Começou, agora termina queride!

Conquista Literária
Conto publicado em
Mirage: Miscelanea de Narrativas Irreais vol. 01

Prólogo

Epílogo

Conto

Áudio drama
Moloch
0:00
0:00

Tantos são os que jamais tiveram um só momento de paz. Muitos são os que

esperam o dia nascer para secar as lágrimas. Cinzento era o final daquela tarde. O sol

de sábado já buscava abrigo por entre nuvens negras; o horizonte agora contrasta

com o que fora um ensolarado dia. Tudo está morno e sem cor. Não há som algum lá

fora. Existe apenas culpa e dor.

A garota se atrapalha um bocado com as chaves na fechadura. Entra correndo

tropeçando nas próprias pernas. Na pressa deixa a porta aberta e corre pelos

pequenos cômodos, atirando a bolsa entreaberta no sofá e ajoelhando-se em frente

ao sanitário; a oração feita em bílis da mais nova devota no altar dos santos tristes.

Pelo zíper mal fechado na bolsa de couro sintético, vê-se o panflete branco

e azul com um título em caixa alta. Sobre colunas de textos ilegíveis por conta do

tamanho das letras, apenas se pode identificar o duplo “P”. A garota de joelhos suja o

chão num descontrolado jato de vômito e se contorce de dor segurando o abdômen.

Está fraca e mais pálida do que sempre fora. Seu corpo frágil por mais uma vez se

debruça sobre o assento e o febril azedume é expelido de sua garganta. Ela se senta

e encara a parede por alguns segundos, enxugando a boca com as mangas da camisa.

*

No turbilhão que existe em sua mente não há espaço para outra coisa, a não

ser o ocorrido daquela tarde. A violência auto infligida, o cheiro de morte ainda nas

roupas, a dor que não cessa e parece agora residir no peito. Por fim reúne forças e se

levanta, ainda tonta pela segunda intravenosa dada pelo negro e profano sacerdote.

O pequeno espelho rachado reflete seu rosto jovem e macio. É uma pele tão

branca que se pode ver o conjunto de veias esverdeadas em seu braço. Lentamente

ela tira as roupas. As peças vão se acumulando umas sobre as outras num canto.

A pélvis inchada e vermelha. Os quadris doloridos. Ela ainda pode ouvir o som da

sucção.

A água cai como num batismo. Cada gota parece passear pelo seu corpo nu

enquanto ela encosta a cabeça na parede e se deixa massagear. Os dedos dos pés se

contraem; criam pequenas ondas pelo chão que rapidamente se empossa por conta

do ralo fechado. Rezaria, se soubesse, para que devagar a água subisse e se tornasse

uma só coisa com ela. Um aquário frente aos pequenos dedos que lhe apontam entusiasmados.

*

Na sala a fumaça passeia pelo ar. Alça voo livremente misturando o seu cheiro

com o do vinho barato num copo impróprio para tal. Mesmo a tevê ligada não

a distrai. O relógio de Fritz Lang torna-se o que repousa em sua parede — “Father!

Father! Will ten hours never end?” — seus profundos olhos são janelas para um

prédio oco.

A casa pouco a pouco mergulha numa escuridão histérica. Apenas os ponteiros

vagarosos podem ser ouvidos de seu quarto, juntamente com seus passos descalços

no piso frio. A cama não parece tão confortável como antes. Está dura com o

fundo de um caixão sobre terra plana e sob a remexida ainda fofa. As cobertas são

como mortalhas que cobrem seu cadáver vivo; o anúncio de um banquete eterno aos

famintos vermes que propositalmente se atrasarão para o jantar.

Deitada de lado, repousa a cabeça nas mãos e esquenta a fria orelha, dobrando

a cartilagem e fazendo um zumbido surdo dentro de sua cabeça. Olhando para a

parede apenas uma lágrima inexpressiva escorre, atravessando o topo do nariz, marcando

a outra bochecha e manchando o travesseiro onde metade de seu rosto tenta

se esconder; quando feliz, o diabo nunca dorme. De barriga para cima ela encara o

teto nu e branco mergulhada no silêncio claustrofóbico e ameaçador; nem mesmo

a noite parece existir lá fora. Tudo está dormente e o ar pesado no quarto afugenta

até mesmo os pesadelos. Exceto um, que de pesadelo tinha bem pouco, e a observa

no final da cama.

Agora sentada pega o maço de cigarros no criado mudo. A fumaça cancerígena

é sua única companhia, mas até mesmo as toxinas presentes parecem ter vergonha

de com ela serem vistas; saí a contragosto e sem sabor pela boca que disse “sim”, e

some rapidamente sem se despedir ou olhar para trás. Seu rosto estático se desvia

apenas o suficiente para ver a porta aberta e o chão. De imediato leva as mãos ao

rosto e chora copiosamente olhando o que lá estava, como se cada detalhe, cada vírgula,

cada esquina do que deveria ser e não mais o é, pudesse ser absorvido pelos seus

sentidos; aquele pequeno intervalo de tempo no espaço vazio, donde outrora houve

uma alma com tantas promessas esculpidas em caco de vidro.

*

Como sempre o sol nasce vigoroso e zombeteiro. São quase sete da manhã.

Ela não dorme há quatro dias. O lixo se acumula pela casa. Maços de cigarro e garrafas

de vinho pelo chão e pela mesa. A tevê desligada. O piso parece ter um carpete

feito com pontas de cigarros apagadas a esmo; o carpete vermelho de uma rainha

sem príncipes. De pé num canto da sala ela encara a sujeira da casa como se olhasse

diretamente para dentro de si.

O cheiro forte de janelas e portas fechadas lembra mofo, poeira e qualquer

coisa que já começava a apodrecer no fundo da pia. O ar é quase sólido. Ao lado de

cinzeiros cheios e copos cansados manchados de vinho, o celular toca. São mais de

vinte chamadas perdidas onde se lê “Mãe”. Ela apenas observa o aparelho tremer e

acender. O nome escrito na tela parece martelar seu cérebro a cada zumbido grave

que faz sobre a mesa. Tremendamente ensurdecedor. É como se as paredes tremessem

ou escavadeiras disputassem uma corrida dentro de seu crânio.

Sua lastimável aparência reflete-se mais uma vez. Nem ao menos lembra a

doce e bela garota que um dia fora. Suas olheiras negras profundas, o cabelo ensebado

e quebradiço, o odor de um animal há muito enjaulado. Num espasmo de

consciência o chuveiro parece apetitoso. Em ébrios passos ela caminha entorpecida

até o banheiro. Dessa vez sentada, deixa que a água caia sobre si numa cascata dolorosa

e aflitiva. Ali as lágrimas não podem ser percebidas. Todavia existem, mesmo

camufladas.

*

O tempo é sólido dentro da casa. Passa como se cada segundo durasse o próprio

existir do universo. Mesmo assim as noites e os dias ainda são percebidos pelas

janelas fechadas onde as cortinas já caíram há muito. No chão, mesmo convidativo,

nem baratas se aventuram. Sentem nojo de vê-la sentada naquele canto. A poça escura

formada pelo que da garrafa ainda goteja, faz companhia ao único movimento

que seu cansado corpo faz; a parábola traçada entre o repouso do cigarro e os lábios

rachados e gosmentos.

Antes apenas surgia vez ou outra, mas agora também mora ali. A sua única

companheira e testemunha que um dia tentou ser mais que isso. A garota de pele

outrora macia, sorri ao vê-la novamente se esgueirando por baixo do sofá. Tímida e

com medo ao perceber que era notada, some novamente, mergulhando a entorpecida

moradora em lágrimas soluçantes que apagam o cigarro — Durma tranquila e que

Morfeu te carregue. O diabo no armário tem um sono leve — e insistem em rolar e

pingar no chão sujo, lavando as pegadas feitas pelo verdugo.

*

Aquela noite chegou junto com o frio. A garota de pele macia está em seu

trono de lixo e restos, sentada no chão e encostada na parede. Seus olhos fixos ignoram

a fumaça que sai pelo nariz e pela boca. Hipnotizada ela continua a olhar para

frente, como fez nas últimas seis horas, parando apenas para acender um novo cigarro.

De costas para si a criança brinca com bonecas imaginárias. Seu vestido branco

e virginal recebe os longos e dourados fios loiros que lhe cobrem o rosto. A essa

altura uma já se acostumou com a presença da outra. Mesmo assim a criança ainda

teme sofrer novamente. É arredia e desconfiada, mas sempre se aproxima e logo

sorri.

De costas ela ergue o pescoço e se contorce em estranhos e repetitivos movimentos.

Vez ou outra parece sentir dor. Reconhece pelo cheiro que os profundos

olhos insanos lhe observam, contudo isso não mais a assusta. Ela retorna ao seu

brincar como fez durante toda aquela semana, enquanto a garota, consumida pela

própria amargura, permanece imóvel; teme que qualquer movimento brusco a afaste

novamente — um brinde ao barqueiro!

*

O quarto fechado está menos fétido que o resto da casa. Nele o silêncio é

maior. Já passam das quatro da manhã. Dali duas horas nascerá outro sábado. A casa

parece ocupada por viciados em drogas e moradores de rua. Não há o mínimo de

higiene e parece ser possível pegar uma doença ao se sentar no sanitário. A garota de

pele outrora macia, agora cinzenta e quebradiça, está deitada na cama fumando outro

cigarro, pego do maço que repousa ao lado de frascos de remédios e uma solitária

garrafa de vinho.

Tal como a casa ela também se deteriora consumida na própria miséria. Seu

rosto entorpecido encara o resto da grande cama. A criança brinca de costas sentada

aos seus pés. Seu rosto inexpressivo logo dá lugar a um sorriso alcoólico calmante,

que antecede um grito desesperado revelando veias pulsantes em seu pescoço pelo

tamanho esforço. Todavia nada é ouvido. Exceto pelo tiquetaquear do relógio na

parede, nada mais parece emitir som algum na casa.

Assim como antes do amanhecer, a noite permanece silenciosa. Em seu

canto favorito, onde o trono da realeza feita em lixo lhe serve perfeitamente, a garota,

que um dia teve a pele macia e delicada e não ferida e gelada como agora, permanece

encarando o que há em sua frente. Não há mais dor. As lágrimas já não existem;

todas foram choradas até não sobrar mais nenhuma. Ela apenas sorri — o sorriso de

um milhão tons.

O cigarro que fumava não mais pode ser segurado visto a falta de controle nas

mãos; os profundos cortes nos pulsos impedem qualquer sustentação por parte dos

dedos. Ela se contenta em assistir enquanto tudo ao seu redor esfria mais ainda e sua

pele fica um tanto azulado.

A criança em sua frente dança balé em passos sincronizados e perfeitos. Seus

pés brancos descalços tocam o chão levemente sobre cacos de vidro e cigarros apagados.

A casa mergulha num último silêncio. Guardanapos de seda na mesa de Jantar.

Lábios ruidosos que se saciam. A praia dos músicos invertebrados. O rosto dos inocentes

indispostos. A ruína do templo de Ísis. Allen Ginsberg molhado sob a cama.

Prólogo

Epílogo

Conto

Tantos são os que jamais tiveram um só momento de paz. Muitos são os que

esperam o dia nascer para secar as lágrimas. Cinzento era o final daquela tarde. O sol

de sábado já buscava abrigo por entre nuvens negras; o horizonte agora contrasta

com o que fora um ensolarado dia. Tudo está morno e sem cor. Não há som algum lá

fora. Existe apenas culpa e dor.

A garota se atrapalha um bocado com as chaves na fechadura. Entra correndo

tropeçando nas próprias pernas. Na pressa deixa a porta aberta e corre pelos

pequenos cômodos, atirando a bolsa entreaberta no sofá e ajoelhando-se em frente

ao sanitário; a oração feita em bílis da mais nova devota no altar dos santos tristes.

Pelo zíper mal fechado na bolsa de couro sintético, vê-se o panflete branco

e azul com um título em caixa alta. Sobre colunas de textos ilegíveis por conta do

tamanho das letras, apenas se pode identificar o duplo “P”. A garota de joelhos suja o

chão num descontrolado jato de vômito e se contorce de dor segurando o abdômen.

Está fraca e mais pálida do que sempre fora. Seu corpo frágil por mais uma vez se

debruça sobre o assento e o febril azedume é expelido de sua garganta. Ela se senta

e encara a parede por alguns segundos, enxugando a boca com as mangas da camisa.

*

No turbilhão que existe em sua mente não há espaço para outra coisa, a não

ser o ocorrido daquela tarde. A violência auto infligida, o cheiro de morte ainda nas

roupas, a dor que não cessa e parece agora residir no peito. Por fim reúne forças e se

levanta, ainda tonta pela segunda intravenosa dada pelo negro e profano sacerdote.

O pequeno espelho rachado reflete seu rosto jovem e macio. É uma pele tão

branca que se pode ver o conjunto de veias esverdeadas em seu braço. Lentamente

ela tira as roupas. As peças vão se acumulando umas sobre as outras num canto.

A pélvis inchada e vermelha. Os quadris doloridos. Ela ainda pode ouvir o som da

sucção.

A água cai como num batismo. Cada gota parece passear pelo seu corpo nu

enquanto ela encosta a cabeça na parede e se deixa massagear. Os dedos dos pés se

contraem; criam pequenas ondas pelo chão que rapidamente se empossa por conta

do ralo fechado. Rezaria, se soubesse, para que devagar a água subisse e se tornasse

uma só coisa com ela. Um aquário frente aos pequenos dedos que lhe apontam entusiasmados.

*

Na sala a fumaça passeia pelo ar. Alça voo livremente misturando o seu cheiro

com o do vinho barato num copo impróprio para tal. Mesmo a tevê ligada não

a distrai. O relógio de Fritz Lang torna-se o que repousa em sua parede — “Father!

Father! Will ten hours never end?” — seus profundos olhos são janelas para um

prédio oco.

A casa pouco a pouco mergulha numa escuridão histérica. Apenas os ponteiros

vagarosos podem ser ouvidos de seu quarto, juntamente com seus passos descalços

no piso frio. A cama não parece tão confortável como antes. Está dura com o

fundo de um caixão sobre terra plana e sob a remexida ainda fofa. As cobertas são

como mortalhas que cobrem seu cadáver vivo; o anúncio de um banquete eterno aos

famintos vermes que propositalmente se atrasarão para o jantar.

Deitada de lado, repousa a cabeça nas mãos e esquenta a fria orelha, dobrando

a cartilagem e fazendo um zumbido surdo dentro de sua cabeça. Olhando para a

parede apenas uma lágrima inexpressiva escorre, atravessando o topo do nariz, marcando

a outra bochecha e manchando o travesseiro onde metade de seu rosto tenta

se esconder; quando feliz, o diabo nunca dorme. De barriga para cima ela encara o

teto nu e branco mergulhada no silêncio claustrofóbico e ameaçador; nem mesmo

a noite parece existir lá fora. Tudo está dormente e o ar pesado no quarto afugenta

até mesmo os pesadelos. Exceto um, que de pesadelo tinha bem pouco, e a observa

no final da cama.

Agora sentada pega o maço de cigarros no criado mudo. A fumaça cancerígena

é sua única companhia, mas até mesmo as toxinas presentes parecem ter vergonha

de com ela serem vistas; saí a contragosto e sem sabor pela boca que disse “sim”, e

some rapidamente sem se despedir ou olhar para trás. Seu rosto estático se desvia

apenas o suficiente para ver a porta aberta e o chão. De imediato leva as mãos ao

rosto e chora copiosamente olhando o que lá estava, como se cada detalhe, cada vírgula,

cada esquina do que deveria ser e não mais o é, pudesse ser absorvido pelos seus

sentidos; aquele pequeno intervalo de tempo no espaço vazio, donde outrora houve

uma alma com tantas promessas esculpidas em caco de vidro.

*

Como sempre o sol nasce vigoroso e zombeteiro. São quase sete da manhã.

Ela não dorme há quatro dias. O lixo se acumula pela casa. Maços de cigarro e garrafas

de vinho pelo chão e pela mesa. A tevê desligada. O piso parece ter um carpete

feito com pontas de cigarros apagadas a esmo; o carpete vermelho de uma rainha

sem príncipes. De pé num canto da sala ela encara a sujeira da casa como se olhasse

diretamente para dentro de si.

O cheiro forte de janelas e portas fechadas lembra mofo, poeira e qualquer

coisa que já começava a apodrecer no fundo da pia. O ar é quase sólido. Ao lado de

cinzeiros cheios e copos cansados manchados de vinho, o celular toca. São mais de

vinte chamadas perdidas onde se lê “Mãe”. Ela apenas observa o aparelho tremer e

acender. O nome escrito na tela parece martelar seu cérebro a cada zumbido grave

que faz sobre a mesa. Tremendamente ensurdecedor. É como se as paredes tremessem

ou escavadeiras disputassem uma corrida dentro de seu crânio.

Sua lastimável aparência reflete-se mais uma vez. Nem ao menos lembra a

doce e bela garota que um dia fora. Suas olheiras negras profundas, o cabelo ensebado

e quebradiço, o odor de um animal há muito enjaulado. Num espasmo de

consciência o chuveiro parece apetitoso. Em ébrios passos ela caminha entorpecida

até o banheiro. Dessa vez sentada, deixa que a água caia sobre si numa cascata dolorosa

e aflitiva. Ali as lágrimas não podem ser percebidas. Todavia existem, mesmo

camufladas.

*

O tempo é sólido dentro da casa. Passa como se cada segundo durasse o próprio

existir do universo. Mesmo assim as noites e os dias ainda são percebidos pelas

janelas fechadas onde as cortinas já caíram há muito. No chão, mesmo convidativo,

nem baratas se aventuram. Sentem nojo de vê-la sentada naquele canto. A poça escura

formada pelo que da garrafa ainda goteja, faz companhia ao único movimento

que seu cansado corpo faz; a parábola traçada entre o repouso do cigarro e os lábios

rachados e gosmentos.

Antes apenas surgia vez ou outra, mas agora também mora ali. A sua única

companheira e testemunha que um dia tentou ser mais que isso. A garota de pele

outrora macia, sorri ao vê-la novamente se esgueirando por baixo do sofá. Tímida e

com medo ao perceber que era notada, some novamente, mergulhando a entorpecida

moradora em lágrimas soluçantes que apagam o cigarro — Durma tranquila e que

Morfeu te carregue. O diabo no armário tem um sono leve — e insistem em rolar e

pingar no chão sujo, lavando as pegadas feitas pelo verdugo.

*

Aquela noite chegou junto com o frio. A garota de pele macia está em seu

trono de lixo e restos, sentada no chão e encostada na parede. Seus olhos fixos ignoram

a fumaça que sai pelo nariz e pela boca. Hipnotizada ela continua a olhar para

frente, como fez nas últimas seis horas, parando apenas para acender um novo cigarro.

De costas para si a criança brinca com bonecas imaginárias. Seu vestido branco

e virginal recebe os longos e dourados fios loiros que lhe cobrem o rosto. A essa

altura uma já se acostumou com a presença da outra. Mesmo assim a criança ainda

teme sofrer novamente. É arredia e desconfiada, mas sempre se aproxima e logo

sorri.

De costas ela ergue o pescoço e se contorce em estranhos e repetitivos movimentos.

Vez ou outra parece sentir dor. Reconhece pelo cheiro que os profundos

olhos insanos lhe observam, contudo isso não mais a assusta. Ela retorna ao seu

brincar como fez durante toda aquela semana, enquanto a garota, consumida pela

própria amargura, permanece imóvel; teme que qualquer movimento brusco a afaste

novamente — um brinde ao barqueiro!

*

O quarto fechado está menos fétido que o resto da casa. Nele o silêncio é

maior. Já passam das quatro da manhã. Dali duas horas nascerá outro sábado. A casa

parece ocupada por viciados em drogas e moradores de rua. Não há o mínimo de

higiene e parece ser possível pegar uma doença ao se sentar no sanitário. A garota de

pele outrora macia, agora cinzenta e quebradiça, está deitada na cama fumando outro

cigarro, pego do maço que repousa ao lado de frascos de remédios e uma solitária

garrafa de vinho.

Tal como a casa ela também se deteriora consumida na própria miséria. Seu

rosto entorpecido encara o resto da grande cama. A criança brinca de costas sentada

aos seus pés. Seu rosto inexpressivo logo dá lugar a um sorriso alcoólico calmante,

que antecede um grito desesperado revelando veias pulsantes em seu pescoço pelo

tamanho esforço. Todavia nada é ouvido. Exceto pelo tiquetaquear do relógio na

parede, nada mais parece emitir som algum na casa.

Assim como antes do amanhecer, a noite permanece silenciosa. Em seu

canto favorito, onde o trono da realeza feita em lixo lhe serve perfeitamente, a garota,

que um dia teve a pele macia e delicada e não ferida e gelada como agora, permanece

encarando o que há em sua frente. Não há mais dor. As lágrimas já não existem;

todas foram choradas até não sobrar mais nenhuma. Ela apenas sorri — o sorriso de

um milhão tons.

O cigarro que fumava não mais pode ser segurado visto a falta de controle nas

mãos; os profundos cortes nos pulsos impedem qualquer sustentação por parte dos

dedos. Ela se contenta em assistir enquanto tudo ao seu redor esfria mais ainda e sua

pele fica um tanto azulado.

A criança em sua frente dança balé em passos sincronizados e perfeitos. Seus

pés brancos descalços tocam o chão levemente sobre cacos de vidro e cigarros apagados.

A casa mergulha num último silêncio. Guardanapos de seda na mesa de Jantar.

Lábios ruidosos que se saciam. A praia dos músicos invertebrados. O rosto dos inocentes

indispostos. A ruína do templo de Ísis. Allen Ginsberg molhado sob a cama.

Para continuar lendo
Clube do Livro

Quer ler esse conto?

Vem fazer parte do Planeta Roxo, nosso clube do livro de terror e ficção científica. Dois contos originais e um clássico todos os meses.

Ambiente de leitura
Claro
Cinza
Sépia
Escuro
-T
Tamanho de Fonte
+T
Ícone de DownloadÍcone de formato de leitura
Ambiente de Leitura
Voltar ao topo

O hub de Literatura Nacional mais legal da internet. Explore o desconhecido e descubra o inimaginável.

Logo do Planeta Roxo, clube do livro digital da Bilbbo

Clube do Livro digital da Bilbbo. Todo mês novos envios para le.

Entre no clube
Logo Viralume, frente de conteúdo sobre o mercado literário da Bilbbo.

Frente de conteúdo da Bilbbo sobre Literatura.

Ouça
Logo Mini, publicações curtas da Bilbbo.

Mini Contos da Bilbbo que que de pequenas não possuem nada.

Leia agora