Nossa doce guia anônima

Cyberpunk
Julho de 2020
Começou, agora termina queride!

Singularidade

Conquista Literária
Conto publicado em
Projeto V.E.R.O.N.A.

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Nossa doce guia anônima
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O corredor branco estendia-se à frente numa curva suave para a direita, as luzes de segurança azuis nas paredes limpas avançando num sem-número de pontos brilhosos até perder-se aos poucos no vazio aparentemente infinito. A cada punhado de passos, uma porta branca e alta surgia, hermeticamente fechada, com apenas uma identificação numérica ao lado.

Ainda me surpreendia em como uma Fortaleza daquele porte conseguia se manter em flutuação constante a tantos pés acima do solo semi desolado do mundo abaixo, sem jamais sofrer nenhuma turbulência. Pensava nisso, distraído, quando o número 1108, pintado em preto, surgiu, chamando imediatamente minha atenção. Deixando de lado minhas reflexões sobre os oásis tecnológicos construídos pelos humanos Segmentários, sem hesitar, posicionei a mão num retângulo em relevo quase invisível sobre a superfície da porta, submetendo o membro à leitura de digitais, e vi a passagem abrindo-se para o lado, sugada para dentro da parede.

A grande cadeira de couro sintético azul era o único móvel no aposento imaculado, posicionada ao centro do piso neutro como um trono tecnológico. Fios e tubos de diversos tamanhos e extensões acoplavam-se por toda a parte de seus apoios e, na base para a cabeça, uma espécie de capacete circular encontrava-se elevado.

Deixando de lado toda peça de roupa e acessórios que trazia no corpo, dirigi-me ao estranho acento. Quando me sentei, sem precisar apertar qualquer botão, a cadeira ligou-se, e automaticamente manoplas se fecharam sobre meus braços e o grande capacete desceu até cobrir completamente meu rosto. Minha postura foi arrumada até se encaixar perfeitamente no encosto e minhas pernas foram esticadas até a posição ideal, onde foram envolvidas por estimuladores musculares. Após alguns segundos ouvindo os familiares ruídos mecânicos, senti as picadas de agulha nas veias do pulso e as sondas de alimentação e evacuação entrando respectivamente em minha boca e orifícios baixos. Senti no rosto o ar levemente mais gelado vindo da máscara de oxigenação pouco antes de ela se inserir em minha vias nasais e nesse momento as luzes do capacete começaram a piscar em verde e laranja, substituindo o negro vazio que havia tomado conta de minhas vistas. Então as ondas E.V.O começaram a vibrar em meus ouvidos, à princípio muito baixo, depois cada vez mais altas, ressoando através de minha nuca, onde o chip com minhas credenciais de acesso havia sido cirurgicamente implantado. Todo e qualquer sinal vital em meu corpo estava sendo medido e monitorado, e enquanto eu estivesse distante, toda e qualquer necessidade fisiológica que eu pudesse ter seria prontamente atendida. As ondas foram aumentando e aumentando... Para que eu não me movesse durante a viagem, pequenas doses de sedativo começaram a entrar em minha corrente sanguínea. As luzes brilhavam cada vez mais rápido, indo e vindo, indo e vindo...

Só tive tempo de pensar que “faltava pouco”, quando tudo se apagou e minha consciência desapareceu, sendo transportada para o meu avatar artificial.

– Servidor conectado – uma voz robótica soou em minha mente, quando abri meus outros olhos, os únicos olhos que me tornavam capaz de descriptografar todos os conjuntos de códigos que pairavam invisíveis à minha frente, convertendo-os em imagens de uma paisagem que minha mente humana podia compreender.

Mecanicamente, abri a porta vidrada e saí da cabine telefônica, contemplando o mundo maravilhoso do V.E.R.O.N.A., que estendia-se infinitamente, em suas diversas camadas de macros e microcosmos flutuando entre as nuvens branquíssimas do céu holográfico, abrigando todos os servidores que a ele tinham acesso, como uma gigantesca teia de aranha na qual cada linha era uma massiva rede de informações.

Deixando o checkpoint do servidor E.V.O, como estava acostumado a fazer, dirigi-me à conhecida pista de pouso cinzenta, onde um pequeno aeroplano azul já me esperava. Assim que adentrei sua cabine compacta, a ignição dos motores foi acionada automaticamente e em poucos segundos eu havia deixado a montanha e estava planando com tranquilidade, atravessando as diversas áreas delimitadas que formavam cenários quadrangulares, cada qual absurdamente único e diferente do outro, contíguo consigo. Metodicamente abandonando para trás réplicas digitais de icebergs e quadrados de oceano, amontoados de sequoias milenares em florestas verdejantes e pirâmides em meio a dunas de areia, fui encurtando a distância até V.E.R.O.N.A., o único entre todos estes cenários que realmente possuía consciências viventes interagindo – o que de fato tornava as coisas divertidas.

Eu já via as colunas de luzes apontadas para o céu, à centenas de milhares de quilômetros da capital, local que, a bem da verdade, alguns pensavam ser o único existente em V.E.R.O.N.A. – uma ilusão que nós, da Fortaleza, fomos obrigados a jurar manter. Mas, não era exatamente para lá que eu me dirigia...

Assim que avistei a mancha rosada do campo de tulipas holandesas fiz com que o avião descrevesse uma descida lenta, até aterrissar com suavidade numa área gramada.

Deixando a aeronave, iniciei minha caminhada, adentrando no mar de flores, que apontavam suas pétalas para o alto em botões perfeitos. Os caules e folhas finas e longas eram tão altos que quase me chegavam à cintura.

De repente, algo me puxou com o força e caí prostrado, os joelhos enterrando-se na terra fofa, espaçados exatamente ao redor da silhueta deitada.

– Oi, bonitão. – riu Noether, colocando à mostra os dentes incrivelmente brancos que contrastavam com sua pele negra como ébano.

Sem nada dizer, afundei-me nos braços que me buscavam, beijando os lábios pintados que encontraram os meus com um fervor quase religioso. Aspirava seu perfume conforme me emaranhava sobre seu corpo, bagunçando a cabeleira de cor violeta.

Ainda me lembrava da primeira vez que havíamos nos tocado assim, quando eu pacientemente começara a lhe explicar como o tocar de uma boca na outra representava um ato de carinho tão íntimo e sentimental entre dois humanos e Noether então rira-se, chamando-me de “tolo romântico”. Afinal, era óbvio que ela sabia o que era um beijo. Até aquele momento, nós já havíamos trocado tantos e-morandos, gasto tantas horas em salas secretas sem jamais termos nos visto que, quando enfim nos encontramos pessoalmente, tudo parecia perfeitamente alinhado – e nada mais importava, nenhuma distorcida hierarquia de castas ou conflito ideológico, nenhum lado era o correto: o certo era apenas Nós.

Ao primeiro encontro, muitos outros vieram, eu dissimulando meu interesse por V.E.R.O.N.A. entre meus colegas da Fortaleza; Noether igualmente evadindo-se da visão atenta de seus semelhantes, a facção de A.I.’s que fazia parte. Nenhum de nós queria expressar em palavras o que nos aconteceria caso fôssemos descobertos, e nem era preciso, por isso, desde o início nosso ponto de encontro era um local onde jamais nos encontrariam, bem ali, naquele campo de tulipas virtuais, a nossa doce guia anônima.

Prólogo

Epílogo

Conto

O corredor branco estendia-se à frente numa curva suave para a direita, as luzes de segurança azuis nas paredes limpas avançando num sem-número de pontos brilhosos até perder-se aos poucos no vazio aparentemente infinito. A cada punhado de passos, uma porta branca e alta surgia, hermeticamente fechada, com apenas uma identificação numérica ao lado.

Ainda me surpreendia em como uma Fortaleza daquele porte conseguia se manter em flutuação constante a tantos pés acima do solo semi desolado do mundo abaixo, sem jamais sofrer nenhuma turbulência. Pensava nisso, distraído, quando o número 1108, pintado em preto, surgiu, chamando imediatamente minha atenção. Deixando de lado minhas reflexões sobre os oásis tecnológicos construídos pelos humanos Segmentários, sem hesitar, posicionei a mão num retângulo em relevo quase invisível sobre a superfície da porta, submetendo o membro à leitura de digitais, e vi a passagem abrindo-se para o lado, sugada para dentro da parede.

A grande cadeira de couro sintético azul era o único móvel no aposento imaculado, posicionada ao centro do piso neutro como um trono tecnológico. Fios e tubos de diversos tamanhos e extensões acoplavam-se por toda a parte de seus apoios e, na base para a cabeça, uma espécie de capacete circular encontrava-se elevado.

Deixando de lado toda peça de roupa e acessórios que trazia no corpo, dirigi-me ao estranho acento. Quando me sentei, sem precisar apertar qualquer botão, a cadeira ligou-se, e automaticamente manoplas se fecharam sobre meus braços e o grande capacete desceu até cobrir completamente meu rosto. Minha postura foi arrumada até se encaixar perfeitamente no encosto e minhas pernas foram esticadas até a posição ideal, onde foram envolvidas por estimuladores musculares. Após alguns segundos ouvindo os familiares ruídos mecânicos, senti as picadas de agulha nas veias do pulso e as sondas de alimentação e evacuação entrando respectivamente em minha boca e orifícios baixos. Senti no rosto o ar levemente mais gelado vindo da máscara de oxigenação pouco antes de ela se inserir em minha vias nasais e nesse momento as luzes do capacete começaram a piscar em verde e laranja, substituindo o negro vazio que havia tomado conta de minhas vistas. Então as ondas E.V.O começaram a vibrar em meus ouvidos, à princípio muito baixo, depois cada vez mais altas, ressoando através de minha nuca, onde o chip com minhas credenciais de acesso havia sido cirurgicamente implantado. Todo e qualquer sinal vital em meu corpo estava sendo medido e monitorado, e enquanto eu estivesse distante, toda e qualquer necessidade fisiológica que eu pudesse ter seria prontamente atendida. As ondas foram aumentando e aumentando... Para que eu não me movesse durante a viagem, pequenas doses de sedativo começaram a entrar em minha corrente sanguínea. As luzes brilhavam cada vez mais rápido, indo e vindo, indo e vindo...

Só tive tempo de pensar que “faltava pouco”, quando tudo se apagou e minha consciência desapareceu, sendo transportada para o meu avatar artificial.

– Servidor conectado – uma voz robótica soou em minha mente, quando abri meus outros olhos, os únicos olhos que me tornavam capaz de descriptografar todos os conjuntos de códigos que pairavam invisíveis à minha frente, convertendo-os em imagens de uma paisagem que minha mente humana podia compreender.

Mecanicamente, abri a porta vidrada e saí da cabine telefônica, contemplando o mundo maravilhoso do V.E.R.O.N.A., que estendia-se infinitamente, em suas diversas camadas de macros e microcosmos flutuando entre as nuvens branquíssimas do céu holográfico, abrigando todos os servidores que a ele tinham acesso, como uma gigantesca teia de aranha na qual cada linha era uma massiva rede de informações.

Deixando o checkpoint do servidor E.V.O, como estava acostumado a fazer, dirigi-me à conhecida pista de pouso cinzenta, onde um pequeno aeroplano azul já me esperava. Assim que adentrei sua cabine compacta, a ignição dos motores foi acionada automaticamente e em poucos segundos eu havia deixado a montanha e estava planando com tranquilidade, atravessando as diversas áreas delimitadas que formavam cenários quadrangulares, cada qual absurdamente único e diferente do outro, contíguo consigo. Metodicamente abandonando para trás réplicas digitais de icebergs e quadrados de oceano, amontoados de sequoias milenares em florestas verdejantes e pirâmides em meio a dunas de areia, fui encurtando a distância até V.E.R.O.N.A., o único entre todos estes cenários que realmente possuía consciências viventes interagindo – o que de fato tornava as coisas divertidas.

Eu já via as colunas de luzes apontadas para o céu, à centenas de milhares de quilômetros da capital, local que, a bem da verdade, alguns pensavam ser o único existente em V.E.R.O.N.A. – uma ilusão que nós, da Fortaleza, fomos obrigados a jurar manter. Mas, não era exatamente para lá que eu me dirigia...

Assim que avistei a mancha rosada do campo de tulipas holandesas fiz com que o avião descrevesse uma descida lenta, até aterrissar com suavidade numa área gramada.

Deixando a aeronave, iniciei minha caminhada, adentrando no mar de flores, que apontavam suas pétalas para o alto em botões perfeitos. Os caules e folhas finas e longas eram tão altos que quase me chegavam à cintura.

De repente, algo me puxou com o força e caí prostrado, os joelhos enterrando-se na terra fofa, espaçados exatamente ao redor da silhueta deitada.

– Oi, bonitão. – riu Noether, colocando à mostra os dentes incrivelmente brancos que contrastavam com sua pele negra como ébano.

Sem nada dizer, afundei-me nos braços que me buscavam, beijando os lábios pintados que encontraram os meus com um fervor quase religioso. Aspirava seu perfume conforme me emaranhava sobre seu corpo, bagunçando a cabeleira de cor violeta.

Ainda me lembrava da primeira vez que havíamos nos tocado assim, quando eu pacientemente começara a lhe explicar como o tocar de uma boca na outra representava um ato de carinho tão íntimo e sentimental entre dois humanos e Noether então rira-se, chamando-me de “tolo romântico”. Afinal, era óbvio que ela sabia o que era um beijo. Até aquele momento, nós já havíamos trocado tantos e-morandos, gasto tantas horas em salas secretas sem jamais termos nos visto que, quando enfim nos encontramos pessoalmente, tudo parecia perfeitamente alinhado – e nada mais importava, nenhuma distorcida hierarquia de castas ou conflito ideológico, nenhum lado era o correto: o certo era apenas Nós.

Ao primeiro encontro, muitos outros vieram, eu dissimulando meu interesse por V.E.R.O.N.A. entre meus colegas da Fortaleza; Noether igualmente evadindo-se da visão atenta de seus semelhantes, a facção de A.I.’s que fazia parte. Nenhum de nós queria expressar em palavras o que nos aconteceria caso fôssemos descobertos, e nem era preciso, por isso, desde o início nosso ponto de encontro era um local onde jamais nos encontrariam, bem ali, naquele campo de tulipas virtuais, a nossa doce guia anônima.

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