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O caso da garota tatuada
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O caso da garota tatuada
Conto

O caso da garota tatuada

Um antigo caso é retomado para estudo em uma delegacia. Através de uma simples fita de vídeo e um televisor antigo, eles serão transportados para um curioso caso de Lugar Nenhum.

Vinicius Peron
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Áudio drama
O caso da garota tatuada
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Havia uma pilha de caixas no fundo daquele porão na delegacia. Em todas elas continham uma etiqueta com o nome: Lugar Nenhum. 

Dentro das caixas existia muita papelada: processos, investigações que foram paradas na metade, muitos relatos e diversos registros de desaparecimento. Havia também outros tipos de ocorrência como assassinatos, sequestros e até mesmo estupros, mas não eram muitos. 

Em outras caixas mais distantes havia dezenas de fitas que serviam para o vídeo cacete da delegacia, com o passar dos anos, as fitas deram acesso aos CDs e DVDs. Tudo estava registrado e guardado ali por um longo período de tempo.

O que mais chamou a atenção dos investigadores eram as datas dos acontecimentos. Os primeiros registros vinham de 1812, já o mais recente era de 2017. Todos relacionados a este Lugar Nenhum.

Em meio às fitas, os investigadores decidiram começar a verificar pelos relatos das pessoas para entenderem melhor o que era aquele tal lugar que até o presente momento tinha tantos arquivos e nunca se ouviu dizer nada. 

Separaram todas e olhando as datas viram que a mais antiga era de vinte e cinco anos atrás. Não era tão velha assim, começariam dali. 

Todas as fitas também eram etiquetadas, mas ao invés de ser o nome de Lugar Nenhum, desta vez era com os nomes das pessoas que davam os relatos ou que eram investigadas, sendo vítimas ou até mesmo suspeitas. Nesta fita mais antiga continha o nome de Karine Lincoln. 

Os investigadores colocaram a fita no velho vídeo cacete que há tempos não era usado e começaram a assistir. 

O relato começava com uma moça sentada na cadeira de interrogatório. Ela parecia algemada e suas mãos eram inquietas. De repente, dois investigadores entram na sala e puxam suas cadeiras e se sentam para começar o interrogatório. 

Os que assistiam reconheceram seus anteriores, eram o agente Phil e o investigador Hoffman, ambos experientes, mas que subitamente morreram por complicações de saúde anos atrás. 

Voltando ao vídeo eles percebem que eles começam com uma pergunta.

O ângulo da câmera de filmagem era superior e frontal para as vítimas ou suspeitos e os investigadores ficavam de costas para a gravação.

- Qual o seu nome? – Perguntou Phil. 

- Karine Lincoln. – Respondeu a mulher de cabeça baixa. 

- Karine Lincoln, correto. – Phil pareceu anotar algo. As anotações faziam parte da rotina dos investigadores, qualquer detalhe era importante, desde expressões faciais até tonalidade de voz, afinal, eles investigavam tudo. – Poderia nos repetir o que você contou aos policiais? 

- Sim. – Ela levantou a cabeça dessa vez. A imagem do vídeo não era tão clara, mas era visível que ela era uma bela moça. Seus cabelos eram loiros e encaracolados, seus lábios eram carnudos e seus olhos grandes. Infelizmente pelo vídeo não se dava para detalhar tanto assim a cara, então a cor do olho era uma mistério. 

- Pode começar então. Vamos apenas fazer algumas anotações aqui para que possamos investigar mais para frente. – Comentou o agente, pegando um bloco de notas. 

- Foi tão de repente... Eu quase não consegui ver absolutamente nada. – Ela dizia num tom morno. – Vi vultos passando e quando me dei por conta eles já estavam atrás de mim.

- O que exatamente estava atrás da senhora? – Perguntou o investigador.

- Eles. – Ela disse bem baixinho. 

- Poderia repetir?

- Eles. – Ela desta vez falou mais alto. 

- Poderia especificar quem são eles? – Perguntou o agente que anotava as coisas. 

De repente o vídeo começou a sofrer algumas interferências como se estivesse violado ou que o aparelho era muito velho para novamente ser usado. 

Após algumas interferências, novamente o vídeo voltou. 

- Homens, com braços longos e cabeças pontiagudas. Eles vestiam preto e sua pele era fria. Foi horrível. – Ela começou a chorar.

Os investigadores deram um tempo e espaço para o choro, enquanto eles se observavam. O vídeo ficou um pouco mais nítido e foi possível perceber uma tatuagem na altura do coração da moça. Era um data, provavelmente importante para ela. 23-06-1971.

Após longos minutos de choro, os investigadores insistiram.

- Poderia nos descrever melhor sobre esses homens com braços longos? – Sugeriu Phil.

- Não quero mais falar sobre eles. Me dá medo e sinto dores também ao falar deles. – Ela abaixou a cabeça novamente. 

- Então tudo bem. – Concluiu o agente. – Que tal nos falar onde você estava quando eles chegaram? 

- Em casa, claro. – Ela foi rápida. 

- Mas os policiais te acharam perdida na estrada que leva até o bosque. Eles te largaram lá? 

- Sim. Fizeram coisas terríveis comigo. Muito terríveis. – Ela vagarosamente mostrava as suas mãos. Era possível notar vermelhidão e hematomas na palma da mão. – Eles me batiam muito. Muito. 

- E o que mais fizeram? – Enquanto Phil anotava, Hoffman fazia o questionário. 

- Tudo! Eles faziam tudo! – A mulher teve um ataque de fúria e bateu forte na mesa. O que fez com que os dois investigadores ficassem assustados e se afastassem como auto defesa. 

Neste momento mais uma interferência ocorreu no aparelho ou na fita. O chiado da televisão começou a irritar os investigadores até que finalmente o vídeo retornou, mas parecia ter avançado. 

Phil e Hoffman estavam com outras roupas, mas Karine ainda estava com a mesma. 

- Você tem certeza do que viu, Karine? – Phil perguntava de modo duvidoso. 

- Claro que sim! Tinha uma janela onde me prenderam. – A mulher não parecia tão chocada quanto no primeiro vídeo. 

- Mas Karine, em todo estabelecimento existe uma janela. Tente ser mais específica. – Insistiu o agente.

A mulher ficou pensativa, raramente pensava antes de falar, mas desta vez se concentrou. Ela começava a tremer os dedos, era possível notar que desta vez ela não estava algemada, ela era uma vítima.

- Tinha árvores em volta... Muitas árvores, eu acho que era uma cabana no meio da floresta. Na verdade, tinha mais uma cabana e muita névoa. – A voz dela pareceu rouca e diferente.

- Certo. – Phil fez as anotações e saiu daquela sala, enquanto Hoffman ficou presente.

- Estamos verificando tudo o que você nos diz, Karine. Por favor, apenas mais alguns dias e estamos próximos de resolver o caso. – Hoffman consolava a mulher.

- Espero que sim... Eles vão voltar. 

De repente, o vídeo parou de funcionar e ficou com uma chiadeira tremenda, no mesmo instante um caderno que estava na beirada da mesa acabou caindo e uma janela aberta batia ao fundo daquela sala de investigação. Como era um porão antigo do departamento policial, as janelas abriam sozinhas pelas fechaduras serem frouxas. 

Com a fita totalmente danificada e com a noite surgindo, os investigadores decidem dar uma pausa e vão para suas casas descansarem. Amanhã logo pela manhã dariam um jeito no aparelho de vídeo e também na fita. 

O dia amanhece e a equipe de investigação já se encontra ali. Um deles acaba trazendo um aparelho que era de seu pai para tentar fazer a fita rodar normalmente sem problemas técnicos. 

E pareceu funcionar.

O tempo para rebobinar era demorado, mas valeu a pena assim mesmo, tinham o dia todo pela frente agora. Iriam terminar de ver aquele relato para começar a procurar em outros. 

O início do vídeo é o mesmo. O mais estranho é que Karine aparece sem as algemas, quando que na primeira vez ela parecia estar com. Os diálogos foram os mesmos e no momento que aconteceu a interferência de ontem, também ocorreu agora. A fita devia estar realmente danificada, não o aparelho.

Continuaram o vídeo e enfim chegaram à parte que ontem havia travado. O vídeo desta vez deu uma pulada na gravação novamente.

Na sala estavam Phil e Hoffman conversando, enquanto que Karine não estava lá. Às vezes os investigadores conversavam entre si na sala de gravações para deixar registros de alguma conversa e até mesmo para eles reverem os pensamentos para tentar novamente escutar algo que no momento eles podiam ter perdido ou não prestado muita atenção.

- Não há nada relacionado ao que ela diz Hoffman. Absolutamente nada. – Phil mostrava as anotações que ele tinha feito e um mapa dos arredores. – Não há cabana alguma em nenhuma dessas florestas. Ela está tentando nos enganar. 

- Você acha que ela está inventando tudo isso para encobrir alguma outra coisa? Seria uma seita? Um grupo mafioso? – Hoffman parecia concordar com o companheiro.

- Eu acredito que ela foi uma vítima, mas agora trabalha para os suspeitos. Precisamos ver até quando ela pode continuar mentindo. Vamos trazê-la novamente. 

Novamente a fita parecia trazer problemas, dessa vez foram apenas alguns segundos de interferência. 

Na sala de interrogatório estava Karine e os dois investigadores. Ela vestia a mesma roupa de sempre, com o decote mostrando a tatuagem. 

- Eu me lembrei de mais alguma coisa. – Responde Karine. Provavelmente a fita havia cortado algumas perguntas dos investigadores. 

- Estamos ouvindo. – Disse Hoffman.

- Não era uma floresta. Eu me lembro de ver árvores, mas deve ser do quintal de alguma construção. Lembro-me de um altar. – Sua voz era suave, bem diferente das outras vezes que ela disse. 

- Uma igreja? Procure por todas as áreas das igrejas, Phil. Vamos investigar. – O investigador já pediu ao companheiro que imediatamente saiu da sala. – Bem, Karine. Você quer falar sobre eles novamente, ou ainda não consegue falar?

- Consigo. Eles eram encapuzados. Todos encapuzados. Vestiam roupas pretas, tinham braços longos e frios. – Conforme ela ia falando a interferência da televisão e do vídeo começavam a atrapalhar.

No mesmo instante da interferência a janela começava a bater, sendo que não tinha nenhuma brisa tão forte assim. As lâmpadas piscavam como se fosse uma queda de energia. 

Minutos depois tudo estava normal, inclusive o vídeo que continuava.

- Senhorita Lincoln. Verificamos as igrejas das quais possuem uma área verde ou florestal ao redor e encontramos esta aqui neste bairro não muito distante. – Phil apontava no mapa. – Você acredita que possa ser aqui? Tem alguma lembrança deste lugar, destas ruas? 

- Não, senhor. Desculpe. 

- Não tem problema. – Disse o agente. – Vamos continuar as buscas para achar os responsáveis pelas tragédias que estão ocorrendo nesta cidade. 

O vídeo de repente começa a entrar no modo de avanço rápido. E pula alguns bons minutos. Os investigadores tentam parar pelo controle remoto e até mesmo pelo aparelho normal, mas é impossível. 

A fita continua sendo rodada até que enfim para. O vídeo segue.

- Finalmente os registros chegaram da capital. – Phil chegou com uma caixa cheia de documentos. Naquela sala só havia ele e Hoffman, a mulher já não estava mais lá. – Pedi para o Estado todos os documentos relacionados para mulher com o nome de Karine Lincoln. 

- Demorou mais de um mês, mas eles finalmente mandaram. – Hoffman comenta feliz. – Vamos avaliar. 

O vídeo gravado na fita mostrava o quão trabalhoso era achar os documentos naquela época sem computadores avançados. Os arquivos eram todos escritos a mão e também era um grande acervo de folhas por pessoa. 

O resumo foi que eles não encontraram nada tão rápido e Phil decidiu levar as coisas para casa.

Quando os que assistiam olharam no relógio já eram mais de três horas da tarde, fizeram uma pausa para almoçar e novamente iam voltar a assistir aquela fita que fazia florescer a curiosidade de cada um. 

A gravação exibida realmente atiçava a mente investigativa de todos. Eram muitas perguntas sem respostas, teorias e rumores dos quais eles precisavam se sanar terminando o vídeo. 

O mais estranho era que a gravação era bastante extensa e por ser uma fita, não se era para ter tantas informações assim. 

Terminaram o almoço e novamente chegaram até o salão velho da delegacia para ver o vídeo. Ajeitaram suas costas na cadeira e se certificaram de que a janela desta vez estaria bem presa para não assusta-los novamente. 

O vídeo novamente começou a rodar.

- Bom dia, Phil. – Disse Hoffman chegando atrasado à sala de interrogatório. O dia começava logo cedo, quando no canto inferior do vídeo mostrava o horário. Era ainda 05:30. 

- Bom dia, Hoffman. – Ele já mostrava sinais de ausência de sono. – Não consegui pregar os olhos depois do que eu achei em casa. 

- Conte-me mais. Karine vem hoje aqui. 

- Sim, eu sei. – Ele puxou um bloco de papel para próximo de si. Ia mostra-lo ao companheiro. – Mas olhe o que eu achei. Procurei documento por documento sobre pessoas com o nome de Karine Lincoln, a única das proximidades é esta. Karine Julian Lincoln, ela nasceu em 1952. Hoje ela teria 43 anos de idade, a Karine que estamos investigando deve ter no máximo 20 anos. – Phil coçava os olhos enquanto o companheiro olhava para a ficha criminal da moça que claramente não era a Karine que eles conheciam. – E melhor, não tem nada relacionado à morte desta Karine do arquivo, ela provavelmente é viva. A pergunta é: Quem realmente é esta garota? E ainda nos enviaram coisas de um novo caso chamado de Lugar Nenhum. Mal terminamos um a central já nos envia outro.

- Sobre a Karine: é pior do que imaginávamos. Esqueça este caso novo, eles sabem que temos bastante trabalho por aqui. – Hoffman completou abismado com aquilo. Ele também olhava para o papel, incrédulo do que poderia estar acontecendo. – Vamos agir com cautela hoje. Vamos perguntar mais sobre o passado dela, onde ela cresceu e vamos tentar associar com as informações desta Karine. 

- Perfeito. 

O vídeo corta e volta na parte em que Karine já está sentada na mesa de interrogação. O mais estranho era que ela não olhou nenhuma vez diretamente para a câmera de gravação. Ela parecia temer aquele aparelho.

- Então, Karine. Fizemos algumas buscas e não encontramos nada no local do qual você disse que estava. – Phil ia direto ao assunto, a conversa ia ser mais tensa dessa vez. – O que você está tentando fazer? 

- Como assim? Eu estou tentando ajudar vocês a resolver este mistério! – Ela parecia estável emocionalmente, tanto é que uma tremedeira tomou conta dela. 

- Suas pistas nunca levam a lugar nenhum. Seus depoimentos nunca dão real resposta ao que precisamos. Eu e Hoffman estamos nos perguntando até onde vai isso? Você deve sim, ser uma vítima, mas eu não creio que você não seja uma suspeita também. – O agente parecia explosivo. – Agora nos conte tudo o que sabe antes de engavetar o seu caso e você ser encaminhada para uma clínica psiquiátrica. 

A mulher abaixou a cabeça. Ela parecia estar chorando, seus cabelos tapavam seus olhos naquele instante e os investigadores ficaram quietos. 

Por um momento o vídeo começou a ficar escuro, como se faltasse energia no local, a janela mais uma vez começava a bater e um vento forte entrou por aquele porão. O mais estranho era o olhar bizarro de Karine para a câmera de gravação neste momento, aquele olhar durou cerca de dois segundos, mas foi o suficiente para causar arrepios em todos os presentes. 

A energia por fim, piscou. Uma repentina chuva fina começou e os investigadores se mantinham concentrados naquela gravação. Ali tinha algo e com o instinto investigativo de cada um deles, eles precisavam ver até o final. 

Karine olhou para Phil e Hoffman. 

- Se eu falar. Provavelmente eles vão me matar. – Ela disse em seco e de cabeça baixa. 

- Não vão! Estamos na delegacia, sabe quantos polícias existem aqui? Você vai ficar bem. Se quiser pode até mesmo passar a noite em uma cela, por precaução. – Disse o agente. 

- Eles podem fazer o que quiserem. – Ela disse rápida mais uma vez. 

- Nos conte Karine. Não tenha medo. 

- Eles usaram sangue... meu sangue em uma cruz de ponta cabeça. Depois começaram a me estuprar. – Ela abaixou a cabeça, parecia envergonhada. Logo depois começou a chorar levando suas mãos até seu rosto. – Foi horrível. 

- Entendo Karine. – Phil insistiu. – Poderia nos contar sobre seu passado e como foi sua infância. 

- Meus pais morreram em um acidente de carro quando eu tinha meus doze anos, a partir daí fui criada pela minha tia. – Ela continuava a chorar. – Desculpe, mas eu não consigo parar de lembrar... É terrível essa sensação, me machuca por dentro. – E ela caiu em lágrimas mais uma vez.

Phil e Hoffman consolavam a mulher enquanto mantinham as anotações. Pouco tempo depois, ela é levada para fora e os investigadores pedem uma vigilância em tempo integral na residência dela. Eles voltam para sala pouco tempo depois. 

- Um grupo de satanistas? – Phil soltou uma risada. 

- Acredito que sim. – Hoffman retribuiu a risada. – Pelo menos sabemos onde e quando procurar. Algo sobre os pais desta Karine do arquivo? 

- Vamos checar. – O agente rapidamente pegou os arquivos daquela mulher de 1952 e buscaram sobre os pais. – Sim! Aqui também consta que os pais de Karine Julian Lincoln foram mortos por um acidente de carro em 1964. Após isso a menina foi morar com a irmã de seu pai, senhora Emily Lincoln. 

- Algo sobre a tia? – Hoffman perguntou.

- Podemos procurar.

- Então vamos agora. 

O vídeo a partir deste momento são eles revirando os arquivos sobre Emily Lincoln. Havia muitas caixas, afinal, existiam mais do que uma Emily Lincoln em todo o país. 

Finalmente após muita procura, eles finalmente acharam a ficha correta. 

- Achei! – Gritou entusiasmado Phil. – Achei! Achei! Vamos ver o que encontramos... – Ele abriu virou a ficha procurou imediatamente na parte onde mostrava se ela era falecida ou não. – Ela morreu em 1971, por uma parada cardíaca. 

- Os fatos não estão batendo. – Hoffman coçou a barba mal feita. – Será que ela não é uma refugiada? Se for, ela está tentando esconder sua verdadeira identidade para não ser deportada. 

- É possível, mas eu acho que ela esteja escondendo até mesmo um assassinato, Hoffman. – O agente parecia pensar diferente. – Veja bem. Nada do que ela diz está batendo. Seu nome não existe, na verdade existe, mas é de uma pessoa com mais idade do que ela aparenta. Suas reações, seus depoimentos me parecem todos falsos. Ela está realmente escondendo algo. E aquela tatuagem? Não é suspeita? Por que ela teria algo a datar em 1971? 

- Faz todo o sentido. – Concordou o outro. – No máximo poderia ser a data de nascimento dela, mas com certeza não é. Vamos poder investigar melhor, se puxarmos as localidades onde Emily viveu até antes de sua morte e melhor... Vamos pegar uma lista dos refugiados dos últimos anos e vamos fazer uma busca onde aquela tatuagem foi feita. Por mais detestável que seja os tatuadores guardam os nomes de seus clientes. Ela não tem como escapar. 

- Isso vai demorar um pouco. – Disse Phil. 

- Mas vamos fechar o círculo de uma vez por todas. Se ela está mentindo podemos prendê-la por falso testemunho contra a polícia. Ela não tem escapatória, mas nosso prazo é curto. A promotoria não vai aceitar depois de tanto tempo este caso e ela pode se safar. É uma corrida contra o tempo.

- Vamos começar agora então. – O agente imediatamente ia revirar e solicitar alguns arquivos e registros do passado. 

O vídeo depois disso não mudou muito. O restante do vídeo mostra os investigadores procurando na sala de interrogatório por fichas, arquivos, registros e documentos e nada mais que isso. O vídeo termina sem um fim, ele simplesmente só termina. A chuva terminou também.

Os atuais investigadores tinham suas teorias em mente, precisariam trabalhar também em cima disso e fariam um levantamento dos arquivos que aqueles dois também revisaram no passado. 

Foi assim durante alguns dias. Muita revisão, sempre lendo e relendo para ver se não perdiam nada daquele caso. Karine Lincoln virou um marco na vida deles. 

Estranhamente quando a fita não era rodada no aparelho a janela nunca mais bateu, a televisão e o aparelho de vídeo também nunca mais demonstraram interferência. 

Tudo estava aparentemente normal, até que eles tiveram que assistir novamente a gravação. 

As interferências pareciam mais constantes. A queda de energia era maior também, chegando até queimar uma das lâmpadas do cômodo. A janela batia a cada cinco minutos, irritando todos os presentes. 

Pela memória fotográfica dos investigadores que assistiram ao vídeo os jeitos de falar de Phil e Hoffman não tinham mudado, mas as falas e gestos de Karine pareciam mudar. 

Até o término do vídeo eles ficaram assistindo e passando por essas dificuldades técnicas no ambiente, quando finalmente o vídeo acabou e a televisão ficou escura. Eles começaram a debater suas teorias. A mais concreta era que Karine era realmente uma assassina e refugiada sem nenhum documento. 

O aparelho não foi desligado, de repente, ouviu-se um som. O vídeo não tinha acabado da primeira vez, ele só estava bem baixo e tudo escuro. O silêncio se propagou e mais uma vez uma chuva caía do céu. 

“Escute”

Era o que os investigadores conseguiam ouvir deixando o volume da televisão no máximo. Ouviram repetidas vezes essa palavra e então começaram a ter outros pensamentos, o vídeo não tinha acabado. O caso de Karine podia ter um final. 

Subitamente um relâmpago ressoa no céu, o barulho é tão forte que encobre o som da televisão, o clarão formado também age em conjunto com a imagem e novamente estão sentados na sala: Karine, Phil e Hoffman.

- Já sabemos de tudo Karine. – Comentou Phil com uma porção de papéis em cima da mesa. – Esse é o seu relatório. Você não existe, não existe nenhuma mulher com o nome Karine Lincoln, na verdade, existe e ela é viva e tem o dobro da sua idade. Conte-nos logo o que aconteceu, se você for sincera, podemos até diminuir a sua pena ou nem mesmo falar que você tentou nos enganar.

A mulher ficou de cabeça baixa.

- Esses papéis contam toda a sua história, tudo o que você documentou para gente e nada é real. Não existe esse lugar que você disse ter sido violada. Não existem igrejas perto de árvores, ou quintal.  Não existem cruzes de ponta cabeça em nenhum lugar e nem gangues satanistas pela região. Tudo isso prova que você é uma culpada. – Hoffman parecia um pouco agressivo. – Você tem apenas agora para falar, se não, você será presa. 

- Eles vão pegar vocês. – Ela disse ainda com a cabeça baixa.

- Eles não existem, é tudo fruto de sua imaginação! – Phil gritou. 

- Sim. Eles existem sim. – Ele fazia um gesto positivo com a cabeça balançando. – Este lugar, onde eu fui violada é justamente Lugar Nenhum. Ninguém escolhe ir para lá, eles te escolhem e quando você é escolhida, você nunca mais consegue sair viva de lá.

- Lugar Nenhum? – Se assustou Hoffman, ele parecia ter se lembrado sobre este lugar. – A pasta com o novo caso! 

- Acho que recebemos o relatório com relatos deste lugar, Hoffman. – Phil parecia reconhecer também este nome, mas logo ele retoma o assunto. – Diga-nos mais sobre este lugar. O que existe lá? 

- Não! Não! – Ela parecia gritar. Neste momento uma forte chuva começou e o vídeo começou a falhar. – Não pode ser! Isso não está acontecendo! 

- Se acalme Karine! – Gritou Hoffman tentando pegar nos braços da mulher que se debatia. Conforme o vídeo ficava mais tenso, o ambiente fora da gravação também. Os trovões aumentavam e a lâmpada chegava a piscar. 

- Não! 

De repente tudo se apagou, as lâmpadas e até mesmo um velho ventilador que estava ligado. A chuva caía forte, a única coisa que não se desligou foi o aparelho de vídeo e a televisão. Eles eram a única fonte de iluminação daquela sala escura.

- Me diga Karine. – Hoffman parecia tranquilo, assim como o agente ao lado dele. – O que é esta data tatuada em sua pele? Uma data importante?

- Sim, muito importante. – Ela respondeu de cabeça baixa como era de costume.

- Nascimento? Casamento? Ou foi a data de assassinato da sua tia Emily? – Phil brincou, soltando até uma risada. 

- Não. – Fez uma pausa e após a pausa seu rosto continha um sorriso um tanto quanto assustador. – Esta data é o dia em que eu morri em Lugar Nenhum.

Depois de ter dito isso foi possível notar que ambos investigadores foram decapitados por algo que ninguém conseguiu ver. Os investigadores que assistiam ficaram apavorados. 

Segundos após isso, o aparelho de vídeo queimou assim como o televisor, tudo ficou completamente escuro. Apenas podia-se ouvir uma risada ao fundo. Uma das investigadoras sentiu que algo estava tocando-a, eram braços longos e frios. Os que estavam ali nunca mais foram vistos. 

Na tela queimada do televisor apareceu uma mensagem: 

Vamos conhecer Lugar Nenhum?”


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