Nastácia

Drama
Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Me esqueceram descascando batatas. Domingo de férias, todos a passeio, mas o almoço carece de estar pronto antes deu sair.

Prólogo

Epílogo

Conto

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Nastácia
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Me esqueceram descascando batatas.

Domingo de férias, todos a passeio, mas o almoço carece de estar pronto antes deu sair. Hoje eu saio, antes, o almoço. “Saudades daquela sua carne de panela”, assim, assado. Principiei agora, no descascar. Gosto do serviço porque maquino enquanto trabalho. “Sabe o que é Dona Benta”, quantos pedidos nesse prelúdio? “Sabe o que é Dona Benta? ”. A casa da avó cheia, serviço dobrado, os netos encorparam, comem por dez, o menino parrudo, a menina também.

Pensar que embalei os dois, encaixavam direitinho nos braços, da minha parte não faltou dengo, esforço, contei histórias, costurei boneca, o meu não embalei. Desde que vim, fiquei, diacho de batata, irregular. Vão lembrar de mim, vão sim, não adianta ignorar, fingir que esqueceu só porque espichou, dar “oi” frio, gelado, ora que ousadia.

Os bisnetos são mais simpáticos, mas herdaram o hábito de fazer distinção de gente. Tenho nojo deles, desaprendi a me apegar de filho de patrão. Negra de estimação uma ova!

Só esse almoço, perfeito, as batatas cortadas no meio, essa faca é da boa, pra cortar verdura, carne, descamar peixe. Posso fazer proezas com ela, vontade não falta. O bom da cidade é essas facilidades em cada esquina, só. De resto, um enclausuramento, chega a dar tontura, um mundo feio pra dedéu de se olhar pelo vitrô da lavanderia, cinza, mau encarado, credo. Eu nasci no mato, me apartei por necessidade. “Só você pode ficar com vovó, vai ter quarto e tudo.”

Aquele nariz, aquele nariz não gostou muito da ideia não, “pago enfermeira, com todo respeito Tia Nastácia, mas vovó precisa de ajuda profissional”. Ajuda profissional, te limpei, limpei teu primo, tua vó quando precisou, mas nos seus rebentos não encosto mais, nojentinha. O menino também, vadio, queria sossego, deixa com a preta velha mesmo, “Tem com quem ficar Nastácia? Não? Lá tem quarto, tem tudo, não vai te faltar nada”.

A cebola me faz chorar, amasso os cubos de carne, a vida toda nesse destempero, tive que vir, ué. Esquentei bem a panela pra fritar o boi, é preciso selar antes de ir na pressão, tem coisa melhor do que cheiro de cebola no óleo quente? Alho fritinho? Comida que não é pra gente? Essa não mesmo, a carne de panela perfeita, o ar ensebado hidrata a boca, estalo os beiços, tá ficando bom.

“Então, Dona Benta, sabe o que é? Tenho que viajar”. A velha esbugalhou, viajar pra onde? “Visitar a família.” “Desde quando você tem família? Nunca disse nada.”

Nunca perguntaram.

Vou, vou ficar um tempo lá, redescobri uns parentes, menti. Me noticiaram, indiretamente. Assustei quando o telefone pediu meu nome do outro lado, nunca era pra mim, nem sabia que tinham ideia do meu paradeiro. Tanto tempo servindo à mesma família, não devia ser difícil, tem de tudo nessa cidade, menos privacidade. “Seu menino morreu.” E o pai? “Não se sabe, só a senhora mesmo.” Só eu, só, quando me ligam é pra lembrar que continuo só, sem filho, sem marido, só, com o filho dos outros. Os narizes me repreenderam, os dois, o rebitado e o polvilhado, como assim deixar vovó pra ir viajar? Alarmei urgência, iam me amarrar? Bem que queriam, tentassem a sorte.

Um almoço caprichado antes da viagem, a matriarca só gostava da minha comida. Insistiram. “Aquela carne de panela”, assim, assado, “Certeza que volta?”. Quanta preocupação, né? A arrebitada parecia comemorar por dentro.

Tá quase pronta, a carne, vai ficar perfeita. O vidrinho, claro, não pode faltar, há tempos tenho guardado, se acha de tudo nessa cidade, tanta amargura, a vontade de findar qualquer coisa que chamam de vida sempre me assombrou, mas creio em Deus Pai. Nunca mais mangam comigo! Abro a tampinha com cuidado, ensaio virar a capsula na mistura, o cheiro da carne pronta é de matar. As crianças também vêm pra comer? Nunca se compadeceram de mim, e o meu filho, morto?

A fumaça embaça a vista, dissipa o impulso de vingança. Meu menino, que registro lhe ficou da mãe? Uma lágrima se dilui na mistura, fecho o vidro, uma cusparada violenta, toque final, perfeito, tudo perfeito.

Me admiro no espelho do elevador, a bolsa a tiracolo. Encontro toda a família no hall do prédio, voltando do passeio. “Como assim partindo sem se despedir, almoça com a gente”, só ia buscar uma coisinha no mercado, minto eu, mas a carne está prontinha, não carece de me esperar (nunca esperam). Sem despedida, melhor assim, passagem só de ida, não sou parente, não sou amiga, agregada, sou Nastácia, rumo ao leito do meu menino.

Palma, palma... Logo os contos desta obra serão selecionados e aparecerão aqui.

Sinopse

Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Me esqueceram descascando batatas. Domingo de férias, todos a passeio, mas o almoço carece de estar pronto antes deu sair.

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Me esqueceram descascando batatas.

Domingo de férias, todos a passeio, mas o almoço carece de estar pronto antes deu sair. Hoje eu saio, antes, o almoço. “Saudades daquela sua carne de panela”, assim, assado. Principiei agora, no descascar. Gosto do serviço porque maquino enquanto trabalho. “Sabe o que é Dona Benta”, quantos pedidos nesse prelúdio? “Sabe o que é Dona Benta? ”. A casa da avó cheia, serviço dobrado, os netos encorparam, comem por dez, o menino parrudo, a menina também.

Pensar que embalei os dois, encaixavam direitinho nos braços, da minha parte não faltou dengo, esforço, contei histórias, costurei boneca, o meu não embalei. Desde que vim, fiquei, diacho de batata, irregular. Vão lembrar de mim, vão sim, não adianta ignorar, fingir que esqueceu só porque espichou, dar “oi” frio, gelado, ora que ousadia.

Os bisnetos são mais simpáticos, mas herdaram o hábito de fazer distinção de gente. Tenho nojo deles, desaprendi a me apegar de filho de patrão. Negra de estimação uma ova!

Só esse almoço, perfeito, as batatas cortadas no meio, essa faca é da boa, pra cortar verdura, carne, descamar peixe. Posso fazer proezas com ela, vontade não falta. O bom da cidade é essas facilidades em cada esquina, só. De resto, um enclausuramento, chega a dar tontura, um mundo feio pra dedéu de se olhar pelo vitrô da lavanderia, cinza, mau encarado, credo. Eu nasci no mato, me apartei por necessidade. “Só você pode ficar com vovó, vai ter quarto e tudo.”

Aquele nariz, aquele nariz não gostou muito da ideia não, “pago enfermeira, com todo respeito Tia Nastácia, mas vovó precisa de ajuda profissional”. Ajuda profissional, te limpei, limpei teu primo, tua vó quando precisou, mas nos seus rebentos não encosto mais, nojentinha. O menino também, vadio, queria sossego, deixa com a preta velha mesmo, “Tem com quem ficar Nastácia? Não? Lá tem quarto, tem tudo, não vai te faltar nada”.

A cebola me faz chorar, amasso os cubos de carne, a vida toda nesse destempero, tive que vir, ué. Esquentei bem a panela pra fritar o boi, é preciso selar antes de ir na pressão, tem coisa melhor do que cheiro de cebola no óleo quente? Alho fritinho? Comida que não é pra gente? Essa não mesmo, a carne de panela perfeita, o ar ensebado hidrata a boca, estalo os beiços, tá ficando bom.

“Então, Dona Benta, sabe o que é? Tenho que viajar”. A velha esbugalhou, viajar pra onde? “Visitar a família.” “Desde quando você tem família? Nunca disse nada.”

Nunca perguntaram.

Vou, vou ficar um tempo lá, redescobri uns parentes, menti. Me noticiaram, indiretamente. Assustei quando o telefone pediu meu nome do outro lado, nunca era pra mim, nem sabia que tinham ideia do meu paradeiro. Tanto tempo servindo à mesma família, não devia ser difícil, tem de tudo nessa cidade, menos privacidade. “Seu menino morreu.” E o pai? “Não se sabe, só a senhora mesmo.” Só eu, só, quando me ligam é pra lembrar que continuo só, sem filho, sem marido, só, com o filho dos outros. Os narizes me repreenderam, os dois, o rebitado e o polvilhado, como assim deixar vovó pra ir viajar? Alarmei urgência, iam me amarrar? Bem que queriam, tentassem a sorte.

Um almoço caprichado antes da viagem, a matriarca só gostava da minha comida. Insistiram. “Aquela carne de panela”, assim, assado, “Certeza que volta?”. Quanta preocupação, né? A arrebitada parecia comemorar por dentro.

Tá quase pronta, a carne, vai ficar perfeita. O vidrinho, claro, não pode faltar, há tempos tenho guardado, se acha de tudo nessa cidade, tanta amargura, a vontade de findar qualquer coisa que chamam de vida sempre me assombrou, mas creio em Deus Pai. Nunca mais mangam comigo! Abro a tampinha com cuidado, ensaio virar a capsula na mistura, o cheiro da carne pronta é de matar. As crianças também vêm pra comer? Nunca se compadeceram de mim, e o meu filho, morto?

A fumaça embaça a vista, dissipa o impulso de vingança. Meu menino, que registro lhe ficou da mãe? Uma lágrima se dilui na mistura, fecho o vidro, uma cusparada violenta, toque final, perfeito, tudo perfeito.

Me admiro no espelho do elevador, a bolsa a tiracolo. Encontro toda a família no hall do prédio, voltando do passeio. “Como assim partindo sem se despedir, almoça com a gente”, só ia buscar uma coisinha no mercado, minto eu, mas a carne está prontinha, não carece de me esperar (nunca esperam). Sem despedida, melhor assim, passagem só de ida, não sou parente, não sou amiga, agregada, sou Nastácia, rumo ao leito do meu menino.

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