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Nunca fui igual aos outros, sei que todos são diferentes entre si, mas eu... aah, eu era “mais diferente”; começando pela minha condição motefobica que me fez sofrer bullying por boa parte de minha vida.

Rafael Carvalho
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Motefobia
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Estamos preparando e revisando este conto, em breve o publicaremos aqui. :D

Nunca fui igual aos outros, sei que todos são diferentes entre si, mas eu... aah, eu era “mais diferente”; começando pela minha condição motefobica que me fez sofrer bullying por boa parte de minha vida. Não confunda motefobia com motofobia, já estou farto dessas piadas simplórias. Pensando bem, até faria sentido o medo de motos, motos são pesadas, podem te atropelar, são irritantemente barulhentas e servem para que garotos adolescentes com problemas de autoestima – provavelmente associados ao pequeno tamanho do seu pênis – se exibam para as garotas, andando em suas motos e tentando provar que são mais homens do que você, que não sabe nem andar de bicicleta.

Meu medo é de algo mais orgânico, complexo, um ser ancestral que já existia muito antes dos primeiros homens habitarem a terra, que me faz sentir um horror visceral só de imaginar sua silhueta vindo em minha direção com suas asas membranosas cobertas por microscópicas escamas. São as  borboletas que voam em meus pesadelos, sim aquele inseto que a maior parte de vocês acha lindo e fofo, mas na verdade é um ser biologicamente asqueroso, cheio de patas, asas e antenas, que passa por uma metamorfose nojenta para sair voando por aí perseguindo pessoas como eu.

Meus pais tentaram meu ajudar, me levaram a vários especialistas, fiz anos de tratamento e achei ter chegado curado a vida adulta, não vou mentir, ainda sentia medo de borboletas, mas diferente de antes já não me sentia perseguido por silhuetas de borboletas em sombras projetadas nas paredes, em manchas de óleo no chão ou imagens simétricas de texturas quais quer.

Mal sabia que infelizmente estava enganado, pois agora estou aqui no chão, o rosto lavado em suor e lagrimas, as mãos tingidas de sangue seco, no colo o corpo de Rosa, frio, nu, com seu pescoço rasgado por um saca-rolha; quando conheci Rosa deveria ter imaginado que alguém com o nome de flor traria aquele ser de mal agouro de novo para minha vida.

Não fazia duas semanas que Rosa havia se mudado para o apartamento acima do meu, quando a convidei para vir a minha casa para jantarmos e discutirmos sobre alguns livros nunca imaginei que ela aceitaria.

Tudo estava perfeito, o vinho, o jantar, o debate sobre os livros, o vinho, os beijos, o vinho..., seu corpo nu se encaixando sobre meu corpo nu, nossos corações batendo juntos, rostos rubros de calor e  excitação; ela desliza as mãos pelo seu corpo, o suor escorre pelas paredes da pele, ela sobe a mão pela própria nuca e faz um coque nos cabelos tão escuros e macios quanto uma noite quente de verão, o pescoço descoberto, a tatuagem amostra, como não reparei antes, uma agoniante borboleta azul.

Senti meu corpo em um frenesi que misturava prazer e horror, coloquei a mão no criado mudo ao lado da cama buscando algo para eliminar aquilo que tentava dar fim a minha vida. Peguei o saca-rolha, em um golpe rápido tentei acertar a tatuagem, mas ela saiu voando do corpo de Rosa e pousou na porta, onde está a mais de três dias me fazendo refém.

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