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Na praia do osso da baleia
Conto

Na praia do osso da baleia

Joaquim Lopes
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Áudio drama
Na praia do osso da baleia
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Naquela altura, praticávamos geocaching, para tornar o exercício ciclista mais

motivador. Ir à procura das caixinhas escondidas em locais aprazíveis, ou só curiosos,

através da sua localização GPS, obrigava-nos a pedalar para chegar aos locais indicados

no respetivo site da Internet, mas sem a carga de exercício físico obrigatório que

o andar de bicicleta tinha tido até então. Isto, porque pedalávamos, quase diariamente,

uma dezena de quilómetros, não tanto pelo gosto, mas para manter alguma forma

física, aconselhável a um casal sexagenário.

Naqueles dias de férias, a nossa base era a Praia de Vieira de Leiria, uma localidade

muito animada, em época de veraneio, mas que naquele meado de um setembro

invulgarmente nebuloso, mesmo para aquelas paragens litorais, perdera parte do

bulício habitual. No primeiro dia, fomos à procura de uma cache escondida junto ao

parque de campismo da Praia de Pedrogão. Era um pequeno tupperware com um boneco

pokemon e um caderninho minúsculo — coisa de miúdos. Assinámos: “Rolling

biker 56” — o meu nickname — e “Fiftie Agnes” — o da minha companheira Inês.

No dia seguinte, fomos para sul, para encontrar, junto ao farol de São Pedro

de Moel, num buraco da falésia em que pescadores amadores se empoleiram para

lançar as linhas ao mar, uma caixa de VHS com três florinhas secas e um pequeno

texto: «Este farol chamado “do Penedo da Saudade” foi construído no promontório

onde, segundo a lenda, a duquesa D. Juliana Máxima de Faro, dona destas terras,

vinha, através destas flores chamadas “Saudades” e que só aqui crescem, relembrar o

marido, mandado executar pelo rei D. João IV, no século XVII.» Assinámos também

o registo, conforme a norma.

No terceiro dia, rumámos a norte, para a zona da Lagoa da Ervedeira — zona

bonita e ainda arborizada, felizmente poupada aos grandes incêndios de 2017. Não

foi fácil encontrar a cache escondida num pinhal, uns quilómetros depois. Até aonde

a vista alcançava, a paisagem que acompanhava a ondulação arenosa do solo, era

um mar lúgubre de pinheiros queimados, com os seus braços negros e nus pedindo

clemência. Com eles, ardeu, provavelmente, a caixinha que procurávamos. Decidimos

que só podia ser um resíduo plástico calcinado que encontrámos no local que as

coordenadas GPS indicavam, junto a um tronco queimado. Como passava pouco das

três da tarde, resolvemos continuar para uma cache escondida na Praia do Osso da

Baleia, a uns doze quilómetros, segundo indicava o GPS.

Pedalar com um objetivo definido é bem mais fácil do que fazê-lo para cumprir

um número de quilómetros definido. Como, além disso, as autarquias dotaram

toda aquela zona costeira de ciclovias ao longo das estradas principais, o nosso exer-

cício podia ser um passeio aprazível, apesar do céu nublado; infelizmente, o aspeto

desolador da paisagem acabrunhava-nos. Os pinheiros, já de si retorcidos por ação

dos ventos marítimos, assim reduzidos a troncos negros sugeriam formas espectrais

inquietantes. Pedalávamos calados, de olhos no ecrã de GPS, lançando olhares apreensivos

à multidão tétrica e torturada que nos envolvia.

Entretanto, lembrámo-nos do crime horrendo que aconteceu naquela mesma

praia há uns trinta anos, em que um tipo, aparentemente normal e integrado, matou

a mulher, a filha e mais cinco amigos com quem estava a confraternizar na praia. O

que fará alguém enlouquecer de um momento para o outro? Que transtorno mental

invadirá o cérebro de uma pessoa e a fará não reconhecer os seus próximos, ou, reconhecendo-

os, odiá-los ao ponto de os matar à machadada? Ainda que incomodados

com a evocação, decidimos que não havia, atualmente, nenhum motivo para evitar

aquela praia e falhar o nosso objetivo.

A Praia do Osso da Baleia não tem uma povoação associada, não tem um

restaurante nem um bar, nada. Pelos vistos, não passa daquela enorme extensão de

areia, na altura, nevoenta, apoiada por um pequeno parque de estacionamento, então,

deserto. O GPS fez-nos subir a duna baixa que nos separava da praia e caminhar

uns trezentos metros para norte, mas nada havia ali, além de areia, naquela base de

duna a cem metros da água. No entanto, o localizador por satélite era claro: «Chegou

ao seu destino!». Depois de uma inspeção mais atenta, descobri uma pequena

ponta negra a emergir da areia. Ali comecei a escavar com o canivete suíço, que anda

sempre comigo. Não tardou que embatesse em algo rígido, que retiniu. Parecia um

antigo frasco de compota ou de azeitonas e estava enterrado no que poderiam ter

sido os restos de uma fogueira. Olhámo-nos sem dizer nada, a apreensão no olhar.

O interior era visível e mostrava apenas o que parecia uma pequena placa

óssea. Abrimos o frasco e percebemos que a placa estava esgrafitada. Consegui ler:

«Nós que aqui estamos», de um lado e «por vós esperamos», do outro.

O choque destas palavras tão simples, mas tão simbólicas, que aparecem

escritas em cemitérios e “alminhas” um pouco por todo o país, foi brutal. Naquele

momento, por coincidência, correu uma brisa fria e pareceu-nos que o nevoeiro se

adensou. A Inês recuou dois ou três passos, o olhar em pânico. Eu larguei aqueles

objetos, como se queimassem, a tentar racionalizar. «Que raio! Quem teria feito uma

maldade destas? Brincadeira estúpida!»

— Quero ir-me embora — articulou, por fim, Inês.

— Estúpidos! — resmunguei eu, enquanto pegava no braço dela e nos encaminhávamos

para a estrada.

Na parte sul da praia, avistámos a vaga imagem de um grupo de seis ou sete

pessoas, que pareciam sentadas e reunidas em círculo, talvez à volta do início de uma

fogueira. Não as tínhamos visto ao chegar, mas aquela visão de normalidade reconfortou-

nos. Ver membros da nossa espécie num local inóspito transmite-nos um

sentimento de segurança, de solidariedade potencial. Passou-me pela cabeça, momentaneamente,

a ideia de nos aquecermos um pouco, antes de partirmos, porque a

temperatura tinha caído fortemente. Uns metros andados, pareceu-nos que olhavam

para nós. Para quebrar o desconforto, acenei-lhes. Não responderam.

— Quero-me ir embora! — acentuou Inês.

— Tem calma!; está tudo bem — tentei eu sossegá-la, mas pouco convencido.

Nesse momento, levantaram-se dois ou três e começaram a dirigir-se para

nós.

— Calma! Não dês a entender que tens medo — disse eu, para travar a minha

parceira que apressara muito o passo.

Entretanto, calculava distâncias, apesar do nevoeiro cada vez mais cerrado.

Nós estaríamos a duzentos metros da passagem da duna, mais cinquenta até às bicicletas.

Eles estariam a uns trezentos metros da passagem da duna. Com passo ligeiro

chegaríamos antes deles, sem problema. Alem disso, não tínhamos razões para temer

ameaças vindas deles. Era só uma questão de prudência. O homem pode ser a salvação

de outro homem, mas também pode ser a sua perdição. E, em locais ermos, uma

pequena diferença de força ou de número pode transformar os homens em predadores

brutais. Impregnados de “selva”.

Nessa altura, levantou-se vento vindo de sul. Empurrava-os a eles e travava-

-nos a nós. Procurei conter o pânico, mas Inês já tentava correr, sem grande êxito.

Chegámos à passagem, quando os três desconhecidos, com os outros mais atrás, já

pareciam demasiado próximos, mas sem conseguirmos distinguir-lhes as feições.

Então, já gesticulavam e gritavam. Ou assim parecia, por causa do vento.

Corremos para as bicicletas e arrancámos, desvairados, Inês à frente e eu, sem

olhar para trás, concentrado na pedalada. Durante aqueles metros iniciais de inércia

da bicicleta, ouvi distintamente as pancadas dos pés deles, em corrida, mesmo atrás

de mim.

— Acelera, Inês — gritei, apavorado. — Se me apanharem, foge tu!

Eu sabia que lhe apetecia gritar e chorar, mas aguentou uma pedalada vigorosa,

durante centenas de metros, demonstrando um sangue-frio notável. Aos poucos,

para minha grande surpresa, as passadas pesadas dos nossos perseguidores deixaram

de se notar. Ouvia-se só o som soprado do vento nos troncos calcinados, a abafar

o ruído rastejante dos pneus no asfalto vermelho. Olhei, enfim, para trás, mas só

discerni o trilho deserto da ciclovia. Talvez uma hora depois, estávamos no quarto

do hotel.

Raramente voltámos a falar daquele anoitecer na Praia do Osso da Baleia.

Não sabemos o que vimos ou o que pensámos que vimos. Não faço ideia do que veria,

mas tenho para mim, que, se naqueles momentos iniciais da fuga me tivesse distraído

um momento a olhar para trás, não estaria aqui para contar.

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