Conto

O incidente de Guaraçu do Oeste

Muitos acreditam que nada pode mudar a rotina de uma pequena cidade. Poucos começaram a acreditar após a passagem de um certo circo.

Giovana Mazaro
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O incidente de Guaraçu do Oeste
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

***Recorte do jornal Notícias Populares de Guaraçu do Oeste (06/08/1988)***

Assassinatos em família tradicional comovem os munícipes de Guaraçu do Oeste.

Segundo o Capitão Aluísio Rezende (31), da Guarda Municipal de Guaraçu do Oeste, Célia Reginaldo Rezende (31) fora a responsável pelos assassinatos de Afonso Geraldo Rezende (37) e Telma Aparecida Rezende (60) neste último final-de-semana. Em meio a comoção do velório, esse declarou “estar em choque e não acreditar que sua família fora desfeita por alguém tão amável como sua cunhada”. O Cabo Eduardo Silvério (28), que estava presente na abordagem da assassina, contou que Célia estava visivelmente perturbada, e tentou reagir a abordagem dos policiais enquanto tentava fugir da cena do crime. Sobre o motivo de tamanha crueldade, as autoridades preferiram não se pronunciar. O enterro da família Rezende ocorrerá hoje (06/08), às 14 horas no Cemitério Municipal. 


Sexta-Feira

(Um, dois, três indiozinhos....quatro, cinco,....)

Célia, ou como era conhecida naquela pequena cidade onde Judas bateu as botas, Celinha, acordou naquela sexta-feira com o pressentimento que "alguém andava pelo seu túmulo", como diria sua falecida avó. Sentada na beirada da cama, sentiu a cabeça girar e gemeu com aquela sensação.

-Preciso ir ao médico.-disse para os chinelos -Acho que estou com enxaqueca!

Não melhorou muito quando seu marido, Afonso, abriu a porta do quarto- que há dias emperrava numa certa faixa do piso- no seu jeito "chucro".

-Não vai levantar, não? Já tá na hora do Afonsinho ir pra escola! E o café?

"Um dia esse homem ainda me mata!", pensou ela, "Ou eu mato ele!"

(Shiuu, Celinha-inha)

-Já estou indo, Afonso. Faça o favor e passe o café, sim?

Como sempre, Afonso grunhiu, e bateu a porta do quarto, causando outra onda de dor na cabeça de Celinha. 

Levantou-se e foi para o quarto do filho. Sentou ao seu lado na cama, e dando pancadinhas no nariz do menino com a ponta do dedo, recitou o versinho de sua avó  "Acorda, acorda, meu amô. Olha só, o sol já raiô!". Isso sempre fazia Afonsinho acordar sorrindo. Queria parar o tempo no dia, só para admirar as suas covinhas. Então, ganhava um abraço e  o ajudava a se trocar.

-Sabem que dia é amanhã?- disse o menino, enquanto tomava seu chocolate, na mesa do café-da-manhã.

Sua mãe sorriu. Seu pai grunhiu.

-Não sei, meu amor. Me diga.- disse Celinha.

-Amanhã é meu aniversário! Vou fazer cinco anos, estou ficando velho!

Celinha riu. Afonso tentou.

-Eu posso ter uma festa?- perguntou o menino, quase num sussurro.

-Festa?-disseram os pais do menino.

-É....com bexiga, meus amigos, um mágico, vovó e titio....Por favorzinho??

-Não!-disse o pai.-Não tenho dinheiro pra festa, filho!

Afonsinho então olhou para a mãe. Ele sabia que esse era seu último recurso. E aquilo já bastava para o humor do pai ir de ranheta para amargo.

-Sua mãe disse que ajuda, se for o caso...- disse Celinha, que já imaginava que o marido não faria uma exceção no aniversário do próprio filho.

Afonso franziu o cenho. Invocar sua mãe num problema da sua própria casa era um tapa na sua cara- e no seu ego. E se agravava com a cara de súplica da sua mulher.

-Minha mãe não vai se meter em nada! Vai ser um bolo e ponto!- arrebatou, dando um soco na mesa- Eu não quero minha mãe se metendo na minha casa!!

-Mas...

-Ponto, Célia. Que inferno!- rugiu.

Pegou suas coisas e saiu.

(Ótimo! Já comece bem o dia da casa, cavalo!)

Celinha viu que o filho ficara triste, mas não iria chorar. Já estava muito velho para isso; muito acostumado com o funcionamento da casa, na verdade.

Enquanto caminhavam em direção a escola, ouviram uma música de realejo que tocava na praça matriz da cidade. Viram algumas pessoas que, passavam animadas por eles no sentido contrário, estavam com bandeirolas ou fitinhas nas mãos.

-Ué?- disse Celinha- Já começou a quermesse?

-Não, mamãe. É o circo que chegou!

-Circo? Quê circo?

-Meu amigo, o Caio, foi no circo semana passada. Disse que é muito legal. Tem equilibrista, mágico, animais, carrinho de bate-bate, um mágico.....mas ele disse que os palhaços são feios, que assustam as crianças...

"Que estranho! Semana passada eu passei pela praça e posso jurar que não tinha nada!", pensou. "Acho que ele se confundiu com o tempo...!"

-Tem uma tenda misteriosa lá também, mas a mãe dele não deixou ele entrar....mas ele disse que é muito legal!!

Percebendo o rumo que a história iria levar, sorriu e perguntou:

-E você quer ir no circo? Pra comemorar seu aniversário?

Afonsinho sorriu com os olhos cheios de esperança. Num segundo, eles se apagaram, e ele se encolheu.

-O Papai não vai deixar. Não temos dinheiro para isso.

(Seu marido é realmente um idiota, né, Celinha-inha?)

Celinha sentiu uma pontada atrás do olho e gemeu. 

A velha história do dinheiro. O suado dinheiro que o pai trazia para dentro de casa  que era escasso; que dava apenas para o necessário. O que não era totalmente verdade: não que o serviço de mecânico do marido pudesse deixá-los ricos, mas até então, nunca precisaram pedir dinheiro emprestado para ninguém ou passaram necessidade. Odiava como Afonso Pai passava aquela imagem paupérrima ao Afonso Filho.

-Escute!- disse ela, agachando-se na altura do filho -Não quero que se preocupe com dinheiro; isso é assunto de adulto, entendeu?- o menino resmungo e balançou a cabeça - Se você quiser ir ao Circo, nós vamos, está bem?

Afonsinho sorriu e fez uma dancinha ritmada com a música de realejo que ainda tocava.

-Mas não conte para o papai, e nem para a vovó, está bem?

- Tá bem! Vovó Telma, né?

-É, Vovó Telma.- e mais uma onda de dor tomou sua cabeça.

(Conhecida também como Mulher-Dragão)

(Shiu!)

--

Celinha não tinha uma convivência muito pacífica com sua sogra. Desde o namoro, a mãe de Afonso, Dona Telma, havia se convencido que aquela não era uma boa moça para seu filho. Ela associava àquilo a perspectiva de uma mãe super protetora, que criou os dois filhos pequenos com seu trabalho de costura, em uma época em que havia perdido o marido e a mãe quase que na mesma semana. Era fato que, assim sendo, esperava que Afonso tivesse um bom emprego e um bom casamento. Mas Celinha não era rica, não vinha de uma boa família, não era boa dona-de-casa, e engravidara do seu filho antes do casamento e antes de terminar uma faculdade-o que poderia ter ganho algum crédito com ela. E ao filho restara um serviço de mecânico de automóveis mal-pago. Realmente, Dona Telma não gostava de sua (única) nora, mas não poderia deixar isso transparecer (muito); apesar de tudo, tinha um neto e afilhado maravilhoso.

Depois de deixar Afonsinho na escola, Celinha foi para a casa de sua sogra. Ela ainda era a melhor costureira de Guaraçu do Oeste, mas suas mãos começavam a dar sinais de artrite e seus olhos não eram mais os mesmos. Celinha tinha bons olhos e mãos rápidas. E como Dona Telma era justa, sempre lhe paga uma pequena porcentagem pela costura.

Encontrou seu cunhado, Aloísio, no portão. Conhecia-o desde menina, mas por ironia do destino, acabara casando com seu irmão mais velho.

-Oi, Celinha! Já vou avisando que a Dona Telma não está no melhor dos seus humores! A música do Circo está lhe dando nos nervos!

Celinha sorriu e pensou “Sem nenhuma novidade.”

-A música está muito alta mesmo, parece se espalhar por toda a cidade. Também estou ficando incomodada.

-É, mas já faz mais de uma semana que o Circus Capella chegou, e ela ainda não se acostumou com a música...Bom, aviso dado!....E como está o Afonso?

-Qual deles?- ela perguntou, já sabendo da piada interna que tinham. 

-Celinha, por favor!-disse uma voz firme.

Era Dona Telma. Os dois sorriam, meio encabulados, se despedindo. Ele seguiu para a viatura que começou a receber uma chamada. Ela entrara na casa, seguindo para a sala de costura. Dona Telma olhou por cima do aro dos óculos, medindo sua roupa, sempre avaliando se era curta ou longa demais, mas nunca boa o suficiente. Célia viu que ela não conseguia passar a linha no pequeno buraco da agulha, mas nada expressou.

-Preciso que faça essa bainha pra já.-disse a sogra, entregando-lhe uma camisa - Daqui a pouco você vai entregá-la para o funcionário do Aloísio. E a Selma encomendou um vestido, e preciso tirar as medidas. Então, não demore na rua, porque daqui a pouco ela vai chegar.

Acostumada com o tratamento, começou a trabalhar. Com a dor de cabeça indo e voltando, não precisava que a sogra dirigisse outras palavras com ela, muito menos fizesse perguntas sobre dinheiro. A ida ao circo com o seu filho já estava garantida.

-Esse inferno de circo com essa música. Não sabem que tiram a paz de espírito da gente? Tenha misericórdia!

--

Na volta para casa, Celinha fez questão de pegar um caminho que cortasse pela praça matriz. Queria que seu filho tivesse um pequeno vislumbre do circo, que estava cercado de tapumes com ilustrações das atrações e dos brinquedos do parque. 

Afonsinho, pelo que soube, não tivera um bom dia na escola. O fato de ser o mais baixo dos meninos de sua sala começava a torná-lo alvo de brincadeiras estúpidas e apelidos (não era à toa que o chamavam de Afonsinho, e pelo mesmo motivo, ela era Celinha). Ela sabia que aquilo era apenas o começo das chateações, e por ser do sexo masculino, elas se agravariam. Achou melhor vê-lo deslumbrado com aquelas gravuras, que o fazia exclamar "Olha, mamãe! Olha que legal!" para esquecer por um momento seu problema.

Também deixou que Afonsinho ouvisse seu disco de vinil de cantigas infantis na sua vitrola portátil. Do quarto do menino, uma voz melodiosa cantava sobre os dez indiozinhos no pequeno bote.

Também escutou seu marido passar pelo portão enferrujado de sua casa, e com passos pesados entrar na cozinha. Parou ao seu lado, e deixou duas notas de dinheiro na bancada.

-Quero que compre um presente pro menino. Vou precisar trabalhar até tarde amanhã.

Com isso, deu-lhe um beijo na testa. Celinha o olhou nos olhos, e viu que eles não retribuíram.

(Eita, que aí tem coisa…)

-O que você aprontou?- ela perguntou. Aproximou o nariz em sua camisa. Além do cheiro de graxa e gasolina, havia outro, muito delicado e doce, contrastando.

-Espero que a sua cliente tenha ficado satisfeita com o seu serviço! Pelo dinheiro, ela deve ter gostado bastante!

A enorme mão de Afonso parou alguns centímetros do seu rosto. Celinha ainda o encarava. Não era a primeira vez que aquilo acontecia.

-Isso não aconteceria se você fizesse seu  papel de mulher casada!- retrucou seu marido, e abaixou a mão.

Marchou em direção ao quarto do menino, e berrou para que este desliga-se a música. A porta do quarto de casal emperrou e bateu. 

Afonsinho apareceu na porta de seu quarto, com um semblante triste. Aproximou-se da mãe e a abraçou.

-Mamãe, você já pode largar a faca!- disse seu filho, sem emoção.

Celinha largou a faca na pia. Sua cabeça começou a latejar novamente.

(...e o pequeno bote dos indiozinhos, quase, quase virou…)

--


Sábado

Depois de uma noite, que poderia ter sido bem dormida, se não fosse Afonso resmungando e roncando, Celinha tinha certeza que sua dor de cabeça poderia ter ido embora. Só que ela ainda estava ali, latejando. Mesmo assim, permitiu-se sorrir: hoje era o aniversário do seu filho e nada iria abalá-la. Inclusive seu marido.

Depois do banho, arrumou-se como há muito não fazia: escovou os cabelos, perfumou-se com o que ainda restava de um vidrinho de patchuli, colocou seu vestido azul de mangas longas e mocassins combinando, e até mesmo usou batom, que não era vermelho, mas sempre incomodava o marido. Aliás, o que não o incomodaria se ele visse aquela arrumação toda?

“Dane-se! Ele não deve se importar com isso na outra”, pensou.

(Com certeza, Celinha-inha)

Pegou o menino, que estava com suas melhores roupas, e foram primeiro na  sapataria. Havia tempo guardava um dinheiro para comprar os tênis da moda para Afonsinho. Quem sabe agora os garotos mais altos não o incomodariam tanto? Depois de tantos “Obrigado, mamãezinha! Muito obrigado!”, seguiram em direção ao som  do eterno realejo que vinha do circo.

O Circus Capella era diferente dos outros velhos decrépitos conhecidos que, vez ou outra, passavam por Guaraçu do Oeste: consistia de um picadeiro coberto e de um pequeno parque de diversões, além de algumas outras tendas e barraquinhas de comida.  Juntamente das vestimentas e trejeitos dos funcionários, e a música de realejo, davam a ele um ar antigo, de outra nacionalidade. O que atraiu o público não só da cidade, mas de vilarejos vizinhos. 

Afonsinho, que não era exatamente uma criança feliz, pode ser apenas uma criança como todas as outras ali, encantado-se com o espetáculo dos trapezistas, dos animais -numa época em que ainda eram permitidos- contorcionistas, palhaços e seu preferido de todos: o mágico.

Célia apenas o acompanhava, satisfeita em vê-lo correr de um brinquedo ao outro. Quando criança, ela não tivera a mesma oportunidade de ir aos circos itinerantes, e apenas aos dezoito anos pode ir ao cinema sozinha e com seu próprio dinheiro. Ver seu filho se divertir valia a pena passar um dia inteiro sob o amargor da sogra. Ou sob os grunhidos e ameaças do marido. 

(Shiu, Celinha!)

Já suspeitava há tempos que ele a traía. Depois do nascimento do filho, ele não a procurava mais com tanta frequência, e quando a procurava, sentia asco daquele homem. O mais engraçado era que havia sido ele quem insistira em se casar, de ter um filho, de ir contra a mãe que não admitiria a linda menina pobre na família. Era ele quem fora atrás dela na faculdade, longe daquela cidade onde Judas-Bateu-As-Botas, quando já não havia sinais de continuidade do namoro.

(Quieta, Celinha. Para de vomitar isso!)

 “A Celinha Formada em Letras, Morando na Capital, não fora enterrada pela insistência do Afonso, que se recusara em usar camisinha, na última tentativa de reatar o namoro, há cinco anos atrás?”, pensou. 

(Caso contrário, talvez aquele menino vindo em sua direção, nem existisse?)

(Cala a boca, Celinha-inha!)

-...ela tenda?- perguntou Afonsinho

-O quê, filho?- respondeu Celinha, voltando para o presente.

-Você está bem, mamãe? Parece cansada....

Ela riu. Percebeu que estava se agarrando com força  na grade de um brinquedo e massageava as têmporas. Parecia que as cores estavam mais acesas e música estava mais alta.

-O que você perguntou, meu amor?

-Perguntei: o que será que tem naquela tenda?

"Quê tenda?", pensou e seguiu a direção que ele apontava. Com exceção de todos os outros brinquedos, aquela era a única atração deteriorada pelo tempo. O tons sujos de branco e vermelho acentuaram sua dor de cabeça. Leu a placa acima da entrada:

-”Tenda dos Espelhos”...hmm, quer ir até lá?

-Ah! É a tenda que o meu amigo, o Caio, falou. A mãe dele não deixou ele entrar-e disparou em direção a tenda.

A tenda de espelhos, olhando a partir de sua entrada, parecia ser pequena. Já olhando pelas laterais, via-se que ela tomava uma grande parte do terreno, ainda cercado pelos tapumes. E ao contrário das outras atrações, era a única que tinha uma melodia própria, diferente da música de realejo que se espalhava pelo circo. Afonsinho olhava admirado. Célia sentia uma sensação esquisita no estômago, mas ainda achava que era devido a dor de cabeça, ou do cachorro-quente.

-E então? Vamos entrar?- ela perguntou.

Afonsinho mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça. 

-Bem, decida-se logo. Eu só tenho mais um bilhete e precisamos ir embora, tá?

Aproximou-se um senhor com roupas circenses, com uma maquiagem exagerada que o fazia parecer pensativo ou bravo pelo enorme arco de uma das sobrancelhas. Era o responsável pela entrada. Usava um crachá dourado, onde se lia “ Sr. Malaquias”.

-Desculpe, senhora. Mas nessa tenda será necessário dois bilhetes de entrada. Um para cada pessoa. Adulto ou criança!-declarou.

Célia fitou o filho com ar de pena. Afonsinho fez um muxoxo.

-Bom, então não vamos. E não vou deixar meu filho entrar sozinho.

- Entendo. Se quiser eu lhe vendo outro bilhete, senhora.

-Não, obrigada. Já gastei todo o dinheiro que tinha.

-Mas não é o  aniversário do garoto? É uma atração única, nossa Tenda dos Espelhos. Quem entra, sempre declara que nunca viu nada igual!- declarou o homem, com um sorriso malicioso.

Célia desconfiou daquele papo de vendedor. E como ele sabia que era aniversário do seu filho? Enfim. Provavelmente era apenas uma tenda velha com espelhos sem foco.

(Será, Celinha-inha?)

-Deve ser o máximo mesmo, mas como eu disse: não tenho mais dinheiro.

-Então, faremos o seguinte: eu deixo vocês dois entrarem e fico com o seu bilhete. Se caso a senhora não se sentir satisfeita com a nossa maravilhosa atração, eu lhe devolverei. O que me diz?

Célia titubeou. 

-Ah, por favorzinho, mamãezinha. Por favorzinho!- implorou Afonsinho.

Célia sorriu para o filho e entregou o bilhete ao homem da maquiagem berrante, que afastou as cortinas para que entrassem. 

-A Tenda dos Espelhos, senhoras e senhores! A Tenda dos Espelhos do Circus Capella! Quem entrar nela, pode se perder. Ou quem sabe, se encontrar!- declamou de fora o homem. 

Afonsinho ia na frente, de mãos dadas com sua mãe, guiando num confuso labirinto de espelhos. Alguns deformavam suas silhuetas, alguns apenas a cabeça. Outros não tinham foco ou reflexo. Formavam corredores vertiginosos, sempre se interligando. Depois de um tempo, seus risos foram diminuindo, e já não sabiam mais onde ficava a entrada. Afonsinho começou a ficar com medo.

-Mamãe, quero sair daqui.-choramingou.

-Calma, meu amor.- respondeu, massageando as têmporas por causa da dor- Tem alguma saída em algum lugar...aff, devia ter perguntado pro palhaço se a entrada e a saída eram as mesmas.

-Você tá bem?

-Sim, querido. São só as luzes e a música. Vamos continuar.

Entraram novamente em um corredor que Célia acreditava que tinham passado na entrada. Cabeça achatada de novo, silhueta alongada de novo.

(Aqui, Celinha-inha)

Viu seu próprio reflexo numa sequência de espelhos, com as mãos pousadas no vidro, encarando-os de frente.

(Celinha-inha! Olá!)

Como poderia seu reflexo repercutir daquele jeito? Se movimentar daquele jeito? Uma hora estava em todos, na outra passava de um em um. Seriam atrizes? Mas estavam com a mesma roupa que a sua, o mesmo penteado...

-Filho, você está vendo isso?- perguntou

Mas o menino não estava mais lá. Era apenas ela, os espelhos e o reflexo que se faziam parecer ela.

(Ah! Celinha! O quê você tem escondido de baixo dessa fachada de boa mãe?)

-Afonsinho?? Filho?? Cadê você? Cadê meu filho?

(Agora abra os olhos, Celinha!)

Os espelhos formaram um círculo em sua volta, e começaram a rodar. A música começou a ficar mais rápida.

-CADÊ MEU FILHO??

Com a rapidez do giro dos espelhos, o reflexo tornou-se um só. Era uma Celinha de olhos maliciosos e de um sorriso pouco confiável.

(Abra os olhos, Celinha!)

-O QUÊ???

(ABRA OS MALDITOS OLHOS!! CÉLIA!!)

-Mamãe?- ouviu Afonsinho chamar.

Célia abriu os olhos. A porta de saída estava a sua  frente. Segurava a mão de Afonsinho com força.

-Você pode me soltar, por favor, está me machucando.

-De-desculpa.

Viu seu reflexo, e este retribuiu com uma piscadela. Sentiu um calafrio subir em sua nuca. Tomou a mão do seu filho novamente, e disparou para a saída, quase levando a estrutura junto. Olhava para os lados, como se tudo fosse novo, como se não tivesse passado quatro horas dentro daquele circo. Sentiu que precisava ficar longe daquele lugar desesperadamente. O que havia naqueles espelhos?

-DONA!- berrou um palhaço ao seu lado, assustando-a.

-FILHA DA PUTA! ARROMBADO!- gritou, e estapeou a cara do coitado.

As pessoas ao seu lado pararam, exclamando “oh!”. Algumas mães taparam os ouvidos dos filhos, indignadas com as palavras que saíram da sua boca. O palhaço massageou a bochecha vermelha, e se afastou. Afonsinho começou a gargalhar.

-Mamãe falou uma palavra feia!

--

Em sua casa, mesmo sendo perturbada pelas imagens do circo, misturadas com outras de sua vida, Celinha preparava um bolo, para esconder a aventura secreta do marido. Suas mãos tremiam e sua cabeça girava. E além disso, havia a voz;  a voz da outra Celinha, que agora ordenava para deixá-la sair.

Nisso, Afonso chegou. Trazia um pequeno embrulho nas mãos. Afonsinho correu de seu quarto e abraçou as pernas do pai.

-Papai! É um presente pra mim?

-É da sua avó! Ela pediu pra te dar!

Tomando das mãos do pai o embrulho, Afonsinho sentou-se no chão e começou a rasgá-lo. Celinha se segurou na pia, e desviou o rosto quando Afonso tentou beijá-la. Ele grunhiu.

-Ah! São meias e cuecas...-disse Afonsinho, sem esconder a decepção. 

-Porque você comprou os tênis mais caros pro menino?-questionou Afonso.

-Não começa, Afonso.- implorou Celinha

-Daqui a pouco o menino cresce e perde essa porcaria!

(Me deixa sair!)

-Não foi com o seu dinheiro. Ele tá bem alí, em cima da mesa.

-Que dinheiro você usou?

(Me deixa sair, Célia!)

-O meu. O que eu ganho ajudando sua mãe.

Afonso grunhiu.

“Pare de fazer perguntas, homem!”, pensou Celinha. E viu que nem ela e nem o filho haviam trocado de roupa. Segurou-se  na pia, como se estivesse enjoada, esbarrando a mão no cabo de uma faca.

-Que história de dinheiro é essa? Minha mãe não tem nada que te dar dinheiro! Sou eu que sustenta essa maldita casa!- disse Afonso, cada vez mais alto- Agora você vai ficar de conluio com a minha mãe pra me atazanar? Que palhaçada é essa? Acho que você tá pedindo pra tomar uma lição, Célia… e que vestido é esse? Esse batom de puta…?!

(O quê? Ele quer bater em você, e ainda te chamou de puta? Ah, Célia, me deixa ter uma conversa com esse cavalo!)

-Quieta!- murmurou Celinha.

-O que você disse? Tá me ouvindo, Célia?

-Olha, papai.- disse Afonsinho-Olha o que me deram no circo!

(Ô, droga, menino…)

Afonso olhou a bandeirinha  nas mãos do filho como se fosse uma lagarta venenosa. Celinha viu em câmera lenta a gigantesca mão do marido descer sobre as mãozinhas do filho.  Afonsinho se encolheu e começou a chorar baixinho, vendo as mãos começarem a inchar. Correu para o quarto e bateu a porta. 

(Célia, ele bateu no seu filhinho. Me dê espaço pra conversar com ele de pertinho. Deixa, Celinha. Deixa, Celinha. DEIXA, CELINHA!)

Sentiu a mão do marido envolver seu braço e apertá-lo. Com a mão do braço oposto, pegou o cabo da faca que havia esbarrado.

-É todo seu!-disse e sua vista se escureceu.

-O que disse?- perguntou Afonso

A outra Célia abriu os olhos e cravou a faca no peito de Afonso. Ele gritou, mas surpreso com a reação da esposa do que com a dor.  Empurrou-a com a ajuda do braço que segurava e tombou no chão. Célia se segurou na pia, sem largar a faca. Agora, sorria desvairada para o marido. A vitrola no quarto do filho começou a tocar. 

-Vamos acompanhar a canção, benzão?- disse ela, pulando sobre Afonso.- VAMOS!!

Começou a subir e a descer a faca conforme a melodia, cantarolando junto.

“Um, dois, três indiozinhos...

Quatro, cinco, seis indiozinhos…”

Afonso gritava, tentando tirar aquela pequena mulher de cima da sua barriga.

“Sete, oito, nove indiozinhos… dez no pequeno bote!”

AFONSO SANGRA COMO UM BODE!!! 

O homem parara de se mexer, mas a faca continuou seu ritmo, até seus braços cansarem. Estava chorando. Seu corpo tremia e arfava. Sua melhor roupa e sapatos estavam empapados de sangue. Na vitrola, os indiozinhos deram lugar a borboletinha que estava na cozinha.

 -E agora, Celinha?- perguntou para o que sobrara do corpo em que estava sentada, cuja cabeça se mantinha conectada pela medula espinhal. Em algum lugar, Celinha perguntara sobre o filho.

Levantou-se. Abriu a porta do seu quarto do menino. A luz estava apagada e janela estava aberta. Olhando para fora, viu um menino correndo pela rua. 

Desligou a vitrola, enfiou a faca no bolso, e saiu em direção a casa da sogra.

--

Seguiu por ruas mal-iluminadas que levavam à casa de Dona Telma. Não havia ninguém na rua, mesmo sendo uma noite de sábado. Passou pela entrada do Circus Capella. O Sr. Malaquias estava parado alí. Sem dizer nada, estendeu-lhe um bilhete e desapareceu.

Não foi difícil para Célia entrar na casa de Dona Telma pela porta da frente e se esgueirar para dentro do quarto- a senhora já estava roncando em sua cama havia muito tempo. Célia cutucou-a com a faca, e Dona Telma acordou engasgada. Colocou os óculos e acendeu o abajur.

-Meu Deus, Celinha. O que houve com você?-perguntou a senhora levantando da cama, alarmada.

-Está tudo bem, Dona Telma. Tudo vai ficar bem.

-Afonso está bem? E o Afonsinho?- perguntou, amarrando o robe. Seus olhos estavam grudados nas lentes dos óculos.

-Está dormindo- disse, soltando um risinho- Afonsinho está bem, mas isso não vem ao caso agora. Preciso conversar uma coisa séria, muito séria com a senhora

Dona Telma parou onde estava quando Célia tirou a faca do bolso.

-A senhora lembra de uma moça chamada Lina, na classe do Afonso, quando ele ainda estava no colegial?-perguntou Célia.

Dona Telma temeu que se caso fizesse o menor dos movimentos, sua nora a atacasse.

-Sim.-respondeu vagarosamente.

-Lembra que ela era rica, bonita e queria muito ser sua nora?

-S-sim.

-Pois é,  lembra que ela sofreu um acidente, caindo da escada do colégio, naquele mesmo ano, né? Passou por algumas cirurgias...mas por ironia do destino, ficou com a cara deformada. Era tão linda! Ela e a família foram embora daqui…..a senhora lembra, né?

Dona Telma começou a chorar. Juntou as mãos em forma de súplica e ajoelhou.

-Celinha, entenda. Eu nunca quis te fazer nenhum mal. Aquela menina só estava apaixonada pelo Afonso. 

- Dona Telma, convenhamos: a senhora nunca me quis como nora!-colocou a ponta da faca no pescoço da sogra, e segurou-a pelos cabelos. Dona Telma começou a gritar por socorro.- Eu soube muito tempo depois que foi a senhora quem mandou-a me perseguir, e me afogar naquela privada nojenta do colégio…se ela estava apaixonada pelo seu filho a ponto de fazer isso comigo, é claro que estava!- riu maldosamente.- Mas a maior infelicidade que pode acontecer a um louco, é esbarrar em um louco muito maior…, ou no caso, uma louca muito maior.

Desferiu um único golpe no pescoço da sogra. O sangue esguichou, sujando ainda mais seu vestido. Mas era só mais um corpo que tombava, pondo fim aos seus anos de submissão. Suspirou. Em algum lugar, Celinha chorava. 

Guardou a faca novamente no bolso e deixou o cômodo. Abriu a porta da frente e um grande flash de luz a cegou. Aloísio estava parado no portão escancarado, segurando uma lanterna e uma arma apontadas para Célia. Estava acompanhado de dois policiais, um em cada lado.

-Celinha?!-disse Aloísio, surpreso.

-Célia, por favor.- pediu ela.

-Onde está minha mãe?

-Você tem certeza que quer que eu responda, Aloísio? Pelo que aconteceu com o seu irmão, você deve ter uma vaga ideia do que aconteceu com ela.-disse sorrindo.

-Então, foi realmente você?-perguntou um outro policial.

-Foi. Não nego….Aliás, como negar com esse vestido todo emporcalhado, né?

Aloísio abaixou a lanterna e a arma. Olhava para Celinha-agora Célia- numa mistura de indignação e espanto. Ela deu dois passos em sua direção. Os três policiais engatilharam e apontaram as armas para ela. 

-Aloísio, você se lembra quando éramos crianças e, sem querer, atirou uma pedra com o seu estilingue numa andorinha, na árvore perto do rio?

O rádio da patrulha recebeu uma chamada, mas nenhum dos três policiais se mexeram. A luz do poste se apagou num curto-circuito.

-Eu me lembro, Celin-Célia. 

-A andorinha não morreu com a pedrada, mas estava muito ferida. Lembra o que eu disse, o que eu pedi para você fazer?

-Você...você disse para eu acabar com o sofrimento dela.-respondeu, e suas mãos começaram a tremer.

-E o que você fez?-continuou Célia.

-Eu a matei.

Célia riu, triste.

-Não, Aloísio, eu a matei! Você não teve coragem! Atirou sem pesar a consequência, e não teve colhões para terminar o serviço. Mas era só um garoto na época! Está perdoado!

Ela deu mais dois passos, e tirou vagarosamente a faca do bolso. 

O policial a esquerda de Aloísio mandou ela parar e jogar a faca no chão.

Célia não acatou as ordens.

-Faça o imenso favor, e termine o serviço agora, sim?-pediu Célia, com as lágrimas que formavam linhas no seu rosto sujo de sangue.

Célia correu. Os três homens dispararam. Aluísio sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, e se juntarem novamente no seu queixo.

O rádio-patrulha  chiou, pedindo reforços. Alguns curiosos, que saíram na rua para ver estava acontecendo se assustaram quando todas as luzes de Guaraçu do Oeste se apagaram. A música de realejo do Circus Capella começou a tocar.

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-Ei, garoto. O que está fazendo aí, Afonsinho?- perguntou Sr. Malaquias, usando uma lanterna para iluminar o corredor da tenda dos espelhos.

-Estou me despedindo da minha mamãe, Sr. Malaquias. Ela disse que é melhor eu procurar meu titio, agora que está tudo acabado.- disse Afonsinho, olhando seu reflexo no espelho.

Sr. Malaquias estendeu sua mão enluvada. Afonsinho se levantou, acenou para o espelho e pegou a mão que o homem oferecia. Saíram de dentro da tenda. O circo estava sendo desmontado. Amanhecia vagarosamente sob uma fina névoa.

-Sr. Malaquias, o senhor acha que vou ver minha mamãe, meu papai ou minha vovó de novo?

-Bem, o que você acha?

Afonsinho fechou um olho e fingiu pensar. Sr. Malaquias riu.

-Acho que não. É meio complicado, né?- respondeu, tristonho.- Mas, e se eu trabalhasse aqui?

-Trabalhar aqui?! O que você seria? Um palhaço?- riu  Sr. Malaquias.

Afonsinho balançou a cabeça. A Tenda começava a ser desmontada. Olhou para trás, meio tristonho e depois novamente para o homem.

-Eu seria um mágico. Do muito poderoso, ainda.

-Mas um mágico precisa estudar muito as artes místicas para se tornar poderoso!

-Eu não preciso. Eu já conheço alguns truques, desde que eu era um bebezinho. 

-Sabe?

-Sei, sim. Sei até que o senhor não está realmente aqui, segurando minha mão.

Sr. Malaquias arqueou as sobrancelhas. Afonsinho piscou o olho. Agora estavam na entrada principal do circo.

-Bem, nesse caso então você precisaria ter dezoito anos ou mais.

-Puxa vida, eu só tenho cinco! Vou ter que esperar, ora bolas.

-É. -riu -Mas existem outros circos por aí…

-Sim, mas acho que por enquanto, Sr. Malaquias, vou evitar os circos. Só pro caso de eles terem Tendas dos Espelhos iguais a essa.

-É, garoto, você faz  bem!- olhou os espelhos sendo guardados- Faz muuuito bem!


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