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Áudio drama
Não É Brincadeira
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Os melhores amigos Paulo, André e Maurício passaram no vestibular e, para a comemoração, decidiram acampar em um santuário ecológico na Vila dos Aventureiros, que ficava a 100 km da cidade em que moravam. Depois de uma viagem de carro tranquila e animada, chegaram no local do acampamento e se surpreenderam com a estrutura oferecida para o público do camping: espaço muito arborizado e com sombras, amplo gramado para barracas e piqueniques, restaurante para atender aos turistas, área coberta com mesa e bancos, local para fazer fogueiras, ambiente isolado do espaço de convivência para descanso com redes e, a 1,5 km do camping, uma linda cachoeira.

A Vila dos Aventureiros era famosa por estar no meio de uma unidade de conservação de proteção de fauna e flora, dona de exuberantes paisagens e forte turismo ecológico. Muitos eram os que também falavam da energia mística da vila, já que algumas pessoas visitavam o local para se conectar à natureza. Sabendo disso, os três amigos levaram um violão e baralho para colaborar com o entretenimento do fim de semana, mas, antes de armar as barracas, decidiram explorar a pé o santuário ecológico e a estrada de chão que levava até a cachoeira.

Maurício, o mais velho do grupo, avistou uma casa de três andares abandonada na metade da trilha de chão que ligava o camping à cachoeira.

— O que faz uma casa abandonada no meio do mato, literalmente? — ele questionou, apontando o dedo na direção da casa para seus companheiros de viagem poderem vê-la também.

Paulo e André olharam na direção apontada pelo amigo e entreolharam-se abismados com a casa abandonada no meio de uma linda unidade de conservação ambiental. Estranharam que do espaço para barracas não era possível avistá-la, mesmo que a casa fosse alta devido à construção de dois andares acima do térreo.

— Talvez haja algum tipo de dano ambiental se derrubarem a casa, porque não faz nenhum sentido... — disse Paulo, que parou de caminhar para observar o lugar.

Depois de alguns segundos de observação, Paulo propôs:

— Vamos até lá?

— Está abandonada, Paulo. — Receoso, Maurício fez uma expressão de quem não gostou da ideia.

— Parece que era uma taverna. Ainda dá para ler o nome: Taverna Bode Mágico. — André pegou do chão uma placa velha e oxidada pelo tempo em que estava escrito o nome do estabelecimento.

— Está na cara que uma taverna a 100 km de distância de cidade mais próxima iria falir, né? — disse Maurício.

— Não é tão óbvio, não. E a quantidade de gente que visita o santuário por ano? No camping há, inclusive, restaurante. Vamos vê-la em seu interior! Quem sabe ainda tem umas garrafas de bebidas? — Paulo se antecipou em direção à taverna. Os dois amigos o seguiram.

Sentiram dificuldades para abrir a porta da taverna, que rangeu com o movimento. Foi um rangido de velhice, do tempo que passou fechada, e o estalo feito era típico de madeira que estraga com a umidade do clima na região. Tudo estava empoeirado na antiga Taverna Bode Mágico, mas no balcão do bar ainda tinha garrafas cheias de bebidas, um porta-guardanapos antigo, dois vidros de pimenta malagueta lacrados e cardápio de drinques. André examinou o cardápio e achou graça com o que leu.

— Incrível os nomes das bebidas! Paulo, por favor, me dê uma garrafa de vinho élfico e três doses de Colapso Total — André brincou com Paulo, que mexia nos armários do bar.

— Se você me pagar pelo vinho, com certeza! — Paulo entrou na brincadeira.

— Só eu que não estou gostando deste lugar? — ressabiado, perguntou Maurício ao se encaminhar para a escadaria em espiral que o levou ao primeiro andar da casa. Ele percebeu que o interior da taverna possuía três ambientes integrados em um mesmo local: amplo salão de dança, bar e mezanino, e, no andar superior, quartos dispostos em uma espécie de corredor com piso de madeira que estalava a cada passo dado. Maurício pensou em abrir um dos quartos, mas intuitivamente pressentiu que não deveria; então, desistiu e voltou ao térreo para perto dos amigos.

— Achei algo interessante! — exclamou Paulo após abrir o último armário do bar e achar uma tábua.

Os amigos se uniram ao lado dele para saber do que se tratava, e falaram ao mesmo tempo:

Tábua ouija?

— O que é isso? — Maurício quis saber.

Tábua ouija — Paulo respondeu com um tom de mistério.

— Para que serve isso, Paulo? — André questionou, observando gravadas na tábua todas as letras do alfabeto, as palavras “sim” e “não”, os números de 0 a 9, “obrigado” e “sair”.

— Instrumento capaz de conectar com o astral para conversar com espíritos — continuou Paulo. — Ouvi falar dessa tábua, mas é a primeira vez que vejo uma. Não sei se vocês se lembram de Alice na época da 8ª série, mas certa vez ela me disse que a irmã dela conversou com espíritos e soube de maneira antecipada de algumas coisas. Ela me contou que tudo que a irmã previamente sabia aconteceu. Talvez saber previamente do que vai acontecer pode nos prevenir de alguns males. Quem topa brincar? Se é que podemos dizer que é uma brincadeira jogar esse jogo para falar com espíritos...

— Podemos ir embora? — Maurício não gostou da ideia de participar da empreitada.

— Maurício, calma! Vamos dar uma olhada nessa tábua e iremos embora, certo? — André, o mais diplomático dos três, tentou tranquilizar o amigo, mas sabia que ele continuaria pedindo para sair dali até vencê-los pelo cansaço.

— Ah! Qual é, pessoal? Vamos jogar pelo menos uma vez? — insistiu Paulo. — Façamos assim: cada um faz apenas uma pergunta. Somente uma! Ouvimos as respostas, agradecemos a paciência do espírito e vamos embora. 

— Você quer mesmo conversar com espíritos, Paulo? Espíritos? Que ideia besta!

— Maurício, lembre-se que saímos de casa buscando aventuras! O que espíritos podem fazer contra pessoas vivas? A gente vai entrar em uma faculdade sem ter feito a brincadeira do copo? Não faz o menor sentido isso. É um atestado de virgindade espiritual, de caretice e falta de coragem. — Paulo não conseguiu segurar o deboche por causa do medo que Maurício demonstrava sentir.

— Um sol lindo lá fora, cachoeira, garotas lindas na cachoeira, cerveja gelada no restaurante, violão, baralho, e a gente em um lugar abandonado, empoeirado e querendo invocar espíritos. Sejam ao menos razoáveis! — Maurício perdeu de vez a paciência.

— Precisamos de um copo — André interveio no diálogo, visivelmente curioso para saber como funcionava a brincadeira.

— Isso tem de sobra nos armários do bar. Precisamos de água para lavar um, porque está tudo muito sujo! — Paulo deixou a tábua com Maurício para providenciar um copo.

 André apontou para a janela do amplo salão e disse:

— Tem alguém ali! Vi um vulto. 

— Para com isso! É a silhueta de uma árvore fazendo sombra. Essa casa é cercada por matagal. Há muito tempo ninguém faz manutenção neste lugar. Maldita hora que eu mostrei esta casa para vocês. Poderia ter passado reto, sem mencioná-la... — corrigiu Maurício, que estava cada vez mais insatisfeito de estar ali.

— Não era árvore, era uma pessoa, eu tenho certeza. Talvez um fantasma.

— Se o objetivo é me assustar, esqueça. Não funcionou — rebateu Maurício.

Paulo retornou com um copo limpo, pois encontrara uma torneira com água funcionando normalmente na cozinha do bar. Perguntou para os amigos onde deveriam fazer a brincadeira. Decidiram, então, fazer no mezanino da casa, pois era o ambiente menos empoeirado e conferia ampla visão do terreno.

— Não devemos zombar dos espíritos. Nada de gracinhas, de perguntas que podem parecer teste — Paulo preferiu deixar às claras as regras para não ter problemas. Atrás do tabuleiro estava escrito todas as instruções de como o jogo deveria ser jogado, e eles fizeram exatamente como era recomendado. 

— Não pode encostar o dedo no copo, pessoal — disse André. — A gente não vai poder parar a brincadeira até o espírito nos dar tchau. Acho que por isso tem escrito “sair” na tábua.

— Regras simples, não é complicado.

— Termine de ler as regras, André. Quero um banho de cachoeira! Vamos acabar logo com isso. — Mal-humorado, Maurício se lembrou que havia uma cachoeira no acampamento, aguardando-os.

— Temos que rezar o Pai-Nosso para afastar espíritos vingativos e almas que estão vagando na Terra. Isso é importante. 

Deram as mãos em forma de círculo e rezaram o Pai-Nosso. Colocaram o dedo indicador direito próximo do copo, e Paulo perguntou se havia alguém entre eles. O copo andou até o “sim”.

— Prove que não é gozação de meus amigos. Bata a porta da entrada da taverna para mostrar que é real, que há um espírito entre nós — pediu Maurício.

— Você está lou... — Antes de André finalizar a frase, as portas da taverna abriram e fecharam de uma vez, todas ao mesmo tempo e batidas com muita força.

Os amigos ficaram muito assustados, e a respiração e o coração deles aceleraram. Mesmo assim, o silêncio se fez presente. Entreolharam-se abismados, pois não havia vento canalizado para tamanha sincronia. Era real, havia um espírito entre eles. Ou mais de um. O ambiente dentro da casa começou a ficar escuro e gelado, pois do lado de fora o tempo estava se fechando muito rápido em um sinal de tempestade.

— Eu vi a previsão do tempo antes de pegarmos estrada; não havia nenhuma notificação de que hoje iria chover — Paulo falou baixinho para Maurício e André. O medo começou a dominá-los.

— Estou sentindo calafrios no corpo, como se formigas subissem as minhas costas. Vamos finalizar o jogo — pediu André.

O copo se movimentou até a palavra “não” no tabuleiro, demonstrando que não tinham autorização para acabar o jogo e sair.

— Vocês estão vendo o que eu estou vendo? — Paulo apontava para a mesma janela em que André viu uma pessoa.

— O quê? — André perguntou com voz trêmula.

— Vejo fantasmas perto da janela!

— Eu também vi quando você foi lavar o copo, Paulo.

— Este lugar é amaldiçoado! Falei que não deveríamos entrar aqui! — esbravejou Maurício.

— E eu falei que não deveríamos zombar dos espíritos, nem pedir testes, Maurício! Você estragou tudo, e agora estamos impedidos de ir embora.

O copo caminhou até a palavra “sim” na tábua ouija, confirmando o que Paulo disse: não poderiam ir embora.

— Vamos tentar conversar com ele, saber o que quer nos dizer. Lembro-me que a Alice me disse que o espírito que veio falar com sua irmã precisava de ajuda...

— Agora que você nos diz isso, Paulo? Era para fazermos cada um uma pergunta sobre nossas vidas, e agora que você diz isso? Eu não vim para cá para saber da vida de nenhum espírito — Maurício pegou o copo e, numa medida automática, lançou-o na parede, jorrando vidro para todo lado. Sem pensar duas vezes, pegou também a tábua e lançou-a na parede, estraçalhando a madeira antiga e desgastada pelo tempo.

— Não podia ter feito isso, Maurício! Agora, você soltou o espírito para ficar entre nós, seu idiota!

— Não, eu libertei os espíritos desse portal maldito. Não tem portal mais. Que todos os espíritos se convençam que aqui não é mais o mundo deles!

— Paulo, vamos embora! Vamos, Maurício! Vamos sair daqui — André levantou-se do chão, correndo para a porta de saída.

Conseguiram sair da taverna sem grandes dificuldades, e logo em seguida o sol se abriu novamente. Correram até o acampamento sem olhar para trás. Chegando na recepção do restaurante, local com maior número de pessoas no momento — uma vez que era hora de almoço —, Paulo tomou fôlego e limpou com um guardanapo o suor que escorria pelo seu rosto. Respirando fundo, perguntou para o caixa do restaurante há quanto tempo a Taverna Bode Mágico estava fechada.

— Qual taverna? — interessou-se o funcionário.

— A que fica na estradinha de chão que liga o camping à cachoeira.

— Não há nenhuma taverna aqui. Ao menos, não que eu saiba.

— É uma casa abandonada de três andares! Na estrada de chão para a cachoeira — André insistiu.

— Sabe dessa casa, Seu Zé? — o funcionário perguntou para o dono do restaurante.

Seu Zé saiu de dentro da cozinha e disse para os amigos:

— Sou proprietário desse restaurante há vinte anos, e a única casa construída é a minha e de minha família. Não há casa abandonada por aqui.

— Podemos levá-lo até lá!

— Rapazes, eu caminho por essa região todos os dias fazendo a vistoria do lugar. Sou o gerente do santuário; posso garantir que não há casa abandonada.

— Vamos conosco até lá, por favor — pediu André.

— Pois não, vamos até lá — disse Seu Zé, o dono do estabelecimento, ao perceber a importância que isso teria para seus clientes.

Caminharam até a estrada que levava à Taverna Bode Mágico, e não havia nenhuma casa abandonada no matagal.

— Ué! — A expressão de André era de total confusão, mas preferiu não se estender com palavras porque nem mesmo a placa da taverna estava mais lá. Simplesmente sumiram a casa e a placa. Perguntou-se se erraram o caminho, mas não tinha outro caminho que levava à cachoeira. Pensou se o lugar tinha alguma senha mágica e secreta, mas preferiu não verbalizar seu raciocínio, uma vez que a cara de Seu Zé não era das melhores.

— Eu não disse que não tinha nenhuma casa abandonada nesta região? Eu moro e trabalho nesta vila há vinte anos, jovens. Larguem disso e vão aproveitar a água fresquinha da cachoeira — Seu Zé ratificou seus dizeres e não esperou a resposta de ninguém, pois deu meia-volta e retornou para a cozinha de seu restaurante. Decerto, imaginou que os três estavam bêbados.

Paulo tentou manifestar alguma opinião para André, mas também preferiu se calar e ficar com suas ideias. Maurício, por sua vez, pensou se deveria contar para os amigos que agira daquela maneira na Taverna Bode Mágico porque tinha ouvido uma voz de fada pedindo para ele quebrar o copo e a tábua para romper o elo e o portal de ligação.

Recordou-se do momento em que a voz de uma fada chegou aos seus ouvidos naquela situação de pânico lhe pedindo, quase implorando, para libertar os espíritos do mundo humano, e sentiu um calafrio na espinha. Ficou em dúvida se tinha feito o certo, se a voz não era uma armadilha, mas agora não podia voltar atrás. Pensou bem e decidiu não contar nada para Paulo e André. Guardaria segredo, pois seria melhor assim.


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