Conto

O caso da materialização de pensamentos

Uma folha de papel, um desejo, um pensamento... Parecem inofensivos para qualquer pessoa. Principalmente para uma criança.

Danilo Gimenez
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Áudio drama
O caso da materialização de pensamentos
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Relato do paciente nº 37615, sexo masculino, caucasiano, aparentemente 50 anos.

“Então vocês querem saber minha história...nem sei por onde começar...faz tanto tempo e parece que quando tento esquecer ela se impõe...meu Deus...”

“Você acredita em força do pensamento? Não, não pensamento positivo, mas como se você atraísse aquilo no que você pensa? Claro que não acredita, caso contrário eu não estaria nesse lugar...”

Eu era um garoto normal, gostava de andar pelo bosque perto de casa, ia bem na escola, nada impressionante mas não era dos piores, tinha alguns amigos, dois ou três bem próximos, nadava no riacho que cortava o bosque, ia às festas típicas de Lugar Nenhum, quase sempre acompanhado dos meus pais, ou melhor, da minha mãe, meu pai não saía muito, ele trabalhava muito e estava sempre cansado, aproveitava o domingo pra beber e dormir, mas minha mãe fazia tudo que eu pedia. Eu era obediente, procurava não dar dor de cabeça, raramente brigava e quando acontecia eu fazia o possível para esconder dos meus pais. Eles nunca foram chamados na escola e quando minha mãe ia à reunião de pais, nenhum professor tinha do que reclamar, e assim eu passava os dias. Eu tinha onze anos de idade.

Um dia, ao chegar da escola, minha mãe tinha um sorriso estranho, eu nunca a vira daquele jeito, parecia que estava escondendo alguma coisa. Fiquei intrigado e confuso, queria saber o que estava acontecendo mas não sabia como perguntar. Minha curiosidade durou pouco, no jantar, após colocar uma travessa de lasanha na mesa, o que deixou meu pai confuso já que era uma terça-feira e só comíamos lasanha no domingo, ela aproveitou que olhávamos para ela com cara de espanto e disse: seremos quatro nesta casa!

Meu pai era um homem sério, raras vezes o vi sorrindo e quase sempre era um arremedo de riso um tanto ébrio, quando achava alguma coisa engraçada, riso etílico, mas naquela noite eu vi um sorriso tão terno e sincero que mais tarde naquela noite fiquei imaginando se ele reagira da mesma forma quando soube que minha mãe estava grávida de mim. Ele se levantou, deu a volta na mesa e abraçou minha mãe. Eu não sabia o que fazer, estava com fome, meio sem graça de ver os dois se beijarem, até que finalmente eles me olharam como que esperando uma reação, então me levantei e abracei os dois, mais ela do que ele, pois ela estava no meio e sentávamos um em cada cabeceira da mesa.

Os dias foram passando e eu imaginando como era estar com um bebê na barriga, como seria a cara dele (eu jurava que seria menino), como iria chamar. Quando tinha uns cinco anos eu queria ter um irmão. Queria alguém para brincar, mas tinha que ser do meu tamanho, na minha cabeça, meu irmão nasceria com cinco anos, igual a mim. Os tempos eram difíceis, meu pai trabalhava muito e mal pagávamos as contas, depois a situação foi melhorando e a ideia do irmão foi se apagando. A medida que crescia, percebi que tinha a atenção de minha mãe toda para mim, e isso era bom. Aprendi a gostar de ser filho único. Meu quarto, meus brinquedos, tudo meu.

Meu pai parou de beber, já na terceira semana depois do anúncio de minha mãe, não colocava uma gota de álcool na boca. Ele nunca foi violento, era do tipo que bebia e ia dormir, mas quando parou de beber ficou chato. Em primeiro lugar, começou a pegar no meu pé por conta da escola, logo eu, que nunca tirava uma nota vermelha. Ele sempre perguntava da escola, mas passou a ser mais insistente, olhar meus cadernos, disse até que acompanharia minha mãe na reunião de pais. Promessa não cumprida. Mas agora que ele não bebia, consequentemente não dormia, e passou a ocupar parte do domingo com a igreja. Primeiro a cada quinze dias, domingo sim, domingo não, e logo estávamos indo todos os domingos, sim, estávamos, porque ele fazia questão que fôssemos, afinal “somos uma família” como ele gostava de dizer. Ou éramos.

Minha mãe estava exultante com sua barriga crescendo e sendo paparicada pelas mulheres da igreja, meu pai recebia tapinhas nas costas dos homens e eu era ignorado por todos, com exceção de dois meninos com sorriso diabólico que me olhavam e cochichavam e mais tarde descobri serem filhos do pastor.

Tudo transcorria mais ou menos normalmente, eu estava apenas um pouco contrariado por conta da igreja, mas no mais tudo bem. Até que um sábado, após jogar bola com os meninos, voltei pra casa e vi meu pai e minha mãe esvaziando meu quarto. MEU quarto. Estavam “abrindo espaço” para o bebê. Fui realocado para o sótão. Eu odiava o sótão. Fazia uns quatro ou cinco anos que não entrava lá. A última vez, eu deveria ter uns sete anos, estávamos fazendo uma venda de garagem. Todo o pessoal da rua participou. Enquanto meus pais falavam com alguns vizinhos próximos eu subi para procurar umas tralhas para vender. A escada rangia ao menor sinal de pressão. Mas eu era pequeno e sempre me aguentava. Quando finalmente subi o último degrau e abri a portinha no teto, o rangido ficou mais longo, como um animal agonizando, e ao pisar no sótão a escada despencou e a porta bateu. Estava preso e no escuro. Após me recobrar do susto, procurei pela lâmpada pendurada na altura do meu braço estendido, aquelas que tem uma correntinha pra acender e apagar. Puxei a correntinha e nada. Comecei a chorar. Quando vi que chorar não ajudaria, comecei a gritar pelos meus pais. Nada. Nossa casa era grande e o sótão tinha janela para os fundos. Eles deveriam estar perto, até mesmo na calçada ou do outro lado da rua, mas a algazarra que a vizinhança fazia nessas vendas de garagem dificultava ouvir qualquer coisa a distância. Como as crianças corriam pra lá e pra cá, só deram falta de mim umas duas horas mais tarde, e finalmente ouvi minha mãe e meu pai me chamando da porta da sala e depois entrando para me procurar. Desde aquele dia eu jamais entrei no sótão outra vez, mesmo com a escada novinha em folha que meu pai mesmo fizera, ele era bom em construir coisas.

Minha mãe disse que eu já estava bem grandinho e que o episódio do sótão não fora nada demais. Além disso, eu iria adorar meu “novo quarto”. Senti vontade de chorar e fui tomar banho. Chorei no chuveiro. Era a primeira coisa que tiravam de mim. Meu quarto. Meu espaço. Acabei o banho e quando saí, vi minha mãe toda sorridente dobrando roupinhas e colocando nas gavetas de um móvel novinho em folha no meu “antigo quarto”, quando fiz menção de entrar ainda meio molhado para terminar de me trocar ela disse: “ - Hã hã mocinho, seu quarto é lá em cima” - e apontou para o maldito sótão. Quando olhei na direção da escada vi meu pai com um sorriso idiota parado no meio da escada como se me desse as boas vindas. Subi os degraus, que dessa vez não rangiam mais, com vontade de chorar outra vez.

Mal entrei no “quarto” e meu pai disparou numa faladeira, parecia um tipo de guia turístico me mostrando tudo o que tinham feito para deixar meu quarto “incrível”. O lugar estava diferente, é verdade. Não tinha mais cheiro de mofo, estava bem iluminado, meus pôsteres estavam colados nas paredes e meus brinquedos organizados em caixas e prateleiras. Tinha até uma escrivaninha e uma estante com livros. Eu adorava ler. Até que não é mal, pensei. E meu pai disse: “ - Então, o que você achou? Não é incrível?” – ao que eu respondi: “ É, legal...”. Tão rápido quanto começara a falar quando entrei no quarto ele disse que eu iria adorar e desceu para ajudar minha mãe.

Os dias foram passando, a barriga da minha mãe crescendo e eu me acostumando com o quarto e com tudo. Até que chegou o grande dia. Eu me preparava para a escola e meu pai tomava café quando ouvi minha mãe gritar: “É agora!” -  Ouvi o barulho da xícara espatifando na pia e os passos apressados do meu pai, desci para ver o que estava acontecendo e vi minha mãe com o vestido molhado andando com dificuldade apoiada em meu pai, ela olhou pra mim com cara de dor mas sorrindo e disse para eu ir pra escola que iria ficar tudo bem. Eu fui, mas não consegui prestar atenção em nada.

Depois da aula eu costumava passar algum tempo no bosque perto de casa, eu adorava aquele bosque. Não era muito grande, mas eu me sentia em paz ali. Naquele dia passei correndo em frente ao bosque e fui direto pra casa. Queria ver minha mãe. Ao invés disso, dei de cara com uma tia antipática do meu pai que viera não sei de onde para tomar conta de mim. Minha mãe ficaria no hospital até o dia seguinte.

O hospital, me explicou essa tia, era uma alternativa moderna, e ela pronunciava “moderna” com uma espécie de desprezo, para as mulheres “modernas” como minha mãe terem seus bebês. Eu nascera no hospital e agora meu irmão (realmente era menino), meu pai nascera em casa com ajuda da parteira, e ela pronunciava “parteira” com um tom de respeito, como se fosse uma figura sagrada. Na verdade essa parteira era a mulher mais velha e mais esquisita de Lugar Nenhum. A primeira vez que a vi, ela vinha saindo do bosque com umas plantas na mão. Dei de cara com ela quando voltava da escola. Aquele dia não entrei no bosque. Senti uma coisa ruim e fui pra casa.

“E minha mãe?” – perguntei. “Onde ela nasceu?” – “Ah, isso eu não sei, ela não é dessas bandas, mas provavelmente em algum hospital”. – respondeu. Fiquei pensando no lugar de onde minha mãe viera. Se ela não era dessas bandas, era de onde? “Algum hospital?” – então existiam outros? Fui para meu quarto fazer meu dever de casa e esqueci o assunto. No dia seguinte, pulei da cama e desci para esperar minha mãe. Em vão. Deu a hora da escola e a tia do meu pai me despachou com minha mochila e um lanche esquisito que ela disse que era “saudável”, e eu pronuncio “saudável” como quem diz “horrível”.

Naquele dia não corri para casa, minha pressa de ver minha mãe parecia estar atrasando ainda mais as coisas. Andei tranquilamente e até dei uma passada no bosque. Como de costume, saí da estrada na entrada do bosque e comecei a caminhar em direção ao riacho que corria paralelo a estrada cerca de uns cem metros adentro. Quando vi algo estranho. Uma folha de papel, parecendo ter sido arrancada de algum tipo de diário, pendia de um galho na altura dos meus olhos. Parecia que alguém tinha colocado um recado ali e quisesse que alguém lesse. Peguei a folha cuidadosamente e fiquei olhando a caligrafia, sem realmente ler o que estava escrito. Era bem melhor que meus garranchos. Eu adorava ler mas escrever era um desafio para mim. Quando resolvi ler, a primeira frase dizia: “Cuidado com aquilo que desejas, pois ninguém se arrepende a tempo. Pensar é fazer”. Achei estranho mas continuei lendo. Era uma história maluca de uma pessoa que pensava nas coisas e elas aconteciam. Não dei muita bola. Fui lendo até chegar ao riacho. Me sentei na margem e pus a folha sobre a água, que a carregou suavemente. Fiquei olhando até sumir de vista, depois me levantei e peguei o caminho de casa.

Na volta fiquei imaginando de onde saíra aquela página. E se aquilo fosse verdade, como seria imaginar as coisas e elas acontecerem? E se fosse comigo? O que eu imaginaria? Com certeza eu iria querer aquela tia estranha fora de casa. Daí parei de pensar nisso e me perguntei se minha mãe finalmente teria voltado para casa com o bebê e meu pai.

Quando cheguei em casa meus pais estavam em silêncio ao redor do berço onde dormia meu irmão. Me olharam com um sorriso e imediatamente fizeram sinal de silêncio. Me aproximei para olhá-lo. Dormia tranqüilo. Saímos do quarto, minha mãe me abraçou e me deu um beijo na testa. Meu pai foi tratar de uns assuntos com a fábrica onde trabalhava e eu perguntei da tia dele. Eles não sabiam. Ela deveria esperar eles chegarem, mas quando voltaram do hospital não havia nem sinal dela. Perguntaram se havia acontecido alguma coisa, se estava tudo bem, e eu disse que sim. Disse até que ela tinha preparado um lanche “saudável” para mim (só não disse que havia jogado metade fora), mas que agora eu estava com fome. Minha mãe preparou alguns sanduíches e comemos. Lembrei da página encontrada no bosque, mas aquela tia esquisita ter tomado chá de sumiço só poderia ser coincidência.

Naquela noite acordei milhares de vezes com o bebê berrando. Na manhã seguinte meus pais pareciam dois zumbis, estava claro que não haviam dormido nada. Fui para a escola e meu pai para fábrica. Minha mãe ficou com o bebê, que agora dormia, nos braços,  nos olhando sumir em direções diferentes da estrada.

Daquele dia em diante tudo aconteceu muito depressa. Enquanto tentava me aproximar do bebê durante o dia e era enxotado por minha mãe, a noite andava de um lado pro outro em meu sótão-quarto, e sabia que meu pai fazia o mesmo, porém na cozinha ou na sala. Com o tempo, parei de tentar me aproximar. Eu ainda conseguia dormir de dia, enquanto ele dormia, mas meu pai coitado, era só pele e osso. E já não rendia tanto na fábrica quanto antes.

As contas haviam se estabilizado nos dois ou três anos antes do bebê nascer, não que eu entendesse de contas, mas eu percebi que estávamos bem. Eu ganhava presentes no natal e a festa de ano novo mais comentada da rua era na minha casa. Eu adorava aquela festa. Os meninos da rua vinham e alguns da escola também, e até os que não falavam comigo na escola ficavam “legais” de uma hora pra outra. Eu me sentia importante. Naquele ano meus pais disseram que não haveria festa e aceitaram o convite de uns tios em outra parte da cidade. Disseram que seria legal, que eu iria gostar. Odiei. Após beijar e abraçar pessoas que eu nunca vira antes e de ouvir meus pais explicarem quem era quem, procurei alguma coisa para comer e fui sentar num canto. Minha paz durou pouco. Dois meninos com riso diabólico se aproximaram e perguntaram se eu queria brincar de explorar. Como eu não conhecia o local e estava entediado, aceitei. Saímos pela porta dos fundos e demos de cara com um chiqueiro a uns cinqüenta metros da casa e mais a direita o celeiro. Estava escuro e eu fiz menção de voltar, ao que o mais velho disse: “ Tá com medinho, bebezão da mamãe?” e o outro completou: “ O irmãozinho dele deve ser mais corajoso, um bebezinho e um bebezão”. Mandei-os tomar naquele lugar e disse que não tinha medo de nada, então me desafiaram a ir na frente. Contornamos o chiqueiro e fomos na direção do celeiro. Chegando lá, percebi a porta entreaberta iluminada pela lua e me aproximei cautelosamente. Quando empurrei a porta para entrar, um balde enorme cheio de merda de porco caiu sobre mim, me cobrindo da cabeça aos pés. Os filhos da puta saíram correndo e me deixaram no escuro e todo coberto de merda. Chorei. Quando cheguei de volta a casa os olhares dos adultos me deram a impressão de que eu era um ser de outro mundo, já os dois meninos, que agora reconheci como os filhos do pastor, estavam sentados à mesa ao lado dos pais com olhar de reprovação. Quando ia abrir a boca para me explicar senti minha orelha sendo fisgada e encontrei a mão de meu pai agarrada nela com força me puxando para fora da casa. 

Me arrastou pra fora da casa e antes que eu me desse conta abriu a mangueira. A água fria naquela noite gelada doía. Chorei mais. E levei um tapa na cara. Eu nunca havia levado um tapa na cara antes, muito menos de um adulto. Olhei para dentro da casa e vi os “anjinhos” do pastor. Eles riam. Odiei aqueles meninos com todas as minhas forças e desejei que estivessem mortos. Meu ódio cego e talvez minha natureza ingênua me impediram de imaginar a morte deles, mas queria que sofressem.

De volta à nossa casa, a primeira semana do ano não trouxe boas notícias. Um telegrama chamava meu pai de volta à fábrica, interrompendo suas férias. Ele pareceu preocupado mas foi. Como eu também estava de férias e minha mãe nem se dava conta de minha existência, fui ao bosque. A neve branca cobrindo a relva amarelada do inverno lembrava uma sobremesa que comera uns anos atrás na casa de minha avó em seu último ano de vida. Eu ainda estava ruminando o que vinha acontecendo já há algum tempo. O bebê, meu quarto, a festa cancelada, a “festa” horrível, o banho gelado, o tapa, mas principalmente os meninos. De repente parei. Os meninos. Senti meu estômago revirar de ódio, e quando olhei pouco adiante, vi algo balançando em uma árvore. Um papel. Meu coração deu um pulo. Um flashback passou pela minha cabeça. A primeira folha, as palavras estranhas, eu imaginando o que faria se pudesse pensar em algo e fazer acontecer, o sumiço da tia estranha do meu pai. Apanhei a folha. A mesma caligrafia, mas desta vez não fiquei contemplando a letra e fui direto ao conteúdo. Comecei a tremer. Era uma coluna policial descrevendo um acidente em um moinho de café. Dois meninos foram encontrados totalmente desfigurados e com pelo menos sessenta e cinco por cento dos corpos triturados. Segundo os legistas, num acidente daquele tipo a morte seria instantânea se os equipamentos fossem modernos. Eles estimam que os dois tenham ficado presos por pelo menos uma hora até finalmente morrerem, pela perda de sangue e destruição de órgãos e tecidos. Vomitei. De medo, de raiva, não sei, mas vomitei. Quando terminei de vomitar me sentei na beira do riacho e lavei o rosto com água gelada. Era bom. Minha cabeça ainda girava mas aos poucos foi passando. Depois me perguntei como me sentiria se aquilo fosse verdade.

Fui para casa me sentindo cansado. Queria me deitar e dormir. Quando cheguei minha mãe estava no telefone. A expressão de horror em seu rosto me deu um mau pressentimento. Ela se despediu e desligou o telefone. “Era uma senhora da igreja, os meninos do pastor morreram”. Corri para o banheiro e vomitei de novo.

Algumas horas mais tarde estávamos prontos para o velório. Meu pai voltara da fábrica já sabendo da notícia, uma das características das cidades pequenas. Fomos à igreja. O pastor muito abatido estava sentado entre os caixões brancos, sua esposa estava em casa, sedada, aos cuidados das senhoras da igreja. Minha cabeça girava. Não podia ser verdade. Não tinha como. Mas era.

Ficamos no funeral por umas duas horas. Eu queria estar em qualquer lugar, longe dali, talvez no bosque, mas não havia o que fazer. Talvez se desejasse que eles não estivessem mortos. Mas como seria então? Eles ressuscitariam? Lembrei então da primeira página que encontrara: Ninguém se arrepende a tempo.

Ao me despedir do pastor e lhe prestar meus pêsames pela última vez tive a impressão de que, por um breve instante, seu olhar de dor dera lugar a um de ódio, e pensei “ele sabe”, mas logo esse olhar se apagou coberto por lágrimas que brotavam insistentemente.

Voltamos em silêncio para casa. Só o ruído do motor e dos pneus esmagando o cascalho da estrada. O bebê dormia como uma pedra. Mal entramos em casa e ele explodiu num berro estridente que me fez pular de susto. Meu pai olhava para o vazio enquanto minha mãe acudia o bebê. “Sinto muito querido, sei que você anda cansado e precisa trabalhar cedo, eu vou acalmá-lo”. “Não preciso mais” – disse meu pai. Eu estranhei aquela frase e olhei para os dois. Minha mãe com um olhar hesitante entre dúvida e pânico. “Fui demitido” – ele completou.

Nos dias que se seguiram todos estavam nervosos. Meu pai voltou a beber, minha mãe passou a fumar, o bebê que dormia de dia e chorava a noite toda, agora chorava dia e noite. Minha cabeça doía. Algo que era novo para mim até então. A única vez que tivera dor de cabeça antes fora em uma gripe muito forte que quase virou pneumonia. Agora a dor era constante, com variações de intensidade. Quanto mais o bebê chorava, mais doía. Eu saía de casa para aliviar um pouco. Nem sempre funcionava. A não ser que eu andasse na direção do bosque.

Meu pai que nunca fora violento começou a dar sinais claros de que estava a beira de explodir. Minha mãe que era só cuidados para com o bebê começou a deixá-lo chorando por algum tempo antes de pegá-lo no colo. Eu mal ficava em casa. De manhã cedo preparava qualquer coisa para comer e ia pra escola. Voltava direto para o bosque, onde me sentava e fazia o dever de casa. Hábito adquirido ao longo dos anos mas que se mostrava cada vez mais sem sentido, uma vez que meus pais não davam a mínima. Pelo menos era o que parecia.

Um dia cheguei da escola e meu pai estava com um cinto de couro enorme nas mãos, nem bem entrei e levei o primeiro golpe. Acertou de atravessado no peito, passando a dois dedos do meu queixo. A saraivada de golpes durou pouco, bêbado, meu pai mal conseguia andar, quem dirá bater em alguém. Mas doeu, só que desta vez não chorei. Não sabia o que havia mudado em mim, mas eu estava diferente. Sobre a mesa meu boletim. Chegara pelo correio. Um D em matemática. Uma única nota vermelha e eu fora alvo daquela surra. Meu pai não era mais o mesmo. Tive raiva dele.

No dia seguinte, na aula de educação física, tive vergonha de tirar a roupa na frente dos meninos. Quando viram os vergões pelo meu tórax, braços, pernas e costas, alguns riram disfarçadamente, outros ficaram em silêncio, só um idiota, sobrinho do treinador tirou sarro abertamente dizendo coisas estúpidas. Eu não gostava daquele menino, naquele momento, senti ódio.

Voltei para casa sabendo que não encontraria sossego, mas não podia passar o dia todo fora. Talvez com um pouco de sorte o bebê estivesse dormindo. Não estava. Berrava a plenos pulmões e minha mãe estava deitada no sofá olhando pro teto. Eu nunca vira aquele olhar nela antes. Não sei explicar. Era um vazio obscuro. Tive a impressão que se pudesse ler seus pensamentos eu teria um pesadelo daqueles. Minha mãe que fazia tudo por mim. Éramos tão felizes, antes daquele bebê.

Finalmente o bebê se acalmou e pude dormir um pouco. E esse foi o começo do fim. Dormi profundamente. De repente estava em outro lugar. Era o bosque, mas muito maior, mais escuro, com ruídos que não sabia identificar. O riacho fazia um barulho ensurdecedor, como milhares de vozes de pessoas agonizando. Eu andava na direção do riacho e a cada árvore para a qual me voltava encontrava uma folha, que eu pegava e lia. Desta vez porém, eu não ficava horrorizado, mas excitado. Sorria com as descrições das barbáries que vitimaram um garoto da minha escola, o atropelamento de um bêbado por um caminhão cheio de gado e de uma mãe que colocara seu bebê num liquidificador e depois se enforcara. Quando acordei, estava aqui. Não sei quem me trouxe nem quando vim.


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