em quando se ouviam comentários. O filho do carteiro sumiu. A moça da loja de antiguidades não voltou pra casa. Duas meninas foram nadar no rio, e aparentemente se afogaram. Mas os corpos nunca tinham sido encontrados

E a vida corria. 

Mas as pessoas estavam indo embora. Tentar a vida em outro lugar. Lugar Nenhum não tinha nada pra lhes oferecer. Além de paz, tranqüilidade e a possibilidade de uma velhice sem sobressaltos. Mas não para todos

O pasto estava começando a rarear. Era preciso fazer alguma coisa. E o pacto foi feito. 

Lugar Nenhum seria um oásis de paz. E ninguém mais da cidade seria morto. Mas ali seria um lugar protegido. Os espíritos uivavam e cantavam em torno da cidade. E ninguém de fora poderia vê-los. O vento tinha tecido uma cortina sobre o lugar.

Quando os espíritos tinham fome, a cortina se abria. E alguém de fora entrava. Para servir de pasto.

Mas o pior era que ninguém podia sair. Não que quisessem. Havia algo no ar. E esse algo não os deixava enxergar. A vida estava ali. Não havia nada lá fora. Quando as crianças crescessem, tomariam o lugar dos mais velhos. E entenderiam o que era preciso fazer. Eles sobreviveriam. E os espíritos ficariam satisfeitos. Uma boa troca sim, para ambos os lados. Coexistindo.

James Logan ainda ia na cidade vizinha buscar mercadorias e abastecer o comércio. Era um velho ex-soldado que bebia e fumava quase como um demônio, e só não morria porque Deus tinha piedade. Era conhecido como a boca mais suja de Lugar Nenhum. E não tinha amigos. Ninguém se importava com ele.

 

O único elo deles com o mundo exterior. Não que alguém ligasse pra isso.


Jesse ouviu um tambor batendo do outro lado da porta. Sim, eles estavam todos cantando. Parecia música de índio. Aquelas velhas canções que davam sono. Que poderiam até fazer chover. E ele sentia o sangue gelar. Evelyn no seu quarto, dormia profundamente. 

O tambor parou. E a porta se abriu. No susto, Jesse caiu de lado. Foi a sua salvação, porque senão alguém o teria visto. Mas ali naquele canto escuro, caído no tapete, ele era só um menino invisível. De qualquer modo, ninguém que saía da sala parecia estar no seu estado normal. Saíram todos em silêncio. Os pais de Jesse também. E ele achou melhor ir atrás. 

A pequena procissão saiu silenciosa pela cidade. Se dirigiram às margens do rio. Os homens acenderam uma fogueira, e todos eles fizeram um círculo. De mãos dadas. Jesse olhava. Dois homens, mais afastados, traziam tambores.

E um carro chegou. Com a moça. Ela estava de mãos atadas, mas parecia estar anestesiada. Seguia dócil o homem que a conduzia. Seu Carruthers da lanchonete. E ela foi posta de joelhos no meio do círculo. Jesse no início ainda achou a cena engraçada. Vão escalpelá-la, pensou. Eu acho que estou delirando. 

Tudo se movia como um sonho. Jesse estava se sentindo apavorado e queria ir embora. Mas aquilo ali não ia terminar tão cedo. As pessoas dançavam em uma cadência. Afastavam-se e aproximavam-se da fogueira. Mas ninguém cantava. Só os tambores ressoavam como uma ameaça. E o ritmo ia se acelerando cada vez mais. 

E então ele viu. O fogo. O fogo crescia e tomava forma. A forma de um homem. Ao redor deles, o ar soprava. Um ar escuro. Jesse só sentia frio e medo. O céu poderia muito bem pingar sangue, de tão vermelho que estava.

O prefeito, em silêncio, se aproximou da moça. E cortou o seu pescoço em uma única facada. A cabeça dela tombou. O sangue corria e pingava no chão. Uma nuvem negra envolveu o corpo. E o canto das corujas ficou mais forte. Os outros continuavam dançando. Jesse olhou pra cima, e o céu não parecia mais tão vermelho. Nem o ar inquieto. Quando voltou a olhar a cena, o corpo da moça não estava mais lá. Tinha sumido.

Agora estavam todos de joelhos e o prefeito orava em voz alta. Em palavras desconhecidas. Era como se as palavras do prefeito estivessem trazendo a paz. Como se elas estivessem colocando tudo no lugar. A paz da ordem restabelecida. 


Os espíritos estavam satisfeitos. A coruja se recolheu no seu ninho. A cobra espreguiçava atrás da pedra.


Era um novo dia. Mas alguém ali não tinha encontrado a paz. Alguém que não poderia viver com aquilo. E nem naquela cidade. Ele tinha que sair dali. Porque estava em pânico. Porque tinha visto o homem no fogo. E as corujas se desfazendo no ar escuro. Tudo em volta dele o chamava. E ele tinha medo até das sombras das árvores. Estava prisioneiro de um lugar amaldiçoado. E os espíritos sabiam que ele sabia. Se ele não fosse embora, iria acabar morrendo. Ou dançaria no círculo. Jesse não queria nenhuma das duas coisas.

A caminhonete do Sr. Logan tinha uma lona. E seria embaixo dessa lona que ele encontraria a liberdade. E poderia dormir de novo. O mundo estava lá fora. E só ele podia enxergar uma saída. 

E em uma manhã de sol, Jesse partiu. Escondido debaixo da lona amarela da caminhonete. Para nunca mais voltar.


Fim.


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