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O Colecionador De Feridas
Conto

O Colecionador De Feridas

Jon O’Brien
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Áudio drama
O Colecionador De Feridas
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

‘‘Se é mesmo verdade o que os sábios nos dizem e se existe um lugar que nos acolhe (depois da morte), talvez o amigo que acreditamos extinto tenha apenas nos precedido.’’

—Séneca

O meu sorriso se desfaz numa fração de segundos, e, no momento seguinte, estou no chão, abraçando as próprias pernas e murmurando negações. Posso criar quantos obstáculos quiser dentro da minha mente, construir muros altos para me proteger da dor. Mas ela me atravessa, se apossa da minha carne. Ela me encontra.

Eu sabia que este momento chegaria, sabia que haveria uma força pisando em mim no momento da minha morte, mas, se eu voltasse ao início, quando ainda era uma criança, um ser frágil e incompleto, não imaginaria que o meu fim seria causado por mim mesmo. Se eu, naquele momento, cogitasse a ideia, talvez não teria feito tudo o que fiz.

***

Eu lembro do momento em que encontrei os colares, enterrados sob uma cruz que indicava morte. Eu sabia o que os ossos cruzados indicavam, mas minha curiosidade falou mais alto. Eu tinha onze anos de idade, e fui completamente tragado pelo brilho daquelas peças cuidadosamente forjadas, como se uma pessoa houvesse passado horas e mais horas esculpindo nas pedras. Eram lindas, tinham uma eminência gigantesca, e eu soube naquele momento, por ter encontrado um par das joias enterrados na praia, que usaria o pingente com o desenho do Sol, e sabia para quem daria o pingente da Lua.

Jones e os outros estavam afastados. Na verdade, eu que tinha me distanciado deles, pois, como não estava encontrando conchas naquela região, resolvi me aventurar em outros lugares da praia. Voltei com as duas peças nas mãos, e o brilho delas, preciso repetir, era a coisa mais hipnotizante que já vi.

— O que você está segurando, Caleb? — meu amigo Nick me perguntou. Os olhos dele estavam arregalados, sendo completamente devorados pelo brilho dos Astros.

— Achei enterrado por aí — respondi modestamente. Varri os olhos pelo local, mas não encontrei quem estava procurando. — Cadê a Eden?

Nick deu de ombros, como se não se importasse com a minha Eden. Fiquei bravo naquele momento, e só não fiquei mais porque Jones foi rápido em dizer:

— Ela foi te procurar.

Depois disso, procuramos Eden por todo lado. Gritamos o seu nome na praia deserta, nossas vozes ecoando sobre o quase silêncio, e, quando já estava perto de escurecer, ouvimos os seus gemidos de dor. Eu já estava com lágrimas nos olhos antes de chegar lá com meus amigos, e nós encontramos Eden chorando também, com um corte profundo na perna.

— Ah, meu Deus — Jones fez, correndo para ajudá-la. Entretanto, ele parou antes de tocar nela, pois estava com medo de feri-la ainda mais. — Como isso aconteceu?!

Minha Eden olhou para mim, e aquela era a visão mais triste que eu tinha em muito tempo. Mas lembrei que estava com a Lua em minhas mãos, e, como o Sol estava pendurado no meu pescoço, coloquei o colar nela, para combinarmos. Imediatamente, Eden sorriu, e — eu juro — seu sorriso foi mais brilhante do que qualquer colar Astral.

À medida que ela foi olhando para a própria perna, eu olhei para a minha. O ferimento em sua panturrilha tinha desaparecido, mas agora ele estava gravado em mim, um estigma que eu teria para toda a vida. O meu corpo ficou trêmulo e eu senti meu rosto ficar lívido. Eden, Jones e Nick também não acreditavam no que tinha acontecido, e, apesar de eu dizer a mim mesmo que aquilo era surreal, sabia que os colares tinham proporcionado a migração da dor dela para o meu corpo.

***

O sofrimento não acaba, pois sinto o meu corpo ficar frio, gélido, e eu tenho certeza de que este é o prenúncio da morte. Abraço-me com mais força, não quero deixar este mundo, mas sei que não posso lutar contra isso. Uma lufada de ar é cuspida brutalmente de mim, e com ela gotas de sangue passam a molhar o chão ladrilhado. As gotículas se misturam ao sangue que me banha...

Eu toco meu queixo manchado de vermelho e sinto minha mão ainda mais trêmula e fosca, como se ameaçasse partir a qualquer momento. Quero chorar, mas as lágrimas não me vêm aos olhos, elas se escondem nos abismos dentro do meu corpo, nos confins de mim.

***

Naquela noite, eu não consegui dormir. Parecia um sonho, mas eu sabia estar acordado. Contudo, aquele era um segredo que eu teria de dividir apenas com os meus amigos, pois eles tinham visto, eles sabiam que era real. Outras pessoas nunca acreditariam se eu não mostrasse. Levei o colar da Lua comigo e o guardei, junto ao seu par, numa caixinha velha. Eu estava decidido a não mexer mais naquilo nos próximos dias, até pensar no que fazer com eles.

Meus amigos fingiram que nada daquilo tinha acontecido, não citavam o fato como se ele não tivesse sido real, mas num dia, nós quatro brincando de esconde-esconde, Eden disse que precisava falar sobre aquilo, que não queria guardar tudo para si mais uma vez. Juntamos toda a turma e conversamos sobre o que faríamos com os colares.

— Eu uso desta vez! — afirmou Nick num tom de coragem.

Tentamos colocar o colar do Sol em seu pescoço, mas ele não fechou. Era como se só funcionasse com quem o colocou pela primeira vez. Nick ficou meio frustrado por não ter sido o “escolhido”, por assim dizer, mas ele ficaria aliviado se me visse na situação na qual estou agora.

O colar do Sol apenas funcionava em mim, mas o da Lua podia ser colocado em qualquer pessoa. E os resultados eram os mesmos: a dor que a pessoa sentia e o ferimento que carregava eram passados todos para mim. Inicialmente, tentei com dores leves, como machucados superficiais e dores de cabeça.

Mas passei a precisar de mais, necessitar, exigir, porque sentia que precisava ajudar as pessoas, como se essa fosse minha mais nova obrigação. Jones e Nick me admiravam, porque eu sofria quando sugava a dor de alguém para mim, mas Eden ficava preocupada, se perguntava aonde eu chegaria com isso.

Pouco depois de eu completar treze anos, ultrapassei um limite. O meu irmão mais novo havia quebrado o braço numa brincadeira solitária, e eu coloquei o colar nele e sua dor foi passada para mim. O braço dele não apresentava mais nenhum problema, mas o meu, pelo contrário, estava com o osso trincado. Nossos pais não viram nada, e eu não fui ao médico.

Então, escondi a dor, que foi piorando, até que Luke, o irmão mais velho de Jones, recém-formado em Medicina, ofereceu auxílio quando viu que meu braço não melhoraria sem ajuda. Ele não se importou em saber o que estava acontecendo, porque eu não poderia contar aos meus pais, e quis ajudar mesmo assim.

***

O meu peito fica apertado, como se o meu coração estivesse sendo pressionado por todos os lados, comprimido até explodir e, por fim, me inundar internamente de sangue. Levo a mão sanguinolenta para o peito, apertando como se pudesse apalpar o órgão que me mantém vivo, mas sei que, inevitavelmente devido aos últimos acontecimentos, eu não escaparei daqui.

Dói, machuca como o inferno. As lágrimas finalmente lavam o meu rosto, banham-me de uma tristeza conhecida, mas mais intensa e sagaz. Chacoalho as pernas para ter com o que me entreter. Se me mantivesse parado, sentiria a dor muito mais forte. Cada segundo que passa é mais intenso, mais firme, mas tento mudar o meu olhar para ela, para a sua figura imóvel.

***

Aos quinze anos, eu já colecionava dezenas de cicatrizes que antes pertenceram a outras pessoas, mas chegou um momento em que meu corpo quase não tinha mais espaço, se tornou apertado e dolorido. Meus pais não entendiam o modo como eu me trancava em mim mesmo, impedindo os outros de me acessarem, e achavam que eu estava me machucando. Apesar dos pedidos deles, não fui à terapia. Não precisava disso.

E Eden conseguiu tomar os meus colares e os escondeu. Eu não sabia onde procurá-los, mas tentei achá-los procurando em todo lugar que apitava em minha mente. Eden escondeu os colares durante todos aqueles anos, para que eu não pudesse ser altruísta, para que eu não pudesse me sacrificar pelos outros. Ela gostava do brilho do colar da Lua; ele tinha uma potência que não permitia que ela se separasse do objeto; ela não conseguia jogá-lo fora, embora tivesse tentado diversas vezes.

Eu olhava para o meu reflexo no espelho e via um pedaço meu faltando. Esse pedaço apenas poderia voltar para mim se eu estivesse ajudando uma pessoa, tomando suas dores para mim. Eden sempre parecia querer dizer algo, questionar a autenticidade do meu altruísmo, mas sempre se manteve calada, monopolizando os próprios pensamentos.

Eden, minha namorada, só devolveu os colares quando aconteceu algo grave com Jones. Ele sempre tivera problemas sérios de imunidade, e agora estava muito doente por causa de uma doença que contraíra. Seu sistema imunológico não era forte o bastante para curá-lo, mas o meu sim. Suguei a doença de Jones para mim, sentindo-a doer no meu âmago. Mas logo meu corpo pôde produzir os anticorpos necessários para combatê-la. Afinal, eu apenas pegava as dores das pessoas, não o modo como seus corpos se comportavam.

Os colares estavam estritamente comigo, mas eu tinha feito uma promessa para Eden, dizendo que só os usaria quando realmente fosse preciso, quando a outra pessoa não pudesse suportar a dor e eu, sim. Eden e eu avançávamos na nossa relação, estava indo tudo bem. Sempre fomos muito tímidos, mas a gente se descobriu junto, por assim dizer.

Nick, com o passar do tempo, se afastou de nós, como se nunca tivesse pertencido ao grupo ou houvesse se cansado dele. Mas Jones permaneceu firme comigo e com Eden, éramos como os três mosqueteiros. Ainda assim, ficamos mais distantes porque não éramos mais crianças, não podíamos seguir o mesmo caminho como antes. Eden se tornou uma arqueóloga, eu me tornei um respeitado psicólogo e Jones se viu obrigado a trabalhar na mesma empresa do pai.

Minha família tinha algo contra a minha aparência, algo preconceituoso e cruel. No início, quando os machucados apenas começaram a aparecer no meu corpo, meus pais ficaram alarmados, ativando sua superproteção hipocondríaca. E, depois das minhas recusas em ir ao psicólogo, eles me escondiam das visitas, não queriam que suas imagens progenitoras fossem associadas ao Frankenstein. 

Eu apenas senti as asas da liberdade abertas em minhas costas, dispostas a voar para o mundo, quando fui morar com Eden. Depois disso, fiz raras visitas aos meus pais, apenas em datas festivas, mas eles ainda me olhavam estranho, não pareciam satisfeitos com a minha presença, então deixei de aparecer. Hoje, tenho 25 anos. Faz três anos que não os vejo.

É incrível — no sentido pior da palavra — como os colares conseguiram me afastar da minha família. O meu irmão era pequeno quando eu tomei sua dor para mim, e então cresceu e não se lembrou de nada, passando também a achar estranho a minha face e o meu corpo mutilados. Por muitos momentos, pensei que manteria laços com meu irmão mais novo, mas o futuro me reservou o oposto disso.

Pensar nesses objetos mágicos agora apenas me faz perceber a cadeia de desgraças que aconteceu comigo. Acho que é tarde para voltar a como éramos antes. Tentei me livrar diversas vezes dos colares, mas eles permaneceram comigo. Seu brilho me cegava. Esses colares afastaram tudo de bom que existia na minha vida: amizades verdadeiras, minha família e, agora, Eden.

***

Minhas roupas estão molhadas, tingidas de um vermelho-vivo que ironicamente me lembra a morte. Tremulo sobre o meu sangue, nadando nos meus restos, e os meus movimentos são como espasmos — rápidos, breves, abruptos. Fico apreciando os segundos, sentindo (ar)dor nos pulsos lacerados, de onde escorre o sangue que me lava.

Eden, tantos anos juntos para terminarmos assim? As lágrimas vacilam do meu rosto, escorrem desesperadas numa tentativa vã de me proporcionar calma, uma calma que não vem, que nunca chega ao seu destino. Eden, meu amor, eu não consigo dizer uma palavra sequer, não no meu estado, mas escute meus pensamentos...

Lembro de todo o desenrolar. Tantos anos com Eden não me tornaram capaz de perceber que ela estava se transformando no tipo suicida. Há pouco tempo, ela doou boa parte das suas roupas, das suas joias, e sempre parecia cansada ou desanimada. Sinais... Ela estava no fim de si mesma, não aguentava mais o modo como eu a ignorava para capturar dores de pessoas que não conhecia.

Por que não vi a verdade em seus olhos, Eden?, penso com amargura. Por que não vi que você queria morrer? Que eu a fiz querer morrer... Quando cheguei em casa nesta noite, após um longo dia de trabalho, encontrei Eden no chão, os pulsos cortados e o sangue manchando suas roupas. Percebi que ela ainda respirava... Isso não faz mais de vinte minutos!

Coloquei o meu colar do Sol em mim, coloquei o colar da Lua nela, e logo os ferimentos começaram a aparecer, como se fossem desenhados com um pincel grosso e macio. Ao mesmo tempo, os ferimentos sumiam nela, junto com o sangue. Senti um aperto no corpo, e logo caí no chão, simplesmente despenquei. Quando vi, havia sangue formando uma poça ao meu redor.

E agora estou aqui, forçando o olhar para Eden, que não se levanta. O que será que aconteceu com ela? Como ela pode estar morta se peguei suas dores quando ela ainda vivia? Não pode ter sido em vão, não pode... Eden tem que ficar bem para que eu possa partir com a consciência tranquila.

A poça de sangue embaixo de mim fica maior, me traga para dentro dela, me engole com rispidez. Meus pulsos ardem, e eu levo a mão ao colar no meu pescoço. Olho por alguns segundos para o pingente solar, o brilho pesado sobre meus olhos. Imploro algo para alguém. Não sei se falo com Deus, não sei se simplesmente peço. Então, logo vejo os dedos de Eden se mexerem lentamente, indicando que não está morta. O tremor para, mas volta em seguida. Ela se levanta lentamente, confusa, e passa uma mão na cabeça, como se estivesse machucada.

Seus olhos me focalizam, e o brilho deles é incompreensão. Vejo-a logo ficar assustada. Estou quase partindo, Eden, quero dizer. Eu te salvei. As lágrimas descem o meu rosto, e Eden me abraça, passa as mãos nos meus machucados, no meu sangue.

— Caleb — ela sussurra, a voz doce e suave como mel —, o que você fez?

Não respondo, não consigo. Apenas sorrio porque sei que ela está segura, sã e salva. Mas Eden aperta o meu colarinho, captura o pingente do Sol com os olhos. Ela exige respostas. Eden grita comigo, aperta meu corpo e não se contenta com o que seus olhos veem.

— Você achou que era um ensaio? — ela pergunta, incrédula. — Caleb, eu não queria sua atenção, suas palavras doces ou o seu cuidado. Eu queria me matar! — ela grita comigo, as lágrimas descem do seu rosto e encontram o meu sangue.

— Al... altruísmo — finalmente consigo dizer.

— Quê? — A voz dela é cínica. Eden balança o rosto para os lados lentamente, incrédula. — Altruísmo? Isso não é altruísmo, Caleb. É puro egoísmo. Você é um egoísta! Você não tem o direito de tomar as dores dos outros assim, você não pode pegar tudo para você.

O choque hipovolêmico atinge seus níveis mais extremos. Não ouço mais o que Eden diz, as palavras delas são apenas sons indistinguíveis, sem sentido para mim. Eu a salvei. Ela não pode dizer que sou egoísta. Por boa parte da minha vida, colecionei as feridas dos outros. Sou um colecionador de sofrimento. E pude cumprir minha promessa: impedi um mal necessário.

Vejo Eden se levantar, pegar a tesoura sanguinolenta do chão e apontar para o próprio pescoço. Eu sei o que ela fará. Eden esperará eu morrer para se matar também, porque é isso o que ela quer. Arquejo e tenho os últimos espasmos, breves e brutais. Meus olhos piscam uma vez, e vejo Eden. Piscam mais uma, e Eden aparece para mim. A última imagem que tenho antes de fechar os olhos de novo é o semblante dela contorcido, a cabeça inclinada para cima para deixar o pescoço visível para a tesoura pontuda.


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