Nigredo

Aventura
Novembro de 2020
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Os Herdeiros de Trismegisto

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Nigredo
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Dentre os compêndios históricos da Ordem Herdeiros de Trismegisto, é inevitável que se repitam os termos referentes à Grande Arte, uma vez que cada ritual, feitiço e mesmo a lógica da ação dos alquimistas sempre estão ligados a eles. Poucas vezes, porém, esses são usados para designar significados diferentes dos apresentados no Corpus Hermeticum, no Caibalion ou outros livros.

Uma das exceções é o registro da história do local que acabou designado como “Nigredo”.

De acordo com os registros, foi na Baixa Idade Média que viveu o alquimista Marcus que, contra a convenção de vários locais da Europa até então, tinha como assistente uma jovem chamada Alba. Há divergência entre historiadores, com alguns apontando que Alba poderia ser um rapaz, outros apontando que ela se disfarçava como um, e outros aceitando que ela seguia sua identidade como mulher.

Outros, ainda, apontam que pela natureza desta própria história, Marcus e Alba sequer foram pessoas reais, e seriam referências metafóricas respectivamente ao Rubedo — em uma lógica que “Marcus" se refere a “Marte”, portanto à cor vermelha e ao Rubedo — e Albedo, acompanhando os apontamentos sobre o Nigredo que surgem na história. Outras histórias falam que não eram mestre e discípula, mas ambos alunos; outras colocam a dupla como pai e filha; outras apontam, ainda, que os dois eram metáforas para o elemento masculino e o feminino. O personagem Argentum, referido na história, também sofre, por seu nome, de excesso de interpretações, enquanto outros simplesmente preferem deixar a estranheza de lado e entender a nomenclatura como uma alcunha ou mesmo nome iniciático.

Eu, que apresento a história a seguir, discordo das visões excessivamente metafóricas, não vendo lógica nessa dupla metalinguagem, que discordaria tanto da natureza de tais registros históricos, como mesmo nas tradições metafóricas geralmente empregadas em textos ocultos, sobre a Arte ou sobre qualquer outra doutrina. Quanto à identidade exata dos dois, tais divergências pouco importam para nossa história, que será apresentada sem comentários, em uma adaptação mais confortável aos leitores contemporâneos.

Comecemos:

A Peste assolava aquelas terras, quando Marcus e Alba foram chamados para intervirem e salvarem o maior número de vidas que podiam. Felizmente, era uma região um pouco mais amigável, diferente de outras em que reinava a superstição e o pânico que muitas vezes poderia colocar um adepto da Arte ou de qualquer outra linhagem em risco.

Era comum, àquela época, ouvirem de pragas. O problema vinha crescendo e mesmo os alquimistas muitas vezes se viam incapazes de proporcionar soluções para um problema que era simultaneamente novo, e capaz de produzir tanta discórdia e desinformação.

Mestre e discípula seguiam pelas estradas de terra vazias com todo o equipamento que precisavam e a convicção de que iriam, como sempre, salvar vidas. Só que o olhar de Marcus, dessa vez, parecia menos confiante. Alba demorou para perguntar mas, vendo-o taciturno demais, não se aguentou:

— Mestre, se puder me explicar, o que te aflige tanto sobre esse caso?

Ele virou-se para ela devagar, pressionando os lábios enquanto parecia medir bem as palavras que usaria.

— Você diz, além da Peste e da morte? — respondeu ele, com um toque de humor para ganhar tempo.

Alba sabia que era um estratagema, então balançou a cabeça.

— Claro que além disso. Mesmo com todo cansaço, o senhor não parece estar tão bem. O que te preocupa?

Marcus fungou. A aprendiz era perspicaz, disso não podia reclamar.

— A Ordem tem representantes por diversas regiões. Eles assumem residência fixa e se tornam parte das comunidades para melhor servirem aos interesses de todos. A vila pra onde estamos nos dirigindo é lar de um desses homens. Se ele precisa de nossa ajuda, temo que o pior possa ter acontecido.

— Entendo… mas o que exatamente aconteceu? O senhor me falou sobre a Peste e sobre nosso auxílio, mas não sei bem o que esperar…

Marcus puxou um pedaço de pergaminho dobrado de dentro de um bolso e entregou-o para a jovem. Era uma mensagem cifrada, mas ela conseguiria entender, se seus estudos estivessem em dia. Ainda assim, explicou em linhas gerais o seu teor:

— Esse é o problema, nem eu sei bem o que esperar. A Ordem há algum tempo perdeu contato com esse nosso colega, Argentum. Nossos contatos também relataram problemas na região, mas sempre com informações vagas, descrevendo casas e pessoas “queimadas, mas não como se tivessem encontrado chamas.”

Alba apertou os olhos, lendo as mesmas palavras na mensagem.

— Não entendo.

— Nem eu. Por isso, me preocupo.

A noite logo começou a cair e os dois armaram acampamento. Jantaram, cuidaram dos cavalos, arrumaram seus suprimentos, fizeram rituais de proteção e foram dormir. Na manhã seguinte, levantaram com o nascer do sol e, em pouco tempo de viagem, começaram a entender o que era aquilo que a mensagem relatava.

— É pior do que eu pensava — sussurrou Alba, quando pararam próximos à destruição.

Era como se a paisagem inteira tivesse sido carbonizada. A grama, as árvores, as estradas e a própria vila. Tudo tinha a cor e a textura do carvão. Mas realmente não era como se um fogo intenso tivesse destruído a vila, mas algo completamente diferente. Realmente parecia que tudo havia sido queimado, mas sem que tivesse encontrado chamas.

As casas estavam em pé, porém com aparência carbonizada. Também estavam em pé as pessoas, como estátuas de azeviche, e as plantas e animais. Tudo parecia como o jardim mais fúnebre já visto, feito por um escultor extremamente habilidoso, mas com gosto duvidoso.

Os dois desceram de seus cavalos — as montarias estavam arredias, e não queriam se aproximar do solo enegrecido a que haviam se aproximado — e caminhavam pela beira, admirando a estranha cena.

— Está mesmo pior do que a mensagem relatou — comentou Marcus — mas creio que seja porque está crescendo.

— Crescendo? O que você…

— Alba, se afaste! — gritou Marcus, avançando em sua direção e lançando o corpo contra o da jovem.

A aprendiz olhou para os próprios pés a tempo de ver que a coloração escura do chão se expandia rapidamente, se aproximando de seu corpo. Marcus fez o possível para tirá-la do alcance da expansão daquele território, mas a barra das vestes da jovem foi tocada pelo negrume, rasgando-se com um ruído alto conforme ele a puxava.

Os dois se desequilibraram e pousaram onde a grama ainda era verde, a poucos metros de distância do território escuro.

— Essa escuridão — explicou Marcus — ela está se expandindo.

E então os dois ouviram um ruído que se assemelhava a uma expiração, e o crescimento parou, depois havia apenas o silêncio.

— É a Lei do Ritmo — sentenciou Marcus, depois de algumas horas de estudos.

Os dois haviam passado boa parte do dia observando como aquele território funcionava. De fato, não era uma queimadura, mas um tipo de cobertura que se assemelhava a carvão que parecia cobrir todas as coisas, envolvendo-as e petrificando. Ela não se alastrou pelos trajes de Alba e pelo seu corpo porque não era contagiosa, mas parecia obedecer a uma regra de crescimento de área regular. Foi por isso que a barra se rasgou, quando se afastaram. De fato, conseguiram encontrar o pedaço de tecido petrificado em meio à grama, olhando bem para o ponto onde estavam minutos antes.

Era quase como que um processo da natureza, como a maré no oceano. A cada trinta minutos, ouvia-se um som baixo de vento, como uma inspiração, e depois uma expiração. Nessa hora, todo o território escuro se expandia regularmente, petrificando o que tocasse. Fora desse período era seguro tocar o solo escurecido ou qualquer coisa que nele estivesse. Mesmo nesses momentos os cavalos seguiam temendo essa superfície, o que parecia sábio para a dupla. Marcus e Alba supunham que provavelmente não sobreviveriam, caso a expansão ocorresse quando estivessem sobre o solo petrificado, e os animais pareciam perceber isso instintivamente.

— Está dizendo que esse negrume tem realmente origem mágica?

O mestre deixou um sorriso escapar frente à ingenuidade da jovem.

— Tudo é mágico, de alguma forma, do mesmo modo que tudo no universo é mental.

Alba não gostou do comentário.

— O senhor me entendeu… Quero dizer, você acha que tudo isso foi causado por Argentum?

— Ou por alguém com capacidade equivalente.

— Mas… por quê?! — questionou Alba, sem entender. — Argentum não teria motivo para matar a todos.

— É o que precisamos descobrir. Temos que ir até a vila e tentar localizar Argentum, ou seja lá o quem ou o que mais pudermos encontrar. Eu tenho uma hipótese, porém…

— Sim?

— Talvez isso que estamos encarando não seja morte.

O ideal seria que um dos dois ficasse esperando com os cavalos e suprimentos, mas fosse por teimosia da aprendiz ou imprudência do mestre, depois das primeiras expedições pela área escurecida, os dois passaram a visitá-la juntos.

Caminhar pela superfície escura era como pisar na encosta de uma montanha. As rochas, que pareciam tão frágeis, não cediam sob os pés, o que tornava muitos passos da jornada mais difíceis, mas trazia a clara percepção de que realmente lidavam com uma cobertura rochosa, em vez da destruição dos materiais abaixo.

A primeira visita foi mais curta, e Marcus conseguiu traçar um mapa aproximado dos caminhos da vila. Na segunda visita, Alba começou a entrar em casas. Na terceira, Marcus compreendeu um pouco mais da vila e localizou aquela que acreditava ser a casa de Argentum. Cada uma das incursões era realizada com contagem cuidadosa de tempo e objetivos precisos, para não se arriscarem à “respiração" do feitiço. E assim seguiram, sucessivamente, até que só restava a casa do alquimista para explorarem.

Foi possível observar muitas coisas. A primeira é que a escuridão que petrificou a vila provavelmente surgiu subitamente e abarcou uma grande área. Os dois supunham isso porque grande parte dos aldeões pareciam petrificados em meio a afazeres e momentos comuns de suas vidas. Desse modo, conseguiram montar uma história do que estava acontecendo na vila quando aquela escuridão se espalhou.

Era verdade que a peste estava por lá. Várias casas estavam isoladas, e mesmo nas casas abertas muitas pessoas estavam doentes. Mestre e discípula usavam máscaras e proteções, por via das dúvidas, mas suspeitavam que, com a petrificação, não precisariam delas. Ainda assim, preferiam pecar pelo excesso de cuidado.

A visita a Argentum, enfim, mostrou-se a mais misteriosa das cenas que viram desde que chegaram àquela vila. O lar do alquimista, tão petrificado quanto todo o resto, trazia todos os sinais que o marcavam como membro da Ordem. Mesmo com a cobertura de rocha escura, conseguiam identificar os materiais para a prática da alquimia, os livros e cada um dos símbolos.

O lar de Argentum estava repleto de leitos vazios, com suprimentos médicos por fora. Ele estava em pé, no centro do cômodo, com a mão direita apontada para cima, talvez indicando o céu ou o teto da casa, e a mão esquerda para baixo, apontando para o chão. A seus pés estava uma máscara como a dos que se protegem da Peste, e a expressão petrificada em seu rosto era um misto de determinação e dor.

Sobre a mesa jaziam papéis, bem como ao redor de seu corpo, pelo chão, mas nenhum deles era legível, depois do processo de petrificação. Marcus e Alba tentavam entender, mas cada detalhe que absorviam apenas gerava mais perguntas. Argentum parecia ter feito tudo aquilo de alguma forma, sem nenhum inimigo que não a própria Peste ao redor. Mas qual era sua intenção?

A tarde avançava e não tinham resposta. Haviam ido e voltado, sempre respeitando o ritmo do feitiço, tentando desvendar o enigma deixado pelo colega, mas nunca havia resposta.

Marcus pensava no que podia fazer, em rituais, fórmulas, e mesmo na lógica básica daquele feitiço, mas sentia-se demasiado abaixo de tal conhecimento alquímico. Nunca havia visto algo daquele jeito.

Depois da quarta visita à casa petrificada de Argentum, a dupla voltava mais uma vez para a segurança da área externa, usando todo esforço mental que podia para entender a situação.

— "O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.” — citou Marcus, com uma expressão de pesar enquanto pensava no colega. — É isso? Era um ritual, ou seria isso uma mensagem?

— Mensagem? — perguntou Alba, alguns passos à frente, mais confusa ainda que o próprio mestre.

— Não sei… Consigo acreditar em qualquer coisa, a essa altura. Simplesmente não consigo enxergar a lógica por trás de tudo.

Alba não respondeu. Ela olhava para o solo escuro, a pedra que recobria tudo, mas não permitia que nada ruísse sob seus pés. Não era petrificação, mas conservação. Não era morte, era…

— É isso! Nigredo! — exclamou Alba, estacando.

— Como? — disse Marcus, parando alguns passos atrás.

— Esse é um estado antes da purificação! — insistia a jovem, falando alto.

— Alba, eu sei o que significa Nigredo, eu te ensinei essas coisas — resmungou o mestre, impaciente.

Nenhum dos dois notou, naquele momento, mas por duas vezes o som havia chiado nos instantes daquela conversa.

— Não é isso! Não vê? É mais literal… ou seria menos literal?

— Você não está fazendo sentido, Alba.

— Estou tentando! — disse Alba, ordenando seus pensamentos, o olhar perdido. — Eu acredito que Argentum tinha uma mensagem para nós: o que está em cima é como o que está embaixo… ou ainda, o que está embaixo, a escuridão, é como o que está em cima, a ideia, o conceito. Ele estava criando um tipo de Nigredo! Ele ia deixar todos ali prontos para a purificação! Ele não conseguiu deter a Peste, mas podia proteger suas vidas colocando-o em um estado de quase-morte.

Outra vez, o vento assoviou. Mas, desta vez, o som chegou aos ouvidos de Alba. Ela elevou os olhos do chão para o rosto de Marcus, que sorria, feliz com a descoberta da aluna. E então ela viu o que se aproximava por trás dele.

Havia uma nuvem de poeira escura, como uma parede. Ela avançava, vinda em direção… da casa de Argentum.

— Corra! — gritou Alba, indicando a nuvem.

Marcus virou-se a tempo de ver a parede de poeira que se aproximava, implacável. Tanto ele quanto Alba notaram imediatamente que algo havia mudado. Ainda tinham tempo, dentro do ciclo do feitiço. Haviam feito algo de diferente.

— Nigredo… — gemeu Marcus. — O efeito do feitiço é ativado a toda vez que essa palavra é dita?

Um novo assovio do vento se fez, e a parede pareceu cresceu e acelerar. Marcus tentou correr mais, mas não era atlético o suficiente para manter um bom ritmo naquele solo duro e irregular.

À frente, Alba saltou para a segurança do gramado verde, e correu ainda alguns metros para dar uma margem de expansão para o negrume. Virou-se para trás, então, para ver seu mestre, que seria invariavelmente alcançado pelo vento. Se tornaria também uma estátua no Nigredo pessoal de Argentum.

— Vá sem mim! Se afaste, procure outros da Ordem! Encontrem uma cura para a Peste e para o feitiço de Argentum!

Alba não queria aceitar aquilo. Não só temia pelo destino de Marcus e o próprio, como se sentia responsável. Se “Nigredo" era a palavra que ativou o feitiço, ela era a culpada por acelerar a petrificação de seu mestre.

Foi nesse momento que percebeu mais uma coisa. A palavra era aquela. Mas haviam outras palavras.

— Albedo! — gritou ela, o mais alto que pode.

Como resposta, a natureza inteira pareceu reagir. O vento pareceu um suspiro e a parede que quase chegava nas vestes de Marcus pareceu hesitar.

— Albedo, Albedo, Albedo! — repetiu Alba.

A parede de vento poeirento se desfez lentamente e, à beira da área enegrecida, a petrificação começou a recuar.

Estavam a salvo.

Deste ponto em diante, há diferentes versões da história, com detalhes que variam. Todas concordam que Alba estava certa em sua hipótese, mas diferentes versões dão diferentes destinos para todos os envolvidos. Em algumas, nada tomado pelas rochas realmente volta à vida. Em outras, tudo volta. Em algumas, Argentum nunca se recupera, e em outras ele é salvo. Para alguns, a recuperação total da vila se deu apenas com a palavra “Albedo”, seguida por “Citrinitas” e “Rubedo”, em metáforas pouquíssimo disfarçadas da Grande Obra; para outros, foi necessário um grande ritual. Para uns, também, o processo foi instantâneo, e para outros levou dias, semanas, meses ou até anos.

As histórias mais populares, e tratadas pelos historiadores como mais prováveis, dizem que realmente foi necessário um ritual maior, envolvendo outros membros da Ordem, e que Marcus e Alba conseguiram salvar a maior parte dos moradores daquela vila. Há quem diga que a erradicação da Peste se deu exatamente pelos esforços da Ordem, com seus estudos.

O que os historiadores mais sérios também concordam é que há um comentário interessante para a literalidade, que deve servir de lição a todos que estudarem histórias como esta buscando nela algum simbolismo metafórico oculto: Argentum não havia criado um Nigredo no sentido literal que a Alquimia propõe, mas algo que simbolicamente lembrava um. Ao mesmo tempo, o feitiço era ativado por essa palavra, e desativado — ou amenizado — pelo próximo passo do processo, mas Alba não estava “causando" um estado de Albedo, mas simplesmente usando um termo como contra-chave.

Seu Albedo não era Albedo, do mesmo modo que o Nigredo não era Nigredo. Os processos alquímicos, ali, existiram por outras vias e com outros nomes, mas pintados com nomes cruzados.

Esse ponto de discussão, juntamente do desconhecimento da natureza exata do feitiço e dos rituais que o reverteram, levam muitos a insistir na implausibilidade deste caso. Eu sustento que ele tenha sido real, ainda que admita que há margem para que tenha certas diferenças pontuais em relação aos eventos da época. E insisto, ainda, que o apreciemos pela história que ele apresenta, por ela mesma, com todos os significados que tem sem que precisemos chafurdar desnecessariamente em simbolismos.

Prólogo

Epílogo

Conto

Dentre os compêndios históricos da Ordem Herdeiros de Trismegisto, é inevitável que se repitam os termos referentes à Grande Arte, uma vez que cada ritual, feitiço e mesmo a lógica da ação dos alquimistas sempre estão ligados a eles. Poucas vezes, porém, esses são usados para designar significados diferentes dos apresentados no Corpus Hermeticum, no Caibalion ou outros livros.

Uma das exceções é o registro da história do local que acabou designado como “Nigredo”.

De acordo com os registros, foi na Baixa Idade Média que viveu o alquimista Marcus que, contra a convenção de vários locais da Europa até então, tinha como assistente uma jovem chamada Alba. Há divergência entre historiadores, com alguns apontando que Alba poderia ser um rapaz, outros apontando que ela se disfarçava como um, e outros aceitando que ela seguia sua identidade como mulher.

Outros, ainda, apontam que pela natureza desta própria história, Marcus e Alba sequer foram pessoas reais, e seriam referências metafóricas respectivamente ao Rubedo — em uma lógica que “Marcus" se refere a “Marte”, portanto à cor vermelha e ao Rubedo — e Albedo, acompanhando os apontamentos sobre o Nigredo que surgem na história. Outras histórias falam que não eram mestre e discípula, mas ambos alunos; outras colocam a dupla como pai e filha; outras apontam, ainda, que os dois eram metáforas para o elemento masculino e o feminino. O personagem Argentum, referido na história, também sofre, por seu nome, de excesso de interpretações, enquanto outros simplesmente preferem deixar a estranheza de lado e entender a nomenclatura como uma alcunha ou mesmo nome iniciático.

Eu, que apresento a história a seguir, discordo das visões excessivamente metafóricas, não vendo lógica nessa dupla metalinguagem, que discordaria tanto da natureza de tais registros históricos, como mesmo nas tradições metafóricas geralmente empregadas em textos ocultos, sobre a Arte ou sobre qualquer outra doutrina. Quanto à identidade exata dos dois, tais divergências pouco importam para nossa história, que será apresentada sem comentários, em uma adaptação mais confortável aos leitores contemporâneos.

Comecemos:

A Peste assolava aquelas terras, quando Marcus e Alba foram chamados para intervirem e salvarem o maior número de vidas que podiam. Felizmente, era uma região um pouco mais amigável, diferente de outras em que reinava a superstição e o pânico que muitas vezes poderia colocar um adepto da Arte ou de qualquer outra linhagem em risco.

Era comum, àquela época, ouvirem de pragas. O problema vinha crescendo e mesmo os alquimistas muitas vezes se viam incapazes de proporcionar soluções para um problema que era simultaneamente novo, e capaz de produzir tanta discórdia e desinformação.

Mestre e discípula seguiam pelas estradas de terra vazias com todo o equipamento que precisavam e a convicção de que iriam, como sempre, salvar vidas. Só que o olhar de Marcus, dessa vez, parecia menos confiante. Alba demorou para perguntar mas, vendo-o taciturno demais, não se aguentou:

— Mestre, se puder me explicar, o que te aflige tanto sobre esse caso?

Ele virou-se para ela devagar, pressionando os lábios enquanto parecia medir bem as palavras que usaria.

— Você diz, além da Peste e da morte? — respondeu ele, com um toque de humor para ganhar tempo.

Alba sabia que era um estratagema, então balançou a cabeça.

— Claro que além disso. Mesmo com todo cansaço, o senhor não parece estar tão bem. O que te preocupa?

Marcus fungou. A aprendiz era perspicaz, disso não podia reclamar.

— A Ordem tem representantes por diversas regiões. Eles assumem residência fixa e se tornam parte das comunidades para melhor servirem aos interesses de todos. A vila pra onde estamos nos dirigindo é lar de um desses homens. Se ele precisa de nossa ajuda, temo que o pior possa ter acontecido.

— Entendo… mas o que exatamente aconteceu? O senhor me falou sobre a Peste e sobre nosso auxílio, mas não sei bem o que esperar…

Marcus puxou um pedaço de pergaminho dobrado de dentro de um bolso e entregou-o para a jovem. Era uma mensagem cifrada, mas ela conseguiria entender, se seus estudos estivessem em dia. Ainda assim, explicou em linhas gerais o seu teor:

— Esse é o problema, nem eu sei bem o que esperar. A Ordem há algum tempo perdeu contato com esse nosso colega, Argentum. Nossos contatos também relataram problemas na região, mas sempre com informações vagas, descrevendo casas e pessoas “queimadas, mas não como se tivessem encontrado chamas.”

Alba apertou os olhos, lendo as mesmas palavras na mensagem.

— Não entendo.

— Nem eu. Por isso, me preocupo.

A noite logo começou a cair e os dois armaram acampamento. Jantaram, cuidaram dos cavalos, arrumaram seus suprimentos, fizeram rituais de proteção e foram dormir. Na manhã seguinte, levantaram com o nascer do sol e, em pouco tempo de viagem, começaram a entender o que era aquilo que a mensagem relatava.

— É pior do que eu pensava — sussurrou Alba, quando pararam próximos à destruição.

Era como se a paisagem inteira tivesse sido carbonizada. A grama, as árvores, as estradas e a própria vila. Tudo tinha a cor e a textura do carvão. Mas realmente não era como se um fogo intenso tivesse destruído a vila, mas algo completamente diferente. Realmente parecia que tudo havia sido queimado, mas sem que tivesse encontrado chamas.

As casas estavam em pé, porém com aparência carbonizada. Também estavam em pé as pessoas, como estátuas de azeviche, e as plantas e animais. Tudo parecia como o jardim mais fúnebre já visto, feito por um escultor extremamente habilidoso, mas com gosto duvidoso.

Os dois desceram de seus cavalos — as montarias estavam arredias, e não queriam se aproximar do solo enegrecido a que haviam se aproximado — e caminhavam pela beira, admirando a estranha cena.

— Está mesmo pior do que a mensagem relatou — comentou Marcus — mas creio que seja porque está crescendo.

— Crescendo? O que você…

— Alba, se afaste! — gritou Marcus, avançando em sua direção e lançando o corpo contra o da jovem.

A aprendiz olhou para os próprios pés a tempo de ver que a coloração escura do chão se expandia rapidamente, se aproximando de seu corpo. Marcus fez o possível para tirá-la do alcance da expansão daquele território, mas a barra das vestes da jovem foi tocada pelo negrume, rasgando-se com um ruído alto conforme ele a puxava.

Os dois se desequilibraram e pousaram onde a grama ainda era verde, a poucos metros de distância do território escuro.

— Essa escuridão — explicou Marcus — ela está se expandindo.

E então os dois ouviram um ruído que se assemelhava a uma expiração, e o crescimento parou, depois havia apenas o silêncio.

— É a Lei do Ritmo — sentenciou Marcus, depois de algumas horas de estudos.

Os dois haviam passado boa parte do dia observando como aquele território funcionava. De fato, não era uma queimadura, mas um tipo de cobertura que se assemelhava a carvão que parecia cobrir todas as coisas, envolvendo-as e petrificando. Ela não se alastrou pelos trajes de Alba e pelo seu corpo porque não era contagiosa, mas parecia obedecer a uma regra de crescimento de área regular. Foi por isso que a barra se rasgou, quando se afastaram. De fato, conseguiram encontrar o pedaço de tecido petrificado em meio à grama, olhando bem para o ponto onde estavam minutos antes.

Era quase como que um processo da natureza, como a maré no oceano. A cada trinta minutos, ouvia-se um som baixo de vento, como uma inspiração, e depois uma expiração. Nessa hora, todo o território escuro se expandia regularmente, petrificando o que tocasse. Fora desse período era seguro tocar o solo escurecido ou qualquer coisa que nele estivesse. Mesmo nesses momentos os cavalos seguiam temendo essa superfície, o que parecia sábio para a dupla. Marcus e Alba supunham que provavelmente não sobreviveriam, caso a expansão ocorresse quando estivessem sobre o solo petrificado, e os animais pareciam perceber isso instintivamente.

— Está dizendo que esse negrume tem realmente origem mágica?

O mestre deixou um sorriso escapar frente à ingenuidade da jovem.

— Tudo é mágico, de alguma forma, do mesmo modo que tudo no universo é mental.

Alba não gostou do comentário.

— O senhor me entendeu… Quero dizer, você acha que tudo isso foi causado por Argentum?

— Ou por alguém com capacidade equivalente.

— Mas… por quê?! — questionou Alba, sem entender. — Argentum não teria motivo para matar a todos.

— É o que precisamos descobrir. Temos que ir até a vila e tentar localizar Argentum, ou seja lá o quem ou o que mais pudermos encontrar. Eu tenho uma hipótese, porém…

— Sim?

— Talvez isso que estamos encarando não seja morte.

O ideal seria que um dos dois ficasse esperando com os cavalos e suprimentos, mas fosse por teimosia da aprendiz ou imprudência do mestre, depois das primeiras expedições pela área escurecida, os dois passaram a visitá-la juntos.

Caminhar pela superfície escura era como pisar na encosta de uma montanha. As rochas, que pareciam tão frágeis, não cediam sob os pés, o que tornava muitos passos da jornada mais difíceis, mas trazia a clara percepção de que realmente lidavam com uma cobertura rochosa, em vez da destruição dos materiais abaixo.

A primeira visita foi mais curta, e Marcus conseguiu traçar um mapa aproximado dos caminhos da vila. Na segunda visita, Alba começou a entrar em casas. Na terceira, Marcus compreendeu um pouco mais da vila e localizou aquela que acreditava ser a casa de Argentum. Cada uma das incursões era realizada com contagem cuidadosa de tempo e objetivos precisos, para não se arriscarem à “respiração" do feitiço. E assim seguiram, sucessivamente, até que só restava a casa do alquimista para explorarem.

Foi possível observar muitas coisas. A primeira é que a escuridão que petrificou a vila provavelmente surgiu subitamente e abarcou uma grande área. Os dois supunham isso porque grande parte dos aldeões pareciam petrificados em meio a afazeres e momentos comuns de suas vidas. Desse modo, conseguiram montar uma história do que estava acontecendo na vila quando aquela escuridão se espalhou.

Era verdade que a peste estava por lá. Várias casas estavam isoladas, e mesmo nas casas abertas muitas pessoas estavam doentes. Mestre e discípula usavam máscaras e proteções, por via das dúvidas, mas suspeitavam que, com a petrificação, não precisariam delas. Ainda assim, preferiam pecar pelo excesso de cuidado.

A visita a Argentum, enfim, mostrou-se a mais misteriosa das cenas que viram desde que chegaram àquela vila. O lar do alquimista, tão petrificado quanto todo o resto, trazia todos os sinais que o marcavam como membro da Ordem. Mesmo com a cobertura de rocha escura, conseguiam identificar os materiais para a prática da alquimia, os livros e cada um dos símbolos.

O lar de Argentum estava repleto de leitos vazios, com suprimentos médicos por fora. Ele estava em pé, no centro do cômodo, com a mão direita apontada para cima, talvez indicando o céu ou o teto da casa, e a mão esquerda para baixo, apontando para o chão. A seus pés estava uma máscara como a dos que se protegem da Peste, e a expressão petrificada em seu rosto era um misto de determinação e dor.

Sobre a mesa jaziam papéis, bem como ao redor de seu corpo, pelo chão, mas nenhum deles era legível, depois do processo de petrificação. Marcus e Alba tentavam entender, mas cada detalhe que absorviam apenas gerava mais perguntas. Argentum parecia ter feito tudo aquilo de alguma forma, sem nenhum inimigo que não a própria Peste ao redor. Mas qual era sua intenção?

A tarde avançava e não tinham resposta. Haviam ido e voltado, sempre respeitando o ritmo do feitiço, tentando desvendar o enigma deixado pelo colega, mas nunca havia resposta.

Marcus pensava no que podia fazer, em rituais, fórmulas, e mesmo na lógica básica daquele feitiço, mas sentia-se demasiado abaixo de tal conhecimento alquímico. Nunca havia visto algo daquele jeito.

Depois da quarta visita à casa petrificada de Argentum, a dupla voltava mais uma vez para a segurança da área externa, usando todo esforço mental que podia para entender a situação.

— "O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.” — citou Marcus, com uma expressão de pesar enquanto pensava no colega. — É isso? Era um ritual, ou seria isso uma mensagem?

— Mensagem? — perguntou Alba, alguns passos à frente, mais confusa ainda que o próprio mestre.

— Não sei… Consigo acreditar em qualquer coisa, a essa altura. Simplesmente não consigo enxergar a lógica por trás de tudo.

Alba não respondeu. Ela olhava para o solo escuro, a pedra que recobria tudo, mas não permitia que nada ruísse sob seus pés. Não era petrificação, mas conservação. Não era morte, era…

— É isso! Nigredo! — exclamou Alba, estacando.

— Como? — disse Marcus, parando alguns passos atrás.

— Esse é um estado antes da purificação! — insistia a jovem, falando alto.

— Alba, eu sei o que significa Nigredo, eu te ensinei essas coisas — resmungou o mestre, impaciente.

Nenhum dos dois notou, naquele momento, mas por duas vezes o som havia chiado nos instantes daquela conversa.

— Não é isso! Não vê? É mais literal… ou seria menos literal?

— Você não está fazendo sentido, Alba.

— Estou tentando! — disse Alba, ordenando seus pensamentos, o olhar perdido. — Eu acredito que Argentum tinha uma mensagem para nós: o que está em cima é como o que está embaixo… ou ainda, o que está embaixo, a escuridão, é como o que está em cima, a ideia, o conceito. Ele estava criando um tipo de Nigredo! Ele ia deixar todos ali prontos para a purificação! Ele não conseguiu deter a Peste, mas podia proteger suas vidas colocando-o em um estado de quase-morte.

Outra vez, o vento assoviou. Mas, desta vez, o som chegou aos ouvidos de Alba. Ela elevou os olhos do chão para o rosto de Marcus, que sorria, feliz com a descoberta da aluna. E então ela viu o que se aproximava por trás dele.

Havia uma nuvem de poeira escura, como uma parede. Ela avançava, vinda em direção… da casa de Argentum.

— Corra! — gritou Alba, indicando a nuvem.

Marcus virou-se a tempo de ver a parede de poeira que se aproximava, implacável. Tanto ele quanto Alba notaram imediatamente que algo havia mudado. Ainda tinham tempo, dentro do ciclo do feitiço. Haviam feito algo de diferente.

— Nigredo… — gemeu Marcus. — O efeito do feitiço é ativado a toda vez que essa palavra é dita?

Um novo assovio do vento se fez, e a parede pareceu cresceu e acelerar. Marcus tentou correr mais, mas não era atlético o suficiente para manter um bom ritmo naquele solo duro e irregular.

À frente, Alba saltou para a segurança do gramado verde, e correu ainda alguns metros para dar uma margem de expansão para o negrume. Virou-se para trás, então, para ver seu mestre, que seria invariavelmente alcançado pelo vento. Se tornaria também uma estátua no Nigredo pessoal de Argentum.

— Vá sem mim! Se afaste, procure outros da Ordem! Encontrem uma cura para a Peste e para o feitiço de Argentum!

Alba não queria aceitar aquilo. Não só temia pelo destino de Marcus e o próprio, como se sentia responsável. Se “Nigredo" era a palavra que ativou o feitiço, ela era a culpada por acelerar a petrificação de seu mestre.

Foi nesse momento que percebeu mais uma coisa. A palavra era aquela. Mas haviam outras palavras.

— Albedo! — gritou ela, o mais alto que pode.

Como resposta, a natureza inteira pareceu reagir. O vento pareceu um suspiro e a parede que quase chegava nas vestes de Marcus pareceu hesitar.

— Albedo, Albedo, Albedo! — repetiu Alba.

A parede de vento poeirento se desfez lentamente e, à beira da área enegrecida, a petrificação começou a recuar.

Estavam a salvo.

Deste ponto em diante, há diferentes versões da história, com detalhes que variam. Todas concordam que Alba estava certa em sua hipótese, mas diferentes versões dão diferentes destinos para todos os envolvidos. Em algumas, nada tomado pelas rochas realmente volta à vida. Em outras, tudo volta. Em algumas, Argentum nunca se recupera, e em outras ele é salvo. Para alguns, a recuperação total da vila se deu apenas com a palavra “Albedo”, seguida por “Citrinitas” e “Rubedo”, em metáforas pouquíssimo disfarçadas da Grande Obra; para outros, foi necessário um grande ritual. Para uns, também, o processo foi instantâneo, e para outros levou dias, semanas, meses ou até anos.

As histórias mais populares, e tratadas pelos historiadores como mais prováveis, dizem que realmente foi necessário um ritual maior, envolvendo outros membros da Ordem, e que Marcus e Alba conseguiram salvar a maior parte dos moradores daquela vila. Há quem diga que a erradicação da Peste se deu exatamente pelos esforços da Ordem, com seus estudos.

O que os historiadores mais sérios também concordam é que há um comentário interessante para a literalidade, que deve servir de lição a todos que estudarem histórias como esta buscando nela algum simbolismo metafórico oculto: Argentum não havia criado um Nigredo no sentido literal que a Alquimia propõe, mas algo que simbolicamente lembrava um. Ao mesmo tempo, o feitiço era ativado por essa palavra, e desativado — ou amenizado — pelo próximo passo do processo, mas Alba não estava “causando" um estado de Albedo, mas simplesmente usando um termo como contra-chave.

Seu Albedo não era Albedo, do mesmo modo que o Nigredo não era Nigredo. Os processos alquímicos, ali, existiram por outras vias e com outros nomes, mas pintados com nomes cruzados.

Esse ponto de discussão, juntamente do desconhecimento da natureza exata do feitiço e dos rituais que o reverteram, levam muitos a insistir na implausibilidade deste caso. Eu sustento que ele tenha sido real, ainda que admita que há margem para que tenha certas diferenças pontuais em relação aos eventos da época. E insisto, ainda, que o apreciemos pela história que ele apresenta, por ela mesma, com todos os significados que tem sem que precisemos chafurdar desnecessariamente em simbolismos.

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