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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Acordei e olhei pro meu monitor portátil. Não tinha nenhum chamado. Conferi o horário, eram duas da tarde. Me ergui aos poucos, meio bêbado de sono ainda, e abri a cortina pra confirmar o que já sabia: o céu continuava cinza, o que tornava o dia igual à noite. Já fazia alguns meses. Um dos motivos pro início dos chamados, acreditava. Dependia do meu monitor pra algumas coisas, mas aos poucos elas eram reduzidas. Várias superficialidades já não faziam sentido. O Comunicador não precisava mais ser utilizado, por exemplo. Mas pra saber que hora do dia era ou que dia era, ainda servia. Eu precisava reduzir o uso do monitor pra conservar a bateria. As fontes de energia elétrica estavam acabando, porque os painéis de energia solar não carregavam mais. Todos os dias eram cinza, e não chovia também. As represas estavam secas e as turbinas não giravam mais. Eu não tinha descido até lá pra conferir, foi o que me disseram umas pessoas que encontrei no supermercado. “Para de jogar no monitor”, eles recomendaram. “A energia agora está vindo só das baterias estacionárias”. Por que eles estavam sendo tão legais, eu perguntei. “Acho que não vamos receber o chamado, por isso estamos nos preparando”. Eu não tinha imaginado na hora, mas era possível que eles me considerassem alguém que não seria chamado também, e por empatia estavam me aconselhando. Ou talvez por pena. Nos primeiros dias depois que tudo começou, não fiquei preocupado. Achei que seria normal receber o chamado pela se- gunda semana, ou terceira. Afinal, eram progressivos. Provavelmente os primeiros seriam aqueles de melhor posição social, melhor emprego, família mais estruturada. Representantes de alguma coisa, empreendedores. Mas eu não ficaria longe disso. Depois do primeiro mês, comecei a gerar hipóteses. E depois de refletir sobre os conselhos no supermercado, me preocupei. Poderiam ser os meus braços cobertos de tatuagens, mas nesse caso não teriam levado Abel, e ele foi um dos primeiros que me lembro. Poderia ser minha cabeça careca, que indicaria algum tipo de pobreza genética dentro do algoritmo. Eu não sei, e logo meu Comunicador ficou deserto de pessoas, e não tinha ninguém pra especular. Então desliguei-o, pra economizar energia. Logo o supermercado ficou vazio. Me supreendi: achava que iriam abastecê-lo, mesmo depois do início dos chamados. Mas ninguém se preocupou. A companhia de supermercados provavelmente parou de se comunicar com a companhia de logística, e os caminhões pararam de ser abastecidos e descarregados. Os terminais de pagamento estavam todos ligados, mas também não tinham propósito: a comunicação das telas com a companhia de cartões e pagamentos não estava funcionando, e mesmo que se quisesse pagar, dava erro. Era só recolher seus itens na prateleira e ir embora. E as prateleiras estavam vazias. Fui cidadão: procurei o quadro de força do supermercado e desarmei o disjuntor geral. Todos aqueles terminais e lâmpadas eram um gasto de energia totalmente descenessário às nossas baterias e a porca energia fotovoltaica. Desde um pouco antes dos chamados, os empreendimentos da cidade estavam minguando. Tudo se resumia à Empresa de Alimentos, responsável pelas companhias de cultivo, distribuição e comércio das plantações, supermercados, feiras e etc; a Empresa de Comunicações, responsável pelos canais de televisão, pela internet e tecnologia; a Empresa Estética, responsável pelas roupas e equipamentos para construção e arquitetura; a Empresa de Fármacos, responsável por todas as drogas medicinais e recreativas; e algumas outras empresas, que não lembro bem o que faziam mas que sabia que existiam. Depois de desligar o supermercado, andei de avenida em avenida buscando algum lugar aberto, alguém operando, mas não havia nada. Em uma esquina qualquer havia um antigo outdoor anunciando a Nova Realidade. Engraçado, eu não lembrava de anúncios desse tipo na época do lançamento. Na verdade, só lembro dos novos terminais que estavam sendo instalados nas casas e de que aos poucos eu não via mais ninguém em lugar nenhum, até que eu comprei a minha edição e pude reencontrar todo mundo. Na época, ninguém notou que a Nova Realidade era um teste para a Nova Vida, mas era. E depois o dia e a noite ficaram cinza e então os chamados começaram. E fiquei vagando pelas ruas, que estavam abandonadas havia mais tempo, mas então se tornaram realmente desertas. Demorou algumas semanas pra que eu confirmasse que a cidade estava vazia mesmo, e que se havia alguém, não queria contato. Mas depois que identifiquei, passei a não me preocupar mais com a propriedade de ninguém. Diziam que na Nova Vida nada disso seria necessário, e se todos já estavam lá, ninguém iria se importar, concluí. Num dia qualquer, saí de casa e decidi fazer outra rota que não das avenidas principais. Atravessei uma transversal e passei muito longe delas, prestando atenção nas casas da vizinhança, cada vez mais predominantes. Os gramados já estavam bastante crescidos, tornando a fachada das casas apocalípticas, apesar de não ter nenhum sinal de ruína, só vazio. Uma casa antiga me chamou a atenção: era de um piso só e tijolo à vista. Aquele tipo de tijolo maciço com cimento mal distribuído. A casa era uma grande caixa e ao seu redor havia um deque de madeira antes do gramado, onde uma mesa redonda e cadeiras de espaldar curvado davam um ar de casualidade ao jardim. No fundo do terreno havia um pequeno galpão, que parecia uma reprodução em miniatura da casa grande, mas sem o deque. Gostei da casa e resolvi conhecê-la. Parecia inabitada. Não tive medo de abrir o pequeno portão. Abrir a porta foi fácil: eu tinha todo o ferramental da ferragem à disposição, e usei um pé de cabra. Havia uma antiga fechadura eletromagnética do tipo que enviava um sinal para fechar todas as aberturas da casa e acionar o alarme caso rompida, mas como não havia mais Comunicação e a energia elétrica das aberturas provavelmente já estava desligada, nada aconteceu. Lá dentro, a vida de uma mulher solteira se abria pra mim: sabia porque o único quarto da casa só tinha guarda roupa feminino e uma cama de solteiro. A casa dela se parecia muito com a minha, na verdade: um escritório onde o Terminal estava instalado; uma cozinha com um grande armário para os mantimentos buscados semanalmente; um quarto com uma cama e o guarda roupas. Acabei me afeiçoando ao apartamento. Fazia tempo que algo assim não acontecia, mas acho que o fato da casa ser muito parecida com a minha, a disposição dos móveis ser quase igual a minha, fez com que eu pensasse que aquelas coisas tinham algo de especial, como se fosse possível alguém pensar de forma semelhante à minha. Durante as semanas seguintes, passava lá todos os dias, só pra dar uma olhada. Não tinha nada pra fazer a não ser esperar o chamado. Não cruzei mais com a família do supermercado, e fiquei pensando se tinham sido chamados. O que teria acontecido com todas as suas provisões, será que poderia achá-las? Depois de passar dias sentado no sofá da casa vazia, resolvi conhecer o galpão. Às vezes eu me esquecia do chamado. Abri o galpão: uma das paredes estava repleta de antigos artigos de jornal colados. Eu só tinha visto jornais na escola, quando ainda haviam escolas, e eu era criança. Todas as notícias eram sobre algum acidente de muito tempo atrás, algum lugar que pegou fogo. Era uma espécie de catástrofe. Muitas pessoas tinham morrido, era uma festa e o maior acidente que já tinha acontecido numa festa em todo o mundo. Achei o jornal uma coisa muito engraçada, um papel amarelo e ressecado, cheio de tinta. Era um alívio que os jornais tivessem acabado, pelo desperdício de recursos, mas parecia ser importante para aquela pessoa: o que será que ela tinha a ver com o acidente, pensei. No resto do galpão não havia muita coisa, exceto pela mesa logo em frente ao painel de jornais colados e por um banquinho de madeira sujo, uma coisa que também parecia muito antiga. O galpão parecia uma viagem no tempo, como um esconderijo para uma pessoa de cinquenta, cem anos atrás, que fingia ser comum na sua casa grande. Abri as gavetas da mesa grande. Na primeira, encontrei uma mão mecânica. Era um modelo muito antigo, quando a tendência ciborgue tinha recém saído da indústria. Os oito dedos compridos e finos davam um aspecto assustador à ferramenta. Lembro que ela não foi muito difundida, justamente por esse motivo. Acabou abraçada por pessoas estranhas pra usos alternativos, virou coisa de maluco. Artesãos usavam muito para esculpir, e parecia que esse era o caso: os dedos estavam sujos. Consegui identificar gesso e argila, apesar de algumas outras coisas estranhas estarem incrustradas nos dedos. Coloquei na mão, só por curiosidade: ela não identificou minhas digitais, então não tinha nenhuma configuração conhecida. Conforme o usuário a utilizava, os três dedos adjacentes aprendiam os movimentos da mão e começavam a atuar de forma a tornar tudo mais eficiente e preciso. Era uma ótima ferramenta pra esculpir. A mão mecânica assimilava o material de trabalho e adaptava a necessidade de força ou de precisão. Apesar de deduzir que a mão era utilizada para esculpir, não encontrei escultura alguma. Talvez elas tivessem sido levadas dali. Talvez fosse possível carregar pertences junto quando fosse chamado. Agora eu não sabia mais se ela tinha sido chamada ou não, se estava por aí, vasculhando casas alheias como eu. Roubei a mão mecânica. Era um brinquedo interessante, e eu estava entediado há um bom tempo. Resolvi fazer eu mesmo esculturas, mas do quê? Nem mesmo conhecia os materiais para esculpir. A Nova Realidade estava fora do ar, e a Nova Vida iria demorar pra mim. Saí da cena do crime com um plano: povoar a cidade de esculturas. Já imaginava gárgulas em todos os lugares, a reprodução de alguns pássaros que apareciam na Nova Realidade também. Começava a elaborar planos pra encontrar o material de trabalho. E se eu encontrasse a artista, se pudéssemos trabalhar juntos? Saí da casa e voltei à avenida. Aproximava-me de casa quando começou a chover. Uma garoa fina, que corria quase na horizontal. Fazia tanto tempo que eu nem lembrava mais como era, fiquei com os olhos bem abertos, e os pingos encostavam na minha retina, formavam borrões como numa câmera. A chuva indicava que as coisas iriam começar a mudar.

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