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O livro maldito
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O livro maldito
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Há meses venho lendo esse livro. Suas páginas, amareladas e escritas à mão em uma letra bastante errática, guarda segredos terríveis que talvez não devessem ter sido escritos. Não tenho certeza de como ele veio parar em minhas mãos, ou mesmo quem o escreveu e quando. Seu conteúdo é macabro, abominável e repulsivo. Mas agora, em meu atual estado, acho que nele pode estar a minha única salvação.

Tudo o que eu sei é que sofro de uma grave enfermidade. Ela começou faz alguns anos, e vem gradual e dolorosamente progredindo sobre o meu corpo. Iniciou-se como uma enxaqueca, e com o tempo começaram a aparecer os tremores nas mãos e os outros sintomas. Desde então, meu estado tem piorado. Tenho fortes dores no peito e na minha cabeça, e minha visão turva. Manchas aparecem pela minha pele, sumindo pouco dias depois, enquanto sinto tonturas e fraqueza. Às vezes sou acometido por uma febre aguda, sempre acompanhada de dores musculares muito fortes.

Os médicos, mesmo os melhores da região, não conseguiam descobrir a causa da doença ou como curá-la. Tentei vários tratamentos diferentes, mas a doença não parecia ceder. E enquanto ia de médico em médico, minhas esperanças aos poucos iam se acabando. Senti-me desesperadamente fadado a uma morte lenta e angustiante.

Com o fracasso dos médicos, comecei a procurar por mim mesmo as respostas que os médicos não encontravam. Eu sentia a doença progredindo, e o desespero me fez mergulhar mais fundo nos livros. E gradualmente fui me isolando do mundo, me dedicando cada vez mais ao meu misterioso enigma. Afastei-me dos amigos, um por um, e aos poucos minha família começou a me deixar de lado. 

Quando dei por mim, passava dias inteiros numa grande biblioteca próxima, onde empregados contratados pelos meus familiares me traziam comida. Às vezes até mesmo dormia lá, passando dias inteiros seguidos sem ver diretamente a luz do Sol, enquanto minhas dores pareciam aumentar. Tornei-me um conhecedor de muitas ciências naturais e da medicina convencional, mas minhas perguntas não pareciam ser respondidas por esses conhecimentos.

E, dos livros convencionais, que pouco ou nada podiam ajudar a me aliviar do mal que trazia comigo, comecei a procurar alternativas não convencionais. De medicinas alternativas, passei a ler também sobre artes proibidas, na ânsia de encontrar alguma resposta para o meu problema. Lia com afinco, livro após livro, dia e noite, buscando por respostas. Pedia dinheiro à minha família para que a biblioteca adquirisse mais exemplares, que devorava prontamente. Mas, por mais fundo que fosse, eu simplesmente não conseguia encontrar as respostas que estava procurando.

Até que o encontrei.

Não consigo explicar como cheguei até ele, se é que cheguei. Às vezes penso que, na verdade, ele veio até mim de alguma forma. Minha lembrança mais antiga e lúcida sobre suas páginas é ter acordado um dia, na biblioteca (havia mandado instalar lá minha cama e escrivaninha), e lá estava, em cima das minhas coisas! Estava lá, de capa dura (couro) e escura, de aparência velha, escrito à mão em um estranho dialeto.

Isso despertou minha curiosidade. O livro conquistou a minha atenção, e logo comecei a tentar decifrá-lo. A princípio, foi um pouco difícil: o autor (anônimo, por sinal) escrevia de modo muito confuso, variando formas de escrita, tempos verbais, conceitos,... Tudo variava e se alternava, quase aleatoriamente. Era como se fossem vários autores e um ao mesmo tempo. Mas, depois de certo tempo decifrando-o (uma semana ou duas, creio) comecei a me acostumar com a escrita, e tive a oportunidade de apreender seu conteúdo. Foi quando tudo mudou de figura.

O livro parecia tratar sobre assuntos arcanos. Magia. Mas de uma forma diferente do que eu jamais havia visto. Usava algumas fórmulas matemáticas complexas, que pareciam ter sido escritas usando alguma lógica que me era totalmente incognoscível. Falava sobre a alteração de estados de consciência, manipulação de memórias e, se entendi corretamente, sustentação do corpo pela vontade. Ao mesmo tempo, falava sobre a degeneração da mente na busca de estados mais “perfeitos” de existência, sobre a imposição (ou “corrupção”, como ele chama) de uma consciência mais poderosa e “perfeita” sobre as outras, destruindo sua individualidade em prol de uma forma mais plena de compreensão da realidade.

Aquilo era perturbador, e sua mera existência era ofensiva a tudo de bom e decente. Não era como os livros de magia que eu havia lido, inofensivos e um pouco ingênuos demais. Era uma proposta real de como corromper o nosso mundo para criar uma nova versão, doentia e perturbada das coisas.

Porém, por mais repulsivo que fosse, não consegui parar de ler. Por algum motivo, enquanto tentava decifrá-lo, eu senti uma intuição sombria em minha mente, me ajudando. Como se fosse um sussurro, me dizendo que devia continuar naquele trabalho. E, quando comecei a ler seu conteúdo, percebi minhas dores se distanciando. Não conseguia explicar. Meu corpo estava ficando cada vez mais fraco, mas as dores pareciam adormecer e ceder diante da leitura de suas páginas. E isso me fez continuar a leitura com cada vez mais afinco.

Após boa parte do livro decifrado e compreendido, comecei a reavaliar. Minhas hipóteses iniciais estavam incorretas. Não eram vários autores. Era uma mente só. Uma só mente, talvez fragmentada pelo peso do conhecimento que carregava. Uma mente ao mesmo tempo insana e, talvez, mais lúcida do que qualquer outra viva. E uma mente que passou pela mesma angústia que agora passo.

Agora, cheguei a um impasse. Estou terminando de decifrar a fórmula. É bastante complexa, mas essa lógica insana, praticamente alienígena para mim, está aos poucos se desabrochando. Estou lentamente começando a assimilar a distorção desses escritos, e acho que concluirei a tarefa em não muito tempo.

 Todavia, para isso, preciso traduzir e compreender a chave da mesma. Se eu entendi certo, trata-se uma palavra. Uma palavra cuja compreensão bastará para que todas as promessas do livro se cumpram. Uma palavra que destruirá o mundo como nós conhecemos, e trará uma nova era, a partir de uma compreensão mais profunda e aberrante. Uma palavra que poderá me livrar da prisão de meu corpo cada vez mais decrépito rumo à transcendência, mas que poderá, no processo, destruir ou distorcer tudo o que existe. Uma palavra. Uma palavra para me salvar. Uma palavra, um novo mundo, uma nova realidade.

Há três dias eu penso nisso. Não durmo a noite, e como cada vez menos. Tenho tido pesadelos, e acordo gritando palavras que não sei a origem ou o significado. Sinto minha doença lentamente fazendo seu caminho de volta. Minha visão turva novamente, as dores estão começando a aparecer de novo. Tenho tido hemorragias internas, e vomitado sangue. Talvez não consiga resistir muito mais, e isso me desespera. Tenho medo. Não quero morrer. Não assim. Não agora.

Mas concluir o livro parece algo tão horrível… Se for verdade, e a cada dia tenho mais certeza de que é, isso corromperia as bases da realidade de forma irreparável, distorcendo a toda a existência como a conhecemos. Seria como o fim de tudo. Não faço ideia de como seria, ou do que aconteceria.

Eu não sei o que fazer. Não sei se sigo em frente, condenando talvez toda a existência a uma corrupção indizível, ou se paro o que estou fazendo, condenando o meu corpo à minha enfermidade, que provavelmente me ceifará a vida. Queria que houvesse uma terceira alternativa. Porém, se existe, não consigo vê-la.

O mundo está acabando. A cada dia a angústia dessa escolha me consome, me trazendo lágrimas aos olhos. Estou desesperado. Vejo o tempo que me resta se esvair, e não sei o que fazer. Preciso de ajuda, e não acho que isso seja possível. Estou com muito medo. E ele me paralisa.

Mas não é só o medo de morrer que sinto no peito. Não é o medo de, ao cruzar os portões cinzentos no limiar da minha vida, não haja nada. Que minha existência tenha sido em vão. Não é o medo de que minha consciência se encerre após meu último suspiro que me paralisa.

Tenho esse medo, é verdade. Porém, após compreender parte do conteúdo daquele livro maldito, sei que, no fundo, seria preferível. Seria quase como um conforto deixar de existir quando morresse.

Meu grande medo é o desconhecido.

É isso que me deixa à inação. Eu tenho medo do mundo que apreendi. Medo daquilo que não é como o que acreditamos existir. Medo do que ronda pelas sombras da nossa realidade, rastejando pelas brechas de nossas consciências, sussurrando blasfêmias de uma insanidade pervertida quando não estamos atentos. Medo de coisas indizíveis, horríveis demais para conseguir sequer conceber, pairando a nossa volta, e que apenas vislumbrei de relance em meus pesadelos, mas que não me permitem mais ver a vida bela e aprazível.

Eu tenho medo da loucura. Medo de que, após ver as coisas que  vislumbrei, tenha condenado a minha sanidade irremediavelmente. Ouço sussurros. Sussurros inexprimíveis, que me prometem perversões odientas à minha humanidade. E não sei até onde são fruto dos recônditos frios e escuros de minha mente, e até onde são… algo mais. 

Há coisas que não deveriam nunca ser vistas por olhos mortais. Uma compreensão tão abominável me faz perceber o quão ínfima e medíocre é a humanidade diante do Universo, como um grão de poeira ao vento, incapaz de compreender os reais horrores que permeiam o tecido dessa realidade. Eu tenho medo das coisas que descobri nele, cujo entendimento só tive uma mera centelha. Tenho medo de não suportar o peso disso em minha mente.

E há o livro, que odeio. Não pela profanação abjeta escrita em suas páginas, repugnante a cada parágrafo e letra, mas por me mostrar os horrores que o mundo realmente guarda em si. Eu o odeio pela violação de minha inocência. Eu o odeio pela ferida incurável deixada em minha sanidade, e por saber que eu nunca mais serei capaz de voltar a ser como era. Eu o odeio por sua promessa de salvação vir acompanhada da certeza de obliteração de tudo o que há e conheço.

E, diante desse ódio e temor, estou, inusitadamente, atraído. Repúdio mas, ao mesmo tempo, almejo a realização de suas promessas blasfemas. Odeio a mim mesmo por isso. Meu tempo no mundo está se acabando, e a inação toma conta.

Quanto tempo mais poderei resistir? Eu não sei.

Tenho medo. Por favor, me ajude.


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