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O caso do zumbido
Conto

O caso do zumbido

Já escutou aquele "zumbido" ou "apito" em seus ouvidos? Aquele que incomoda e dá vontade de tapar os ouvidos? Você nunca mais vai querer escutá-los.

Ana Souza
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Áudio drama
O caso do zumbido
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Elias sempre gostou da biblioteca de seu avô Olímpio. Lembra-se de, quando menino, ir lá e ficar tirando os livros do lugar. A avó Francisca ficava doida com a bagunça, mas seu Olímpio ria e falava com a esposa que o netinho gostava dos livros.

Quando Elias já era quase um adolescente, continuou mexendo na biblioteca, mas para realmente pegar livros para ler. E já tinha mais cuidado com as obras, coisa que o avô lhe ensinou.

— Os livros são tesouros, Elias. Tem que cuidar bem deles. Olha esse, é muito antigo. — O avô pegou um exemplar de capa de couro e que ficava mais no alto, de propósito. — Mas veja como está bem cuidado. Isso porque eu sempre limpei e folheei mais devagar. Quer pegar?

Elias ficou com medo, na época. Se estragasse o livro, seu avô ficaria triste, ele sabia. O avô ficava sempre ali e adorava organizar suas estantes. Mesmo tendo medo de estragar a obra, o neto viu o sorriso no rosto do velho, o que acabou por encorajar Elias a pegar o livro com cuidado e folhear. E eles ficaram por um tempo olhando a obra antiga.

Naquele momento, de volta ao presente, Elias procurou por algum livro para passar o fim de semana na casa dos avós. Da cozinha vinha um cheiro bom de bolo de cenoura que Francisca assava. O rapaz sentiu o estômago roncar só de pensar em comer bolo com um copo de leite com café bem quentinho.

Continuou procurando alguma coisa mais leve para ler, mas era difícil escolher, já que a biblioteca do avô tinha se expandido ao longo dos anos. Por fim ele pegou um livro mais fino, já que pretendia ver alguns filmes também naquele fim de semana. Tinha acostumado os avós a assistirem com ele. Tirou o livro da estante e percebeu que lá no fundo tinha alguma coisa.

— Outro livro? Deve ter caído lá. Se o vô descobrir, vai querer ver se tem mais algum que caiu lá atrás — Elias disse a si mesmo, sorrindo.

Ele pegou o exemplar e viu que não era um livro, e sim um diário, feito em um caderno simples e de capa dura de um azul desbotado. Abriu-o e a primeira página dizia apenas “Lugar Nenhum”. O rapaz não entendeu nada e continuou folheando. Viu algumas palavras escritas em uma letra que sabia ser do avô. Elias continuou folheando e viu também alguns desenhos de seres que se pareciam com humanos, mas não eram.

Os seres tinham olhos maiores e ovalados, e alguns tinham cabelo longo caindo pelo corpo magro.

O neto sorriu, pensando que o avô tinha criado alguma história de ficção científica e tinha escondido sua obra para que ninguém achasse. Não entendeu o motivo de seu avô fazer isso, mas o velho tinha suas manias. Elias gritou Olímpio e ele apareceu na porta.

— O que foi? Não conseguiu achar nada para ler? Não é possível, Elias! — o homem disse, rindo.

— O que é isso, vô? Está escrevendo um livro, é? — Elias balançou o caderno no ar.

E Olímpio parou de sorrir.

— O que foi, vô?

— Ah... Então você achou...

— Escreveu uma história, vô?

— Quem dera fosse uma história... Bom, não deixa de ser, meu neto... Mas é a realidade.

— E esses desenhos?

O velho se aproximou e ficaram olhando. Olímpio sabia, naquele momento, que nunca poderia esquecer o passado, nem que se esforçasse. Lugar Nenhum iria com ele para onde fosse. Quanto tempo fazia que tinha escondido aquele caderno ali? Achava que ninguém o acharia. “Eu devia ter queimado isso. Mas não consegui, é claro”, pensou.

— Eu posso lhe contar, Elias. Mas não é uma história bonita. Não é nada bonita.

— Vovó sabe?

— Sim. E eu pedi que ela não contasse a ninguém. Nunca. Nem eu queria me lembrar disso. Ela entendeu quando contei e não achou que sou louco. — Ele sorriu. — Isso me fez amar ainda mais sua avó.

— Lá vem o senhor com essa coisa de amor!

O velho deu uma risada e indicou para Elias se sentar na poltrona ao lado da dele.

— Um dia vai se apaixonar e vai morder essa língua, menino!

— Espero que não.

Olímpio continuou achando graça, mas ficou sério quando viu a curiosidade no olhar de seu neto.

— Acho que já tem idade suficiente para compreender. E também já leu muitas histórias de terror.

— Sabe que eu adoro essas histórias. E sou forte, vô, eu aguento!

— Sim, você é muito forte. Sei que vai aguentar. Vou te contar enquanto o bolo não fica pronto. Sabe que sua avó não gosta de esperar muito.

— Então conta. Já estou curioso.

— Eu era mais novo do que você é agora, quando começou o zumbido. É, tudo começou com um simples zumbido... 

“Aconteceu em 1947. Eu morava em Lugar Nenhum, uma cidade pequena em que nada acontecia. Pelo menos era o que eu achava. Vivia bem com meus pais ali, apesar de não se ter muito o que fazer. Tinha meus amigos da escola e brincava com eles, para depois ir para casa fazer os deveres e ficar com minha família. Não tinha irmãos, mas pelo menos tinha alguns amigos.

O zumbido no ouvido começou e em pouco tempo já me incomodava. E com ele vieram as sombras. Quando eu ia dormir, apareciam sombras nas paredes, o que me assustava muito. Eu não era de ter medo, mas aquilo, depois de alguns dias, me meteu medo. Eu não sabia explicar para mim mesmo e achava que tinha ficado doido. De manhã, quando eu acordava para ir à escola, achava que tinha tido pesadelos, mas na noite seguinte era tudo muito real.

O zumbido parecia pior nos dias mais quentes, e quando tinha vento eu o ouvia mais alto. Reclamei com meus pais e eles marcaram consulta com médico para mim. Só que, mesmo depois de fazerem exames, não detectaram nada. E naquela época, mesmo que tivesse alguma coisa, talvez não pudessem mesmo descobrir.

O incômodo ia e vinha e eu estava começando a ficar muito bravo. Tudo me irritava e um dia até briguei na escola. Fui para a diretoria, coisa que nunca tinha acontecido, porque eu era um menino quieto, nem atrapalhava muito a sala com conversa. Outros professores, depois de eu ir para a diretoria, disseram que meu comportamento vinha mudando mesmo. E com isso, tive que ir me consultar com a psicóloga da cidade.

Meus pais ficaram muito constrangidos com aquela situação, porque o filho nunca tinha dado trabalho daquele jeito. Em casa eu ficava mais calado, mas era obediente e me dava bem com meus pais. Convivíamos em paz. Mas isso também tinha mudado e eu tinha me afastado deles.

No começo eu não queria muito conversar com a psicóloga. Eu nem conhecia aquela mulher... Mas ela conseguiu me fazer falar. Lembro de contar a ela sobre o zumbido e as sombras que eu via no meu quarto. E ela acreditou em mim! Com isso eu tinha uma amiga.

— Olímpio, sei que parece difícil agora, mas as coisas vão melhorar.

— Então eu não estou maluco mesmo, doutora?

— Claro que não. Eu te entendo mais do que você pensa.

Ela também via coisas.

— Não devia estar te dizendo isso, mas quero que tenha em mim alguém para confiar. Eu também já vi coisas estranhas em Lugar Nenhum. Quando tinha a sua idade e depois. Meu medo é que não passe... Mas vamos te ajudar. Eu vou te ajudar.

— E se não passar?

— Vamos ter fé no tratamento. Acho que vai passar.

Ela me deu alguns remédios mais leves, porque eu estava dormindo muito mal. Chegava morto de cansaço na escola e dormia em algumas aulas. Minhas notas caíram muito. O remédio me trouxe um pouco de alívio, já que por alguns dias eu não vi nada. Dormia cedo e levantava mais bem-disposto, mas não durou muito. As coisas pioraram...

Comecei a sonhar com as criaturas que desenhei no caderno. Elas faziam algum tipo de experiência comigo. Mesmo continuando a tomar os remédios, acordava cansado de manhã depois dos pesadelos que tinha com esses seres estranhos.

Uma noite em especial foi muito assustadora. Sonhei com os seres, mas foi muito mais real. E o zumbido ficou insuportável! Eu sentia muita dor. Eles tinham ferramentas que me cortavam. Gritei de dor, mas não adiantava. Continuavam a me cortar com seus bisturis, se é que posso chamar assim. Eles não são desse mundo, Elias. E me escolheram, não sei o motivo. Também não sei o que queriam fazer comigo. O que eu sei é que a dor era forte.

Na manhã seguinte a esse pesadelo tão real, eu fui para o hospital. Com isso, vi que não tinha sido um mero sonho. Eles tinham me levado. Meus pais me acharam delirando e com dor, e eu tinha sangue saindo dos ouvidos. Foi assim que, depois de alguns exames, descobriram que eu estava com perda de audição nos dois ouvidos. Lembra que você viu meus aparelhos e perguntou o que eram? Você não entendia, naquela época, para que serviam. Eu uso desde que os médicos viram que era necessário.

Fiquei internado por alguns dias e tinha medo de voltar para casa. Meus pais estavam muito preocupados. Por fim tive que voltar, já que me deram alta. E mandaram fazer o aparelho para eu colocar nos ouvidos, que ficaria pronto dali a alguns dias, já que eu precisava com urgência ou não ouviria direito o que os professores falavam na sala de aula.

Na noite em que voltei para casa, ouvi o zumbido, mas estava bem baixo. Fiquei apreensivo antes de dormir, mas por alguns dias tudo correu bem. O zumbido eu ouvia às vezes, mas não vi sombras e dormi tranquilo. Tinha esperanças de que tinha acabado.

Fui ver minha amiga psicóloga e conversei com ela, que ficou feliz de ver que eu estava dormindo bem. Ela suspendeu o uso do remédio e queria ver se eu dormiria bem sem ele. Ela também acreditou que eu ficaria bem.

Porém, quando o aparelho ficou pronto, foi a pior coisa que poderia acontecer para mim. À noite ouvi o zumbido bem alto, e para piorar, as sombras e os pesadelos voltaram com força. Eu me recusava a ir para a escola, pois não conseguia me concentrar nas aulas depois que tudo voltou a ficar ruim de novo.

Meus pais estavam ainda mais preocupados, com medo de eu ter me metido em algum problema. Briguei com eles e com todo mundo, não fui mais para a escola e continuei com meus problemas. Nem a doutora que era tão minha amiga eu queria ver mais. Ela não poderia me curar, era o que eu pensava.

E assim eu ficava em casa, pois meus pais estavam de olho em mim. Meu pai trabalhava fora, mas minha mãe ficava sempre em casa e não me deixava sair, com medo de eu aprontar alguma coisa. Ouvi eles conversando sobre mim um dia, e brigaram feio, porque meu pai achava que eu estava com frescura e que não queria estudar, enquanto que minha mãe achava que eu estava doente da cabeça.

Meu pai nunca foi violento, mas ele andava muito nervoso por minha causa. Alguns dias depois, no jantar, ele perdeu a paciência porque eu não queria comer.

— Vai comer agora! E vai voltar para a escola. Não criei filho para ser vagabundo.

— Meu bem, não fala assim com ele... — minha mãe disse, tentando apaziguar.

— Não, ele tem que ouvir! Já tive paciência demais. Esse moleque vai para a escola amanhã!

Mas o amanhã na escola nunca chegaria.

Comi tudo, com medo do meu pai ficar ainda mais bravo e me bater. Ele nunca teve que fazer aquilo e hoje entendo que estava também muito aflito e sem saber o que fazer comigo, por causa da minha mudança de comportamento. Sei que ele tinha medo de ter um filho doido, que teria que ser cuidado pela vida inteira. Um filho que daria trabalho para sempre. Meus pais eram honestos demais e simples demais para conseguirem imaginar ter que cuidar de um filho que fosse um problema constante, Elias. Eles não iriam saber lidar comigo se eu ficasse do jeito que imaginavam. Hoje eu sei que estavam com muito medo.

Mas eu também estava. As coisas que aconteciam comigo me deixavam apreensivo o tempo todo, com medo o tempo todo. E naquela noite, depois de colocar meu pijama para ir dormir, pensei que seria difícil voltar para a escola. Os meus amigos, que já não queriam mais saber de amizade comigo, iriam ficar me olhando esquisito. Os garotos com quem eu tinha brigado iriam querer mais briga, já que estavam com raiva de mim.

Dormi imaginando o dia que teria na escola. Pelo menos eu iria sair um pouco de casa. Mas, como eu disse, eu nunca chegaria a ir para a escola de manhã. O zumbido começou e foi ficando alto, o que me acordou. Eu vi luzes fora de casa e levantei quase que com um salto da cama. Olhei lá fora e eles estavam lá.

E eu sabia que iriam me levar embora e eu nunca mais iria voltar para Lugar Nenhum. Fiquei parado ali, vendo as luzes e as criaturas lá fora, se aproximando devagar. Eu queria gritar, mas não conseguia. Queria chamar meus pais e queria que eles acreditassem em mim, e que não deixassem que eu fosse embora. Não sei como eu sabia, mas sabia que não voltaria a vê-los mais se eu fosse embora com as criaturas.

Nunca vou saber o motivo de terem me escolhido para ir com eles, mas sabia que não seria para viver com eles do jeito que eu vivia com meus pais. Eles iriam querer me cortar e me fazer sofrer. A certeza daquilo me fez começar a chorar.

— Mãe... Pai... — eu disse bem baixinho. Eles não iriam me ouvir. Eu não tinha forças para gritar.

O zumbido aumentou de volume e coloquei as mãos nos ouvidos... E tive a ideia de tirar o aparelho. Quando fiz isso, o volume diminuiu e eu consegui me mexer. As criaturas iriam entrar pela minha janela, que era bem baixa. Ela se abriu devagar através do poder deles e os seres estavam se aproximando.

Naquele instante eu comecei a correr para longe da janela. Saí do quarto e fui para a porta da frente, e depois de sair, comecei a correr. As criaturas me viram fugir, é claro, mas não conseguiram me alcançar. Nem sei como consegui correr tanto, mas não parei até sair de Lugar Nenhum. Nunca corri tanto na vida e nunca tive tanto medo como naquela madrugada.

Parei para descansar quando já estava bem longe da cidade. Não enxergava muito por causa da escuridão, mas não importava. Eu sabia que não podia voltar. Meus pais iriam me perder do mesmo jeito e chorei enquanto corria, pensando que não veria mais o rosto de minha mãe ou o sorriso do meu pai, que antes tinha orgulho de mim.

Depois de muito correr de novo, cheguei na cidade vizinha, que não era muito longe de Lugar Nenhum. E lá eu me escondi e mendiguei por alguns dias. Tinha medo de meus pais me acharem e me fazerem voltar, e as criaturas me pegarem. Sentia saudade dos meus pais e de minha casa, mas não tinha coragem de voltar.

Um dia eu entrei em um beco e me assustei, porque tinha um homem lá. Ele estava tão sujo quanto eu, porque também era um mendigo.

— Menino, não precisa ter medo. Vem aqui. Não vou te maltratar — ele disse.

Mas eu estava com muito medo, Elias. Fazia tempo que vivia sozinho, me escondendo pela cidade e estava morto de fome, como sempre. Naquele dia se eu tinha comido um pedaço de pão, era muito.

— Senta aqui. Tem espaço para nós dois.

Obedeci e sentei perto do homem. Ele já era velho e tinha uma barba muito grande e suja.

— Não tenho muito, mas dá para nós dois, se tiver fome.

Eu olhei para o que ele tinha na mão: era uma pizza velha, que provavelmente ele tinha pegado no lixo. Eu já não tinha nojo, porque eu mesmo já tinha pegado alimento no lixo tantas vezes.

— Pega um pedaço. Não estou sentindo muita fome.

Claro que ele viu meu olhar faminto e ainda estava mentindo que não estava com muita fome. Peguei um pedaço e comi rapidinho, enquanto o homem me olhava.

— Cadê sua família, menino?

Fiquei calado e o homem balançou a cabeça, como se dissesse que sabia de alguma coisa. Você não conheceu o Ezequiel, Elias. Ele foi bom comigo. Me ajudou e me deu um lugar para morar. Conseguimos construir um barraco e moramos lá por muitos anos. 

Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, comecei a fazer alguns trabalhos, uns bicos mesmo: entregando jornal, entregando panfleto na rua, porque Ezequiel me incentivava a querer mudar de vida. Dizia que eu era inteligente e iria me dar melhor do que ele. Eu achava livros no lixo e lia, para não esquecer o que tinha aprendido na escola. Ezequiel e eu às vezes passamos fome porque ele dizia que eu devia comprar cadernos e lápis para escrever e não ser burro como ele. Logo ele, um dos homens mais inteligentes que já conheci! A sabedoria dele não precisava de papel e lápis. Estava tudo na cabeça daquele homem e era baseada em suas experiências de vida.

Ele me ensinou tudo que sei, Elias. Me ensinou a continuar sendo honesto, a trabalhar e tratar bem as pessoas. Eu contei a ele sobre Lugar Nenhum, mas a história morreu com aquele homem. Ele acreditou em mim, porque dizia que tinha mais coisas por aí do que a gente sabe. E sou grato a ele por ter me ouvido e ter cuidado de mim.

E essa foi a minha história. Eu consegui mudar de vida porque ele me ajudou. E consegui ajudar um pouco aquele homem que foi um pai para mim. Fiquei muito triste quando ele morreu”.

O velho parou e os dois ficaram em silêncio, até que Elias o rompeu. 

— Nossa, vô. É verdade tudo isso?

— Eu sei o que eu vi, Elias.

— E os seres? Nunca mais viu eles?

— Acho que eles ficaram presos em Lugar Nenhum. Nunca mais apareceram. Nunca mais me acharam.

— E o senhor nunca quis voltar lá? Tentar descobrir o que eram eles?

— Ah, eu quis. Eu tentei. Quando já estava casado e sua mãe já tinha nascido, eu quis ver meus pais. Queria me desculpar. Sabia o quanto eles tinham sofrido. Se eu perdesse minha princesinha igual eles me perderam, eu sofreria demais. Queria que eles soubessem que eu quis voltar. Mas eu nunca achei a cidade, Elias. Lugar Nenhum tinha sumido.

“Procurei pelas redondezas, mas ninguém soube me dizer onde ficava a cidade. Desisti, porque acho que a cidade não queria ser achada. Segui minha vida e sou feliz, como tenho certeza que meus pais iriam querer que eu fosse. E quanto aos seres... Preferia não vê-los mais. Fico feliz que tenham me deixado em paz, pelo menos até hoje”.

Os dois ficaram calados por algum tempo. Elias estava digerindo tudo. Nunca foi de acreditar em histórias daquele tipo, mas sabia que seu avô não estava mentindo. Olímpio estava se lembrando de seu velho amigo, que queria poder ver de novo. Ele estava com quase a mesma idade de Ezequiel.

— Ô vocês dois! — Francisca apareceu na porta, sorrindo. — Que conversa longa é essa? Não vão comer bolo? Acabou de sair.

— Ah, vó, a senhora que ama bolo quente assim. Deixa esfriar um pouco. Quero saber mais sobre Lugar Nenhum.

— Olímpio, você contou? — a mulher perguntou, assustada.

— Ele achou o caderno, meu bem.

— Elias, vai ter pesadelo ouvindo isso. Eu sei que eu tive.

— Se não for os mesmos pesadelos que meu avô, fico tranquilo. E eu não tenho medo dessas histórias, vó. Já passou. As criaturas deixaram o vô em paz.

— E fico aliviada. Quando eu soube, fiquei bem assustada. E quando sua mãe nasceu, fiquei preocupada. Mas ela nunca teve nada.

— Vamos comer bolo. Estou com muita fome e o café cheirou aqui. — Olímpio disse, se aproximando da esposa e pegando a mão dela.

Queria mais uma vez esquecer aquela história que de tempos em tempos o atormentava. Elias guardou o caderno no mesmo lugar.

Enquanto seus avós seguiam para a cozinha, Elias riu, achando que seu avô era um “eterno apaixonado”, como o próprio Olímpio dizia às vezes, quando falavam do casamento dele com Francisca. E depois de guardar o caderno de Lugar Nenhum, o neto saiu correndo para a cozinha, pensando se iria resistir ao cheiro bom do bolo quente.


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