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O avatar não-binário do Desu virtual

Lewd
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O avatar não-binário do Desu virtual
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Não é uma mulher comum que se levanta do banho nutriente. É bela e atlética como a estátua da Diana Caçadora da Filadélfia. O líquido que escorre por seu corpo esbelto ameniza os efeitos da poluição diária em sua pele. Além disso também ajuda a cicatrizar as diversas cirurgias e minimizar a rejeição aos implantes.

Nua e vitalizada, ela atravessa o cômodo até uma cybergueixa que a enxuga. Outra já está com seu traje nas mãos. Os polímeros se acomodam, moldando em torno do corpo. A roupa a veste, hidrata, aquece e protege.

Ela senta durante o aplique do colírio e pisca ajustando as lentes para um tom verde. Seus novos olhos custaram caro― em dinheiro, horas e alma― mas agora ela enxerga em diversos espectros de visão. A gueixa injeta um líquido cicatrizante em seu nariz recém-operado. Ela corrigiu um desvio de septo, fez redesenho estético e ainda implantou um sistema de filtragem de ar, gases e venenos. Melhorias muito úteis em sua profissão.

Essas sessões de cuidados com as cybergueixas são tão caras quanto necessárias. Pura manutenção; questão de manter a máquina lubrificada e ativa. Ela segue pelo corredor passando por várias saletas e ofurôs onde outros usuários se encontram submersos nas banheiras de cura. Na porta de saída, entre dois seguranças Jovianos, está o dono do estabelecimento. Ele sorri dentes de neon no escuro e lhe estende a mão direita. Ela aperta o suficiente para que a transação de créditos seja feita entre sua palma e a dele. Um som de moedinhas de algum jogo antigo toca, avisando que o valor foi transferido.

―É sempre um prazer cuidar de um corpo como o seu, Mia. Faz bem pra reputação da clínica. Sua próxima sessão já está marcada e sincronizada com a agenda pessoal do seu holoSystem. Até breve.

Mia agradeceu com um meio sorriso, desconfortável com a presença dos Jovianos, homens geneticamente criados na hiperatmosfera de Júpiter. Ela sempre quis saber se era capaz de derrubar um monstro daqueles em combate... mas jamais depois de hidratar a pele. Deixou o condomínio de clínicas em direção à noite eterna que a Terra tinha virado. Sua roupa providenciou o capuz e se desdobrou numa manta plástica para protegê-la da garoa fina, chata e incessante. Voltou pro seu alojamento, para esperar a ligação de quem pagava todas suas melhorias.

Mia está imóvel a horas no chão de seu cubículo. Preferia se isolar da vida árida lá fora. Seu holoSystem está desligado desde que ela descobriu um hacker invadindo seus momentos de privacidade. Caso estivesse ligado, ela estaria sentada num píer nas Ilhas Maldivas, balançando as pernas atléticas na água transparente e límpida do Oceano. Água limpa natural é uma coisa que não existe mais na Terra, nem como lembrança. E ninguém sabe mais o que mora nos oceanos.

Ela nasceu depois que a humanidade conquistou o espaço e colonizou outros planetas e luas, fugindo do caos ambiental que a Terra virou. As chuvas ácidas que fustigam a superfície, as doenças de laboratório, pragas químicas e guerras biológicas tornaram nosso planeta quase inabitável. Os que não tem créditos para comprar vida nova nas colônias sobrevivem se amontoando em enormes sobras das cidades de outrora.

Mia acostumou a comer sua ração de peixe processado numa mesa de vidro enquanto carpas holográficas nadavam por baixo do tampo. Com o holoSystem desligado, ela teve que fazer sua refeição na mesa nua, branca e asséptica que, junto com uma cadeira, uma poltrona de canto e o tatame de dormir formava toda sua mobília. Seu gato, um synthPet e900 que gostava de interagir com as carpas, se espreguiçava no tatame.

Sua mão esquerda brilhou levemente. O comunicador subcutâneo implantado na palma acendeu, e o número que se formou era conhecido. Era a ligação que esperava. Levou a mão em concha ao rosto, e a voz do outro lado lhe passou sua missão:

Mia teria que matar uma celebridade.

Existe uma maneira mais barata porém menos humana de se viver na Terra arrasada: as comunidades online. Muitas pessoas preferem morar nelas, segundas vidas mais interessantes do que a dura realidade. É normal encontrar lindos avatares online, mas as pessoas por trás deles são quebradas, desleixadas, sem o mínimo de higiene. Os olhos baços, sem vida nem esperança. Alguns usuários já são tão bestiais que evitam contato humano real a qualquer custo. De olho nisso, algumas megacorporações do setor permitem contratos vitalícios, para que os usuários continuem em seus avatares após a morte física. Ninguém sabe dizer exatamente as implicações desse ato.

Quing fez o caminho inverso. Nasceu como celebridade virtual e só depois ganhou um corpo de carne e osso. A Samothraki BioGen, a megacorporação dona do maior mundo virtual existente, implantou todo o conhecimento, manias e trejeitos de seu avatar mais famoso num homem trans, que aceitou ser o corpo físico de sexo fluído e incorporar Quing no mundo real. Fizeram também cirurgias de adequação e moldaram o corpo mais perfeito e atraente para qualquer espectro de sexualidade humana.

Quing combinava a sensualidade de suas curvas feminis com uma virilidade masculina sem igual. Sua imagem não-binária era poderosa e vendia qualquer produto de seus anunciantes. Se tornou objeto de desejo de 97% das pessoas sexualmente ativas, segundo pesquisa encomendada e talvez manipulada pela mídia, mas o fato é que até mesmo Mia já tinha se tocado pensando em Quing. Antes do seu holoSystem ser hackeado ela se permitia esse tipo de coisa.

O problema é que Quing começou a sair com um figurão da Samothraki. Esse figurão, Hitomi, apaga as próprias memórias logo após cada encontro, para se proteger do scan cerebral da empresa. Toda megacorporação escaneia seus empregados― principalmente os de alto escalão― por medo de espionagem industrial. Se o relacionamento fosse descoberto seria desastroso para os negócios.

Os amantes tem um código, uma espécie de palavra- -chave que, quando desencriptada, reativam chaves no cérebro de Hitomi que despertam o desejo, levando a um novo encontro, e assim vão se vendo. A única pessoa do mundo que sabe de tudo é o hacker cerebral que executa o procedimento de apagar as memórias depois.

No último encontro, após uma noite particularmente intensa recheada de drogas sintéticas e bebidas exóticas, Hitomi se excedeu na loucura e acabou matando o hacker durante um surto psicótico. O pessoal do controle de danos da Samothraki recolheu o corpo, aplicou os costumeiros coquetéis retrodrogas e advertiu Hitomi, esperando que tal loucura não se repetisse. Mas a palavra-chave foi disparada novamente por Quing, o cérebro viciado de Hitomi respondeu ao estímulo e um novo encontro era iminente.

― Seus braços cibernéticos estão em dia? Consegue bater no avatar até transformar numa massa disforme? Assim colocamos a culpa em algum Joviano brutal e a vida segue.― questionou o empregador de Mia. O destino de Quing já estava definido.

― Eu posso acertá-lo à distância com um rifle laser. Minha nova visão é tão precisa que ficará um buraco minúsculo na testa dele, basta me posicionar no prédio em frente.

― Mia, a Samothraki não quer mais executivos se engraçando com avatares. O recado tem que ser claro, a cúpula decidiu: é pra moer aquela pessoa. Quer seu sonhado carro voador ou não?

― Um buraco na testa passaria o mesmo recado, mas se a cúpula decidiu...

― Olha, não se apegue ao corpo físico, qualquer trans pode desempenhar Quing. A Samothraki já tem um corpo substituto em stand by, que reaparecerá em algum resort luxuoso das colônias num grandioso espetáculo. Na verdade eles preveem uma significativa valorização percentual nos próximos contratos da marca.

― Tá.― Mia respondeu, resignada― E sim, meus braços agora são muito fortes.

― Ótimo. Tô enviando as coordenadas do local de encontro.

Ela caminha na avenida chuvosa por entre a multidão plastificada e as propagandas que gritam em neon. Os transportes passam cheios de pessoas absortas em seus sistemas oculares, ninguém mais olha pros lados, para os outros. O trânsito é disputado entre bicicletas, turbas de pedestres e as monomotos com engraçados comandos de voz em chinês.

A elite voa em seus hovercars de luxo. Eles moram e se deslocam acima das nuvens. Matando o corpo físico de Quing, Mia ganharia créditos pra comprar um carro voador modelo básico. Pensava em como conseguir mais créditos pra financiar logo um completo, quando foi interrompida por uma comunicação auricular:

― Mia? Assim que chegar ao local entre pelos fundos. Tô enviando uma chave de segurança que vai te liberar o acesso a qualquer porta do condomínio. Tire Hitomi de combate e elimine Quing. Depois nossa equipe limpa a sujeira e faz o jogo da mídia.

Mia evitou os elevadores, subindo os lances de escada com graça felina. Ao chegar no corredor foi surpreendida por um truculento Joviano que guardava a porta. O monstro veio pra cima e desferiu um soco na parede. Mia desviou por pouco e, agachada, fechou o punho e o acertou em cheio na virilha. Nenhum efeito. O Joviano respondeu com um chute que a jogou longe, quebrando algumas costelas.

Ela levantou cuspindo sangue e sorriu, sentindo-se viva com a descarga de adrenalina. Mais humana até. O Joviano armou novo soco, mas ela se esquivou. Pulou nas costas largas dele e encaixou uma gravata. Passou as pernas musculosas em volta do corpo daquele monstro burro e concentrou toda sua potência nos braços. O bicho, surpreendido, não soube como sair do golpe. Mia forçou até sentir o pescoço partir e ele desabar, morto.

Dolorida, ela sacou a pistola e ajustou para taser. Apertou o lóbulo da orelha pra chamar seu contratante via auricular. Silêncio. Impaciente, arrombou a porta no chute. Correu os olhos pela sala inteira e avistou Hitomi. Parecia surpreso com a derrota do Joviano e já levava a palma esquerda ao rosto pra chamar mais seguranças. Ela mirou e disparou. O taser certeiro desmaiou Hitomi e também fritou seu fone de palma.

Escutou um zunido cortando o ar atrás de si e, antes que pudesse reagir, levou uma pancada fortíssima na orelha. Adeus auricular. O mundo girou e escureceu. Caída, Mia enfim enxergou Quing, sorrindo com um taco de metal na mão.

Ele zuniu o taco de novo, mirando a mão dela que segurava a pistola. A arma voou longe. Mia, desorientada, pensava em como equilibrar a luta, quando ele desceu o taco com toda força em seu joelho esquerdo. A tíbia quebrou num som horrível. Ela gritou de dor pela primeira vez em anos.

Quing recolheu o taco por cima do ombro, exultante. A voz mais sedutora produzida na Terra ameaçou:

― Você ousou mexer com uma Deusa? Eu sou o dono do mundo! Vou esmagar sua cabeça e depois te remontar como minha escrava. Será peça da minha mobília, uma boneca viva.― então levantou o taco com as duas mãos e bateu seco, forte.

Mia sabia ter braços capazes de derrubar um Joviano. Deteve o taco em pleno ar com a mão esquerda. Usou a direta para golpear com força a traqueia dele, um movimento tão rápido quanto mortal. Quing cambaleou esguichando sangue. Levou as mãos à garganta tentando em vão segurar a vida dentro de si, até bater de costas na parede oposta e cair.

A equipe de limpeza da Samothraki entrou assim que o coração parou:

― Senhor, a freelancer passou no teste. Eliminou o Joviano desarmada. Teve múltiplas fraturas mas também eliminou o alvo principal. E o executivo está desacordado conforme o protocolo, senhor. Dano mínimo, uma plástica na mão talvez. Vamos ajustar a cena, depois chamo a mídia pra montar a narrativa e noticiar ao público.

O soldado se voltou pra Mia:

― Está bem quebrada garota, mas a Samothraki vai te consertar. Bem vinda ao setor de controle de danos.

― Nunca tinha visto alguém sair na mão com um Joviano.― outro soldado comentou, empolgado. Ele aplicou uma espuma que se solidificou ao redor do joelho fragmentado de Mia, imobilizando-o.

― Como vão ajustar a narrativa?― ela questionou, enquanto se apoiava pra levantar.

― Um Joviano enlouqueceu e atacou um alto executivo, nós intervimos e o derrubamos. Sem lasers nem perturbação da paz. Essas aberrações são perigosas aqui na Terra.

― Quem o derrubou fui eu!― Mia protestou e suas costelas doeram muito nesse instante.

― Mas essa narrativa é minha. Você ainda é nova no setor. Ah, e para todos os efeitos, Quing nunca esteve aqui. Está num resort nesse momento, numa apresentação surpresa. Acesse o canal de entretenimento e verá o milagre com seus próprios olhos verdes.

― Não quero saber. Quero ir pra casa.― Mia mancou na direção da porta, sentindo-se tão descartável quanto aquele corpo tatuado e bronzeado artificialmente que a equipe agora ensacava pra desaparecer.

― Tem um hovercar da Samothraki lá em cima, pegue por hoje. Talvez no console tenha um inibidor pra, você sabe...― ele disse isso apontando para as costelas dela.

Mia flutuava por cima da garoa quando seu novo chefe apareceu no painel multimídia do carro. Chamada em vídeo. Era a primeira vez que ela via seu rosto.

― Mia, cumpriu a missão com louvor. Parabéns e seja bem-vinda. Seus consertos serão deduzidos dos créditos.― e então desligou, pois não esperava objeção.

O painel voltou a exibir o canal de entretenimento, onde Quing aparecia sorrindo os dentes mais perfeitos do mundo num comercial de seguro de vida. Em seguida entrou o androide da previsão do

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