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O cadeado fora do tempo
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O cadeado fora do tempo
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O cadeado fora do tempo

Victor Gaigaia
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O cadeado fora do tempo
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Se os seus olhos conseguem inteligir o encadeamento de símbolos neste documento, então quer dizer que eu finalmente deva ter conseguido algum semblante, mesmo que mínimo, de sucesso. As indevassáveis forças que moveram minha alma a conceber este último e desesperado artifício puderam fornecer um breve momento de alívio diante da condenação total, ou, quem sabe, pelo menos a promessa de alívio. Pois, afinal, se estes símbolos aqui podem ser lidos enquanto palavras, e se essas palavras estão sendo capturadas pela sua leitura, isso quer dizer que as sombras foram interrompidas, pelo menos por enquanto.

Por favor, com todas as forças que estas palavras escritas possam ter – e, acredite, nada há de mais poderoso do que esse conluio de signos psíquicos que invade nossa mente através da infecção neurológica que chamamos de ‘linguagem’ – eu imploro que não deixe este documento de lado, nem tão pouco o relegue ao esquecimento de uma leitura futura. Acredite quando digo que o que aqui está encerrado é a razão própria de tudo que possa ter sobrado de certo e correto no mundo; e a única chance que sobrou a nós, animais humanos, de conseguirmos postergar a inevitabilidade do destino. Não posso esconder nada – tudo deve ser, metodicamente, descrito, do contrário a chave será incompleta. Sim, você precisa saber, o quanto antes, da verdade – de toda a absoluta verdade.

Meu nome é Alex Sena. Sou professor da Universidade de Santino, da cadeira de linguística aplicada; especificamente na área da prosódia e da semântica. Devo dizer que sempre acorreu-me o fascínio da significação, os mecanismos elementares do intelecto humano capazes de manufaturar a fantasia da identificação a partir do artifício da palavra. A capacidade estranha de movimentar  estruturas ocultas da mente que, quase por magia, conseguem ganhar materialidade concreta através do encadeamento de sons ou gestos. Estes símbolos – propriamente palavras – se desenrolam numa elaborada gama interpretativa que extravasa até mesmo os próprios limites impostos da realidade. Com a palavra, é possível descrever paisagens que olhos jamais viram, elaborar formas e criaturas jamais sustentadas em carne e osso, e atravessar os confins limitantes do tempo e espaço, atingindo consciências a milhares de anos distantes uma da outra.

Movido por esse fascínio da palavra, fundei diversas linhas de pesquisa ao longo de meus muitos anos como professor interino da Universidade de Santino, podendo dizer que alcancei certo renome mesmo fora do insular domínio da linguística. Minhas teorias sobre o processo criativo da linguagem e seus mecanismos de significação tiveram uma considerável aceitação dentro das áreas da neurologia, filosofia, sociologia e, curiosamente, em história e arqueologia. 

Mesmo assim, confesso que, num primeiro momento, fiquei bastante curioso quando chegou-me aquele convite formal para que eu apresentasse num simpósio de estudos clássicos na Universidade de Arkham, nos Estados Unidos. Apesar de um tanto deslocado das linhas de pesquisa que eu dirigia na época, devido ao prestígio da instituição e da oportunidade única, resolvi aceitar aquela proposta inusitada. Neste momento, eu jamais poderia prever o peso que tal decisão haveria de ter em minha vida.

Após uma agradável semana de palestras sobre os mais variados assuntos e minha apresentação ocorrer sem grandes tribulações, fui pego de surpresa pela aproximação de um certo doutor Watson Whateley. Um homem de aparência peculiar, para se dizer o mínimo. Além da altura fenomenal, mais lembrando um atleta do que um distinto professor de Arkham, possuía um rosto largo, longo, a fronte tão extensa que os óculos precisavam ter-lhe sido fabricados sob medida. Quando aproximou-se de mim nos corredores escuros da velha universidade após minha bem-sucedida apresentação, presumi inicialmente que me abordava sobretudo um vulto obscuro de pernicioso intento. Somente quando as luzes do corredor iluminaram aquele estranho sorriso de dentes particularmente finos que pude relaxar o pavor instintivo que ameaçava tomar controle de meus nervos.

Em contraste com o prodígio assombroso de seu corpo e aparência, dr. Whateley demonstrava um intelecto arguto e interesses multifacetados. Abordou-me efusivamente, revelando sua área de conhecimento ser a da neuropsicologia. Após os costumeiros cumprimentos aceca de minha apresentação, ele me puxou para um canto, demonstrando interesse particular numa de minhas pesquisas menos divulgadas.

Perguntou-me acerca da hipótese que levantei, tantos anos atrás, sobre a existência de um mecanismo universal de significação codificado na própria arquitetura da psique humana. Ouvi aquela indagação primeiro como uma abordagem cômica, talvez a demonstração do exótico humor dos habitantes de Massachusetts? Todavia, após alguns extensos segundos de distinto e atento silêncio, vi que aquela pergunta fora feita com total seriedade. Desculpei-me com o dr. Whateley, comentando que aquela hipótese havia fracassado em qualquer semblante de comprovação científica. Fora tão somente uma proposta feita em meus primeiros anos dentro da academia, as articulações de uma mente jovem que ainda não dominava os conceitos mais profundos da linguística e, portanto, erroneamente enveredou por caminhos desprovidos de certeza.

Foi com um sorriso repuxado nos lábios que o ilustre senhor recebeu aquela constatação, revelando-me, em seguida, que a hipótese da significação universal talvez não fosse de toda infundada. Então, com muita satisfação, ele retirou da pasta que carregava um punhado de papéis fotocopiados e os deixou em minhas mãos, observando, com bizarra atenção, enquanto eu os folheava.

Num passar rápido dos olhos, imaginei novamente que tudo não passaria, realmente, de uma elaborada brincadeira feita pelos acadêmicos de Arkham com o professor brasileiro convidado. Os papéis continham somente uma consecução de desenhos e caligrafia igualmente absurdos. Traços corredios, de beleza patente mas desprovidos de qualquer semblante de razoabilidade. A escrita lembrava uma mistura do árabe e do sânscrito – ambas de minha alçada do conhecimento – com diversos tracejados circulares e pontos que sobrevoavam, fantasmagóricos, acima de sentenças. Contudo, indo às vias de fato, todo aquele conjunto de papéis não encontrava respaldo em qualquer língua humana conhecida. Para todos os efeitos, não passava de mais um dos códices de mistério, à semelhança do malfadado Manuscrito Voynich.

Porém, conforme meu olhar se deixava correr pelas letras amalgamadas, pelo traço fino que terminava onde a próxima sílaba começava, comecei a ver padrões distintos, delicados, quase como quando, numa pintura simbolista, o efeito da distância provocava uma acepção de significado que, estando próximo, não seria possível de conceber. Mas no caso destas folhas de papel, o fator que parecia conferir significado àquela bizarra escritura era a familiaridade. Quanto mais meus olhos se deixavam perder em suas curvas e pontuações, mais profundamente parecia eclodir, das profundezas da mente, alguma sorte de encadeamento lógico, quase instintivo, que se imprimia na forma de esdrúxulas significações. Sentia impressões fabulosas tomando minha mente de refém, como o distante cheiro de mato verde e novo, o eco da chuva gotejando em folhagens altas, e uma vontade de falar algo que, simplesmente, não podia ser expressado mediante simples palavras.

Fui resgatado dessa viagem interior pela pesada mão do dr. Whateley repousando em meus ombros. Com avidez, perguntou-me se eu havia conseguido decifrar algo daqueles estranhos símbolos e, pasmo, revelei-lhe que sim, que, por mais insólito que parecesse, aqueles signos labirínticos, após um primeiro momento de hesitação, haviam conseguido imprimir as mais absurdas sensações dentro de minha mente. Era precisamente como eu postulara, há tantos anos, quando criei a hipótese da significação universal!

O que procedeu daí se deu de maneira tão rápida que quebrou todos os protocolos precedentes. Através de um acordo entre as instituições, foi acertado que eu iria permanecer durante o semestre na universidade de Arkham como um pesquisador adjunto para poder analisar mais demoradamente aquelas estranhas escrituras. Normalmente, uma requisição de tal feitio demoraria meses de preparação e consentimento de ambas as instituições. Contudo, na passagem de poucos dias, os documentos estavam assinados e eu já tinha meu próprio escritório dentro das paredes de Arkham, com total liberdade e tempo para a pesquisa. A situação era de ansiosa expectativa, uma mescla de tensão e confiança mesmo nos rostos mais austeros da instituição. Afinal, parecíamos estar diante do nascer de uma nova área do conhecimento, que reuniria linguística, neurologia e psicologia. A capacidade de deduzir informações a partir de uma simbologia oculta, gerando conhecimento com os mecanismos instintivos dentro do cérebro humano – um absurdo imponderável, mas que, de alguma forma, parecia assustadoramente próximo de se tornar realidade.

Minhas consequentes tardes seguiram debruçadas sobre livros antigos, procurando pistas que pudessem elucidar como aquele encadeamento particular de símbolos poderia inculcar impressões tão vívidas na mente, mesmo quando não pertencentes a uma língua decifrada pelo leitor. Mas toda teoria pesquisada, toda bibliografia que eu relia, toda escola de pensamento tradicional da linguística não conseguia jogar nova luz sobre a imensa sombra de mistério que repousava sobre aquele texto. 

Nem mesmo sua origem era qualquer fonte de certeza – aquela cópia entregue a mim pelo dr. Whateley fora feita de uma fonte que, certamente, não era a original. O texto fora encontrado ao acaso, retirado dos destroços de uma casa antiga, no interior da pequena cidade de Dunwich, em Massachusetts. Por alguma razão, as tentativas de datá-lo não foram bem-sucedidas. O papel – que apresentava marcações específicas que insinuavam que teria sido sido feito após o século XVII –  era de algum tipo de mistura única, até mesmo arcaica, que acusava ser mais antigo, talvez até mesmo datando do período medievo, como um dos poucos manuscritos ainda compostos em variantes do papiro egípcio. Contudo, e mais impressionante, era que o texto – na verdade, um conjunto de folhas separadas e recolhidas dentro de uma caixa de madeira protegida por couro – demonstrava sinais óbvios de que fora feito como uma cópia. A forma corrida de caligrafia rebuscada, junto à falta de qualquer traço de correção, denunciava não a escrita criativa de um autor anônimo, mas o olhar atento e escrutinador de um copista.

Exceto por estes dados, absolutamente nada extra poderia ser descoberto sobre a origem do Texto de Dunwich. E, mais aterrador, era perceber que a leitura da fotocópia se mostrava tão boa ou mesmo superior à leitura dos textos resgatados diretamente dos destroços, algo positivamente ilógico! Qualquer filólogo há de constatar que a leitura dos códices originais se mostra melhor do que observar o texto a partir de textos anotados em segunda mão. Porém, naquela estranha situação, meus olhos eram capazes de melhor perceber a cópia do que a fonte!

Como apontado, nenhuma teoria linguística poderia buscar qualquer explicação para tão estranho fenômeno. Mesmo as mais esotéricas das escolas de pensamento da psicologia e as pressuposições de inconscientes coletivos não eram capazes de apontar uma razão contundente para que um texto em uma língua desconhecida pudesse, ainda assim, ser propriamente lido!

A primeira semana de leituras e pesquisas chegavam ao fim, e poderiam ser consideradas uma derrota intelectual caso o estudo do manuscrito em si não tivesse sido tão proveitoso. Pois quanto mais meus olhos repousavam sobre aquelas folhas, mais eu conseguia sentir a tecitura do texto adentrar nos palácios da mente. É propriamente impossível descrever, fidedignamente, a forma abrasadora com a qual aquela caligrafia conseguia se fazer imprimir no inconsciente. Quando eu postulei a hipótese da significação universal, imaginei uma parábola a partir do abismo linguístico proposto por Heidegger – o momento em que nós nos confrontamos com o impronunciável, quando somos assaltados por uma sensação a qual não podemos descrever em palavras, esse era exatamente o momento em que nos deparamos com o abismo da língua. E eu acreditava que, se devidamente estudado e catalogado, poderíamos observar esse abismo e, dele, retirar significados para além da própria limitação da linguagem. Lógico, tal pesquisa e tal proposta simplesmente não conseguiram se sustentar diante de qualquer rigor acadêmico; isto é, até me deparar com o Texto de Dunwich.

As impressões iniciais que tive sobre o som da chuva e a noção do verde vivo do mato, ambas se amplificaram e destrincharam em uma imensa paisagem. Sim, eu conseguia ver agora espécies variadas de plantas, gigantescas, com coroas de pétalas avermelhadas circundando um botão tão grande quanto uma pessoa. O som da chuva aumentava, sua cadência marchando para uma poderosa tempestade, jogando águas torrenciais sobre uma terra estranha e, simultaneamente, familiar.

Quanto mais minha leitura se aclimatava às bizarras palavras, mais do texto parecia deflorar diante de minhas vistas. Eu percebia que as horas passavam em passos largos; minha leitura se iniciava com a luz do sol atravessando a janela de meu escritório, e terminava com as luzes acesas para afastar as sombras da noite. Mais do que com qualquer outro livro antes, esta assembleia de folhas conseguia raptar minha atenção de forma tão plena que mesmo as indesejadas fraquezas do corpo quedavam em segundo plano. Muito a contragosto me via obrigado a deixar aquela leitura para ir ao banheiro, ou me alimentar no restaurante da universidade. Contudo, tão logo essas trivialidades fossem saciadas, retornava com avidez para aqueles textos monolíticos.

Raramente importunavam-me com qualquer assunto que fosse; todos os professores sabiam da importância de minha pesquisa, e, de forma geral, eu parecia ser o único que estava conseguindo avançar numa possível decifração daquele inescrutável código. A cada sentença que eu transcrevia, a cada oração que eu conseguia resgatar do abismo da linguagem, mais perto parecíamos todos chegar da utopia de uma significação universal. A cada novo enunciado transposto, mais e mais faces expressavam-se pasmas, quase incrédulas diante daquele exercício do impossível que se desvelava diante de si. Então, vendo resultados assombrosos surgindo em tão pouco tempo, fui deixado sozinho para continuar os estudos.

Somente Whateley parecia seguir teimosamente com visitas mais habituais. Contudo, diferente dos outros colegas, sua presença não era de todo incômoda. Pelo contrário, ele parecia ser o único além de mim que havia conseguido certo sucesso na decifração do Texto de Dunwich – na verdade, suas interpretações pareciam desenlaçar as passagens mais espinhosas nas quais eu antes me encontrava preso. Sua expertise única em áreas do conhecimento que escapavam de minha alçada conseguiam trazer adições substanciais à minha leitura.

Quando rompi a segunda semana de leitura, já me tornara uma espécie de referência dentro das velhas paredes coloniais da universidade de Arkham. Apesar de um tanto descabido, palestras já estavam sendo marcadas para que eu apresentasse resultados preliminares de minha pesquisa. Ligações de figuras ilustres, representando universidades da Europa, China e Índia vinham ocasionalmente para interromper minhas leituras. Não posso negar que tal tratamento começava a afetar meu ego – contudo, esforcei-me para manter o foco em meu trabalho. Afinal, meu maior receio era de que minhas leituras começassem a se tornar cada vez mais infrutíferas; que, de algum modo, eu não conseguisse mais devassar aqueles símbolos estranhos.

Porém, o que de fato acontecia é que, numa taxa cada vez mais acelerada, minha leitura do texto se ampliava. Não mais sentenças isoladas eram traduzidas por dia, e sim parágrafos inteiros. Aquela língua impossível, na qual nenhuma outra humana encontrava respaldo, estava se abrindo para mim a partir de um puro exercício intuitivo. Os dias começavam a se misturar com as noites. Sem perceber, eu me sentava na cadeira no início do sol matinal e, ao virar de mais uma página,  percebia a lua fosca no céu noturno.

Não era mais de grande incômodo as privações físicas – reduzi minha alimentação apenas para o desjejum e o jantar, ignorando o almoço por completo. As únicas barreiras que se intercediam diante de mim e minha leitura, além das ocasionais interrupções pelo pessoal da universidade, eram as alfinetantes dores de cabeça que agora não pareciam querer largar de mim. Nunca fui uma pessoa para ter problemas com a enxaqueca, aflição comum dentre os eruditos. Porém, este texto parecia exigir o máximo de minhas faculdades mentais, e, por isso mesmo, me taxava ao máximo a minha disposição intelectual.

Nesse ponto, Whateley ainda trazia certo alívio com suas visitas; era bom me ver diante da presença de um colega que conseguia compreender um pouco do trabalho por mim feito, em contraste com os outros professores que tão somente podiam olhar abestados diante de minhas descobertas. Todavia, mesmo que ele fosse o único que conseguia compreender do processo, suas suposições não mais estavam conseguindo me ajudar. Minha leitura e tradução ultrapassaram qualquer marco que antes ele havia alcançado, e tudo que podia oferecer era suporte diante de minha onerosa tarefa e incentivar-me a continuar.

Quando a terceira semana começou, minhas jornadas de leitura se iniciavam tão logo eu despertava. Não mais sentia necessidade do desjejum, lançando-me prontamente ao texto tão logo meus olhos eram desgarrados das garras do sono. A dor de cabeça – antes um contratempo constante de aborrecimento – agora era sumariamente ignorada, por mais que sua presença, intensidade e força aumentassem a cada dia. Não havia obstáculo que pudesse me impedir diante do achado que eu estava prestes a amealhar. A capacidade de encontrar respostas diante de textos e símbolos indecifráveis, a possibilidade de significação universal instintiva, estava tentativamente próxima.

Agora, quando me arremessava ao Texto de Dunwich, eu me conseguia enxergar entre selvas ancestrais. Depois de buscar correlação com as espécies em livros de história natural, descobri que aquela selva certamente era de um período próximo do cretáceo, ou mesmo antes. Populavam minhas visões não mais apenas as grandes árvores, mas também insetos gigantescos, que pintavam os ares com suas asas membranosas, e as mais belas flores cujas pétalas exalavam perfumes acres e acídicos capazes de queimar a pupila.

Eram verdadeiras fantasias que descortinavam-se diante de meus olhos cada vez que me lançava àquelas estranhas páginas. A leitura se tornou um ato de sonho vívido, onde as imagens pulsantes de realidades pretéritas dançavam caleidoscópicas no turbilhão da minha mente. Não tardou para que aquelas fantasias principiassem a escorrer para o meu mundo acordado, e eu me pegasse beliscando o próprio braço numa tentativa de acertar-me se eu me encontrava sonhando ou desperto no escritório.

Alguns professores levantaram questionamentos quanto à sonoridade de minha saúde, opinando que eu deveria dar trégua à pesquisa e descansar no fim de semana que antecederia à minha quarta semana de estudo. As dores de cabeça já eram uma constante tão violenta que eu imaginava não faltar muito para minha mente rasgar-se em alguma tipo de aneurisma. Ponderei acatar às recomendações dos colegas, mas a presença de Whateley me convenceu do contrário.

As visitas dele se tornaram uma espécie de porto seguro em meio às viagens fantásticas dentro do texto, a única fonte de certeza que me parecia ainda ancorar num mundo cada vez mais perdido na fantasia de selvas ancestrais populadas de insetos e plantas pré-históricos. Sua voz, grave, porém metódica, me reconfortava, relembrando que eu estava muito perto de uma grande descoberta que alteraria toda a geografia científica. Ele me dizia para ir além, observar o oculto que escapava aos olhos de todos, e desvendar o maior dos enigmas. Dizia que eu estava próximo, mais algumas páginas e a chave para um conhecimento além de todos os outros poderia, finalmente, ser redescoberta. Naquele meu momento de peculiar vulnerabilidade, abracei aquelas considerações de Whateley como se fossem a mais profunda religião e, com esforço hercúleo, lancei-me com mais afinco do que nunca à leitura do texto, nas últimas páginas que ainda sobravam.

No fim de semana, ao invés de tomar qualquer espécie de pausa, procedi lendo, tão logo o sol pintou de vermelho o crepúsculo ao longe. Sem mais perder tempo com qualquer outra perturbação, ignorei a fome e as interrupções comezinhas de meus colegas. Havia uma missão a ser concluída, um trabalho a ser terminado.

Arremessei-me por completo ao Texto de Dunwich e, outra vez mais, me encontrei perdido naquela selva pré-histórica. A chuva, torrencial, caía como cortinas de água, tão espessas que mais lembravam o corpo de um rio correndo pelo próprio ar. Em volta, o zumbir de monstruosas formas insectoides faziam coro com o estralido das águas. Segui em frente, lendo sentença a sentença do texto que tinha em mãos, fazendo minha mente atravessar as folhagens da selva, explorando fundo, cada vez mais, até que consegui avistar uma caverna.

Perplexo com o novo relevo encontrado, apressei-me pelo solo molhado em direção à boca rochosa. Ela despontava solitária, nascendo de um morro dentro do coração pulsante da selva. Logo, senti como se meus próprios pés se firmassem no chão frio. Meus olhos, subitamente confrontados com a escuridão, foram lentamente se acostumando às formas sombrias. A mente, perdida em fantasia, lançava minha imaginação atiçada para dentro da caverna ancestral. Enquanto isso, meu corpo continuava a leitura – mais e mais folhas eram passadas, vorazmente, em sequência ininterrupta. Eu já mal sentia meus próprios dedos; parecia que ordenava uma mão fantasmagórica a virar aquelas malditas páginas. 

Virava uma página, e minha mente adentrava a caverna, quase sentindo o gosto úmido e fúngico emplastrando-se em meu rosto. Nova página, e agora avançava pelas galerias obscuras de rocha crua, como se ambulasse através de uma traqueia de pedra, pulsando com os segredos arcaicos de uma linguagem travada no fundo da garganta. Mais uma página, e agora não mais podia ouvir a chuva, nem os insetos, apenas a presença perene do verde do mato, da selva, mesmo que meus olhos estivessem imersos na mais líquida e lânguida e tórpida escuridão.

As páginas acabavam. Meus dedos se moviam por instinto; meus olhos liam por impulso. Não conseguia mais sentir o corpo daquele que lia, apenas a caverna, profunda, e um barulho – um novo, sutil barulho. Lembrava as gotas de chuva roçando nas folhas das árvores, nas folhas do mato, nas folhas dos dedos. Então, com olhos que olhavam na escuridão completa, concluí a natureza do som: aquele roçar rouco era o de folhas de livro, sendo viradas, e escritas. Uma a uma, pedaço a pedaço. E eu as olhava de cima, com olhos que não necessitavam de luz para enxergar. Eu as olhava ao mesmo tempo em que as escrevia.

O mesmo texto resgatado de uma casa destruída na pequena cidade de Dunwich, o mesmo texto que rasgava minha mente com excruciante enxaqueca conforme meus olhos procuravam coletar dele significados que nenhuma mente humana jamais deveria ousar coletar, era precisamente o mesmo que olhos que ignoram a escuridão estavam observando e escrevendo com apêndices e membros que não podiam ser, de forma alguma, mãos. 

Conforme as últimas sentenças eram terminadas de serem escritas, também, simultaneamente, terminavam de ser lidas por mim. Eu era a mim mesmo, mas também era a coisa que escrevia – perene como a selva, como as plantas, como os vegetais imaculados que um dia foram artéria e veia de todo o planeta, num tempo antes que o primeiro balido irracional procurou vomitar significado em signos tortos. A linguagem, a língua, e todas as palavras – tudo isso que a humanidade acredita fazer uso para expressar sua suposta inteligência – nada mais eram do que uma muleta ocasional, um deslize, um substrato dessa mente implacável, dessa coisa que estava para além das mediocridades mundanas da comunicação.

Usando seus membros elásticos e bulbosos feito vinhas, a criatura pincelou os últimos pontos do texto. Eu era agora autor e prisioneiro – ao mesmo tempo, lia o que ainda não fora escrito, e escrevia o que ainda não fora lido. Minha mente humana se chocava com essa outra mente, mais planta do que carne, e se perdia, esmagada no espaço entre milhões de anos. O nome dela era irrelevante, profundo, profano demais para a razão minúscula humana; parecia soar como Isso, ou Itho, ou Yith. Era o nome de um ser individual, mas também de vários: um povo de seres que vivia para além da perniciosa noção de indivíduo e do agrilhoamento patético do tempo. Seres para os quais a linguagem servia apenas de um conveniente degrau. Usavam-na como um veículo, sim, apenas um adequado veículo para atravessar o espaço e o tempo entre brechas absurdamente incompreensíveis à raquítica consciência humana e, no qual, por acaso ou destino, eu havia sido preso. Como os insetos seduzidos pelas chamas de um fogaréu.

Num esforço para além de qualquer mensuração, vi-me de volta no escritório, gritando. Teria realmente eu conseguido retornar por via de minhas próprias forças, ou será que a coisa havia assim me permitido? Sinceramente, eu jamais poderia ter certeza. Suando, vi, diante de mim, o texto inteiro, traduzido. Aquela sequência de símbolos, de metáforas, aquela coletânea de rabiscos insondáveis: aquilo não era um texto, não era algo feito para comunicar. Era um veículo. Não, mais do que isso. Era um portão, cuja periclitante chave era a leitura. 

Sim, não havia ali naquele conjunto de signos encadeados uma mensagem a ser derradeiramente descoberta. Era o próprio ato da leitura, o próprio ato da percepção que construía uma torre. Infinita, imensa, de metáforas sobre metáforas, de impressões psíquicas que remontavam aos confins da existência humana, que arremessavam o indivíduo diretamente contra o abismo do ser, contra o abismo do cosmo, criando uma passagem livre. Uma ponte para tempos pretéritos onde horríveis inteligências cósmicas de incompreensíveis desejos ansiavam pela oportunidade de se verem soltas uma vez mais.

Teria eu alguma ligação causal com tudo aquilo? Teria minha mente já feito contato – em outras eras, tempos, ou mesmo vidas – com aquelas entidades supranaturais e, por isso, fora possível para mim abrir passagem por meio da leitura? Ou fora tudo uma coincidência risível de um destino frio, apático e indiferente?

Não importava. Nada mais importava. Aquele Texto de Dunwich estava devidamente traduzido – não em palavras, mas em conceito. A partir do momento que eu, com minha mente humana, consegui trazer sentido àquelas simbologias, eu havia escrito na realidade uma que uma tradução era possível. Por tanto acreditar, criei a significação universal – e agora, aqueles símbolos, aquele texto maldito, era uma porta aberta. Quanto mais pessoas se deixassem levar por ele, quanto mais mentes permitissem se infectar com aquela simbologia, mais perto chegaríamos ao abismo absoluto onde o tempo e o espaço seriam esmagados pelo conduto da linguagem.

Isso não podia acontecer. Eu devia codificar novamente todo o texto. Devia fechar a porta que fora aberta. Reunindo a pouca energia que me sobrara, sentindo o fraquejar do corpo e da mente, escrevi um diário de todos os acontecimentos que me levaram até esse destino inescapável. Não foi uma escrita qualquer. Com extremo cuidado, segui os padrões, um a um, que pude constatar durante a leitura do maldito texto e de suas simbologias horrendas. Lembrando do que vivenciei naqueles breves instantes, da mesma forma como a bizarra criatura de tempos imemoriais, simulei aquela escrita impossível e a escondi na minha própria linguagem. E assim, com tudo o que pude, confeccionei um cadeado em forma de texto, este mesmo texto que você fez o favor de encontrar. Agora, está tudo acabado, o trabalho está feito.

Tão logo a última linha for escrita, o pouco que sobrou de mim ficará preso no interstício entre o agora e o que já foi. É a única saída. Encerrarei neste cadeado a chave de leitura que encontrei no maldito manuscrito que, com minhas próprias mãos, li e escrevi, no presente e no passado, como humano e como monstruosa entidade. Enquanto este texto for lido, enquanto este texto for conhecido, o cadeado permanecerá, e os portais para aquelas viscosas, grotescas, perplexas e alienígenas inteligências de tempos imemoriais hão de permanecer inalcançáveis. Espero, com toda a fé que possa me ter restado, que esse meu cadeado seja forte o suficiente, e que minha escritura tenha sido capaz de fechar o portão.

Se você que lê mantém algum amor e estima a tudo que a existência humana possa prezar de bom, então, imploro em nome da humanidade, que espalhe este cadeado pelo maior número de olhos que puder. Faça com que a língua humana sirva de rocha e segure, nem que por um breve e insignificante momento, os abismos infinitos daquelas entidades, daqueles vultos, daquelas sombras perniciosas que espreitam fora do tempo.


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