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Mujinda final
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Mujinda final
Conto

Mujinda final

A disputa está a flor da pele em Amanaram.

Luciano Nascimento
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Áudio drama
Mujinda final
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Muitas lendas envolvem a origem de Amanaram, a Cidade da Chuva Divina.

Entretanto, apenas uma cercou seu fim.

O dia em que a Nação Zumbi levantou-se das terras da caatinga seca e árida, muito além das fronteiras onde Chuva era uma palavra proibida e irrompeu os muros da cidade. Eram seres que fediam a morte e seca, seus corpos eram uma mistura de carne podre curtida e terra.

Em Amanaran, tentaram resistir a invasão, como quem evita o inevitável. A Prefeita convocou toda a Guarda de Amanaram, inclusive os Lampiões, o esquadrão cibernético secreto. Porém, o caos estava instaurado e por diversas partes da cidade antes gloriosa, além dos desmortos, eles tinha que enfrentar saqueadores e vândalos.  

Em um Ilê escondido, nganga Kimbu, um cientista místico, arrumava a última esperança daqueles que um dia no passado distante foram salvos por uma Criança sagrada.

O grande círculo gravado no chão mostrava que aquele era um lugar tsancti, de tecnologia sagrada. Equidistantes, repousavam em seu arco, seis Búzios, receptáculos semitransparentes em forma de atabaques que continham os ossos dos primeiros filhos de Amanaram que agora pertenciam ao Domínio Público. Erykah, a androide que auxiliava Kimbu, verificava as flutuações de energia etérea dos seis.

Taciturno, o preto sentiu o amargor ao engolir a própria saliva. Não teria muito tempo. Olhou para o círculo de pedra. Cada um dos Búzios estava posicionado. No centro do circulo, havia um círculo menor, vazio. Sentiu um tremor em seu braço cibernético ao pensar no experimento-ritual. O mundo não tinha mais tempo. Contudo, nas ruas de Amanaram, aquele que fora escolhido para a todos salvar parecia não entender isso. Ainda.

Nas obras dos novos edifícios suspensos, o jovem Ogodô corria entre as vigas. Num misto de parkour e capoeira, o adolescente escalava e dava cambalhotas entre uma viga e outra, escapando de guardas e Lampiões.

O fato de perder algumas de suas tranças rastafari mostrava que os homens não estavam brincando. A vantagem do menino para os homens estava não apenas em sua idade, mas também no fato de ele carregar apenas a mochila, enquanto eles tinham suas armas e coletes.

Era um garoto ágil, o último dos Erês que ainda estava livre, uma gangue de meninos que renegava o ritual de transferência de jornada, e, por isso, considerados párias.

O objeto que levava na mochila era a prova de que não acreditavam em destino. Muito menos em respeito.

Teria conseguido escapar, se um Lampião não houvesse cortado a viga que o menino se dependurara, fazendo-o cair. O que Ogodô não revelou era que antes, enquanto corria, ele perdera a concentração ao ver uma criança correndo entre as vigas.

Em seguida, o rapaz fora escoltado até o Ilê, onde nganga Kimbu aguardava.

O homem o observou como se estivesse lendo seu espírito. Então, para a surpresa de todos (menos um), o rapaz retirou o que havia em sua mochila.  Dentro de um recipiente transparente, imerso em um líquido azul fluorescente, estava o esqueleto da Criança.

Calmo, Kimbu revelou a Ogodô trechos esquecidos da lenda da Criança. Trechos que chegavam até aquele momento, em que uma criança carregava os ossos de outra. Revelou que os zumbis eram, na verdade, os primeiros. Aqueles que morreram quando a Chuva caiu pela primeira vez. Antes do sacrifício da Criança.

Agora era necessário invocar os talentos adormecidos da Criança.  Segundo pesquisa genética e espiritual, as linhas de Ogodô e da Criança se cruzavam.

O adolescente ouvia tudo cético. Acreditava que cada um escrevia seu destino. Porém, interessou-se  pela proposta de nganga Kimbu quando este disse que, se ele realizasse o ritual científico quebraria o ciclo de Domínio Público e de jornadas a serem continuadas. Na verdade, Nganga Kimbu não sabia se isso realmente ocorreria.

Sem tempo, o rapaz colocou o cilindro que segurava no centro do círculo de pedra. Despertando os Búzios, que brilharam e transformaram o círculo em uma esfera brilhante, Ogodô viu-se flutuando junto com os esqueletos de seus antepassados, sem saber que finalmente entenderia tudo aquilo que estava porvir e o que acontecia

Estava fora do tempo, caminhando na caatinga. Nela, sentado numa pedra, um preto velho fumava. E a fumaça subia, até cobrir o sol e encobrir o azul.

Então, ele viu uma mulher de pele cobre, que dançava para a terra seca e implorava por água.

“Aqui tudo teve início.”

“Aqui tudo terá fim.”

A mulher continuava dançando.

E Ogodô viu cada um de seus antepassados, e entendeu que cada um deles, mesmo morto, continuava vivendo nele.

Foi quando se viu frente a frente com a Criança. Sua pele negra brilhava e seus olhos tinham a fúria de todos os guerreiros de todas as tribos. E ela possuía a realeza de todos os reis e rainhas. E ela era ele. E, naquele instante, Ogodô entendeu.

E despertou.

No Ilê, os zumbis irrompiam aos montes como moscas. Amanaram, a Cidade da Chuva Divina tombara. Só restavam nganga Kimbu, a androide Erykah e alguns Lampiões, cercados.

Os desmortos cessaram a invasão ao verem Ogodô de pé. Mas não era ele e era, ao mesmo tempo. E o olhar das criaturas imploravam para que ele lhes desse aquilo que buscavam. E avançaram sobre ele, como lobos-guará. Com um ímpeto que desconhecia, a Criança Ogodô falou:

“Em minha primeira vinda, eu fui Amanaram, a chuva que trazia a vida. Agora, porém, eu sou Mujinda, a tempestade....”

O que completou a frase foi um som como se mil feras rugissem do céu ao mesmo tempo e uma e, em seguida, uma luz implacável e inevitável cobriu tudo e todos.

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