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O Jovem Velho
Áudio drama
O Jovem Velho
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

O conselho tutelar me acusava de sequestro.

Olhei para minha gatinha com prazer. Deitada, sem roupa nenhuma, o sol ainda leve das 07h00 iluminando as coxas firmes. Uma delícia, uma flor pronta para ser roubada.

Os pais dela me adoravam, o diretor da escola me respeitava; só mesmo o governo para pensar que ela não havia vindo de livre e espontânea vontade. “Uma menina de 14 anos é uma criança”, dissera o juiz. Claro que acabei com a argumentação patética dele, citando diversos princípios legais, precedentes judiciais e todo tipo de bobagem jurídica de que já estava cansado.

Estava sentindo o corpo mais estável. A fissura maior sem dúvida era da pedra, mas tinha plena confiança em minha força de vontade para superar o desejo. Era apenas físico e meu domínio mental era imensurável. Em pé e avante, pensei ao levantar da cama de solteiro que dividia com minha namorada.

Era o quarto dia de ressaca. Naquela semana, fiz 18 anos. Depois de um ano e onze meses bebendo pinga, fumando pedra, injetando ou fazendo qualquer coisa que estivesse à disposição, sabia que havia chegado a hora de parar.

Cansado? Naquele corpo? Apenas um vício de linguagem. Havia quase dois anos não sentia preguiça, exaustão, incapacidade. Era um touro, e teria tudo o que quisesse.

A vista incrível que tinha do Rio de Janeiro era muito melhor da favela do que da mansão. Uma pena que o quarto era pequeno.

— Adoro quando fica olhando pela janela assim, Leo. — Jandira acordou. — Lembra meu bisavô. 

A criatura é burra como um lagarto, incapaz de aprender matemática ou qualquer tipo de ciência, porém se prestava a dar sinais de ternura.

— Dormiu bem, mocinha?

— Sim, mocinho. — ela responde, divertida. Abre as pernas, convidando. 

Amo o corpo da garota, só não suporto a cabeça. Não passa mesmo de uma criança com um corpo bem-desenvolvido.

— Preciso ir.

— Vai procurar emprego? — pergunta como que dizendo: e nem um minuto pra mim?

— Acho que vão me contratar naquela de tecnologia. Tem a cota dos 18.

Jandira corre para o banheiro, sei lá o porquê. Criança chata.

Puxo de debaixo da cama uma mala, e de dentro um terno completo. Deveria estar tão drogado quando comprei que não conseguia lembrar há quanto tempo aquilo estava ali. Porém, lembrava bem, agora com as ideias mais limpas, o que havia combinado com Peter, meu homem de confiança.

— Chegando perto do final do prazo da transferência, vou ser o único a ir de terno. Me contrate como motorista e passe todas as senhas atualizadas.

Precisava ter livre acesso à mansão para chegar no meu corpo de velho e, enfim, matar a mim mesmo. Tinha sido um dos criadores da transferência de consciência corpórea. Isso me garantiu uma bela fortuna, os contatos políticos, abriu todas as portas. Quarenta anos atrás. Em pouco tempo, passei de herói a vilão. O meu sistema foi considerado antiético, um elixir da vida eterna para os mais ricos. Limitaram o acesso à tecnologia revolucionária que possibilita a troca da mente de um indivíduo para outro.

Uma ideia foi limitar o período de tempo da transferência para que não fosse permanente. Estabeleceu-se um limite de dois anos, então automaticamente a troca era desfeita. A melhor inteligência artificial garantia o bom uso, o uso correto da aparelhagem. Os custos, claro, permaneceram altíssimos. Testes psicológicos eram aplicados nos dois interessados. Transgêneros que queriam trocar de sexo podiam experimentar a vida no corpo de outro antes de recorrer à intervenção cirúrgica; jogadores aposentados podiam ficar mais um tempo na ativa, controlando outro corpo e, principalmente, velhos podiam ganhar mais dois anos de juventude, em um novo corpo.

Além da limitação temporal, foi proibida a transferência para mais de um corpo. Era uma experiência única, e só poderia ser realizada uma vez. Com o tempo, abusos foram se tornando frequentes. Descobria-se meios para burlar os sistemas e cada vez mais jovens perdiam a vida em corpos decrépitos. Com o mal-estar social se agravando, a prática tornou-se ilegal.

Eu, doutor Ennio, italiano exemplar, passei a ser um pária indesejado em meu próprio país. Quarenta anos passaram rápido nas praias de um país considerado aberto e pluralista, ainda assim berço de uma forte igreja moralista e defensora de ideais abandonados. Sem apoio da comunidade internacional, minha fortuna foi-se reduzindo. Minha bela esposa, uma alegre miss Itália, de jovem iluminada passou a senhora tímida e inexpressiva, beata frequentadora de paróquias esquecidas.

A invenção de Ennio, meu eu envelhecido, se manteve na berlinda da sociedade. Apesar de proibida, a prática era comum. Pagava-se bem a um jovem que ficaria inconsciente no corpo de um idoso, enquanto este ficaria aproveitando algum tempo a mais a energia de antigamente.

Estando ameaçado por uma doença terminal, Peter me ofereceu ajuda. O pagamento para a família de Leonardo era pequeno, mas Peter cobrou caro para ser o intermediário.

Aproveitei os dois anos para fazer coisas que nunca havia tido a oportunidade de fazer, e que noventa anos antes nem estariam disponíveis. De Ennio, passei a ser Leonardo. 

Então, chegou o dia. Desci a favela e peguei o ônibus, ouvindo piadas de que havia virado pastor, o que me divertia muito. Afinal de contas, era conhecido por ter me transformado de adolescente chato e inconsequente para ser um inconsequente inteligente. Ajudei a organizar o tráfico enquanto abusava de tudo que podia, sem contar que passei a ser um excelente aluno. Mesmo com muitas ausências, conclui o básico e fui para o médio rapidamente. Vendia algumas coisas para professores usarem depois das aulas e fumava com os colegas. Era uma boa vida. O conhecimento passado nas aulas era tão supérfluo que podia fazer qualquer teste tendo tomado um LSD.

Havia elaborado o plano com cuidado. Passar dois anos aproveitando, matar o meu corpo de velho e depois transferir a mente da esposa para sua namoradinha e acabar de vez com a velhice em suas vidas.

***

Dirigia a limusine sob a forte chuva. Algumas ruas alagadas, a visão na tela turva. O dia havia passado rapidamente, e meu plano estava para se concretizar. Sentia um misto de alegria e verdadeiro pavor. Era uma criança pronta para receber o presente que tanto aguardava.

No portão da mansão, dei entrada com a senha que Peter me forneceu. Minha mão suava no momento em que apertei os botões antigos e ensebados do controle. O gradil tomado de um mato descontrolado parecia não ter sido aberto para ninguém nos últimos anos. Olhei novamente para o controle, e então o ruído do motor invadiu o silêncio da propriedade, cada aba do portão se afastando sem pressa, revelando o lúgubre caminho de pedras que conduzia até a casa principal. Percorri sem pressa o caminho. Peter havia garantido que não havia mais funcionário algum trabalhando.

Era curioso, mas não sentia falta daquele lugar. Realmente, seu aspecto era de abandono e descaso, e a possível beleza da mata nativa estava apagada pela falta de luz que a chuva trazia.

Ao fazer a curva e me posicionar na frente da residência, eu a vi. Uma senhorinha observando o carro com curiosidade. Encurvada atrás da chuva, solitária.

Desci do carro e me aproximei. “Aproveite”, foi a última coisa que lhe disse antes da troca de corpos. Queria avançar sobre ela, enchê-la de beijos, tudo. Apesar da idade, era bela, atraente. 

— Laetitia.

— Sim — respondeu, desconfiada. 

— Sou eu. Ennio. — Tinha pressa. Ela deu um passo para trás. O sorriso amplo com que chegara começava a se desfazer. Não era a reação que esperava. — Não acredita?

— Acredito, sim. O meu, o nosso mordomo me contou que era um negro. No fundo, talvez, não quis acreditar... — Ela analisa, procurando algum traço de seu antigo marido.

— Mas sou eu, aqui. Venha comigo.

Ela me deu as costas, sem ao menos um beijo, um sinal de alegria. Imaginava que devia mesmo ser estranho ver um velho naquele corpo jovem, mas tinha certeza de que logo ela aceitaria os fatos. Segui-a para dentro da casa. Percebi que os móveis estavam cobertos por lençóis, que não havia luz.

De repente, um baque. Desabei no chão. Coloquei a mão na nuca, sentindo que escapava sangue.

A velha me encarava com desgosto. Peter surgiu, um porrete em riste que descia sobre meu jovem rosto.

Agora, acordo de súbito num espasmo. O barulho da chuva continua, e cada gota que cai faz minha cabeça latejar. O som se transforma em passos indo e vindo. A visão se ajusta. É meia-noite em um relógio antigo na minha frente. Só consigo manter um dos olhos abertos.

— Nosso brasileirinho está acordando.

Meus pulsos estão presos a uma cadeira, agora percebo.

Um tapa vigoroso me desperta de vez.

Estou em minha antiga sala de inspiração portuguesa. No sofá, em minha frente, senta Laetitia. Em pé, Peter parece cambalear de um lado para o outro, um copo na mão, bêbado.

— Acordou. Deixe o menino em paz. Coitado, não tem culpa de nada. — A senhora fala.

— Se não fosse ele, seria outro. Muito ouvi essa conversa, querida. — Peter caminha pela sala.

— O que está acontecendo? — pergunto. Minha voz sai sem forças.

— Você é mesmo um imbecil. É só isso que está acontecendo. Achou que ia chegar aqui e viver mais uma vida? E daqui cinquenta anos achar outro otário para seguir em frente? Quer viver para sempre?

— Talvez...

— Você não é o primeiro, nem será o último. — Laetitia se intromete. — Sabemos o que é envelhecer, Ennio. Nós crescemos juntos. Tivemos nosso tempo, agora é hora de ir.

— Morrer, você quer dizer? Meu amor, eu vim te buscar. Arrumei uma menina que também vai aceitar fazer a transferência para o seu corpo. Nós dois vamos ficar juntos de novo. Ter mais filhos, viajar mais...

— Isso é o culto à juventude. Eu sentia isso dentro de mim. Fui uma mulher belíssima, mas agora as pessoas não querem nem chegar aos quarenta. Os que podem, prendem crianças em porões apenas para em alguns anos serem jovens mais uma vez.

— Laetitia, do que está falando? Não vamos fazer uma coisa dessas...

— Então, veio fazer o que aqui, velhote? — Peter ameaça com o punho fechado no ar. — Veio matar um jovem que está preso em um corpo decrépito.

— Essas conversas tive com grandes pensadores do mundo inteiro, nada mudou.

Tudo mudou. As coisas não param de piorar. A tecnologia está nos transformando em monstros. — Peter aperta um botão, e uma tela aparece na parede da sala. Imagens de mim na favela, de publicações on-line que eu fiz, vídeos meus que imaginara serem privados: dormindo, acordado, fumando, bebendo.

— Acompanhei tudo o que fez para esse jovem. Abusou do corpo dele, da boa vontade, dos laços familiares que ele tinha, tudo. E isso para satisfazer seu ego, suas necessidades fisiológicas.

— Laetitia, você nunca falou assim...

— Você nunca quis me ouvir, é diferente. Mas realmente foi meu querido Peter quem me abriu os olhos.

O empregado se aproxima e beija os lábios da minha esposa. Ele deve ter seus cinquenta anos, possui certamente algum charme, mas não é comparável a mim mesmo.

— Desde quando? — pergunto.

— Há quanto tempo nos conhecemos?

Fico desnorteado. Como não havia percebido? O quanto realmente era autocentrado? Acreditava que a esposa era tudo e que o sentimento era recíproco. Ledo engano. Tinha um par de chifres tão grande que não sabia como cabia na minha cabeça.

— E agora? Vão me deixar preso nesta cadeira?

— Só por alguns dias. Até seu tempo acabar e tudo voltar ao normal. — Peter serve mais bebida. — Mas não vou deixar de alertar você do melhor, digo, do pior. — Dança consigo mesmo, recheado de prazer. — Lá, deitado na outra sala, seu velho conhecido, um corpo decrépito, está aguardando por você, tremendo, babando, apodrecido, todo, todo seu. Achou que nós dois íamos ficar cuidando de um pedaço de carne morta? Nem pensar.

A velha balança a cabeça, ressentida. 

— Imaginei que ia querer isso. Você sabe como é. Quando alguém volta, sempre pede para morrer. Engraçado como é comum. Apenas mantivemos você minimamente alimentado.

Precisava achar uma saída. Começo a olhar a sala, vasculhar a memória. Tem de haver um jeito.

— Sua vaca velha tenebrosa — começo. — Tem razão. Não soube envelhecer. Não aguentou as tetas pesando e depois indo pro chão. Hoje, é uma velhota inteirona, cheia de plásticas. O que é ficar velho desse jeito, tendo acesso a tudo do bom e do melhor, depois de uma vida sem trabalho...

— Eu trabalhei muito. Todos acham que a vida de uma modelo é uma coisa simples, fácil. Mas não. É uma vida cruel. Hoje, sei que fui abusada. Todas as câmeras em cima do meu corpo. E a minha mente? — Ela caminha de um lado para o outro, nervosa.

— Que mente? Eu fui o seu cérebro. O cientista e a modelo, que piada. Nossos filhos nasceram com o meu corpo e com a sua cabeça, são uns imbecis.

Quero falar tudo o que posso para que ela tenha um acesso nervoso, que desmaie e caia. Laetitia parece cada vez mais tensa, piorando sob o olhar inquieto do amante.

Peter sorri quando olha para o relógio de pulso, e imediatamente sei o que vai acontecer. Minha voz desvanece, e sou acometido de um relaxamento profundo.

É pior do que imaginava. Uma náusea terrível me domina no retorno para meu antigo corpo. Estirado em uma cama, sentindo fome e falta de ar. Sinto que fui abandonado, mantido à míngua por aquele casal sádico. Não tenho forças para me debater ou pedir por ajuda. Imagino o alívio do jovem que saiu dali. A dupla o cumprimentando por seu heroísmo, dizendo o quanto eu fui um insensato, um velho asqueroso.

Pronto para morrer no desprezo da própria família, no esquecimento da sociedade e no vazio do sentimento de uma vida ingrata. Ali, sozinho e agonizando, não encontro palavras que consolem minha alma. “Aproveitei!”, poderia bradar. Porém, vivi apenas para descobrir que não há redenção para os que querem burlar a morte.


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