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O diário da demência
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O diário da demência
Áudio drama
O diário da demência
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Agora, eu terei que obedecer mais uma vez... Invadi a diretoria do manicômio onde estou presa. Tenho que dizer ao mundo que Eles existem e que são mais antigos que tudo, por isso jamais poderão ser esquecidos. Não sei se num instante de sanidade, começo a digitar ou se Eles digitam por mim, se as mãos são as minhas ou as deles, não me reconheço, nem sei quem sou e já não me importa muito se conhecerão a minha história. Apenas recebo ordens Deles, que estão dizendo que o fim está muito próximo e que Eles reinarão. 

Estou condenada a viver nesse manicômio, com todos Eles me olhando, emparedados, camuflados em todos os lugares, me vigiando dia e noite. Sim, porque eu sei que eles ainda estão aqui, sempre estarão, a invadir o meu cérebro e implantar nele aqueles malditos pensamentos. Existem botões lá, eu sei, eu sinto. Afinal, eles ordenavam e quando eu percebia havia novamente cometido as mesmas atrocidades. Os meros mortais que não os têm no corpo não poderão jamais saber do que Eles nos fazem capazes. Então, enquanto os enfermeiros me procuram para me prender e administrar a próxima medicação que me colocará num sono profundo, letal, eu buscarei em minha memória uma explicação para os atos horríveis que cometi cujas lembranças me atormentam nos poucos momentos de lucidez que eu ainda consigo ter. 

Eu sempre fora a esquisita da turma... Com inteligência, chatice e maldade paradoxais à solidão, eu sempre brincava sozinha. Eu não gostava de doces meninas que brincavam com suas bonecas, vestindo-lhes belos vestidos costurados por suas mães. As minhas bonecas, eu esfaqueava... Depois desmembrava. Eu já sabia que iria gostar de anatomia. 

Sonhava em ser médica. Ou uma professora de História Antiga. 

Assim, comecei a estudar. Era a menina feia, assanhada e inteligente, que era odiada por não dar cola aos colegas burros. E fui enveredando por colégios cujos padrões me agradavam... Um sombrio colégio escuro, iluminado apenas nas salas por uma luz tênue de lampiões de gás... Nos corredores escuros, eu era esperada para ser surrada pelos colegas de sala. Sozinha, aprendi a fazer bonecos de papel e esquartejar... O ódio crescia em mim, a cada dia tinha mais raiva das pessoas... Atrás da minha casa, um cemitério de bonecos era constantemente visitado por mim. 

Meus cabelos vermelhos eram sempre desgrenhados e eu não possuía roupas... Mas passei a estudar num dos melhores... E mais sombrios colégios da cidade. Era um internato de meninas ricas, onde eu, por ser pobre e ter boas notas, consegui uma bolsa integral. E aprendi História Antiga e pagã. Passei a participar de rituais de Magia Negra, onde os maus espíritos eram constantes. E até hoje são. Enquanto digito, posso senti-los ao meu lado, me arrepiando o lado esquerdo do corpo. Sempre relacionei o Bem e o Mal com a direita e a esquerda. E a direita nunca sente nada. 

No colégio, havia um poço profundo desativado depois da morte de uma menina... As paredes estavam em ruínas e os estudantes medrosos passavam por longe. Já eu fugia do quarto e dormia lá pertinho... Frequentei lugares obscuros e num deles me disseram que eu era a reencarnação de uma bruxa. Eram lugares onde praticavam rituais com sacrifícios de animais, que vivos, eram desmembrados vértebra por vértebra, para que morressem lentamente. Depois, seu sangue fresco era bebido. Às vezes as pessoas bebiam o sangue umas das outras. O meu sangue eu dei, em troca de amor. Eu cumpri a minha parte. Fiel como um cão, cumpri todos os pactos. Mesmo sabendo que o preço a ser pago era altíssimo. 

Que poucos de atreveram a desvendar a História Negra, é verdade. Mas eu queria muito mais do que o que eu já conhecia. A fome de conhecimento se equiparava a fome do corpo, que a cada dia se tornava mais gordo. Então, eu descobri os cultos aos Deuses Antigos, tão antigos que datavam de antes de inventarem a história conveniente de que Deus, um espírito, criou o mundo, as coisas e o Homem, criando o Bem e o Mal. A pessoas comuns, na verdade, não sabem de nada. O Mal é muito mais antigo e reina desde que havia apenas o caos. 

Eu era então, uma adolescente que não passaria despercebida... Por ser ridícula. Gorda, feia e desarrumada. Era isso que viam em mim. O que não sabiam, era que no poço onde eu dormia todas as noites, eu me aperfeiçoava em rituais e chamava por Eles, até que uma noite, o meu chamado foi atendido. E até hoje eu não sei se eram apenas delírios ou se foi realidade. Seria apenas a primeira vez. Depois, eu passei a ser simplesmente um instrumento do Mal. 

Eu dormia depois de mais um ritual praticado, quando me senti incrivelmente mal. 

Penso que eu estava acordada, quando parecia arder em febre e tentava em vão me mover. Arrancada de meu próprio corpo, como se milhões de viscosas e decompostas mãos me segurassem e me pusesse de pé, eu olhava para o meu corpo gordo, que jazia no chão. 

Sem conseguir me mexer nem falar, eu tentava em vão recuperar os movimentos, gritar... Mas se conseguisse ninguém ouviria. Eu estava sozinha, num terreno deserto. 

Aquele desespero era todo meu. Tentei rezar, mas já não sabia. O corpo que estava de pé olhava para o outro, que em vão buscava levantar-se e isso apenas fazia que as dores insuportáveis aumentassem. Então, abandonando-me deitada no chão escuro, eu fui... 

Seres horrendos, de aparência arroxeada, como cadáveres que estivessem em decomposição, caminharam comigo em direção ao poço. 

À beira dele, o meu maior, talvez o meu único medo. O medo das alturas. Quando eu ainda tentava me familiarizar com alguém da minha idade, eu me lembro de que certa vez me desafiaram a subir na parede de uma casa em construção. Eu tentei... E tentaria novamente, somente para poder merecer uma companhia, um amigo sequer... Uma só, que fosse, para esquecer a maldita solidão que percorria minha curta existência, eu tentei... E não consegui. Vi-me sozinha lá, com todos rindo de mim, até que desajeitada, pulei e quebrei uma perna. Agora eu olhava para o fundo do poço. Mas não haveria tempo para pensar. Descobri tal fato quando vi, emergindo dos confins da terra, uma boca circular, com o diâmetro igual à abertura do poço, que escancarada, mostrava dentes pretos e pontiagudos. Uma enorme língua negra, espiralada e molhada laçou a mim e as criaturas e em redemoinho, fomos puxados para dentro. 

O poço, do qual eu só conhecia a parte exterior, era profundo, parecendo sem fim. A queda, numa lentidão fantasmagórica, permitia que fosse sentido o fedor insuportável, produzido em parte pelo amontoado de ossadas presas a suas paredes cheias de limo, e pelas quais escorria numa massa heterogênea de cores sombrias, roxas, avermelhadas... 

Uma massa sangrenta, disforme, podre... Inenarrável, absurdamente indescritível. 

Não sei quanto tempo durou aquela queda. Até que ouvi tambores, lentos, num compasso lúgubre, de morte. Lentos, nos passos dos estranhos seres que dançavam em volta do fogo que assava pessoas empaladas em estacas. Perto do círculo, já havia outro grupo de pessoas que com sons guturais brigavam entre si, disputando pedaços de carne ainda sanguinolentos. Homens e mulheres esqueléticos exibiam feridas abertas, que eram visitadas por moscas noturnas enormes, que esfregavam suas patas, despejando larvas que contaminavam as pústulas, de onde saia um líquido esverdeado, imundo. Em um dialeto estranho, lançavam em uníssonos gritos que me pareceram dizer algo como: 

Venha até nós sagrado filho de Cthulhu ! 

Então, no centro do círculo, um estrondo. A terra tremeu e se abriu, dando passagem a uma enorme criatura. Asas negras bateram com força, espalhando as chamas. Ela alçou voo até certa altura. Em seguida, a terra se fechou e a criatura desceu, ficando no centro de tudo. Ele era enorme, talvez uns cinco metros de altura. As asas negras, imundas, tinham milhares de baratas entrelaçadas, que fervilhavam, se movendo e emitindo sons secos, ao se chocarem umas com as outras, entremeadas em suas penas. Quando se acocorou, eu pude ver que sua pele era vermelha e negra, com partes rachadas, como velhas rugas, inflamadas por milênios de existência. Os pés eram cascos, grandes, que poderiam facilmente esmagar um homem com uma simples pisada. As mãos tinham garras negras, pontiagudas e de onde pendiam restos de vísceras, certamente de algum ser humano que fora devorado. De sua enorme cabeça, invés de cabelos pendia incontáveis tentáculos vivos, parecendo serpentes, com as línguas bífidas a farejar. 

O inacreditável estava em seu tronco e rosto. A criatura exibia um par de enormes seios de onde escorria um líquido viscoso e escuro, que dois homens, se podiam ser chamados assim, sugavam. Abaixo, um enorme pênis ereto. A criatura era indecifrável, horrenda... E o rosto... O terror de olhar para o rosto. Nele, estava o espelho. O rosto da criatura era o meu... 

Os tambores mudaram o ritmo e de um lugar próximo, que parecia ser um túnel, surgiram gritos cortantes, parecidos com gritos de crianças. E na realidade, quase o eram. Dali surgiu três mulheres. Duas, magras, nuas e encardidas, com cabelos desgrenhados, a idade indefinida em rostos cheios de rugas e ferimentos. Magras, exibiam seios flácidos e nádegas caídas. 

Entretanto, a terceira... Ah, ela parecia um anjo, perdida no meio daquele inferno. 

Deveria ter quinze anos, no máximo. A pele branca era ressaltada pelas vestes longas e negras. Os cabelos louros e brilhantes estavam presos em duas tranças, cuidadosamente penteadas. Porém, o branco do rosto estava mais acentuado pelo medo. Os olhos azuis estavam desmesuradamente abertos, mediante o terror jamais imaginado. E quando boca vermelha e carnuda se abriu num grito, esse jamais saiu da garganta. A gigantesca criatura novamente alçou voo, cravando as garras em seu pescoço e levando-a para os ares. Depois, seu corpo sem vida, coberto de sangue foi despedaçado e engolido. O monstro, que depois eu soube ser Kahadlok, parecera satisfeito. Então, houve outro estrondo e a terra novamente se abriu, levando aquele ser para suas profundezas. Os tambores voltaram a ficar lentos e os estranhos e esqueléticos homens e mulheres voltaram a executar a dança macabra, enquanto desmembravam e desossavam os que estavam assando na fogueira. Estranhamente, aqueles indivíduos que assavam na fogueira não se pareciam com os seguidores do culto. 

A partir daquele instante, eu soube qual era a minha missão. As duas mulheres que haviam trazido a menina para Kahadlok, me seguraram pelos braços e eu pensei que a minha vida havia terminado ali. Mas não. Elas apenas me levaram de volta ao túnel de onde tinham saído. Parecia com algo quase civilizado. Corredores com enormes espelhos por todos os lugares. Aquilo me trouxe desconforto. Eu, que sempre fugira do espelho, eu sempre fugira da minha imagem, odiava ser feia. Odiava a todos, por ser feia e gorda e porque um dia eu seria simplesmente uma velha. Horrível, a cada minuto vivido. 

Depois de um dos muitos corredores, uma sala. Branca, perfumada e clara, num contraste gritante com o culto que eu acabara de presenciar. Uma grande mesa negra, uma cadeira de espaldar alto... Um homem olhava para a parede. Voltou-se para mim, como se me conhecesse. Era alto, moreno e tinha penetrantes olhos verdes. Vestia-se de branco e se eu estivesse num lugar diferente e acreditasse em lugares como céu e inferno, eu diria que estava no céu e que aquele era um anjo. Ele me disse seu nome... 

Mas parece que um bloqueio fez com que jamais eu voltasse a lembrar... Aliás... Eu nem mesmo sei se ele existiu, ou se foi mais um devaneio de minha mente tão absurdamente doente... Então, ele me disse para que havia me chamado ali. Sem que eu soubesse, tinha atendido a todos os meus chamados, nas noites em que eu dormia perto do poço. Aquele poço seria o portal para o que eu deveria fazer. Em troca, eu teria a beleza e a imortalidade. 

Eu deveria voltar à superfície, seguir vida aparentemente normal e cumprir uma primeira missão. Matar alguém que eu amasse. Pensei se realmente havia alguém por quem eu tivesse um sentimento assim. E então, lembrei-me de um único amor que eu tivera praticamente na infância. Eu conseguira um único encontro com ele. Depois de um pacto de sangue, onde eu prometera meu sangue virginal ao demônio, em troca de alguns momentos de amor. Depois disso, ele nunca mais falou comigo. 

Cumprida a primeira missão, eu deveria trazer garotas para que a criatura as devorasse. 

A vinda delas traria consequentemente membros das famílias, de carne branca e tenra, para que fossem servidas nos rituais. 

Levada novamente para a superfície dentro da boca de uma das criaturas, eu voltei. 

Porém a vida nunca mais seria a mesma. Um resto de humanidade me doía e à noite eu passei a ter pesadelos. Em um quarto escuro, criaturas vermelhas tentavam me esquartejar. Eu tentava rezar e não conseguia... A voz robótica não saia da garganta. A diretora, que antes de eu conhecer o assunto eu relacionava com uma bruxa, porque eu pensava que todas as bruxas eram feias como eu, encarregou-se de avisar a minha família que eu estava doente. Fui levada para minha casa, onde fui visitada por umbandistas que me diagnosticaram um sem número de feitiços. Mas eu sabia a causa do meu problema. E em casa, meus pais passaram a ter medo de mim. Umbandistas atribuíam meu estado a feitiços feitos com cabelos e galinhas pretas. Em ataques de riso convulsivo, eu avançava sobre eles, que já se muniam de água benta. E eu fingia me acalmar. 

Calma essa que se intensificou pelos próximos dias. Eu precisava voltar para o colégio. 

O meu primeiro presente para o homem misterioso estava no prazo certo para ser ofertado. Eu precisava ter a minha beleza e imortalidade logo. Eu continuava apaixonada. Porém o objeto do meu desejo nem sequer olhava para mim. E eu queria vingança. Com uma melhora significativa, que as fofoqueiras que rezavam novenas e falavam da vida alheia acreditavam ser fruto de graças alcançadas, regressei ao colégio. 

Procurei a minha coleguinha mais bonita e mais burra. No fundo, eu tinha inveja dela. Eu queria ser bonita e burra, porém ser feliz, pelo menos por algum tempo. Mas eu enveredara por um caminho sem volta. E então, o plano consistiu em formar um par romântico com meu antigo namorado e a minha colega bonitinha. Sob a máscara de aluna interessada em renovar o colégio, consegui aproximar os dois. 

Meu ex amado era um garoto esforçado e começara a trabalhar de eletricista recentemente. Nessa mesma noite, morrendo de saudades dos meus rituais sombrios, voltei para o poço. Estava tudo magnificamente calculado. E eu jamais esquecera a habilidade de fazer bonecos. 

Um casal de bonecos de tecido branco fora cuidadosamente costurado e amarrado um ao outro com linha preta. Tudo virgem... Afinal, parece que o mal não gosta de coisas usadas. Escondidos dentro de um velho urso de pelúcia, do qual eu retirara parte do enchimento, meus bonecos faziam parte de um plano... Amor, fogo e punição estavam guardados para o meu amado. Um terceiro boneco, do sexo feminino também, foi confeccionado. Eu estava pronta para romper as amarras. Agora, apenas o ódio e o desejo de vingança me uniam a ele. Então, o desamarrei de mim e o uni a ela. 

Fiz uma fogueira, joguei os dois bonecos dentro e fiquei encantada ao vê-los arder em chamas. Parte principal do plano consumado. Meus planos futuros incluíam aquela corja de menininhas mimadas, filhinhas de papai que saiam de casa com roupas minúsculas escondidas em suas malas ricas. Quanto a mim,um dia me atrevi a vestir uma saia curta e fui chamada na diretoria, para ficar de castigo. 

Fiquei sim... Mas fui compensada pelo fato de que no outro dia a diretora foi levada as pressas para o hospital, depois de um acidente vascular cerebral que deixou sua boca torta para sempre... Exatamente igual à boca torta da boneca feia que eu desenhara. A infeliz diretora também jamais conseguiu escrever um só bilhete. Sua mão perdeu os movimentos e ela estava velha demais para aprender a escrever com a mão que lhe restou que servisse para algo. Como ali não serviria de nada mais, foi mandada para casa, para terminar seus dias por lá. 

Xeque Mate! Para a nova diretora, eu poderia posar de menina boazinha. Chegara a hora de executar a parte mais importante do meu plano! Apresentei-me pronta para ajudar, falando sobre o Grêmio Estudantil, que poderia dar vida nova aquele mausoléu. 

O espaço do auditório poderia ser renovado e ali seriam realizadas reuniões para mobilizar a todos pelo bem público. Um pouco menos ridícula e retrógrada do que a diretora anterior, ela pareceu ficar interessada. Meu antigo pretendente e a minha colega estavam literalmente morrendo de amor um pelo outro e do meu esconderijo eu os via se amando no mato, depois que ele pulava o muro para se encontrarem... Que nojo deles! Que ódio! Que inveja! O sentido do morrer de amor em sua essência total, eles conheceriam brevemente. 

Foi com um sorriso meigo estampado no rosto gordo que eu disse à diretora que havia adquirido um voluntário para arrumar a fiação do auditório. 

Eu já combinara com minha atual e única amiga, que em toda a sua ausência de massa cinzenta, se sentia privilegiada por contar com a minha amizade e inteligência. Até mesmo suas notas haviam melhorado. Para alcançar o meu objetivo, a vingança, até mesmo cola eu estava passando para ela. 

O plano constava de o eletricista voluntário ficar no auditório e a minha colega ir para lá às escondidas com ele. De antemão, eu ensinei mil fetiches a ela, mil coisas eróticas que eles poderiam praticar ali. Eu não praticava nada, na realidade. Mas com os ensinamentos da magia negra se eu conseguisse chegar a um homem, eu o tornaria escravo. Mas eu não queria. Eu já não tinha sexualidade. O meu prazer agora estava em causar dores alheias, em me vingar. 

E o apaixonado casal foi para o auditório. O prazer seria todo meu. A chave geral sempre estava desligada, porque a fiação era velha. Eu me encarregara de descascar os fios que se espalhavam pelo chão. E quando eles entraram, eu fechei a porta por fora. E liguei a chave geral. Se eu conseguisse ter prazer sexual, teria chegado ao orgasmo ao ouvir os dois gritando por socorro. Era sexta à tarde e somente eu ouviria. Os alunos estavam arrumando suas malas para retornarem para casa. 

Palmas para mim! Meu plano dera certo. Minha missão estava consumada. Agora, o fogo unira os dois por toda a eternidade. Eles se foram unidos pela maior dor que um ser humano pode experimentar... A de morrer queimado. Naquele fim de semana, fui para casa me sentindo a mais feliz das criaturas... O desfecho seria segunda feira pela manhã. Por dentro minha alma, negra como deveriam estar os corpos carbonizados deles, ria vingada. 

Como eu pensei segunda feira pela manhã os professores se interessaram em saber se a fiação do auditório fora consertada. Depois de quase um século de mesmices, inexplicavelmente incentivados pela nova diretora, os professores pareciam interessados em inovar. 

Apenas o nerd professor de História sentiu falta da minha amiga burra. Porém ao nos aproximarmos do auditório, o esperado... Um fedor insuportável. Precavidamente a nova diretora chamou a polícia. Ela conseguia me surpreender a cada dia... Sempre agia friamente mediante qualquer situação. Naquele dia, eu chegara antes de todos e tivera o cuidado de reabrir a porta. Para que ninguém levantasse a possibilidade de assassinato. Os policiais estranharam a chave geral ligada... E não foi necessário muito raciocínio para saberem o que encontrariam ali. Garotos inexperientes, descuidados, procuraram um local para um encontro furtivo e encontraram a morte. 

Então, quando a policia entrou, viu apenas dois pedaços de carne podre e preta pela ação do fogo que se formara na fiação. Restos de sangue e linfa escorriam imundos, misturando se ao pó acumulado por anos de abandono. Eles eram tão parecidos antes... Tão bonitos, tão brancos, tão racistas... Agora estavam mais parecidos ainda... Pretos e podres, massas disformes misturadas... Podres de soberba vivos... Simples carniças de odor adocicado e insuportável agora. 

Como último ato de minha magistral atuação, em gritos histéricos eu queria lançar-me sobre os dois, para chorar o amor e a amiga que eu havia perdido. A polícia isolou o local, a perícia forense levou os corpos apenas para os trâmites legais. Constariam que haviam morrido eletrocutados. 

A reforma do auditório deveria continuar, segundo a nova diretora. Afinal, aquele jovem casal dera a vida pela causa. As salas do auditório teriam os nomes deles, depois de concluídas. Na minha cabeça, a certeza do crime perfeito. Ninguém jamais descobriria. Mas eu estava enganada... Alguém sabia sim, e eu descobriria tal fato à noite. 

Com a plena consciência do dever cumprido, fui para a solidão do meu dormitório ao ar livre. E naquela noite, eu deveria ir novamente falar com ele. Somente a ele eu poderia confiar meus segredos e minha vida. Afinal, eu cumprira todas as etapas do plano minuciosamente... Friamente matara o meu primeiro amor e a minha provável melhor e única amiga. Eu passara no teste e deveria começar a receber minha recompensa. 

Então, passando por todo o ritual de delírios, eu novamente desci aos subterrâneos e fui encaminhada aos corredores de espelhos. Precisavam de meus serviços para continuar os rituais. Ele me agradeceu. Disse que ficara satisfeito com o meu desempenho na primeira missão. E que eu deveria voltar e convencer novas vítimas. E o que me disse depois me deixou estarrecida. Ele me confessou que Morgana, a nova diretora, era uma discípula sua... Enviada ao colégio para me auxiliar. 

Morgana sabia sobre o crime, sobre mim e nós duas comandaríamos aquele colégio depois daquela noite. Dizendo isso, inexplicavelmente se aproximou e me deu um beijo apaixonado. O único beijo apaixonado que eu recebi em toda a minha vida... E desapareceu entre os espelhos. 

No outro dia, dirigi-me a diretoria. Sentia-me totalmente segura. Conversei longamente com Morgana e contei-lhe toda a minha vida, todo o destemor que eu tinha e todo o meu desejo de poder e de imortalidade que eu sentia. Afinal, eu sentia desprezo pelos seres humanos comuns. Raiva dos homens, inveja da beleza. 

Ela me disse que eu era necessária para o que viria a ser a história da humanidade. Mesmo que para isso, no futuro eu pagasse um preço caro. Mas isso não me importava mais. Afinal, eu queria viver apenas para fazer o mal, por séculos, mesmo que o preço fosse a vida vazia e que eu entregasse a alma às chamas. Eu não sentia medo do fogo. 

Apenas fascínio. Só a dor alheia poderia preencher o vazio que havia em mim. E a partir daquele dia, a mim foi dado um cargo de secretária. Era meio período e no outro meio período eu estudava. As reformas do colégio iam de vento em polpa. Agora, um enorme cão negro ficava solto dentro dos muros do colégio, para evitar que os rapazes tivessem a audácia de pular para dentro. Essa era a máscara usada para esconder a libertinagem que agora imperava no colégio. Agora, os rapazes podiam entrar pela porta da frente. 

O que as famílias não entendiam é como as jovens alunas estavam sumindo do colégio e não chegavam a suas casas. Rapazes da mesma faixa etária também desapareciam. 

E na calada da noite, eu e Morgana nos deliciávamos. Uma linda ruiva de corpo escultural se escondia por trás das roupas largas da diretora séria. Eu sabia persuadir, e ela sabia seduzir... E matar. O poço era o cenário perfeito, pois fora praticamente esquecido. 

Morgana levava os rapazes para lá. E depois de quentes cenas de sedução, que a mim não excitavam, ela os estrangulava. Eu, então, já havia chamado a namoradinha da vítima para que presenciasse a traição e a morte do seu parceiro... E os monstros do poço apareciam resgatando o cadáver. O corpo do jovem morto serviria de banquete e a moça de refeição para o monstro. Morgana me ensinara a única maneira que eu consegui aprender sobre gostosura humana. Eu me tornei canibal e ansiosa esperava o farto banquete que havia no mundo subterrâneo. Cérbero, o cão negro que ficava solto todas as noites no colégio assumia sua forma primitiva... Com três cabeças e olhos de fogo, prontamente descia conosco e devorava o que restasse das vítimas... 

Assim, os jovens passaram a sumir como por encanto... O que não deixava de ser verdade... O encanto de Morgana os consumia... Era o último preço que pagavam pela 

luxúria, por traírem as suas namoradas... Por serem míseros humanos. E lá embaixo, sempre se repetia o mesmo ritual, porém com um acréscimo. Morgana era um Succubus, demônio sexual da linhagem das filhas de Lilith, e bebia sangue em todos os rituais macabros. Assim, a pobre mocinha apaixonada, depois de ver seu amado ser morto por ela na superfície, tinha que participar de uma bacanal, onde era possuída por Morgana, que em forma de linda ruiva, tornava-se hermafrodita e a possuía enquanto sugava seu sangue. Depois de todo aquele horror, certamente qualquer ser humano pediria para a morte chegar. O pedido era atendido quando a criatura grotesca enfiava as garras no corpo da pobre moça e a devorava. 

Em volta da fogueira, mulheres sujas, de negra pele ressecada, imitação barata de negras harpias, disputavam a atenção de Cérbero, o cão demoníaco, que uivando, possuía talvez a que naquela noite estivesse mais imunda. Uma bacanal digna dos mais dantescos ritos infernais. Sempre os mesmos tambores, a terra que se abria, liberando a criatura horrenda. O mesmo ritual macabro, as mortes... E a minha beleza que não chegava. Eu continuava a ser a mesma. Feia e gorda, triste e sozinha. 

Eu senti que mais uma vez, havia sido enganada, um simples objeto usado para a realização de um desejo que não fora o meu. E naquela noite, após mais um jovem casal ser sacrificado, eu tive muito ódio de Morgana. Eu, em minha secreta carência de afetos, nunca esquecera o beijo do homem misterioso. Em muitas noites, enquanto via as aberrações das quais participava, eu esperava a chegada da minha sonhada beleza e imortalidade, para com ele reinar naquele mundo estranho. 

Mas então, descobri o propósito daquela noite. Depois de todo o ritual se repetir, algo novo aconteceu. Morgana voltara à forma feminina. E perante meus olhos arregalados, Kahadlok, o filho de Cthulhu, transformou-se no homem da sala de espelhos. Então Morgana disse o seu nome. Sim, eu sei o nome dele, eu sei que se pudesse, eu mataria com minhas próprias mãos hoje enrugadas pelo tempo, qualquer ser humano que o tenha por nome de batismo. E frente a mim, ele a possuiu, com toda a sensualidade que somente os seres demoníacos conseguem ter. Depois, muda, subi com Morgana e Cérbero. Eu não tinha nada a dizer. 

Porém tive que ouvir as explicações de Morgana. Naquela noite, ela, assim como eu, fora apenas um instrumento deles, cumprindo uma missão. Engravidar de Kahadlok, juntando os filhos do medo e os da sensualidade. Os netos de Lilith e Cthulhu seriam demônios indestrutíveis, que depois de ordenados nos subterrâneos, dominariam a Terra, que se dobraria perante a sua beleza e sensualidade. 

Em sua gravidez, estaria proibida de sexo e de carne humana. As coisas pareceram voltar à normalidade no colégio. Assim, as portas se fecharam para os rapazes... Mas eu e Cérbero tínhamos fome. E por vezes, os infelizes que se aventuravam a pular para dentro do colégio foram devorados por nós dois. Chegou o tempo dos filhos de Morgana nascer O momento seria crucial para mim, o começo do meu fim... Em uma noite de lua linda, Morgana me chamou para o poço. E lá seus filhos começaram a nascer, incontáveis. Seres feios, minúsculos, pegajosos, que se debatiam no líquido amniótico que, misturado com o sangue do parto, escorria por entre as pernas de Morgana, indo em direção ao poço. O odor desse sangue pareceu chamar os seres do poço, que começaram a aparecer junto a nós. 

Porém, embriagado pelo mesmo odor de sangue... E essa parte ninguém me contou, para isso eu não estava preparada... Cérbero lançou-se sobre Morgana e destroçou seu corpo, devorando-o depois. Era o último ato daquela tragédia. As criaturas apoderaram-se, aos punhados, dos filhos de Morgana e com eles desceram para o submundo. 

Chocada, vi que algo ainda se mexia, sob a luz claríssima da lua. Fui até lá e constatei ser uma linda criança viva, com lindos cabelos louros. Sem pensar, peguei-a nos braços e corri, fugindo dali. 

Depois de anos a fio dentro do colégio, pois eu me desligara de tudo e de todos, eu já não tinha conhecimento do mundo exterior. Assim, eu corri desesperadamente para a rua, contando uma história que ninguém acreditou. A filha de Morgana foi salva e encaminhada para um abrigo de doação. Como era linda, logo foi adotada por uma família rica e sem filhos. 

Ninguém acreditou em tudo que eu contei. Cérbero parecia um cão comum, que não devoraria ninguém. Nunca encontraram um osso humano sequer. Então, ele foi levado para um canil. Apareceu misteriosamente morto, sem sangue no corpo, ou em seus arredores. 

Eu fui diagnosticada como doente mental. Nunca nem me disseram qual foi o diagnóstico. Afinal, são tantos os males da mente... Eu sei que o meu é a solidão. 

Quinze anos se passaram e minha juventude nunca veio. Apenas eu cumpri a minha parte no trato. Creio que já não desejo a imortalidade. 

Hoje o antigo e sombrio colégio tornou-se a melhor e mais conceituada faculdade de Medicina do país, sendo referência mundial em educação. E localiza-se aqui, vizinho ao manicômio onde eu sou internada. Ele é construído no terreno onde havia o poço. 

Katrina, a filha de Morgana vem todos os dias me visitar. A mim foi incumbida a tarefa de lhe dizer que Eles voltarão hoje. Descubro, então, que não haverá tempo. Sob meus pés, um estrondo. Kahadlok surge em minha frente, saindo do buraco que se formou onde antes havia o poço. Atrás dele, dezenas de seus filhos com Morgana. No momento em que senti garras de Kahadlok perfurarem minha carótida e seus filhos lançaram-se sobre mim, despedaçando-me, compreendi que seria imortal sim, pois viveria para sempre dentro deles.


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