Conto

O mistério do empório de antiguidades

Lojas de antiguidades guardam grandes tesouros e mistérios. Itens incrivelmente raros ou comuns podem nos levar à destinos nunca antes imaginados.

Sophia Leite
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Áudio drama
O mistério do empório de antiguidades
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Em Lugar Nenhum, as coisas sempre tendiam para o inesperado. Por exemplo, se perguntassem ao George algumas semanas atrás onde ele achava que estaria agora, ele jamais teria respondido parado no meio de uma tempestade, na fronteira da cidade. Nem mesmo teria adivinhado as decisões que o trouxeram até ali, nem as consequências do que viria depois.

A chuva atingia com força sua capa e o frio estava começando a invadir seus ossos, no entanto algo cismava em mantê-lo imóvel. Culpa. Medo. A sensação de que estava sendo observado. Somente quando um raio iluminou a paisagem, ele reuniu coragem e deu as costas para a urbe, olhando o panfleto em sua mão. Os olhos hipnotizantes da Mme. Constância o encararam de volta, fazendo-o resmungar e amassar o papel, jogando-o ao vento enquanto entrava novamente no carro.

–Desculpe. –Murmurou ligando o motor e cruzando a linha da cidade.

E nunca mais foi visto.

***


Marcos ajeitou os fones de ouvido e colocou o CD no discman, apertando play assim que montou na bicicleta e começou a descer a rua. A voz rouca de Kurt Cobain ecoou em seus ouvidos no exato instante em que ele alcançou a ladeira e ergueu os braços, gritando divertido enquanto tomava velocidade. Pelo canto dos olhos conseguiu notar o velho da casa treze brigar com o vizinho ao que a mulher bonita do outro lado da rua terminava de se alongar e iniciava sua corrida matinal. Topou com um pequeno rio criado por uma mangueira esquecida na calçada e espalhou água por todos os lados, irritando Plutão, o cachorro do vigia preso no poste. Quando avistou uma curva mais a frente, esperou até o último minuto para agarrar o guidão e retomar o controle dos pedais, virando na rua seguinte e quase atropelando o carteiro.

–Hei, seu...! –As palavras foram levadas pelo vento ao que Marcos respondeu um pedido de desculpas qualquer.

Seguiu em direção a praça, freando os pneus somente quando chegou na fonte. A bicicleta rangeu e girou 180º, parando ao lado das pernas da garota sentada ali. Ela não pareceu impressionada com a manobra, erguendo uma sobrancelha e falando algo que o fez rir.

–O quê? Não ouvi. –Ele tirou os fones ao que ela revirou os olhos.

–O que está ouvindo? 

Nirvana. Sei que você prefere Backstreet Boys, mas...

–Idiota! –Ela empurrou-lhe o braço e mudou o skate de mão, respirando fundo. –Como estão as coisas em casa?

Marcos baixou a cabeça e deu os ombros.

–Na mesma. Desde que meu irmão foi embora parece que meus pais enlouqueceram, ainda mais porque ele não tem dado notícia. Os boatos estúpidos não ajudam também. Honestamente, não sei porque sentem falta daquele egoísta. 

A menina analisou-o por instantes, provavelmente vendo por trás da mentira.

 –Você sabe...

–Olivia, Marcos! –Uma voz interrompeu a conversa, fazendo os dois se virarem na direção de um apressado Enrique que chegava com sua bicicleta enferrujada. –Me atrasei, desculpe. O que estavam conversando?

Os dois se entreolharam ao que o menino se endireitava e estufava o peito.

–Nada demais, apenas nossos planos. Já decidimos como vamos passar nosso primeiro dia de férias nesse ovo estranho de cidade.

Ele decidiu que quer explorar as ruas do lado esquerdo da praça. –Olivia colocou o skate no chão e sorriu travessa. Havia uma pequena cicatriz em seu lábio de quando havia caído em uma pedra, ano passado. – Nossos pais nos matarão se descobrirem, mas é melhor que ficar em casa cuidando de tamagotchi.

Enrique fez uma careta.

–Dizem que as coisas estranhas que acontecem aqui quase sempre vêm daquele lugar. E vocês sabem os boatos que...

–Está com medinho? Covarde!

O menino olhou do amigo para a garota e cruzou os braços. Apesar de ser o mais alto dos três, sua aparência frágil tirava-lhe qualquer intenção de impor moral no grupo.

–Claro que não! Estou apenas dizendo para tomarmos cuidado. –Bufou se abaixando e fingindo amarrar os sapatos. –Você consegue ser um mané ás vezes, né?

–Eu sei.

–Parem vocês dois e decidam logo, vamos ou não? –Olivia subiu no skate e olhou-os em expectativa.

–Claro que vamos. Que mal pode acontecer?

–...disse todo personagem idiota de filme de terror. –Enrique se endireitou e estalou os dedos. –Tudo bem, vamos. Quer ir na minha bicicleta, Oli?

A garota fez que não, colocando o capacete sobre os cabelos bagunçados e amarrando a tira.

–Sabe que gosto de quatro rodas, Rique. Vejam se conseguem me alcançar. – E tomou impulso, indo na frente.

Os dois se entreolharam e imediatamente a seguiram, pedalando rápido atrás da amiga. Contornaram a fonte do homem de monóculo e viraram nos bancos. Marcos foi quem primeiro a alcançou, tocando o sino para chamar sua atenção e ultrapassando-a com facilidade. Pelo retrovisor, viu-a agarrar sua garupa e pegar carona até a entrada do bairro de comércio, onde tomou um último impulso e passou-o na linha de chegada. 

–Hei, isso não vale!

–Mau perdedor. – Ela atirou a mochila no chão e se inclinou, dando-lhe um peteleco no nariz. Os dois ficaram se encarando por instantes ao que Marcos sentiu algo engraçado no estômago. 

–Vocês ainda vão se matar, não temos muito tráfego, mas mesmo assim existem carros em Lugar Nenhum, sabiam? – Enrique jogou a bicicleta ao lado deles e se inclinou para tomar fôlego, parando ao ver os dois. –O quê?

–Nada. –Olivia guardou seu equipamento e se virou para a entrada.

O Bairro da Esquerda, como os moradores chamavam, era uma espécie de área proibida da cidade. Todos ali gostavam de viver ignorando as bizarrices que faziam parte do dia-dia local, mas não os moradores daquelas casas. As pessoas ali pareciam abraçar o inexplicável e aceitá-los como parte de sua vida.

Dois postes antigos moldavam a entrada, os únicos remanescentes da reforma elétrica dos anos 60, criando uma atmosfera bizarra nas casas desconfortavelmente próximas umas das outras. Para completar, um par de tênis estava pendurado nos fios, cortesia de Jonas Lopez, diziam as crianças da escola, em um desafio pouco antes dele desaparecer. Melissa Cardoso jurava que o corpo foi descoberto no rio algumas semanas depois, mas outros afirmavam que ele nunca havia sido encontrado até hoje.

Marcos deixou a bicicleta perto de uma árvore e esperou Enrique fazer o mesmo para se colocar ao lado de Olivia e fitar o estranho mundo à sua frente. Espiou os amigos pelo canto dos olhos e sentiu-se aliviado ao deduzir que não era só ele que se sentia inexplicavelmente ansioso.

 –Vamos?

Os outros dois concordaram e juntos, quase como que ensaiado, deram o primeiro passo e cruzaram os postes. A temperatura imediatamente pareceu cair e notaram uma espécie de descarga no ar, como um sussurro ininteligível no ouvido. Enrique fez uma careta.

–Que cheiro é esse?

–Acho que é incenso. –Olivia olhou ao redor, inclinando-se de leve para espiar pela vitrine da loja mais próxima. Havia uma espécie de fantoche de metal pendurado por cabos e várias outras quinquilharias. –Isso é tão legal.

–É um autômato. – O moreno se colocou ao lado dela estalando os dedos com nervosismo.

–Um o quê?

–Uma espécie de robô.

Olivia riu.

–Você é muito CDF, Rique. 

Ele ruborizou e engolindo em seco. 

–Oli, eu queria te dizer uma coisa. Eu gosto...

–Vamos ver as outras lojas. –Marcos interrompeu, se colocando entre eles com irritação. Enrique estalou os dedos e balançou a cabeça, desistindo. –Deve ter algo de interessante por aqui.

–Cuidado, podemos esbarrar em um portal ou algo assim. – O outro falou com rancor.

–Sério, vamos olhar ao redor.

–Isso é idiotice.

Marcos o ignorou e sorriu para Olivia. Ela lhe sorriu de volta e o trio continuou a andar pela rua. Um murmúrio vinha de todos os lados, mas eles não viram mais ninguém durante o percurso, o que acabou tornando a aventura cansativa e desinteressante depois de alguns minutos. O menino quase ia sugerir que voltassem quando enfiou os pés em uma poça fedorenta. Soltou um palavrão e de um pulo, parando ao notar um panfleto flutuando na água suja. Tombou a cabeça e se inclinou, analisando a mulher na imagem e os dizeres em vermelho.

Venha ver o Empório de Antiguidades da Mme. Constância e encontre aquilo que perdeu. Nossa seleção de objetos esquecidos é exatamente aquilo que você procura. – Leu em voz alta, levantando uma sobrancelha. Então avistou a dita loja alguns metros mais à frente. 

–Que tal irmos lá? –Olivia sugeriu.

–Que graça tem em coisas antigas?

Os três pararam em frente à loja e a encararam. Ela pareceu os encarar de volta. Uma grande placa enfeitada no topo chamava atenção, contrastante com a madeira esverdeada da vitrine.

–Vamos, pode ser legal. Marcos?

Ele engoliu em seco e concordou com a cabeça. 

–Vamos.

Olivia adiantou-se e abriu a porta, não se surpreendendo quando ela rangeu. Um sino ecoou pelo aposento repleto de objetos estranhos e chamativos. Eles entraram e se puseram a explorar cuidadosamente as estátuas, móveis e quadros.

–Posso ajudá-los?

O grito também foi em conjunto, fazendo a mulher atrás do balcão rir ao se aproximar. Ela usava uma blusa larga e vários colares brilhosos, um pano na cabeça e um sorriso largo demais para o rosto fino. 

–Sou Mme.Constância. Estão procurando algo específico?

–Ahm, não, entramos por curiosidade. –Marcos se colocou na frente dos outros três, erguendo o queixo. –Achamos a loja por coincidência.

–Ah não, pãozinho, ninguém entra aqui por acaso. A cidade decide isso.

–A cidade? – Enrique revirou os olhos e fez uma expressão acusadora para os amigos.

A mulher pareceu não se incomodar, fazendo um gesto com as mãos ao que suas pulseiras tintilaram.

–Como um organismo vivo, ela sabe quem deve ficar e quem deve partir. Ela nos observa em silêncio, esperando e decidindo nossos destinos.

–Como sabe que é uma menina?

–Esperta e inclemente do jeito que é? Pode ter certeza. – Mme.Constância sorriu para Olivia que retribuiu o gesto.

–O que você vende aqui?

–Muitas coisas. Ali, por exemplo, tenho o espelho de Lewis Caroll que diz enlouquecer quem reflete. Tenho um apanhador de sonhos de um chefe apache assassinado que induz coma a quem está perto. Um pente de Helena de Tróia que torna quem o usa irresistível e tudo o mais que possa imaginar. –Mostrou o objeto, entregando-o para a menina.

Marcos fingiu não notar o brilho nos olhos da amiga e contemplou ao redor.

–Tudo parece legal, mas não podemos comprar.

A mulher voltou para trás do balcão e os analisou por um desconfortável minuto.

–Fazemos o seguinte, como são meus primeiros clientes da manhã, podem levar o que quiserem. Apenas escolham algo e podem ir. Mas aviso, não aceitamos devoluções.

O trio se entreolhou.

–E você vai nos dar suas coisas de graça? –Enrique balançou a cabeça. –Não, obrigado.

–Eu posso levar o pente? – Olivia ignorou o amigo, guardando o objeto na bolsa de maneira satisfeita quando a outra concordou.

–Marcos, brother, vamos embora.

O menino não respondeu.

–Posso escolher qualquer coisa?

–Sim. Mas escolha com cuidado para depois não se arrepender.

Ele concordou e sondou o ambiente, procurando por algo que não sabia descrever. Empurrou um busto de uma mulher para o lado e encontrou uma caixa com alguns vinis no chão, pegando um deles com curiosidade. Não havia nada escrito na capa, apenas um losango estranho com dois triângulos deitados e uma flor no meio desenhados.

–O que é isso?

–Isso é uma sinfonia composta por Manfredo Byron, um dos seguidores Aleister Crowley, criador da doutrina Thelema. Ambos faziam parte de uma ordem que lidava com o oculto e ciências não naturais, pregando que nossos desejos são forças poderosas, uma lei única do universo. Para Byron, esta unidade primordial poderia ser alcançada através das ondas sonoras de uma música, caso sua vontade fosse forte o suficiente, então ele investiu a vida inteira para compor esta sinfonia. De acordo com seus escritos, quem a ouvisse teria qualquer desejo realizado. Esta é a única cópia e supostamente, só funciona uma única vez.

Marcos arregalou os olhos e fitou o vinil com curiosidade. Qualquer coisa que desejasse soava muito bom.

–No entanto, ele faleceu de forma misteriosa e nunca pode terminá-la. Alguns registros afirmam, inclusive, que ele morreu no mesmo instante que gravava esse disco. Como resultado, não há como saber o resultado de seu trabalho. Pode ser que funcione, não faça nada ou ainda, que destrua a ordem do universo. Ninguém jamais ousou tocá-la para descobrir. – Mme. Constância se aproximou e analisou o vinil, mais séria. Então fitou o menino. –E então, você o quer?

Brother...

–Eu quero.

–Então é seu.


***

Os três amigos voltaram para casa em silêncio pouco depois da hora do almoço. Olivia andava calmamente em seu skate analisando seu pente e Marcos empurrava a bicicleta sem tirar os olhos da sacola em sua cesta. Mais atrás, Enrique balançava a cabeça e resmungava baixinho.

–Vocês não deviam ter pego nada daquele lugar. – Disse por fim.

–Bobagem, até parece que eles fazem as coisas que aquela senhora disse. – A menina colocou o pente no bolso da calça e ajeitou a camisa flanela em sua cintura. –Vou indo antes que minha mãe me mate. Até depois, rapazes. Fui! – Acenou, parando os olhos em Marcos por um instante. –Espero que dê certo.

Ele ruborizou, perguntando-se o quanto ela sabia sobre seus planos. 

–Obrigado.

Ela concordou e saiu, deixando os dois meninos para trás. Enrique respirou fundo e sentou-se em um banco, abandonando a bicicleta de lado. 

– Rique, está tudo bem? – Ele não respondeu, fazendo Marcos sentar-se ao seu lado. –Hei brother, desculpe, mas você sabe que tudo o que aquela mulher falou é besteira, não?

–Então porque pegou esse troço? 

–Porque sim. E por que você não pegou nada? Sua família precisa de dinheiro, não? Sua mãe disse naquele dia e... –O soco veio direto no nariz.

Sem delongas, os dois começaram a rolar pela grama, dando pontapés e socos no ar enquanto brigavam. Ignoraram os olhares das pessoas que passavam até que finalmente se separaram quando o aparelho de molhar o gramado se ativou em cima deles.

–Por que fez isso?! – Marcos limpou o sangue em seus lábios com raiva. –Enlouqueceu?

–Não ouse falar da minha mãe, ouviu bem? Nem de dinheiro! Você tem tudo o que quer, sua família é rica e Olivia gosta de você, então não me venha falar do que não sabe!

–O quê? Enrique, eu não quis dizer que...

–Esquece. E esquece de mim também, não quero nada a ver com o que você vai fazer. – Ele se virou e pegou a bicicleta, tocando o olho inchado com irritação.

–Hei, espera, eu não... É para trazer meu irmão de volta, tá bem?! –Isso o fez parar e se virar para olhá-lo. –Eu quero pedir que meu irmão volte.

O moreno hesitou por um segundo antes de suspirar e retornar para perto do outro, ambos voltando a se sentar no banco. 

–As coisas estão tão ruins assim?

–Muito. 

–Que mal.

–.... E na sua casa?

Enrique deu os ombros.

–Um inferno. As contas estão acumulando e os namorados da minha mãe só pioram. Nada de novo.

–Sinto muito.

–Tudo bem. – Ele fez uma pausa. –Sabe, ás vezes eu queria poder ter sua vida. 

–Minha vida não é tão boa assim.

–Acho que a de ninguém. Não nessa cidade. – Olhou para a sacola ao lado do amigo. –... Acha mesmo que vai funcionar?

–Não custa nada tentar.

–Só tome cuidado, tá bem? Espera um pouco antes de tocar essa coisa. 

–Não quero esperar. Preciso encontrar meu irmão.

–Um dia. Só espera um dia. 

Marcos passou a mão nos cabelos e resmungou, tirando o discman da mochila.

–Tá certo, eu espero.

–Bom. O que está ouvindo aí?

Nirvana.

Enrique fez uma careta.

–Todos sabemos que Iron Maiden é mais legal.

–Nos seus sonhos, mané. – Ele fez uma pausa. –Aliás, você acha mesmo que a Olivia gosta de mim?

O menino se levantou e o ignorou, estalando os dedos.

–To indo, amanhã nos encontramos.

–Não vai me responder?

–Tchau.

Marcos riu e balançou a cabeça, olhando para o aparelho em suas mãos e ligando o track, fechando os olhos. Em uma coisa Kurt Cobain estava certo, ele se sentia definitivamente estúpido e contagioso.


***

No dia seguinte, quando os dois se encontraram na praça, logo perceberam que algo estava errado. Olivia normalmente era a primeira a chegar e, no entanto, não havia sinal da garota no ponto de encontro.

–Ela deve estar ocupada, só isso. –Marcos murmurou batendo o pé no chão com impaciência.

–E se algo aconteceu por causa daquele pente?

–O que um pente pode fazer? 

–Moramos em Lugar Nenhum, você tem que começar a aceitar isso. Eu tenho medo até das abelhas daqui.

–Você tem medo de tudo.

Enrique ia responder, mas parou ao finalmente avistar Olivia surgir na esquina, parecendo irritada. Ela estava a pé e usava um vestido azul e capuz. Quando chegou perto deles, dava para ver ela havia chorado.

–O quê? –Perguntou na defensiva diante o olhar deles.

–Ahm, nada.

–Aconteceu alguma coisa?

–Sim. Eu não quero mais isso. – Ela tirou o pente de ontem do cabelo e soltou um resmungo, jogando-o na fonte. O objeto afundou rapidamente, quase sumindo na água esverdeada.

–Qual é o problema?

–As pessoas começaram a me perseguir na rua! Meus pais começaram a brigar para ver quem me agradava mais. Eu tive que me disfarçar para vir aqui! Foi uma loucura. – Olivia sentou-se no chão, derrotada. Enrique tocou-a no ombro.

–Vai ficar tudo bem.

–Não, nada vai ficar bem nessa cidade estúpida.

Marcos pareceu não ouvir.

–Quer dizer que funcionou?

Os dois o olharam.

–É isso que você entendeu de tudo o que eu disse? – A menina fungou um pouco e balançou a cabeça, abraçando a si mesma. –Eu tentei voltar na loja, mas não a encontrei mais. Foi como se tivesse sumido.

Enrique engoliu em seco.

–Igual aos rumores. Ela disse sem devoluções, lembra? E que a cidade escolhe quem acha o quê. Que decide nosso destino.

–Isso é loucura.

Ele concordou e abraçou a garota.

 –É isso, Marcos, você não pode usar o disco.

O outro finalmente os encarou.

–Como assim? Funciona!

–Sim, e pode destruir a humanidade. Não ouviu nada do que a Mme. Constância disse?

–Ela disse que isso podia acontecer, mas também que poderia funcionar. Eu posso trazer meu irmão de volta, finalmente! – Ele se animou.

Olivia soltou um riso sarcástico.

–Você sempre foi egoísta assim? 

–Eu não...

–Pense bem no que vai fazer, Marcos. Não é só você que vive nessa cidade. – Ela se levantou e limpou a terra dos joelhos, ajeitando o capuz. –Vou voltar para casa. Até mais. 

Nenhum dos dois tentou impedi-la, deixando-a voltar pelo caminho por onde veio. Enrique estalou os dedos e chutou um pouco de cascalho na rua, parecendo tentar colocar os pensamentos em ordem. Virou-se para o amigo.

–Vamos destruir aquilo.

–O quê?

–Você me ouviu.

–Eu não tenho que fazer nada do que você diz.

Brother...

–Me deixa em paz. – Marcos deu-lhe as costas e subiu na bicicleta, se afastando da praça.

Havia pensado que as férias seriam promissoras e divertidas, mas aqueles dias pareciam mais um pesadelo do que qualquer outra coisa. Tudo por causa daquele panfleto idiota e agora havia brigado com seus amigos e estava sozinho. 

Virou a esquina e respirou fundo, sentindo o vento contra sua face. O que iria fazer? Tinha em mãos a única chance de rever o irmão, mas que também podia destruir a realidade como conheciam. Era irônico e irritante. E agora não podia nem mesmo voltar a loja e pegar outro artefato, pois quaisquer que fossem as regras daquele lugar, não englobavam segundas chances.

Um apito de alerta o fez erguer o rosto bem a tempo de desviar de um carro, fazendo-o cair na calçada. Soltou um gemido ao sentir o braço e joelho ralarem no asfalto, e a bicicleta lhe atingir a perna. Piscou atordoado pela dor.

–Está bem, Marcos? – O guarda de trânsito se aproximou, ajudando-o a se levantar. –O sinal ficou verde de repente quando você estava passando.

O menino olhou envolta. Havia pouquíssimos carros em Lugar Nenhum, as chances de aquilo acontecer deveriam ser quase nulas. Como...? Sentiu uma pontada e notou o sangue escorrendo pelo seu cotovelo, soltando um resmungo.

–Estou bem. – Disse pegando a bicicleta e levantando-a, vendo que a roda havia entortado. –Droga.

–Fique atento, menino, você podia ter se machucado seriamente.

Ele concordou, se despedindo do homem e voltando ao seu caminho. Mal deu alguns passos e uma tábua caiu na sua frente, fazendo um barulho alto e levantando poeira. 

–Cuidado, fedelho! – Um dos trabalhadores da construção gritou, apontando. –Não viu a placa?

Marcos se virou e encarou um aviso que ele jurava não ter estado ali alguns minutos atrás. Engoliu em seco e fez um gesto qualquer, se afastando com cuidado e começando a subir a rua.

–O que está acontecendo? – Murmurou, parando ao se lembrar do que Mme.Constância havia dito. 

A cidade decidia quem podia ou não ficar dentro dela. Se, por alguma razão bizarra, aquele lugar tivesse consciência de que Marcos queria trazer seu irmão de volta, talvez houvesse se irritado. Talvez estivesse tentando impedi-lo de desobedecê-la. Um sentimento de antagonismo chegou junto ao vento. Ele ergueu os olhos, vendo o movimento ao seu redor com alarme. Pela primeira vez sentiu receio das folhas que balançavam nas árvores e da sensação de constante vigília que os prédios lhe transmitiam. Pela primeira vez sentiu que não era bem-vindo.

Soltou a bicicleta e começou a correr, ignorando os machucados, e somente parando quando chegou em sua rua. Apoiou-se nos joelhos e fechou os olhos, tentando regular a respiração. Suas pernas estavam ardendo.

–Cuidado!

Um rosnado alto lhe chegou aos ouvidos e ele viu Plutão se soltar do poste e correr em sua direção, com os dentes à mostra e baba escorrendo pelo canto da boca. Marcos gritou e se apressou até a cerca de casa, tentando escapar. Quase esbarrou na moça que fazia exercícios e teve que empurrar o velho da casa treze do caminho, agarrando a grade bem a tempo de sentir dentes furiosos lhe perfurarem o calcanhar, fazendo-o soltar um gemido alto ao colocar mais força para se jogar dentro do jardim. 

Quando finalmente o animal soltou sua pele, ele tombou em cima das roseiras, arranhando o rosto. Cambaleou para trás, vendo o cachorro fitá-lo por longos instantes até simplesmente começar a balançar o rabo e sair. Inacreditável.

Marcos cerrou os punhos.

–...É assim? – Disse para o nada, olhando ao redor. –Pois veremos como vai me impedir agora!

 Se virou e entrou na casa, ignorando a mãe o chamando na cozinha e indo direto para o quarto. Pegou a sacola que havia escondido embaixo da cama e mancou até a garagem, tateando a escuridão. Acendeu a luz e começou a procurar a vitrola do avô em meio às caixas e entulhos, sentindo a garganta coçar pelo cheiro de poeira e mofo. Não iria desistir, não estando tão perto. 

A bainha de sua calça estava rasgada e ensopada de sangue, ardendo o suficiente para lhe fazer ver estrelas. Aquele tipo de dor era novo para ele, lacerante e atordoante, fazendo lágrimas escorrerem de seus olhos mesmo estando com os dentes cerrados e as mãos ocupadas. Mas também era o desespero, a certeza de que havia passado do limite e que não poderia voltar atrás em suas ações.  

Quando finalmente achou o aparelho, limpou a mesa de ferramentas do pai, jogando tudo no chão e ajeitando a vitrola no espaço livre. Tirou a poeira do prato com a própria camisa e suspirou aliviado ao ver que a agulha estava inteira. Agradeceu mentalmente ao avô por ter insistido em mostrá-lo como usar aquilo tantas vezes antes de morrer e puxou o vinil do pacote, fitando o símbolo da capa com hesitação. 

–É agora. – Murmurou, sozinho, colocando-o na base.

Olhou ao redor para a garagem empoeirada e tocou o bolso, tirando uma polaroide sua com o irmão.

–Marcos! –Enrique apareceu na porta de repente, arregalando os olhos ao vê-lo sobre o aparelho. –Pare! George não iria querer isso! 

–Não. – Marcos concordou, baixando a foto. – Mas ninguém pode saber o que ele quer agora, não é mesmo? Essa droga de cidade expulsou ele.

–Essa droga de cidade causou problemas para todo mundo, não só você! 

–Verdade. Mas eu vou dar um jeito nisso. – O menino olhou para frente e baixou o braço da vitrola.

–Não! – Enrique se jogou em cima dele.

A foto caiu no chão e foi pisoteada. Um violino solitário começou a tocar e em poucos segundos, uma melodia explodiu e tomou conta de todo o ambiente.


***


Marcos ajudou a mãe a terminar de embrulhar os sanduíches e os guardou na lancheira, sorrindo quando ela lhe beijou a fronte. Não havia restado mais quase nada na cozinha e sala além de alguns móveis que não foram comprados no brechó de garagem. Fora isso, a casa estava totalmente vazia, assombrada apenas pelas caixas de doação do lado de fora.

–Tudo certo? Seu curativo está doendo?

Ele olhou para o calcanhar enfaixado e fez que não.

–Estou bem.

–Ótimo. Temos os sanduíches e seu pai já colocou as malas no carro... – A mulher checou as gavetas uma última vez e pegou as chaves de cima do balcão, indo até a porta. –Acho que isso é tudo, já estamos preparados para ir. –Ela suspirou. –Nem acredito que estamos nos mudando.

–Vai ser melhor, mãe. Assim podemos começar de novo.

–E achar seu irmão. Tem razão, ainda mais depois daquele incidente terrível na garagem. Espero que Enrique fique bem.

–Os médicos falaram que ele pode ou não acordar. – Marcos olhou para baixo e suspirou, tocando o braço incomodado.

–Eu sinto muito querido, não sabia que aquelas prateleiras estavam tão desgastadas. Foi uma tragédia realmente. Mas tudo dará certo, temos que pensar positivo.

Ele concordou.

–Tem razão.

–Claro que tenho, sou sua mãe. Eu sempre tenho razão. –Ela riu e o abraçou. –Vamos.

Eles saíram pela porta da frente ao que a mulher trancava a entrada e acompanhava o filho até o carro. Antes que ele entrasse, no entanto, Olivia apareceu timidamente na calçada, acenando. O pai de Marcos apontou, ajeitando o cinto e sorrindo travesso.

–Vá se despedir dela, filho. Podemos esperar.

O menino hesitou por um segundo antes de concordar e ir até a garota, olhando-a por instantes e sorrindo ao ver o skate de volta aos seus braços.

–Aparentemente seu plano deu certo. – Ela murmurou tocando o braço e olhando para o chão. –Você vai sair da cidade e encontrar seu irmão.

–É.

–Ainda não acredito que você tocou aquele vinil e colocou todos nós em risco, somente para ter o que queria.

–Crowley estava certo, sabe? Desejos são poderosos. E eu fiz o meu e tudo se encaminhou. – Ele hesitou, dando um passo na direção dela. –Sobre Enrique...

–Eu sei, algumas prateleiras desabaram em cima dele quando ele tentou lhe impedir. Acertaram na cabeça. 

–Foi.

Olivia levou uma mão ao rosto para se proteger do sol.

–A mãe dele está um caos. Pior do que era, voltou a beber. Eu não sei como vão pagar as contas e... – Ela se interrompeu e suspirou. –Como pode fazer isso? Rique era seu amigo.

–Eu não tive culpa, Oli. Foi a cidade. Ela quase me matou e por algum motivo fez o mesmo com ele. 

A garota não respondeu, fazendo uma careta ao que olhava ao redor. Um arrepio a fez concordar.

–Eu acredito em você.

Marcos deu um sorriso fino, suspirando.

–E seu pente?

–Ele sumiu da fonte, acho que alguém pegou. É melhor assim, não gostei do que aquilo fez comigo. 

–Concordo, eu te acho perfeita.

Ela olhou-o nos olhos. 

–Acho que isso é um adeus, então.

–Sim.

Hesitaram por um instante até a menina se inclinar e beijar-lhe suavemente os lábios. 

–Até nunca mais. – Sussurrou, dando-lhe depois as costas e indo embora sem olhar para trás. 

Marcos ficou parado, vendo-a partir de maneira abobalhada até que seu pai buzinou. Imediatamente ele se virou e voltou para o carro, entrando e colocando o cinto, não escondendo o sorriso no rosto.

–Podemos ir?

–Podemos.

Ele tirou o discman da mochila e o colocou no colo.

–Ah, querido, conseguiu levar o presente para o Enrique mais cedo?

–Sim.

–Aquele era um apanhador de sonhos bem bonito, onde o achou?

–Ah, em uma loja qualquer. A vendedora foi bem simpática e me deu ele sem cobrar nada. Achei que Enrique fosse gostar. – O menino afastou o pente escondido na bolsa e tirou um CD de Nirvana, fazendo uma careta e jogando-o para o lado. Tirou então um de Iron Maiden e colocou-o na máquina, botando os fones e aumentando o volume.

–Me sinto tão mal por ele.

–Não sinta. Enrique teria feito qualquer coisa para sair daquela vida.

Ele espiou a cidade pela janela, estalando os dedos enquanto via a paisagem mudar e os prédios desaparecerem a cada quilômetro percorrido. É, definitivamente Lugar Nenhum sabia bem quem devia ficar e quem devia partir.



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