Conto

O caso da filha das estrelas

Certas crianças podem possuir um brilho único. Algumas brilham muito mais do que outras, atraindo todos a sua volta, como mariposas se apaixonando pela luz de uma lamparina.

Laura de Abreu
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O caso da filha das estrelas
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

A história que vou aqui narrar me foi contada por uma mulher que conheci, há muitos anos. Portanto, caso pareça uma situação absurda ou mesmo irreal, peço que me desculpe, pois não pude, em momento algum, comprovar a veracidade da mesma, já que a cidade em que ela passou sua infância parece nunca ter existido.


Parte I – Sobre o que precedeu a chegada 


Ada era apenas uma criança quando tudo aconteceu. 

Foi em um fim de tarde de um domingo de calor, um dia em que a maioria dos cidadãos da pequena Lugar Nenhum gostavam de encontrar-se às margens do enorme e profundo lago que definia o limite da cidade. 

Ela se lembrava do farfalhar das folhas nas árvores, movendo-se ao sabor do vento, como em uma dança ritmada e constante, e de estar sentada sobre a grama. Também se lembrava das outras crianças correndo na parte rasa do lago, a água sendo atirada em várias direções pelas brincadeiras, e os gritos de alegria e contentamento. 

E das pedras brilhando sob a água. 

E do brilho intenso que atraiu uma das crianças para o fundo. 

Depois, os passos pesados correndo em direção a água e mais gritos – mas, desta vez, de horror e desespero -, vindo tanto de crianças quanto de adultos, pois o garoto foi repentinamente puxado para dentro da água. 

Os segundos passaram devagar, quase como se o tempo estivesse parando e, com ele, o congelamento de reações.

– Tirem as crianças de perto, agora! – uma voz grave, serviu como despertar para todos, simples espectadores até aquele momento. 

Parentes mais velhos pegaram crianças no colo e correram, enquanto outras pessoas lançaram-se ao lago, dispostos a fazer o possível para resgatar a criança.  

Um braço forte puxou Ada, forçando-a a levantar-se, e levando-a para o mais longe possível da margem. Ela olhou para cima, e constatou que era seu tio Nicolau – um homem que parecia ser bem mais velho do que sua real idade -, cuja mão tremia e pesava sobre seu braço fino de criança. 

A força que seu tio usara para puxá-la começou a machucá-la. 

– Tio, por favor... 

Seu apelo se perdeu em meio à forte ventania que se formou de maneira repentina, balançando árvores quase a ponto de arrancá-las, emitindo um lamento profundo e gutural ao passar pelas folhas – fosse pela criança desaparecida ou pelo que estava por vir. Instintivamente, Nicolau puxou a sobrinha para o colo e virou-se para correr em direção à cidade. No entanto, algo o fez parar e voltar sua atenção para a água. A menina agarrara-se ao pescoço dele quando viu um redemoinho formar-se no ponto exato em que o menino fora sugado. Ondas formaram-se, chocando-se com violência contra a margem.

Ninguém se atreveu a emitir um som sequer, tal era o medo que sentiram ao presenciar a fúria da natureza, de maneira tão bela e fatal. 


Parte II – Sobre a chegada 


Uma forma branca, brilhante e etérea, emergiu lentamente do redemoinho e começou a flutuar em direção à margem, sem encostar na água. 

No decorrer do curto trajeto, a natureza acalmara-se: o vento não rugia mais, as árvores voltavam, lentamente, à sua envergadura original e as ondas no lago desfaziam-se ao bater na areia, sem sombra da fúria anteriormente vista. 

O silêncio reinou por alguns instantes, enquanto o brilho parecia analisar o ambiente. Logo, porém, um ruído agudo e sem fim preencheu os ouvidos de todos – o coração de Ada disparou e “parecia que seria lançado para fora do peito e para o mais longe possível”, segundo ela -, e pôde ser ouvido em toda a extensão da cidade. Não bastasse isso, o ruído parecia ecoar nos limites de Lugar Nenhum e retornar para a margem do lago, onde o brilho tinha parado. 

Todas as crianças tamparam os ouvidos quando o som começou, enquanto os adultos permaneciam hipnotizados pelo brilho, olhar parado e fixados nas posições em que encontravam-se. 

Subitamente, o ruído alterou-se: de um som constante passou a intermitência, e o brilho começou a expandir, cegando a todos momentaneamente. 

Ada cerrou os olhos e levou as duas mãos ao rosto, protegendo-o da melhor maneira que pôde. 

Entretanto, movida pela curiosidade, a menina afastou um pouco os dedos indicador e médio e vislumbrou algo de que não se esqueceria jamais: “a luz branca tornara-se amarelada e daí foi enfraquecendo, até que o brilho se tornou uma criança também. Mas não era exatamente como eu; era uma criança que flutuava!”


Preciso fazer, neste ponto, uma pequena pausa em minha narração. 

Não é por não querer continuá-la, mas sim, porque é um lembrete importante, pelo menos para mim.

Nunca me esquecerei do olhar que a enfermiça Ada tinha ao me contar esta parte, e imagino que tenha sido o mesmo olhar que ela lançara àquela criança flutuante, há tantos anos: um misto de júbilo e surpresa, como se fosse a última coisa bela que veria pelo restante de sua vida... 


Após se dar conta de que uma criança totalmente diferente do menino desaparecido simplesmente aparecera no meio da luz, Ada pediu para o tio soltá-la – queria aproximar-se, conversar e fazer amizade. 

Nicolau manteve o olhar fixo na criança e colocou Ada no chão. Por um mísero segundo, Ada achou que seu tio estava se esforçando para lembrar-se de algo importante, mas ignorou tal impressão e correu em direção à margem do lago. 

Ao aproximar-se da criança, notou que ela tinha cabelos curtos, finos e prateados, que se moviam mesmo sem vento. Depois, prestando mais atenção, viu que sua pele pálida brilhava e que os olhos pareciam ter todas as cores do mundo. Notou, ainda, que as vestes da criança se resumiam a um camisolão branco e que ela estava descalça. 

– Oi, eu sou a Ada. – Ela estendeu a mão direita, como já vira os adultos fazendo, várias vezes. – Qual o seu nome?

– Oi. – Respondeu a criança, com uma voz que ecoava por todo o espaço. Ela não retribuiu o aperto de mãos, ficou apenas encarando Ada e as demais pessoas. Não entendia porque as outras crianças esconderam-se atrás das pernas dos adultos.

– Onde o Hélio está? – Ada agachou-se, subitamente interessada em uma pedra rosada. 

– Quem é Hélio? – A das vestes brancas agachou-se também, mas sem nunca encostar no chão. – Meu nome é Nix. 

– Hélio...? – Ada encarou Nix, com uma resposta que, na hora, parecia correta. – Não sei quem é. 

As demais crianças estavam temerosas e mantinham distância, mas uma ou outra tomou coragem para se aproximar. Outras que estavam mais longe, sussurravam entre si. 

“Parece uma pessoa de diamante!” 

“Onde o Hélio foi parar?” 

“Quem é Hélio?” 

“Quem? Eu não falei nada.” 

Nix se ergueu e caminhou em direção aos adultos, que a seguiam com o olhar. Observou a todos com atenção e, afinal, falou.

– Olá a todos. Faz muito tempo que não os vejo.

Houve um vozerio: todos, simultaneamente, reconheceram Nix, como se relembrassem de um parente ou afeto de longa data.

– Nix, por que não veio antes? - Nicolau deu um sorriso enorme, olhos brilhando de alegria.

– Ainda não era a minha vez de pousar nesta terra. - Várias pessoas abraçavam Nix, que estava com os braços colados ao corpo, sem esboçar nenhuma reação ou tentativa de retribuir o carinho. – Você está careca, Nicolau. Que curioso. Você ainda não é um ancião. 


Nicolau riu com mais vontade e abraçou várias pessoas, como se estivesse em uma festa. 

Ada levantou-se e sorriu para as outras crianças, do mesmo jeito que os adultos sorriam entre si. 

– Nix é tão legal, não é?

Petra, a irmã mais nova de Ada, questionou-a:

– Mas quem é Nix? E como chegou aqui?


Nix olhou para a única rua da pequena cidade. As casas eram todas no mesmo estilo e cor: altas, com dois pisos, janelas grandes e com sacadas, telhados vermelhos e em formato triangular – como em desenhos infantis – e brancas. 

Ada notou que, à medida que Nix dirigia-se a única praça da cidade, protegida pelas casas – com todos os que estiveram no lago vindo logo atrás, numa procissão -, o entardecer se tornava anoitecer, de maneira brusca e silenciosa. Logo, todos os animais recolheram-se aos seus ninhos e tocas; pareciam querer evitar as próximas palavras de Nix. 

– Onde está o meu filho?!

Ada e as demais crianças viraram-se para a janela de uma das casas, assim como Nix. Os adultos, porém, ficaram apenas parados olhando para a frente, com um sorriso bobo no rosto. Uma mulher segurava o parapeito da sacada e chorava, ajoelhada.  

– Onde está o meu Hélio? 

Algumas vozes, mais ao final da procissão, chamaram-na de louca.

“Hélio? Nunca existiu ninguém com este nome! Ela está inventando!”

Ada viu-a desaparecer da sacada e reaparecer na praça, de frente para Nix, quase que instantaneamente; foi então que a reconheceu como uma prima de sua mãe, Simone. O marido e a filha chegaram depois, com os rostos vermelhos. 

– O que você fez com ele? –Simone ergueu uma das mãos para puxar a gola de Nix, porém, não conseguiu tocar nem na roupa e nem na pele da criança. – Por quê ele?!

Simone sentou-se, chorando e batendo os punhos contra o chão da praça, até que começassem a sangrar. O marido e a filha também choravam, mas esforçaram-se para segurá-la, sem dizer nada. 

– Mamãe, por favor... Nós não podemos fazer mais nada... 

– Meu filho... – Simone encarou Nix mais uma vez.

– Ele se foi. – Nix devolveu o olhar firme de Simone com palavras fortes e sem demonstrar emoções. – Seu filho simplesmente cedeu a existência dele para mim. 


Quando me contou a história, Ada explicou-me que, na época do ocorrido, não tinha entendido o que aquelas palavras queriam dizer. Mas que, quando chegou na idade certa, entendeu o peso e o profundo significado que elas carregavam – assim como Simone e sua família tinham compreendido naquele momento. 


A mulher foi levada pelos familiares de volta para casa, mal sustentando-se sobre suas pernas. 

Ada ficara assustada com o que vira, o pequeno coração de criança estava apertado, mas não sabia dizer exatamente por qual motivo. Por que Simone estava chorando? Alguém tinha morrido? Mas quem? Todos da cidade estavam lá, vivos e bem de saúde. 

– Crianças, sentem-se aqui, por favor. 

Nix apontou para o desenho de uma estrela de quatro pontas, no centro da praça. 

As crianças dirigiram-se até lá, incentivadas pelos adultos, tremendo. Outras estavam chorando – de medo, talvez? Ada não sabia dizer. Depois que as crianças se acomodaram em silêncio e os adultos também – estes sentaram-se nos bancos e em outros pontos da praça –, Nix, sempre flutuando, sentou-se sobre suas pernas.

– Vou lhes contar a história desta cidade e que, por acaso, também é minha história.

A noite se fez finalmente presente, mas não estava escuro, pois Nix brilhava e iluminava a todos.


Parte III – Sobre a partida e o que acontece depois da partida


“Há muito tempo, milênios para vocês, vimos esta terra surgir. Não conseguíamos dizer de onde tinha vindo ou como funcionava: simplesmente aparecera. 

Após algumas conversas, decidimos que deveríamos descer e explorar. Mas não de uma única vez, pois poderíamos causar a destruição de nosso objeto de estudo. Após o sorteio, houve uma escolha que definiu a ordem em que iríamos descer, e assim temos prosseguido: a cada quinze anos, alguém do nosso grupo chega a esta cidade.

Os moradores da cidade viram o primeiro pouso – entre vários que se seguiram e seguirão – ao entardecer, e passaram a nos chamar de estrelas cadentes. 

Quando minha irmã caiu, por assim dizer, acabou abrindo uma enorme cratera no limite da cidade, um local que, tempos depois, tornou-se um lago e que serve até hoje como campo de pouso para todas nós.

Porém, ela não conseguiu durar muito tempo fora do firmamento, pois seu brilho se apagou e acabou por sumir da existência. 

Debatemos por mais algum tempo antes de mandarmos a próxima estrela, pois aquela era uma terra perigosa, capaz de destruir nossas existências. E assim seguimos, experimentando, existindo, desaparecendo.

Até o dia em que uma criança humana, atraída pelo brilho, aproximou-se de uma estrela cadente e tocou-a. Naquele momento, houve uma troca, que jamais seria desfeita. A estrela pôde caminhar por esta terra, em troca da existência da criança; com isso, aprendemos que precisaríamos de um corpo humano. O nome da pequenina, se não estou enganada, era Kiara, e toda a sua história foi apagada da memória da cidade, com exceção de seus parentes diretos, que nunca se esqueceram dela. 

Ao chegar à cidade, a estrela nomeou-se Nix – e todas nós passamos a usar este nome, e compartilhar o que vocês chamam de memórias. Seus antepassados construíram esta praça para nos homenagear e agradecer pela nossa luz. 

E graças a nossa luz, nós vimos o potencial que cada um de vocês tem, seja para o bem ou para o mal. 

Por isso, mesmo após explorar e entender cada pequeno pedaço desta cidade, continuamos voltando. Para levar doze crianças ao local em que devem estar, seja ele próximo ou distante.

E assim o temos feito, para que o destino possa ser cumprido.”

Ada só se deu conta de que não tinha piscado enquanto a história era contada quando sentiu lágrimas escorrerem de seus olhos. As crianças encararam-se, sem ter ideia de como reagir. 

– Agora que entendem, vou escolher doze de vocês para encontrar seus destinos. – Nix ficou em pé novamente, sempre flutuando, e não deu tempo para nenhuma das crianças ou adulto protestarem. Ela pegou cada uma das crianças escolhidas pela mão e formou um círculo a sua volta. – Fechem os olhos, pois meu brilho será forte e apagará suas existências das memórias de todos desta cidade. 

A últimas coisas em que Ada conseguiu pensar antes do brilho foram em sua irmã Petra, e no sol que estava nascendo...


Segundo Ada, “aquela noite pareceu um devaneio. Achei que nunca me lembraria do que vivi na cidade e muito menos do que aconteceu durante os momentos em que Nix esteve conosco. Mas o que vivi depois foi algo indescritível. Quando acordei, era filha de outras pessoas, com uma mãe ao meu lado e, infelizmente, um pai distante. Creio que vivi todo o restante da minha vida como deveria”. 

Até hoje, não sei dizer porquê guardei essa história comigo. Talvez porque Ada tenha sido uma mulher incrível, escolhida por uma estrela para encontrar seu destino fora de seu pequeno mundo, em uma cidade há muito perdida em suas lembranças. Ada se foi há muito tempo, mas sei que seu legado ainda permanecerá neste mundo. O que ela escreveu será a base de uma revolução. 

Sei disso. 

Acredito nisso.


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