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O labirinto de Agonistes
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O labirinto de Agonistes
Áudio drama
O labirinto de Agonistes
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

E, no entanto, o odor acre e pútrido da corrupção também aqui estava presente.

Alguns móveis estavam lascados, os seus embutidos e nacarados partidos, os

tapetes que desfiavam e o estuque invadido pela percolante mancha de uma humidade

de décadas, marmoreando-se num intrincado rio negro com os seus canais e

afluentes, descendo até aos tacos do soalho onde o caruncho completara o desenho

deste minucioso dédalo. É certo que no chiaroscuro da luz ou ausência dela, com a

habilidade de uma sabedoria antiga, os donos mitigavam os estragos deste palacete.

Todavia, assim apenas se obviava a hipótese de descuido: quem trafica com a sombra

para esconder as mazelas é porque não pode restaurar o imaculado apogeu da prosperidade.

Não querendo lançar deslustre sobre esta venerável casa há também um

fascínio no mofo que é aquele da vida que nos desgasta a carcaça e que a insufla da vitalidade

orgânica da queda destinada a todos os corpos. Também uma mansão como

esta respira com aquilo que, em permanência, está conspirando para a dor de existir.

Todo o pormenor é sempre um perigo e foi a curiosidade dele que, antes de

mais, o levou a seguir a fissura, primeiro, no tecto, depois, na parede, cuja estrutura

irisada subia por uma pequena e serpenteante escada para vir desaguar num corredor

mais escuro e menos povoado de carpetes e reposteiros do que as passagens e aposentos

mais nobres mas que, pelo contrário, descobre o esqueleto fundamental do

edifício, nu da maquilhagem de pompa e mármores. Aí, talvez, uma porta que encobre

uma outra escada, também essencial mas agora descendente. São íngremes estes

degraus. Rangem com o timbre nauseante da madeira apodrecida. O bolor permeia

estes recessos, adensando-lhes a penumbra. Ainda assim, para baixo, por via torta

no intestino desta mole de pedra e cal e onde os olhos não alcançam, às apalpadelas.

Uma luminosidade nimbada aguarda o fim desta primeira descida onde o luar

cálido da noite amena parece ainda conseguir penetrar, sabe-se lá por que fissuras.

Assim, por um corredor ainda mais estreito, opressivo, horizontal, fundo. E

ao sentir o peso da terra sente também uma restolhada, embaixo. O rumor frenético

da vida vegetativa na semi-luz das coisas, insectos, roedores, até serpentes que,

pressentindo já o distúrbio no seu mundo cego de líquenes, se escondem nos seus

interstícios, recuando da escuridão mitigada para a treva absoluta.

Não lhe demovem a ventura, porém, de continuar o percurso, constrito pelas

paredes maciças cuja caliça se esboroa ao toque, na bizarra fosforescência da sua

purulenta textura.

Dir-se-ia até, Agonistes, que degrau a degrau se te estreita o caminho.

Cada vez mais abaixo. Pensou que não lhe encontraria o fim. O peso das pare-

des, das toneladas de solo que se interpunham até à superfície, tornavam tão denso o

ar que se sufocava. Mas ele, inalterado, continuou. Tinha de ver até onde podia ir. E,

o que era mais interessante, ultrapassava diversos estratos, diversos tempos de construção

destes túneis, destas passagens, por vezes, improvisadas e, outras, adornadas

de abóbadas de tijolo vermelho, colunas e até arabescos como se estas caves tivessem

sido construídas para habitação e com esplendor. Que contraste este da esquizofrenia

dos séculos. Depois de um arco finamente trabalhado vinha uma secção onde mal

cabia um homem. Passando uma porta carcomida pelo tempo e cravejada de fungos,

uma galeria ampla e arejada e, noutra direcção, um ar seco onde, por estagnação e

novamente a custo, se respirava. Sim, desse modo podia saber, mais ou menos, em

que zona da cidade estaria: mais perto do rio ou do mar, consoante o salitre escorria

das paredes ou apenas a emanação insalubre das lamas do leito do rio que, muito

acima, se conseguiram infiltrar esculpindo sempre as suas figuras negras de pesadelo,

absurdas e extravagantes, por todo o lado e até aos tectos inacessíveis. Pelo contrário,

quando toda a pedraria estava ressequida, sabia que se desviava das zonas irrigadas

passando através do núcleo calcário da cidade.

Há quanto tempo estava neste Amazonas doméstico? Não tinha modo de saber.

Devia ter trazido o relógio, isso era evidente, mesmo que à pouca luz do isqueiro

com que iluminava o caminho não fosse tarefa fácil distinguir os dígitos e os ponteiros

no seu velho cebola. Não interessava. Fascinava-o a descoberta. Nem sequer o

preocupava a possibilidade, sempre perigosa, de se perder nesta vastidão subterrânea

de túneis e passagem e vãos e escadarias e rampas e celas e galerias e poços e precárias

escadas esculpidas na rocha. Ou será que era a mente que ampliava este rizoma que

contaminava a cidade? Afinal, poder-se-ia, talvez, perceber porque existia: as fomes

e guerras e contrabandos vários foram erigindo esta catedral às avessas, para baixo,

sempre para baixo ou, ao invés, isto não fosse uma vasta catedral mas modesta ermida,

ampliada no seu espírito pela desorientação frenética da descoberta. Já esquecido

da festa, lá em cima, só lhe interessava continuar.

Descer é função e faz-se caminho andando. Descer é missão mas já se não

lembra de quê. O que espera encontrar? O que irá encontrar se é que haverá algo

para encontrar? Se término haverá para esta descida, para este deambular a esmo

ou se, a dado momento, já tanto desceu que depois começará a subir, o que não é

mais do que a mesma descida, em direcção à saída, a uma civilização toda outra, com

vastas extensões planas de ar limpo e fresco e oloroso, com uma luz que tudo beija e

que é tão brilhante que se a não pode olhar de frente. Porque foram transfigurados

— as coisas e ele — por esta jornada, pelas geometrias reversas do submundo, onde

as coordenadas do espaço e do tempo de tal maneira se confundem que a viagem,

parecendo durar uma vida, teve o lapso do breve instante e, achando que alcançou

as goelas da terra, não mais chegou que ao limite inferior desta sua bela e estranha

cidade de Cárpato-Nova. Percorre estas galerias desalvorado porque não há modo de

manter uma rota neste produto da esquizofrenia dos séculos, do absurdo arquitectónico

e do despudor estético. Sempre a mesma repetição. A uma pequena divisão,

minúscula e poeirenta, sucede-se um salão subterrâneo em tudo semelhante a qualquer

construção elegante não fora a ausência de janelas, o ar bafiento decantado pelas

ranhuras da pedra e as portas sem saída que abriam para uma parede sólida. Noutro

local, talvez logo a seguir, talvez muitos quilómetros depois, uma passagem tão baixa

que teria de gatinhar, sujando as calças do seu melhor fato e cortando as mãos na

gravilha afiada. Não, não era fácil percorrer este formigueiro erguido por mão humana

se bem que segundo os delírios dos vários construtores que se decidiram a usar

do seu talento e esforço, não para maravilharem os concidadãos mas para erigirem

um laborioso monumento desconhecido, ao sabor da necessidade mas, por vezes

como vamos constatando ao andarmos a par com este Agonistes, com indústria e

com gozo, adornando e esculpindo, tendo o cuidado da harmoniosa proporção ou

demonstrando aquela ambiciosa alegria da arte, para a qual não lhe chega o recato do

que é meramente funcional.

A confusão transformava-lhe os passos numa geometria demencial. Perdendo-

se a orientação, pelo efeito de se adentrar no desconhecido, cada nova curva foi

como um abismo onde se experimenta a vertigem e a aceleração dela pois consome

a memória, ainda que recentíssima, do percurso e nos faz entrar no pleno efeito da

queda que é da ordem do irreversível. Quando se começa a cair, mais e mais depressa

se cai e jamais se recua. E só mais fundo se irá, só mais caleidoscópica se turva a visão

do caídor, só mais se deseja que não acabe esse descer que o chão é duro e mutila

e a velocidade inebria, só mais se deseja o fim porque a ansiedade se acumula na

igual proporção da vertigem. Mesmo assim, em alguns trechos, foi-lhe evidente a

topografia arquitectónica da superfície. O grande túnel direito e abobadado existia

por baixo da larga avenida que rasgava a cidade e descia com ela, num suave declive

sempre em direcção ao rio, o ponto focal desta pólis que durante tanto tempo foi

esquecido. Ou uma secção mais caótica, claramente improvisada que espelhava, fiel,

o atabalhoado traçado dos bairros antigos desta urbe milenar. Poder-se-ia quase recontar

o seu percurso através das vicissitudes históricas deste outro mundo discreto,

escondido debaixo dos pés de todos, por comparação com o que lá em cima foi o

românico, o maneirista, o barroco, o moderno. E alguns sítios beneficiavam até de

uma instalação rudimentar de luz eléctrica que mais escondendo do que iluminando

era, não obstante, um símbolo do progresso que também aqui tinha chegado.

Tudo se confunde com tudo. Ele confundia-se com tudo. O seu ser, a identidade

mesma que o distingue do cosmo, no delírio de aqui andar perdido tornou-se

indiscernível deste pulular de câmaras e corredores, de corredores e câmaras que,

acreditava, respiram e se multiplicam como um grande dilatar de pulmão. Ou como

rede radicular que esgravata a terra em perpétua expansão, para os lados, em direcção

aos arrabaldes, para baixo, em direcção ao inferno. Os seus olhos já se tinham habituado

à ausência da luz, o seu corpo sentia a pressão do que estava por cima como um

aconchego e protecção maternais. Ágil, percorre em marcha célere, quase em corrida,

com uma naturalidade de céu aberto, essa geografia doida. Alienatio mentis. É a

benevolência do corpo que leva da asfixia ao êxtase. Por isso a sua consciência está

noutro sítio, um habitat interior de memórias e sensações. E, esquecendo-se do que

é, de visões. Um caleidoscópio de luz antiga coalescendo naquele momento quando,

outrora, passeava com o pai à beira-rio. Sim, todos os que morreram, afinal, lhe

aparecem, ainda vivos, recuperados para este tempo sem hora não só para a vida mas

exumados, num instante de síntese, na sua máxima plenitude. Podia, então, dialogar

com eles «pai, há quanto te não via? Agora, posso finalmente dizer-te quem sou, em

quem me tornei. Posso também falar-te nas mágoas e remorso imensos de tantas

ocasiões perdidas. Sei que querias que fizesse algo de grande, de importante para o

mundo mas resguardei-me numa esfera radicalmente privada e íntima. Irrelevante,

sou quase invisível, de tal modo passo desapercebido na multidão. E fui cego, cego

para o amor. Não tenho filhos. A tua linhagem acabará comigo. E os meus irmãos?

Não creio que produzam descendência. Espalhados pelo mundo não lhes auguro

nada de bom. Estou cansado. Estou cansado de andar às voltas. Desorientado. Cerrado

na minha desilusão não sei o que é o horizonte. Tantas vezes comecei tantas

coisas que não deram em nada. Tantas vezes recomecei e caí e voltei a tentar para só,

ainda com mais força, voltar a falhar. Um acontecer-me recorrente, esse do logro,

mas não sei porquê. Que grão haverá em minha engrenagem? Que melancolia, funda

e negra, transporto que me não deixa viver? Sou à parte de todos só pelo sofrimento?

Singular na desorientação? Único na errância? Belo na desdita? Nem isso me

singulariza pois há tantos que sofrem e de penar mais gravoso. Há muitos em plena

agonia e nem por isso desistem. Antes pelo contrário. Perseveram. Sabem enfrentar

as adversidades, o aguilhão da injustiça, como heróis anónimos da sua própria desgraça.

Eu sei que estou muito aquém deles. Quer no que concerne ao fardo que tenho

de transportar, quer na coragem de empreender o esforço. O problema, meu pai, é

outro. Eu não sei. Não sei o que faça ou o que deva deixar acontecer. E mesmo que o

soubesse não saberia, por certo, nem como fazer o que devo nem como aceitar o que

não posso evitar. Bem vês, há muito que estou perdido. Deixei acumularem-se uma

miríade de pequenos traumas, de vários dissabores, a maioria corriqueiros, todavia

que me infectam a memória e pervertem a alegria e que, distorcendo o que quero

e sou, me perdem. Ajuda-me, pai. Tu que sempre soubeste como. Tu que sempre

soubeste querer. Tu que sempre soubeste o quê». «E tu, minha mãe, como és bela.

Lembro-me daquela viagem que fizemos todos e como os dias estavam lindos, os

dias desse Outono quase esquecido de onde só sobressaia o dourado do entardecer e

o teu sorriso, o teu carinho, a tua alegria de levares essa tua tribo por um bosque tão

doce. Deleitoso. E o cheiro de jasmim quando anoitece que invade e perfuma esta

cela onde estou, até agora infecta pelos miasmas da terra que a tua presença exorcizou

». «Faremos, meus pais, depois do reencontro com os meus irmãos com quem

não falo, há anos e anos, com quem talvez nunca falei deveras, novas viagens, ainda

mais prodigiosas. Pois muito mudou e eu também. Tenho estado mais triste e mais

só, abandonado pela energia da juventude e olhando a velhice, o cortejo de pequenos

e grandes incómodos da velhice, sem nunca ter vivido na plenitude. Todavia, se

ficardes comigo, talvez isso pudesse ser diferente. Irei reerguer-me. Terei a vida que

vós sempre quisestes para mim. Serei, finalmente, feliz».

Andou ainda muito antes de ver outra luz, ténue e ainda distante. Mas, ali

está ela, mais à frente. E quando parecia que se aproximava, quando parecia que estava

quase a chegar, um desvão ou um desvio, afastavam-na. Era possível, contudo,

reencontrá-la um pouco depois, com a sua intensidade difusa, com vultos de gente,

com as suas imagens de sombras-chinesas ébrias neste espaço confinado e talvez até

assustador: se havia esta iluminação de lanterna mágica então haverá alguém que a

produz, aqui o Sol não chega, estas galerias não lhe conhecem o esplendor, tudo é tão

cego como os ratos que de olhos vermelhos e baços o observam com outros sentidos

mais eficazes para perscrutar a treva. Pois tal brilho, feérico , era também rubro.

E intenso. Mais e mais intenso enquanto se aproximava. E o rumor, a princípio,

um marulhar de vozes e, depois, juntando-se-lhe o rugido de uma orquestra, talvez

desafinada, talvez distorcida pela arquitectura claustrofóbica destas galerias que ampliando

todos os sons lhe davam tons espectrais, estridentes aos metais, guturais às

cordas e sísmicos aos tambores e bombos.

O que se passaria aqui, a esta profundidade, no mais recôndito âmago, longe

da vista, nesta festa evanescente e derradeira sob luzernas vermelhas que tingiam de

sangue o calor opressivo e mórbido de entranhas e com uma sinfonia cacofónica de

gritos e ritmos tribais?

Não o sabia mas avançando, decidido, iria descobrir.

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